Todo dia de manhã, tão mal o sol dava as caras, Isaura Aparecida, de 44 anos, era convocada a sair da cama pelo cocoricar do galo no quintal de casa. As horas seguintes, até o anoitecer, tinham de comportar a longa rotina de catadora de materiais recicláveis e mãe de sete filhos. Cinco anos depois, a vida é outra: não há mais galo nem quintal, e o sustento vem de outras fontes.
Tudo porque Isaura foi retirada, pela prefeitura de Porto Alegre, da Vila Nazaré, na zona norte da capital, para o bairro Mario Quintana, a pouco mais de dez quilômetros da antiga moradia. Junto aos filhos, ela saiu de uma casa de madeira com sete cômodos para um apartamento de 40 metros quadrados no loteamento Irmãos Maristas, local que congrega 1.298 residências construídas pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida. No espaço reduzido, não cabe galo nem carroça. O jeito foi se acostumar. “Minha casa, quando chovia, enchia de goteiras, mas, mesmo assim, se pudesse voltar para lá eu voltava”, conta.
O despejo de 1.011 famílias da Vila Nazaré, incluindo a de Isaura, se deu em razão das obras de ampliação do Aeroporto Internacional Salgado Filho. A intenção dos governos estadual e municipal era expandir a pista em um quilômetro, para possibilitar que grandes aeronaves pudessem decolar com o peso máximo de carga ou combustível.
A empreitada começou em 1997, mas só passou a sair do papel dez anos depois, quando do anúncio, pela Federação Internacional de Futebol (Fifa), de que o Brasil receberia a Copa do Mundo 2014. Porto Alegre tornou-se uma das cidades-sede do megaevento, e a ideia de duplicar a pista do Salgado Filho foi retomada.
Para as comunidades do entorno, contudo, isso significou a demolição de suas casas. Primeiro, entre 2009 e 2012, foi removida a Vila Dique e suas mil famílias residentes. Na Nazaré, mais distante da pista, o despejo chegou em 2019 e só foi concluído em julho de 2021. Em contato com a reportagem, o Departamento Municipal de Habitação (Demhab) ressalta que este foi o “maior reassentamento em ato contínuo da história de Porto Alegre”. Para Isaura, porém, o progresso nunca chegou: “Aqui eu não considero minha casa. Casa é quando é da gente. Aqui tem só um contratinho, que para mim não significa nada”.

Voz do abandono
Aos 50 anos, Mônica Oliveira carrega o peso de ser líder comunitária e síndica em um dos prédios do loteamento Irmãos Maristas, para onde foi transferida em 2019, após a remoção da Vila Nazaré. Desde que chegou, sua sensação de abandono por parte do poder público só aumenta.
“Antes das eleições de 2020, o prefeito Sebastião Melo prometeu um monte de coisa, mas nunca mais apareceu aqui. Nos deixaram sozinhos”, lamenta. Mônica sempre foi uma voz ativa, participando das reuniões com os órgãos públicos desde as ameaças de remoção pré-Copa. No entanto, as promessas não cumpridas pelo chefe do Executivo municipal, agora reeleito pelos próximos quatro anos, geram frustração constante. “Falaram que iam fazer duas praças, mas só entregaram uma. A outra está largada. Também prometeram posto de saúde e transporte direto pro Centro, mas até agora nada.”
“Mexeu com o psicológico de todo mundo. Muitos não se sentem mais verdadeiramente em casa mesmo depois desses anos”
MÔNICA OLIVEIRA, ex-moradora da Vila Nazaré
A precariedade no transporte, inclusive, é um problema frequente. Os ônibus que circulam pela região não operam nos finais de semana, o que, segundo Mônica, já custou o emprego de vários moradores. Apesar de o reassentamento ter sido uma pauta discutida por anos, ela afirma que a mudança impactou profundamente a comunidade. “Mexeu com o psicológico de todo mundo. Muitos não se sentem mais verdadeiramente em casa mesmo depois desses anos.”

Ela acredita que a prefeitura errou ao assentar, em apartamentos pequenos, famílias acostumadas a viver em casas. Despesas com condomínio, luz e água, por exemplo, não cabem no orçamento de muitos. “Na Nazaré, vivia com minha família toda. Agora, estou só com minhas filhas. Os apartamentos são pequenos demais para manter todo mundo junto”, conta.
Mônica também lamenta a quebra dos laços comunitários. Parte da sua família foi reassentada no loteamento Bom Fim, dificultando o contato. Além disso, o distanciamento físico de outras áreas urbanas agrava a sensação de isolamento. “Lá a gente pegava ônibus para o Centro em cinco minutos de caminhada. Hoje estamos longe de tudo. Parece que quiseram nos segregar ainda mais”, reflete.
Outro ponto de preocupação é a qualidade das moradias. “A estrutura é fraca. Infiltração é um problema constante, meu apartamento já ficou alagado por causa da vizinha de cima. Muita gente no térreo precisou trocar o piso por causa da água que vinha do subterrâneo”, reclama. Para ela, a má qualidade dos materiais de construção demonstra o descaso do poder público: “Será que a gente não merece algo melhor?”, indaga.
Mônica dirige um pequeno bar que aluga da cunhada. Lá, vende alimentos, como açaí e pastéis fritos, além de bebidas. “É o que ajuda a gente a seguir em frente e se adaptar”, comenta. No entanto, a rotina de trabalho não impede que ela continue cobrando as autoridades. Entre seus pedidos estão o funcionamento do galpão de reciclagem, a finalização da praça prometida e a instalação de quebra-molas para prevenir acidentes no loteamento. “São coisas simples que fariam muita diferença na nossa vida.”
Refúgio na reciclagem
O sentimento de perda ainda é latente para Paulo dos Santos, de 48 anos. Morador da Vila Nazaré por 12 deles, ele foi surpreendido com a notícia de que sua casa daria lugar à ampliação da pista do Aeroporto. Mal sabia, porém, que a mudança forçada para o loteamento Irmãos Maristas não só romperia laços comunitários, como também alteraria profundamente seu estilo de vida.
“Na Nazaré, eu morava numa casa de nove peças, com pátio e espaço para tudo. Era meu lar, um lugar onde toda a minha família vivia bem e unida”, relembra. Agora, ele divide um apartamento com a esposa, a filha e o genro. O espaço limitado lhe causa sensação de aprisionamento. “Vivemos enjaulados”, diz.

A adaptação à nova realidade foi um processo difícil, mas Paulo encontrou na construção de uma nova rotina uma maneira de se sentir pertencente àquele local. Na contramão de Isaura, passou a trabalhar com reciclagem logo que chegou ao loteamento. Precisando sustentar a família e debilitado pela epilepsia, ele não podia manter seu trabalho como assistente em jogos de golfe no Country Club e conseguiu, por conta própria, um espaço numa calçada para juntar seus materiais.
Conforme explica, mesmo diante da promessa governamental de um galpão de reciclagem nos Irmãos Maristas, até agora nada saiu do papel. “Desde que a gente se mudou para cá se fala sobre isso, mas até agora não há nada. Ninguém sabe onde foi parar o dinheiro. Se eu esperasse por eles, iria passar fome.”
Em setembro, ele conseguiu arrecadar R$ 2.500 com a venda dos materiais, o que garante a renda da família, embora a rotina de 12 horas de trabalho seja extenuante. “Saio de manhã e só volto à noite. É o nosso sustento, mas o trabalho também virou uma espécie de único lazer para mim. Já me acostumei.” Mesmo adaptado, ele segue lidando com o impacto emocional da mudança. “A melhor lembrança da Nazaré são os amigos e vizinhos. Hoje, não tenho muitos deles por perto”, lamenta.
Paulo lembra também que a indenização de R$ 2 mil para a compra de eletrodomésticos não compensou as perdas. “A gente tinha uma estrutura na Nazaré. Queríamos ficar. Ninguém acreditava que as remoções iriam mesmo acontecer, mas, quando chegou a hora, não tivemos escolha. Fomos obrigados a mudar de vida.”
Apesar de todos os desafios, o agora reciclador diz tentar se manter otimista. Vendo no trabalho uma forma de se sentir útil, admite que o futuro no loteamento Irmãos Maristas é incerto. “Não tenho esperança de que as coisas melhorem por aqui”, confessa.
Procurado, o Demhab afirmou, em nota, que “em razão da calamidade que assolou o Estado em maio de 2024, as equipes da pasta estão trabalhando na força-tarefa para a reconstrução da cidade, priorizando o atendimento às famílias atingidas pelo evento climático. Portanto, outras demandas serão finalizadas de acordo com a prioridade”.



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