ARTE ENTRE OS SÉCULOS XIV e XVIII


Maneirismo

De acordo com o Dicionário Oxford de Arte, Maneirismo é o termo aplicado no estudo das artes visuais (e, por extensão, no estudo da literatura e da música), de significado impreciso, abarcando uma miscelânea de conotações críticas e históricas. Ainda mais do que a maioria dos rótulos estilísticos, há pouca concórdia entre os estudiosos quanto à delimitação precisa do termo; John Shearman inicia seu livro sobre o tema (Manneirism, 1967) reconhecendo francamente esse fato: “Este livro terá pelo menos uma coisa em comum com todos aqueles já publicados sobre o Maneirismo; parecerá versar sobre algo muito diferente daquilo que todos os demais descrevem”. Hoje o termo é usado sobretudo para designar a arte italiana do período compreendido entre a Alta Renascença e o Barroco, isto é, de cerca de 1520 a cerca de 1600. Foram os escritos de Giorgio Vasari (1511–1574) (ele próprio um dos principais pintores do período) que vulgarizaram o uso do termo, pois recorriam freqüentemente à palavra maniera (no sentido de “estilo” ou “estilismo”) como um termo de aprovação, denotando qualidades de graça, leveza, simplicidade e sofisticação. Por extensão, o termo “maneirista” foi aplicado à arte de qualquer época ou lugar que apresentasse as mesmas características indicadas no esquema de Vasari. Esse sentido do termo, porém, foi viciado pelos antigos preconceitos relativos à arte italiana do século XVI. Do século XVII à primeira metade do século XX, prevaleceu a idéia de que a maior parte da arte italiana produzida no período considerado (com a exceção notável da pintura veneziana) representava uma decadência em relação ao ápice da perfeição clássica, atingido por Michelangelo (1475–1564) no forro da Capela Sistina, e por Rafael (1483–1520) na Stanza vaticana. Os sucessores desses artistas, em face de modelos tão elevados, viram-se condenados a uma espécie de endogamia artística, limitando-se a plagiar e a distorcer o trabalho dos mestres (quadro em que de fato encaixava-se boa parte da arte acadêmica do período). Assim, a palavra “maneirismo” veio incorporar esse conjunto de preconceitos, referindo-se não a um período ou estilo específicos, mas a um cultivo exagerado dos cacoetes superficiais de qualquer estilo.

O termo “maniériste” foi cunhado por Roland Fréart de Chambray (irmão de Paul Fréart de Chantelou, que era amigo de Poussin) em seu livro Idée de la perfection de la peinture (1662) como uma crítica a um grupo de pintores que incluía Giuseppe Cesari (1568–1640) e Giovanni Lanfranco (1582–1647), e foi empregado também pelo historiador da arte e arqueólogo Luigi Lanzi (1732–1810), que criou em 1792 o termo maneirismo. Giovanni Bellori (1615–1696), em sua biografia de Annibale Carracci (1560–1609), de 1672, associou “maniera” a um movimento histórico que teria tido origem em Rafael, e Conde de Malvasia (1616–1693) ligou-o a um grupo de artistas mais ou menos contemporâneos de Francesco Salviati (1510–1563). Ambos tomavam-no como uma espécie de elegância demasiado artificial e extravagante – “totalmente quimérica e esquemática” –, e viam naturalismo dos Carraci uma saudável reação a tais inclinações. Como termo estilístico genérico, combinando conotações históricas e críticas, o Maneirismo, desde Luigi Lanzi, expressava a idéia de uma virtuosidade excessiva; através de Jacob Burckhardt (1818–1897) e Heinrich Wölfflin (1864–1845), a palavra foi adotada como um preconceito sem sentido pelos historiadores do século XIX. Foi só no período compreendido entre as duas guerras mundiais que tomou corpo uma atitude mais positiva com relação ao Maneirismo, com a percepção de que boa parte da arte do século XVI apelava fortemente ao gosto contemporâneo: nas palavras de Eric Mercer (English Art 1553–1625, 1962), a arte “maneirista” poderia ser “rigidamente disciplinada e conscientemente libertina, elegante e agressiva, pornográfica e estaticamente religiosa, perdida no outro mundo da Antiguidade e, ao mesmo tempo, vivamente consciente dos horrores do século XVI”. Artistas como Jacopo Carucci Pontormo (1494–1557) e Parmigianino (1503–1540) foram novamente vistos como criadores de estilos fortes e distintos, não mais como decadentes.

Com o Maneirismo fora do “banco dos réus”, questões mais sutis passaram a ocupar a mente dos historiadores: em que medida, por exemplo, podia o termo ser aplicado à arte de fora da Itália (como a de El Greco, na Espanha, e a dos pintores romanistas nos Países Baixos, e mesmo os da Escola de Fontainebleau, na França) ou à arquitetura (onde aquilo que em dado contexto poderia ser visto como um desrespeito intencional e jocoso às regras da arquitetura clássica poderia representar, em outras condições, uma mera manifestação de deselegância provinciana)? Enquanto alguns críticos buscam expandir o uso do termo, outros procuram restringi-lo, e outros ainda tentam formular uma distinção entre aquilo que consideram ser os elementos centrais do estilo (e que denominam pelo termo “maniera”) e as características genéricas da arte do período como um todo. A seguinte afirmação, tirada de Painting in Italy 1500–1660, obra de autoria de S.J. Freedberg que integra a série Pelican de História da Arte, demonstra o quão desconcertante pode ser a terminologia estitlística: “A primeira geração do Maneirismo, seus inventores, podia imprimir a suas obras a qualidade de maniera; mas é necessário que se faça uma distinção cronológica, de grau e, em alguns aspectos, até mesmo de espécie, entre essa maniera e a Alta Maniera, ou Maniera propriamente dita”. Assim, ao passo que o termo maneirismo pode significar de modo geral um estilo elegante, refinado, artificial e palaciano, o sobretom de significado que lhe é atribuído pode variar muito de acordo com o contexto e o ponto de vista do erudito que o emprega.





Referências

CHILVERS, Ian. [Verbete Maneirismo, extraído do] Dicionário Oxford de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 326–327.