Falando em intervenções estéticas, antes mesmo de restringir para o universo dos idosos dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética já evidenciam a força do tema no país: em 2019, o Brasil foi o país que mais realizou cirurgias plásticas estéticas no mundo, e o segundo no ranking dos procedimentos estéticos não cirúrgicos, atrás apenas dos Estados Unidos. Especificamente em relação aos idosos, o censo levantado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em 2018 mostra que houve um crescimento no número de procedimentos e cirurgias entre a terceira idade de 2014 para 2018.
Um artigo publicado na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica em 2018 conversou com 25 idosas que realizaram cirurgias estéticas (CE) e 25 idosas que não realizaram CE, para investigar se havia diferença na qualidade de vida e autoestima entre os dois grupos. Os resultados do estudo apontaram que as cirurgias mais realizadas foram a abdominoplastia e a blefaroplastia.
Os motivos mais escolhidos eram o desconforto físico, o desejo de melhoria da qualidade de vida e a insatisfação com a autoimagem. O estudo não encontrou diferença de qualidade de vida e autoestima entre os grupos. No entanto, é possível questionar o estudo no sentido de que o grupo de mulheres entrevistado foi relativamente pequeno, e uma vez que a autoestima foi medida por uma escala que está sujeita a erros.
Nesse sentido, a investigação da reportagem pode servir quase como uma “pesquisa antropológica” no sentido de, para além de encaixar as mulheres em escalas e números, colher relatos reais, pessoais e subjetivos. Vale destacar, todavia, que o objetivo da pauta não é assumir o pressuposto de que as mulheres idosas que se submetem a cirurgias ou procedimentos estéticos têm baixa autoestima. Mas a ideia é entender as motivações, razões, perspectivas e desdobramentos.
Proposta
A ideia da pauta é entender os motivos que levam uma pessoa idosa a fazer procedimentos no rosto e no corpo para esconder ou disfarçar rugas, flacidez, manchas e gorduras, ou seja, marcas da idade. Esse é um fenômeno recente, talvez possa se dizer que de uns 20 anos para cá. Antes disso, a tendência dos procedimentos era mais fraca entre os mais velhos, da mesma forma que era mais fraca na sociedade em geral. Nesse sentido, quais os motivos que levam uma pessoa idosa a fazer procedimentos estéticos ou cirurgias plásticas estéticas? Uma insatisfação com as rugas e marcas da idade, provavelmente. Mas para além dessa resposta mais óbvia, que talvez já esteja subentendida para muitas pessoas, essa insatisfação pode ter várias origens que valem ser investigadas. É um problema de autoaceitação? É uma vaidade das mulheres idosas do século 21 que, diferente de suas mães, entendem que não é egoísmo cuidar de si ao invés de cuidar apenas da família? É alguma influência da ditadura da beleza, que com as redes sociais se intensifica cada vez mais? É alguma insatisfação emocional da pessoa que ela tenta resolver com mudanças físicas?
Da pauta à reportagem
Entrevistar uma pessoa é tarefa delicada em pautas corriqueiras, que dirá quando a história humana é parte central. É preciso balancear a objetividade da reportagem com a subjetividade de quem aceita contar a intimidade. O primeiro desafio foi encontrar pessoas idosas dispostas a falar sobre a relação com envelhecimento físico e procedimentos estéticos. Depois, usar de sutileza e sensibilidade para tratar cada pessoa – vidas se abriram para mim.
Quando pensei no envelhecimento físico na atualidade, achei que valia a investigação, porque há uma transformação que envolve aumento da expectativa de vida, perspectiva de prolongamento da qualidade de vida dos idosos e libertação de amarras da sociedade.
Busquei me desvincular de quaisquer hipóteses antes de ouvir relatos para, só depois das entrevistas, entender contextos do envelhecimento físico com os procedimentos estéticos disponíveis na atualidade. O processo da reportagem me levou a conclusões que eu não tinha de início. Foi uma oportunidade de refletir sobre autoimagem, estima e cuidado das pessoas idosas. Os relatos apontam menos para uma busca pelo rosto sem rugas e mais para uma forma de autocuidado. A discussão também chamou a atenção para a lógica bem diferente dos jovens de hoje – idosos do futuro – que perseguem a perfeição inatingível.