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A voz de quem precisa falar mais alto

PAUTA DA REPORTAGEM

A voz de quem precisa falar mais alto

O feminismo ainda é uma pauta tabu para a sociedade, muitas vezes  a falta de conhecimento e de informação sobre o tema barra o debate e ele não se transforma em uma pauta social. Em cidades pequenas, as dificuldades são maiores ainda. Como é ser uma ativista feminista em uma cidade do interior gaúcho, sendo o Rio Grande do Sul um estado com uma cultura tão machista?

Faremos a reportagem na cidade de Butiá. Situada no interior do Rio Grande do Sul, há 83 km de Porto Alegre, Butiá tem 20.963 habitantes, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e faz parte da região carbonífera do estado.

Como é ser feminista em  Butiá, uma cidade onde quase não existe discussão sobre o feminismo e onde  as vivências e experiências das mulheres são marcadas por  uma sociedade patriarcal? A reportagem se propõe a conhecer algumas mulheres que são ativistas e/ou feministas na cidade de Butiá e entender como elas atuam na comunidade.

enfoque

O enfoque se dará na atuação dessas mulheres na cidade, como ativistas feministas dentro de Butiá. As dificuldades e/ou facilidades que elas sentem em penetrar na esfera pública com o debate sobre o feminismo, se encontram resistência das pessoas ao falar sobre o tema e até onde o debate chega. 

contexto

O feminismo busca a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Segundo historiadores, o movimento social tem suas origens marcadas pelas revoluções liberais, das quais a Revolução Francesa, influenciada pelos ideais do Iluminismo, se destaca.

O feminismo seguiu ganhando força durante o século 19, na Inglaterra, quando o movimento se concentrou na luta por igualdade de condições de trabalho nas indústrias do país. Já no começo do século 20, nos Estados Unidos, a principal bandeira do feminismo foi o direito ao voto. 

É possível dividir o movimento feminista em três grandes ondas. A primeira ocorre entre o século 19 e o começo do século 20, quando as principais bandeiras eram o sufrágio das mulheres, direitos trabalhistas e educacionais. A segunda onda, entre as décadas de 1960 e 1980, discutia a desigualdade das leis, as desigualdades culturais e o papel da mulher na sociedade. Já a terceira onda começa no final da década de 1980 e segue até o começo dos anos 2000, vista como uma continuação da segunda e também uma resposta às falhas que foram percebidas na antecessora. 

É importante destacar que o feminismo não é o oposto do machismo, tendo em vista que o machismo é uma construção social que naturaliza as violências e opressões sofridas pelas mulheres. O feminismo, por sua vez, é um movimento social que luta pela igualdade de gênero.

Os primeiros núcleos relacionados ao movimento feminista no Brasil e na América Latina, também surgiram no século 19. Aqui, foram muito influenciados pelos ideais anarquistas e socialistas trazidos da Europa pelos imigrantes. Nesse contexto, as mulheres passaram a fazer parte das lutas por melhores salários e melhores condições de trabalho.

A pluralidade dentro do feminismo começou a surgir no século 20. À época, o debate compreendia desde uma tendência mais conservadora (“feminismo bem-comportado”) até o feminismo mais radical. Durante o período da ditadura militar brasileira, os movimentos feministas associaram-se aos movimentos sociais de luta e resistência à repressão, além da aproximação com o movimento negro e das pessoas LGBTQPIA+. 

As principais demandas do movimento feminista no Brasil do século 21 concentram-se nas questões relacionadas ao combate à violência contra mulher, a criação de políticas públicas que garantam a igualdade de condição às mulheres e no combate à desigualdade salarial existente no mercado de trabalho. Além disso, nas primeiras décadas desse século houve uma ampliação no debate sobre a pluralidade das lutas das mulheres e do próprio movimento feminista.

A pluralidade do movimento desmembrou-se em vertentes do feminismo, em que cada vertente representa a diversificada luta das mulheres. O feminismo negro, por exemplo, discute como é ser uma mulher negra na sociedade: além de ter a existência atravessada pelo machismo, as mulheres negras também sofrem com o racismo, assim como as mulheres trans também precisam lutar pela afirmação de sua feminilidade e contra a transfobia. 

A pesquisa Mulheres Violência e Feminismo, de 2019, feita pelo Jornal Folha de S. Paulo e pelo Instituto de Pesquisas Datafolha, mostra que 38% das mulheres com 16 anos ou mais se consideram feminista no Brasil, enquanto a parcela que rejeita se associar ao feminismo é de 56%. Ainda de acordo com a pesquisa, para 47% das pessoas, o feminismo traz mais benefícios do que prejuízos e 40% os efeitos são contrários, para elas o movimento feminista gera mais prejuízos do que benefícios. 

Nesse sentido, pretendo conversar com mulheres diferentes, com diferentes lutas e que se encontram em diferentes posições na pirâmide social, para entender o feminismo na prática e na vida real. Entender como o feminismo se aplica na vida dessas mulheres e em qual vertente do pensamento feminista cada mulher butiaense se identifica.

links de referência

Entenda as linhas de pensamento de cada corrente do movimento feminista

Feminismo: origens, conquistas e desafios no século 21

Pesquisa: Mulheres Violência e Feminismo

Estatísticas de Gênero Indicadores sociais das mulheres no Brasil

fontes
  • Renata Pfutze – butiaense, mulher cis, branca, psicóloga, cantora (vocalista da banda Sastras), feminista e criadora do grupo Movimento Debate Feminista
  • Helena Medeiros – butiaense, mulher tras, branca, feminista e integrante do grupo Movimento Debate Feminista
  • Fernanda Oliveira –  butiaense, mulher cis, negra, cabeleireira e feminista
  • Katiele Abreu – buriaense, mulher cis, negra, estudante de Engenharia de Controle e Automoção na UFRGS, feminista e co-criadora do Coletivo A voz de Anástacia
  • Joanna Burigo – Fundadora da Casa da Mãe Joanna – Comunicação e Educação Feminista sobre Gênero, fala sobre a história do feminismo e do movimento feminista. 
  • Katemari Rosa – professora de Física da UFBA, fala sobre feminismo negra suas especificidades e a interseccionalidade das lutas das mulheres negras.
  • Atena Beauvoir Roveda – professora de filosofia e escritora, fala sobre feminismo trans.
fotos

Retrato de cada mulher butiaense entrevistada mostrando seu lado mais característico. Por exemplo: a Fernanda, que traz um poder no cabelo black power; a Renata, que fala abertamente sobre corpo e sexualidade; a Helena, com o poder da transformação e sua da identidade; e a Katiele, com sua relação com os estudos. As ilustrações poderiam ser detalhes que se relacionassem com as fontes, por exemplo, um cabelo black power, livros, algo relacionado a gênero e sexualidade.

sugestões de perguntas

Para as mulheres cases:

1 – Como você conheceu o movimento feminista?

2 – Você se sente representada pelo movimento feminista?

3 – Quais são suas inspirações no movimento feminista?

4 – O que mudou na sua trajetória profissional e pessoal depois que você entendeu o que é feminismo?

5 – Quais situações você passou por ser uma mulher?

6 – Você se considera uma ativista?

7 – Que diferença existe entre ser feminista em Butiá, uma cidade do interior do RS, e em Porto Alegre?

8 – Como vocês consideram que a população butiaense recebe as ideias feministas?

9 – Existem movimentos, núcleos ou lugares específicos em Butiá que debatem o feminismo?

Para as professoras:

1 – Em que momento o feminismo entrou na sua trajetória acadêmica?

2 – O debate acadêmico sobre o feminismo chega ao grande público?

3 – Quando e onde iniciou o movimento feminista?

4 – Quando que o movimento chegou no Brasil?

5 – O movimento feminista abrangia todas as mulheres no início? 

6- E atualmente, há uma intercecção entre os diferentes grupos de mulheres dentro do movimento feminista?

7 – Existe diferença no feminismo defendido nas cidades pequenas, no interior do Brasil e nas capitais?

8 – O debate do feminismo atinge o interior?

9 – E especificamente o interior do RS?

10 – O que mulheres que moram no interior podem fazer para aumentar o debate sobre o feminismo em suas cidades?

11 – Existem pesquisas sobre feminismo em cidades pequenas do Brasil?

sugestões multimídia

Uma linha do tempo do movimento feminista, desde da sua origem, quando chegou ao Brasil, e a ampliação da discussão sobre o próprio feminismo como uma luta que abrange diversas vivências. Também produzir um vídeo com depoimentos das mulheres cases da reportagem, como elas se enxergam dentro do movimento feminista e alguma situação que ela passou pelo fato de ser mulher.

redes sociais

Instagram: Curiosidades sobre o movimento feminista, por exemplo, quando ele começou, por que as mulheres estavam reinvindicando seus direitos naquele momento, o contexto histórico do início do movimento feminista. 

Facebook: Um mini perfil das mulheres entrevistadas, contando um pouco da história pessoal e sua relação com o movimento feminista.

Twitter: Thread sobre as diversas vertentes do feminismo, por exemplo, o feminismo negro, o feminismo trans, mulheres na política, mercado de trabalho, etc.


Da pauta à reportagem

A minha pauta partiu de um entendimento muito particular, de ser uma mulher do interior e sentir falta de um debate mais consolidado sobre os feminismos. Então decidi me aventurar nessa onda para entender como estão se articulando as mulheres que moram nos pequenos centros.

Como minha pauta se concretizou com base, principalmente, nos relatos dessas mulheres, talvez meus sentimentos não refletissem necessariamente a realidade. Ao conversar com elas, percebi que há uma articulação, por vezes coletiva, mas por vezes individual — nas pequenas coisas do dia a dia — para levantar o debate dentro da cidade de Butiá. 

Das fontes, eu não consegui conversar com duas especialistas: a professora de Física da UFBA, Katemari Rosa, e a professora de filosofia e escritora Atena Beauvoir Roveda. No entanto, conversei com a professora de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Rayza Sarmento, que realiza pesquisas sobre ativismo feminista nas redes e como isso atinge os pequenos centros.

Também não conversei com a estudante de Engenharia de Controle e Automoção na UFRGS Katiele Abreu, mas outra mulher que fez parte da reportagem e não está na pauta foi a professora de natação Mirella Sant’ana. 

Dos recursos multimídia, substituí a linha do tempo do movimento feminista por um organograma interativo explicando as ondas feministas, e os vídeos com os depoimentos das entrevistadas de Butiá, por um trecho da entrevista em vídeo com a professora Rayza Sarmento e um áudio da Fernanda Oliveira contando como rompeu terminou um relacionamento abusivo.