Sextante

Meu corpo é meu lar

A jornada de mulheres que sofreram violências e redescobriram, em um coletivo feminino, o acolhimento que carregam dentro de si

REPORTAGEM
Cristina Rosa | Daniela Lacerda
nascimentogirassol@gmail.com • daniela.maiara05@gmail.com

Arte: Vinicius Koraleski

“Qual é o maior aprendizado de uma mulher? É que, desde o primeiro dia, ela já tem tudo o que precisa em si mesma, mas o mundo a convenceu de que não tinha.” Essas palavras da poeta indiana Rupi Kaur, em seu livro O que o sol faz com as flores, capturam o olhar implacável que a sociedade lança sobre os corpos femininos antes mesmo de nascerem. 

Mesmo em 2024, após a Lei Maria da Penha completar 18 anos, a violência contra a mulher continua a crescer no Brasil. De acordo com o Observatório Estadual da Segurança Pública, entre janeiro e setembro deste ano, mais de 38 mil casos de feminicídio, ameaça, estupro e lesão corporal foram registrados no Rio Grande do Sul. Apesar dos avanços legais, proteger as mulheres e ajudá-las a reconquistar seus corpos como espaços seguros continua a ser uma tarefa urgente. 

A Sextante ouviu três mulheres cujos corpos guardam cicatrizes emocionais dessa violência. É como se a violência cotidiana as desviassem de suas necessidades. Elas são subjugadas por relações hostis e por um sistema que as oprime. Artesã e moradora da Restinga, um dos bairros mais populosos de Porto Alegre, Elisângela Ribeiro da Silva Cardoso, de 37 anos, convive com as marcas que a violência psicológica deixou em seu corpo. “Nós, mulheres da periferia, ouvimos: ‘Tu não vai fazer o segundo grau, pra quê estudar? Para limpar o chão?’”, conta.

Além do abalo da autoestima intelectual, Elisângela passou a conviver com a insatisfação com sua aparência. A falta de espelhos em sua casa era reflexo do medo de encarar o próprio corpo, que ela via como deformado em função das opiniões sobre o seu peso. Apesar disso, a artesã sempre questionou os lugares impostos pelo preconceito. “Meu corpo é meu lar porque é nele que sinto. O dono da casa sabe onde tem as goteiras. Mas muitas mulheres não saem do fundo do poço porque não têm o apoio de outras mulheres.”

Elisângela, Luciana e Silvia se fortalecem a partir das trocas no Grupo Marias | Foto: Cristina Rosa 

“Vou construir uma escadaria e subir, não só para mim, mas para outras mulheres, porque já temos julgamentos demais. Precisamos nos ajudar”

ELISÂNGELA RIBEIRO DA SILVA CARDOSO, artesã

Através de aulas de yoga, a artesã se reconectou consigo mesma e deixou de lado não só o capuz que usava para se esconder do mundo, mas também as inseguranças e opiniões alheias. A atividade é feita no Grupo Marias, uma organização sem fins lucrativos no bairro Restinga que oferece assistência a mulheres em situação de vulnerabilidade social. Elisângela recebeu o acolhimento que precisava para entender que seu corpo é sua casa e deveria ser exposto, porque é único. A experiência com o grupo não só a transformou, mas a inspirou a querer ser referência para quem passou pela mesma situação. “Vou construir uma escadaria e subir, não só para mim, mas para outras mulheres, porque já temos julgamentos demais. Precisamos nos ajudar”, diz a artesã, demonstrando o impacto que organizações sociais de comunidades têm na redescoberta de corpos femininos. 

A psicóloga Simone Paulon, pesquisadora da área de saúde mental e cuidado em rede, destaca a importância do apoio mútuo entre as mulheres: “Quando elas se juntam, descobrem que não estão sozinhas e começam a querer seu lar de volta. Praticar a escuta coletiva é terapêutico e dá o sentido de pertencimento que necessitam para se fortalecer”.

Quando o corpo te pede para si

Arte: Vinicius Koraleski

Luciana Castilhos de Oliveira, de 45 anos, é uma mulher espontânea, sonhadora, que tem o desejo de aprender a ler e carrega em si os ecos de uma infância marcada pela ausência de cuidados familiares. Sua família brigava muito, a mãe era alcoolista, e o pai abandonou a casa, o que culminou em um casamento precoce aos 15 anos e em outros relacionamentos abusivos. “Eu me odiava, me achava gorda, ridícula”, desabafa. 

A violência para Luciana se apresentou de diversas formas ao longo da sua vida, sendo a mais dolorosa a perda de um de seus filhos para a violência urbana. “Eu me senti culpada por não conseguir proteger o meu filho.” A depressão quase a imobilizou, intensificada pelas palavras duras e críticas que ouviu dos homens com os quais se relacionou. Por conta da perda precoce do filho, ela passou a ter medo de sair de casa e deixar seus outros quatro filhos sozinhos, mesmo que por alguns minutos, quando precisava ir ao mercado, por exemplo. “Quando perdi meu filho, me perdi de mim mesma”, diz. 

Foi somente no início deste ano que ela começou a se olhar diferente, através do Grupo Marias. Ao dividir relatos com outras mulheres e com a ajuda de professoras e psicólogas, Luciana foi se resgatando. Entrou no ciclo de reconstrução da autoestima de dentro para fora e hoje não sai sem estar bem perfumada.

“Se conectar com os seus corpos significa validar o lar que as carregou e que as trouxe até aqui”

SIMONE PAULON, psicóloga e professora da UFRGS

Na perspectiva da psicóloga Simone, que também é professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o sofrimento das mulheres é resultado de um silenciamento imposto por um sistema colonial, patriarcal e racista. “Esse estado mental é produzido por violências que exploram o corpo e a mente das mulheres”, afirma. Segundo ela, há um padrão social imposto às mulheres, de que só existe um caminho: ser mãe, esposa e dona de casa. “Mesmo que o cuidado tenha sido a forma de estarem no mundo, de ocuparem um posto, se conectar com os seus corpos significa validar o lar que as carregou e que as trouxe até aqui.”

O que me define mora aqui dentro

Silvia Maria da Silva Portela, de 52 anos, natural de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, teve sua infância marcada por abusos sexuais e comentários sobre seu físico. “Eu me sentia fora do padrão e achava que as pessoas não gostavam de mim.” Na adolescência, Silvia encontrou refúgio na dança e, mais tarde, morando em Porto Alegre, foi às aulas de yoga do Grupo Marias, onde descobriu que podia esquecer as opiniões dos outros e se aproximar dos seus sentimentos. “Não interessa se esse corpo se entristeceu, se ele foi violentado, ele é uma casa. Poder dizer isso é combater o discurso que as mulheres nasceram para servir o mundo”, explica Simone.

Os poemas de Rupi Kaur despertam a consciência das mulheres sobre a autonomia de seus corpos.

Ao reconquistarem o controle de seus corpos, as mulheres também reivindicam seus lares internos. Políticas públicas e redes de apoio são essenciais para que as mulheres possam libertar seus corpos da opressão. Assim, cada uma delas se torna a personificação da música da banda Francisco, El Hombre, que diz: “Um homem não te define, sua casa não te define, sua carne não te define, você é seu próprio lar”.

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