Alimentando utopias

Especialistas refletem sobre as possibilidades para uma sociedade em que a alimentação seja saudável, acessível e sustentável

REPORTAGEM
Júlia Provenzi
provenzijulia@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Céu Isatto (capa)
Dayandra da Silva Araújo

Insetos? Carne vegetal? Alimentos geneticamente modificados? Não faltam especulações no imaginário sobre a alimentação futurista. Pensar o futuro da alimentação significa refletir sobre problemas ambientais, impasses éticos e questões socioeconômicas da produção de alimentos para nutrir toda a população — sem esquecer do desafio de que eles sejam saudáveis, acessíveis e sustentáveis.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que até 2050 a população global chegará a 10 bilhões de pessoas, das quais  dois terços viverão em áreas urbanas. No ritmo atual de consumo de carne, por exemplo, seria preciso produzir 70% a mais para alimentar todo mundo. Por outro lado, a indústria da carne é responsável por quantidades preocupantes de emissão de gás carbônico e de consumo de água.

Tendências no radar da indústria

Algumas tendências de alimentação e de consumo se acentuaram durante a pandemia do coronavírus e, talvez, tenham vindo para ficar. Para Simone Flores, professora do curso de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os consumidores estão cada vez mais conscientes, informados e exigentes, o que se reflete na busca por alimentos mais saudáveis, menos processados e orgânicos. 

Além da saúde, a pesquisadora afirma que, sobretudo para a geração mais jovem, há a valorização do bem-estar animal e da sustentabilidade, que influencia na adesão aos movimentos vegano e vegetariano.

“A indústria vai ter que se mexer no sentido de preparar alimentos que sejam saudáveis, que atendam às demandas, mas de forma mais econômica. Acho que uma alternativa seria ir em busca de fontes alternativas mais baratas e usar na forma integral os alimentos”

SIMONE FLORES, professora de Engenharia de Alimentos da UFRGS

Foi o que perceberam Rodrigo Kayser e Frederico Hofstatter, sócios da Faba, uma food tech, ou seja, empresa de tecnologia voltada ao setor alimentício. Ela está incubada no Tecnosinos, da Unisinos, em São Leopoldo. Eles concluíram que, em larga escala, é mais eficiente comer plantas. “É mais inteligente, ao invés de usar muitos recursos para obter, por exemplo, uma maionese de ovo, ou ter um bife de carne,  fazer ele de plantas. Tu consegue, se tratando de grandes volumes, alimentar mais pessoas”, explica Rodrigo. 

Os produtos que atendem a essas tendências, no entanto, muitas vezes estabelecem uma barreira de preço que não atinge a todas as classes. A Faba, que é uma empresa pequena, por exemplo, não consegue produzir um produto capaz de competir com os das grandes indústrias. “Esses são elementos, sim, muito fortes, que fazem com que o preço não seja igual em comparação com os de origem animal, que já têm uma cadeia estruturada há centenas de anos”, afirma Rodrigo. Apesar das dificuldades, para Simone, esse é um caminho inevitável para a indústria alimentícia de se adequar aos mercados futuros. “A indústria vai ter que se mexer no sentido de preparar alimentos que sejam saudáveis e que atendam às demandas, mas de forma mais econômica. Acho que um caminho seria ir em busca de fontes alternativas mais baratas e usar na forma integral os alimentos”, afirma.

Frederico, um homem branco, sem barba e cabelo curto e escuro, está sentado, sorrindo, ao lado de Rodrigo, um homem branco, de barba e óculos, que também sorri. Entre eles há um recipiente com grão de bico e um pote de maionese, e, ao fundo, o logo da Faba.
A Faba, dos sócios Frederico e Rodrigo, usa o grão de bico como emulsificante, uma alternativa ao ovo na maionese | Foto: Faba/Divulgação

A Faba almeja construir uma cadeia mais eficiente e com mais cooperação com os agricultores locais, agregando valor aos grãos produzidos na região. “A gente entende que a H2Faba, o nosso ingrediente, pode ser tão competitivo em termos de custo quanto o ovo, só que isso em larga escala. Hoje, não”, declara Rodrigo.

Apesar de o setor de proteínas alternativas à carne ser um mercado ainda incipiente no Brasil, Simone aposta nele e vê possibilidades de as proteínas alternativas tornarem-se mais acessíveis e com valor agregado —  para todas as dietas, não apenas às vegetarianas. “Eu acho que é o grande futuro”, diz a professora. 


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“A comida do futuro é a comida do passado”

A frase acima, dita pela chefe de cozinha Paola Carosella em entrevista a O Joio e o Trigo, representa uma perspectiva de consumo contrária à produção de alimentos ultraprocessados pelas food techs e outras indústrias alimentícias. Para a chefe, as plantas oferecem possibilidades saudáveis e acessíveis.

Ricardo Hattori, produtor familiar, tem há 21 anos uma banca na Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), em Porto Alegre. Ele notou que houve, ao longo dos anos, uma mudança no perfil dos frequentadores da feira. Se antes ela atraía idosos e classes mais baixas, por se tratar de uma opção mais barata e saudável, hoje circulam entre as bancas jovens e vegetarianos.


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Para Ricardo, essa mudança de perfil acontece porque o público busca a FAE como experiência: a feira deixou de ser necessariamente a opção mais barata, mas permite a possibilidade de conhecer o produtor, saber de onde veio o alimento e como foi produzido. “A experiência do consumidor de conhecer o produtor comprando direto está se valorizando mais”, afirma Ricardo. Para ele, essa dinâmica tem relação com o público estar mais exigente com a qualidade dos produtos. “Acho que, quando tu tem mais proximidade, tu consegue exigir mais qualidade”, pondera o produtor.

Ricardo Hattori, um homem branco de cabelo escuro e curto olha para a câmera, apoiando um dos braços com a outra mão. Ao seu lado direito, um homem mais velho, seu pai, também olha para a câmera. Seus cabelos são brancos e ele usa úculos e boné. Com as mãos, ele manuseia brotos orgânicos. Eles estão em uma estufa, um ambiente claro, feito com estrutura de madeira.
Ricardo (à direita) percebeu aumento no movimento da feira durante a pandemia | Foto: Gerson Turelly/FAE/Divulgação

A pesquisadora Simone enfatiza que comer não se trata apenas de nutrição, mas também de sentimentos, e isso se reflete no comportamento dos consumidores. “Eles buscam, ao mesmo tempo, comer por prazer, não só para se alimentar”, afirma. A valorização da sensorialidade é encontrada em outras tendências que se acentuaram na pandemia: o retorno às origens, com o preparo de pratos regionais ou de refeições caseiras, e a valorização do consumo local, em feiras ou comércios de bairro.

Sem sustentabilidade, não há futuro

O exercício de pensar o que e como vamos comer no futuro exige que se inclua no cálculo a capacidade do planeta de fornecer o que consumimos. Hoje, 80% das áreas cultiváveis estão ocupadas, segundo a ONU, ao passo que a mudança climática impacta na produção agrícola.

De acordo com o professor de Ecologia da UFRGS Demétrio Guadagnin, expandir a fronteira agrícola não é a solução. Segundo ele, hoje são produzidos alimentos para alimentar toda a humanidade, e, mesmo assim, pessoas passam fome. “Grande parte dos grãos, como soja e milho, têm como destino a alimentação animal, que é uma fonte de proteína importante. Existem populações com baixa ingestão de proteína, mas existe o consumo excessivo de carne”, explica. Ou seja, o problema não está no consumo da carne, mas na cadeia de produção.


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Além disso, o modelo agrícola atual é baseado em um sistema industrial, com insumos sintéticos, monocultura e maquinário abastecido por combustíveis fósseis. A longo prazo, isso não é sustentável — o que significa que, além de prejudicar o equilíbrio ecológico do planeta, o atual modelo concentra renda e não alimenta todo mundo.

Para Demétrio, a tecnologia disponível não está sendo usada como deveria. Os alimentos transgênicos hoje são feitos para serem resistentes aos pesticidas, e não à praga, o que culmina em uma maior aplicação de agrotóxicos. 

De acordo com o professor, existem caminhos para reverter esse quadro. Um deles é a agricultura orgânica de base familiar: fixar as populações no campo é uma forma de produzir alimentos com qualidade e diversidade e de recuperar áreas degradadas. “É uma forma de  as propriedades rurais cumprirem sua função social de atender as necessidades humanas”, argumenta Demétrio.

Arte: Dayandra da Silva Araujo

Veganismo, antiespecismo e utopias

As escolhas alimentares têm um impacto que vai além do ambiental: elas atingem toda a cadeia envolvida na produção, distribuição e preparo da comida. Nesse sentido, existem movimentos, como o veganismo, preocupados em eliminar o consumo de produtos com origem na exploração animal, e o antiespecismo, interessado em promover equidade de direitos e de tratamento entre todas as espécies animais — a humana e as não humanas.

Maria Alice da Silva, doutora em filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com a tese “Direitos aos animais sencientes: perspectivas ética, política e jurídica a partir do conceito de direito em Hart”, argumenta que, na alimentação, há um “especismo seletivo”, uma vez que alguns animais são dignos do nosso afeto, como cães e gatos, e outros são criados em confinamento para nos alimentar. Ela diz que esse especismo é reforçado pela indústria cultural. “Quando se fala em bem estar na indústria, não é pensando no animal, mas na qualidade do produto final”, argumenta.

“Não adianta pensar em um produto vegano, que não tem nada de origem animal, mas que sacrifica toda a cadeia antes disso: o produtor e todos os trabalhadores que colocam esse tipo de industrializado que acaba com a nossa saúde. Nós também temos que estar na conta”

MARIA ALICE DA SILVA, doutora em filosofia

Em última análise, nem mesmo deixar de consumir produtos de origem animal seria o suficiente para ter uma alimentação ética, que leve em conta o bem-estar dos seres vivos e do planeta. É preciso pensar em como o consumo reflete a cadeia produtiva de cada produto. “Não adianta pensar em um produto vegano, que não tem nada de origem animal, mas que sacrifica toda a cadeia antes disso: o produtor e todos os trabalhadores que colocam esse tipo de industrializado que acaba com a nossa saúde. Nós também temos que estar na conta”, declara Maria Alice.

Alan Chaves, vegano há 20 anos, é um dos fundadores do Aurora, restaurante antiespecista em Porto Alegre. “A gente quer ganhar o nosso dinheiro sem ferrar com ninguém”, resume. Isso significa poder alimentar a quem precisa, remunerando os funcionários da maneira mais justa possível. A filosofia do aurora vai além de uma dieta vegana. Consiste em, na medida do possível, construir uma cadeia menos prejudicial a todos os que trabalham nela

O restaurante já funcionou com um cardápio “sem preço”, em que cada consumidor pagava o quanto fosse possível para si. No entanto, o modelo tornou-se insustentável. Mas, para manter sua proposta social, além dos pratos vendidos pelo restaurante, a equipe também produz marmitas solidárias, que são distribuídas para pessoas em situação de rua. 

Para a filósofa Maria Alice, a mudança social para uma alimentação mais ética com todos os seres e animais envolvidos na cadeia produtiva inclui educação, informação e debate público. Assim, as pessoas poderão fazer escolhas mais conscientes e mudar a indústria através do consumo.

Mas isso ainda está no horizonte da utopia. Alan, mais realista, acredita que os caminhos para o futuro estão na autogestão, nas redes de apoio e nos sistemas de troca. “O importante é tentar viver dentro daquilo que tu acredita”, declara. Alan não pretende mudar o futuro, mas pensa em, de uma perspectiva pessoal, fazer aquilo que acredita. Com o restaurante Aurora, ele vê que as pessoas que acreditam em uma mesma causa se unem. Para ele, os caminhos para um futuro melhor passam pela organização social em busca da autogestão. “Essa rede de apoio é muito poderosa”, diz Alan, “a gente só não faliu por causa disso”. 


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Para Maria Alice, as pessoas precisam assumir a responsabilidade das consequências de suas ações sobre os outros indivíduos, humanos ou não, e sobre a natureza. “Para mim, um futuro sustentável é um futuro vegano, porque é um futuro ético que se compromete com as escolhas, os relacionamentos entre os humanos, entre os animais e a natureza”, afirma. Um futuro em que a alimentação seja ao mesmo tempo saudável, acessível e sustentável parece impossível de se atingir. Entretanto, existem caminhos que nos aproximam dessa utopia.

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