Unidas somos muito fortes: iniciativas na área científica buscam equidade de gênero

07 de março de 2025 às 11:19
Arte: Júlia Silva / Secom-UFRGS

Não importa se você tem mais de 10, 15 ou 20 anos de experiência no mercado de trabalho, se já exerceu cargos de liderança, se já escreveu uma tese! Se você é mulher, sempre vai precisar se reafirmar para os colegas, os chefes, os professores, os doutores, os familiares masculinos pelo simples fato de ser MULHER. Nascemos com a “sina” carimbada em nossos corpos: se você tem a capacidade de gerar uma vida, é o “sexo frágil”. A nossa esperança, gurias, está na ciência; ela tem na sua concepção o papel de quebrar paradigmas – tais como o de que a Terra seria plana ou de que a vacina não salvaria vidas – e, nos últimos anos, tem assumido diversas frentes em busca de equidade. Neste texto, vamos falar justamente disso: da equidade de gênero na ciência.

“Quando me tornei mãe, a academia disse que eu não servia para mais nada!”.

“Desisti do curso de Engenharia porque sofri muito preconceito, inclusive em sala de aula um professor me diminuía pelo fato de eu ser a única mulher naquela disciplina”.

“Precisei enfrentar a professora de Educação Física da minha filha, porque ela não iria oferecer a modalidade de basquete para as meninas, pois machuca os pulsos femininos. E de fato, não foi ofertada”.

“Sentimental desse jeito não vai ser engenheira nunca!”, diz o professor em sala de aula. A estudante sai chorando da sala e, depois do ocorrido, nunca mais retorna.

As frases acima foram ditas pelas entrevistadas desta reportagem. O que as une é o entendimento de que a feminilidade é uma luta constante. Essa luta nos faz refletir, neste 8 de março, que o avanço por igualdade de gênero, direitos e oportunidades, e a luta contra discriminação, preconceito, machismo, assédio e violência fazem parte de um processo de reconstrução e ruptura social árduo, complexo e estrutural.

O dia 12 de julho de 2024 é uma data emblemática para a ciência brasileira: a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) instituiu o Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero. Mulheres, entre elas a professora e pesquisadora da UFRGS Aline Cristiane Pan, formam o grupo que tem por objetivo sugerir ações e iniciativas para aumentar a representatividade feminina em posições de decisão e de comando na pós-graduação.

A primeira ação desse comitê já aconteceu no dia 14 de fevereiro deste ano, quando uma força-tarefa de 60 dias fez com que, em tempo recorde e com reuniões entre períodos de férias e recessos de fim de ano, fosse entregue ao Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC/Capes) um documento emblemático: a sugestão de vários critérios de melhoria para a inserção e a permanência das mulheres nos programas de pós-graduação no Brasil.

Para chegar nesse ponto de abertura com a Capes, a luta das mulheres cientistas começou bem antes e veio de várias frentes. Aline comenta que a jornada dela pela equidade de gênero junto aos órgãos que regulamentam a ciência no Brasil teve início em 2018, quando, após um período de licença-maternidade, ela foi descredenciada de um programa de pós-graduação por falta de produtividade.

“Foram dois filhos no mesmo quadriênio. Escrevi cartas e mais cartas para a Capes porque eu estava achando aquele formato de avaliação muito injusto. Daquele ano até 2022, o comitê até foi criado, mas não fomos chamadas para nenhuma reunião. Inclusive, um outro grupo foi nomeado pelo governo da época, formado por reitores e pesquisadores, todos homens. Ficamos em suspenso até 2023, momento em que retomamos a pressão para a instalação de um Comitê Permanente para equidade de gênero”, explica a pesquisadora.

Neste documento entregue pelo comitê, estão sugestões para a avaliação quadrienal para as pós-graduações brasileiras, tais como: critérios que envolvem políticas de apoio à maternidade, ações de combate ao assédio, à violência e à discriminação, além de informações de o quanto o corpo docente dos programas de pós-graduação é diverso. Na percepção de Letícia de Oliveira, membra do Comitê Permanente e pesquisadora na Universidade Federal Fluminense (UFF), esses serão alguns dos pontos a serem analisados nos programas que podem induzi-los a realizar mudanças de acordo com a maneira com que serão avaliados. “Acredito que este seja um documento indutor de política pública. Estamos animadas com essa janela de oportunidades de oferecer mudanças estruturais no sistema de pós-graduação, para que seja mais inclusivo, sensível às questões de maternidade, mais diverso (com pesquisadores negros, indígenas, quilombolas) e com mais mulheres”.

Antes desse passo importante da Capes em instituir o Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero, outras iniciativas organizadas começaram a travar uma luta constante pela busca de equidade de gênero no ambiente científico. A pesquisadora da UFRGS e também membra do Comitê da Capes Fernanda Staniscuaski tornou-se uma cientista “inútil” aos olhos da academia após o nascimento do primeiro filho, em 2013. Ao voltar da licença-maternidade, sentiu os impactos diante da necessidade de mudar a rotina de trabalho. “Eu sabia que haveria consequências por conta da decisão de ter filhos, mas me pareceu injusto esse impacto tão feroz, porque eu não havia me tornado incapaz”.

Vinda de um período de ascensão na carreira e tendo conquistado editais para financiamento de suas pesquisas, de repente Staniscuaski viu que, pela necessidade de pausa e mudança de ritmo que a maternidade exige, o sistema disse: “Você não serve mais para a gente”. Por muito tempo, achou que essa era uma situação particular, individual de uma maternidade só dela, por não conseguir dar conta das obrigações como mãe e como cientista.

 

Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero da Capes – Foto: Divulgação.

 

Ao falar com pessoas próximas, do círculo de amigos, que estavam passando pela mesma situação, Fernanda Staniscuaski percebeu que essa era uma realidade cada vez mais comum. Nesse contexto, surgiu em 2016 o movimento Parent in Science (pessoas com filhos na ciência; tradução livre) envolvendo docentes (seis mães e um pai) na busca por mudanças nesses parâmetros de avaliação que estavam penalizando, de maneira injusta, uma parcela significativa de pesquisadores(as).

 

Maternidade como empecilho para a ciência

Quando entrou no curso de graduação em Engenharia e Gestão de Energia do Campus Litoral, a agora recém-formada Djulyen de Jesus Assonalio chegava com um pedido especial dos pais: ser mãe só depois da graduação. “Desde pequena sempre fui incentivada pela minha mãe a fazer o curso superior, mas pelo fato de na minha família haver várias mulheres que foram mães na adolescência e tiveram que fazer faculdade com filho pequeno, ela sempre me dizia para fazer o caminho inverso, focar nos estudos e depois constituir família”.

Entre as primeiras ações do movimento Parent in Science, está a criação da campanha #maternidadenolattes, que lutou pela busca de um campo no Currículo Lattes para sinalizar os períodos de licença-maternidade. Esse pedido foi aceito pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que, desde 2021, passou a fazer esse registro. A partir dessa mobilização, ficou evidente a necessidade de considerar esses períodos na avaliação do currículo de cientistas mães.

Segundo Fernanda, o movimento nacional surge, exatamente, da necessidade de apoiar mães e pais pesquisadores na promoção de uma ciência mais inclusiva sem desmerecer ou punir essas pessoas por conta da decisão de terem filhos durante a jornada acadêmica. “Movimentos como o Parent in Science têm papel fundamental em promover mudanças, porque deixamos claro que não é uma questão individual. Com dados mostramos que é uma questão estrutural: não sou eu que não dei conta de ser cientista e mãe, mas sim vivemos em um sistema muito rígido que não aceita a flexibilidade de maneira nenhuma. Esse movimento é importante para mostrar que é uma questão geral, e esse é o precursor de mudanças que precisamos”, diz a pesquisadora.

A licença-maternidade para considerar os períodos de baixa produtividade pelo CNPq trouxe outros avanços exclusivos para mães dentro de universidades e instituições de fomento, como incluir em seus editais internos e nos programas de pós-graduação a consideração de licença-maternidade. “Na UFRGS, por exemplo, é considerado o fator de correção para as mães que estão fazendo concurso”, salienta Fernanda.

Pesquisas mostram que a maternidade é um elemento que explica a diferença de mulheres em posições estáveis e prestigiosas na carreira científica, uma vez que mães têm 38% menos chance de chegar a posições de destaque em todas as áreas do conhecimento, isso porque, por um período de até quatro anos após a maternidade, há uma redução de produtividade das pesquisadoras.

Para Aline Pan, são muitos os desafios para a permanência de mulheres na graduação e na pós-graduação, mas a maternidade é um dos maiores. Ela acrescenta que, na área em que atua – de Energia – a questão do machismo é predominante.

 

Fernanda Staniscuaski com os filhos –  Foto: Flávio Dutra / Arquivo JU-UFRGS

 

Pressão e assédios são barreiras na carreira científica



Por conta da pressão, a Engenharia foi um caminho podado para Luiza Crauss. A estudante concluiu o curso de Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT) ofertado pelo Campus Litoral, mas, no momento de concluir a terminalidade (como uma segunda graduação, possui ingresso apenas para os formados no BICT), precisou trocar de área de Bacharelado em Engenharia de Gestão de Energia para Desenvolvimento Regional, mesmo após cumprir carga horária de seis semestres na Engenharia.

Atualmente a estudante está no quinto semestre de Desenvolvimento Regional e se diz feliz. Mesmo com a voz embargada ao lembrar sobre a mudança de curso, afirma que com a nova escolha não se sente com a necessidade constante de “provar nada para ninguém”. A sua troca teve relação direta com vivências envolvendo questões de gênero dentro do curso. “No começo, foquei, principalmente, nas disciplinas de Exatas, pois queria conseguir chegar na terminalidade Engenharia de Gestão de Energia. No curso de Desenvolvimento Regional, sinto que não existe uma pressão tão grande para que eu prove a minha capacidade – como era na Engenharia –, eu simplesmente consigo fazer o meu melhor e ser reconhecida por isso sem a pressão de gênero. Claro que eu não mudei de área apenas por isso, mas seria mentira dizer que a pressão de gênero e as discriminações não influenciaram bastante. Passei por situações ruins e vi colegas meninas passarem por situações difíceis”, frisa ela.

Letícia de Oliveira aponta que há dois problemas principais do baixo percentual de mulheres na ciência: a baixa representação de mulheres nas áreas de exatas e tecnologias – chamada de segregação horizontal –, muito observada na graduação; a segregação vertical/efeito tesoura/teto de vidro com a falta de representação feminina em que todas as áreas para ocupar espaços de poder, tomar decisões e ter maior reconhecimento. “Sabemos que esses fenômenos, em parte, são decorrentes da presença do assédio no ambiente acadêmico (moral e sexual), do impacto que a maternidade traz (mulheres imbuídas das funções do cuidado) e dos estereótipos de gênero (construção cultural que associam mulheres a determinados papéis e funções). Esses fatores têm um papel importante para impedir que as mulheres estejam nesses espaços”, diz ela.

O estudo “Gênero e diversidade na pesquisa”, realizado pela Elsevier em 2024, revelou que, nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (Steam), a representação feminina é de 42% em início de carreira, caindo para 26% no avançar da carreira. No Brasil, um levantamento da Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (Mesol) aponta que, na área da Engenharia, somente 29% dos pesquisadores são mulheres, e 32% dos postos de trabalho em Ciências Exatas são ocupados por mulheres.

“Na minha área, que é muito masculina, temos 20% de mulheres, e, se olharmos, na área técnica, somente 7%. Ou seja, a Engenharia é uma área muito difícil para as mulheres por conta da discriminação direta, a falta de validação, o não reconhecimento, o desrespeito e tudo pelo simples fato de ser mulher. E se ela decide ter filhos, o gargalo é maior ainda”, frisa Aline Pan.

Luiza aponta que nos cursos de exatas, neste caso em especial de Engenharia, sempre há microssituações em que a pessoa sente que deve provar a sua capacidade o tempo inteiro, uma pressão que não sente mais no curso em que está. “Parece que temos de estudar e nos esforçar mais do que os colegas, precisamos provar que a gente consegue. Agora consigo me dedicar e aprender muito mais. É triste: eu estava muito envolvida na área da Engenharia, mas não conseguia ver um futuro nem me enxergar trabalhando nessa área”.

A estudante conta que, em uma disciplina que envolvia motores de carros, em que ela era a única menina em sala de aula, o professor se direcionava a ela perguntando se havia entendido, ou se estava conseguindo acompanhar. “Então Luiza, você entendeu isso aqui? Já ouviu falar sobre isso? Está entendo o que estamos falando?, dizia o professor, sempre marcando o meu nome e perguntando diretamente pra mim, e não a todos os colegas. Isso me marcou bastante”.

Djulyen também teve dificuldades durante o curso, teve vontade de desistir em vários momentos, mas o desejo de se tornar engenheira e ser o orgulho da família foram mais fortes. “Tive professores machistas, que faziam piadas, e até duas situações de assédio via rede social. Tenho dificuldade de falar sobre isso porque nunca sei se eu vi demais ou realmente aconteceu…”. Revela a engenheira, que hoje atua em uma empresa de gestão de energia e diz não enfrentar mais preconceito ou assédio.

Sem desistir, e inspirada na carreira de sucesso da mãe na Enfermagem, hoje Djulyen trabalha em uma empresa na área de transição energética. Formada em 2024, alcançou o grau de engenheira em um curso visto como o de um futuro promissor. A insistência de Djulyen corrobora com o que a pesquisadora Fernanda diz ser necessário na academia: a diversidade na ciência é sinônima de excelência, pois o olhar e as soluções do cientista são influenciados por sua história de vida. “Se temos grupos homogêneos buscando uma solução, a chance de inovar é muito pequena, por isso diversidade é igual a inovação que é igual a excelência. Se quisermos realmente trabalhar a excelência precisamos trabalhar a diversidade”, frisa ela.

A ciência assume um papel fundamental nessas mudanças, ao desfazer mitos – tais como profissão de menino e de menina – e reverter um dano que ela mesma causou.

 

Incentivos em busca da equidade

Enquanto o movimento nacional Parent in Science surge da necessidade de apoiar mães e pais pesquisadores(as) na promoção de uma ciência mais inclusiva, outras iniciativas emergem da necessidade de construir mecanismos de proteção para promover o ingresso e a permanência de jovens e mulheres na ciência.

O projeto da UFRGS “Energizando a equidade: mulheres e meninas na transição energética” é voltado para Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação e vai receber financiamento para fomentar a inclusão e a capacitação de mulheres e meninas no setor de energias renováveis. O objetivo é construir uma rede de suporte para professoras e alunas nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (Stem), incentivando o desenvolvimento acadêmico e profissional das mulheres no setor de energias renováveis. A realização de oficinas e atividades de popularização da ciência será fundamental para despertar o interesse das meninas por essas áreas, com foco em energia solar fotovoltaica e gestão energética, temas cruciais para o desenvolvimento sustentável.

A pós-doutoranda Gabriela Sehnem Heck é uma das pessoas que vão coordenar essa iniciativa. Para ela, essa é uma oportunidade rica de pesquisa sobre inclusão e equidade na ciência, que vai proporcionar um aumento de mulheres na área energética. “Vamos estimular as meninas a entrarem no campo por meio de oficinas e monitorias realizadas em escolas de Educação Básica. Essas meninas saberão que é possível ingressar nas áreas de exatas, em especial nas STEAM, e que se optarem em seguir o caminho na ciência não estarão sozinhas nesse campo. Poderão ver a quantidade de mulheres incríveis e a rede de apoio existente nesse projeto”, explica ela.

A escolha de cursar alguma engenharia, por vezes, enfrenta resistência por parte da família, pelo medo do preconceito ou assédios. A agora engenheira Djulyen faz um pedido para as meninas que desejam seguir esse caminho: machismo, preconceito e assédio serão encontradas em todas as profissões, infelizmente, e nas que são majoritariamente ocupadas por homens pode piorar um pouco. “Mas não podemos desistir por causa disso, senão vamos dar mais espaço ainda para os homens, tornando a profissão cada vez mais masculina, reforçando o padrão cultural que já temos. Precisamos lutar para ter mais espaço nas engenharias, porque somos, com certeza, tão capazes quanto eles: não desistem, somos capazes e temos rede de apoio para lutar contra isso”.

O exemplo tem se mostrado um motivador incrível para que as meninas se reconheçam ocupantes da função de cientistas. As pesquisadoras da UFRGS, Maria Inês Schmidt e Sandra Cristina Müller, vencedoras da sexta edição do “Prêmio Capes-Elsevier 2024: Mulheres na Ciência” – representantes da Região Sul – falam sobre as dificuldades enfrentadas na carreira,  que passam desde a escolha pelo curso superior até a caminhada para se tornarem referência internacional nas suas áreas de pesquisa.

Maria Inês comenta sobre a sua trajetória para se tornar a cientista de renome que é hoje, que começou pela insistência em escolher um curso de graduação em uma época em que as meninas eram educadas para apoiar o marido na busca de seu sucesso. “Quando entrei na faculdade, éramos 8 meninas entre 80 aprovados e consideramos isso na época um avanço! Hoje, predominam largamente as mulheres nos cursos de medicina. Temos uma reitora mulher na UFRGS, uma presidente mulher na Academia Brasileira de Ciências, para citar apenas alguns exemplos. Mas o caminho da paridade de gênero na ciência é longo, no Brasil e no mundo. Nos passos atuais, segundo estimativas das Nações Unidas, a paridade só chegará em 134 anos. Não posso deixar de mencionar que temo por possíveis retrocessos. Vivemos profundas e aceleradas mudanças dos tempos, e as questões de justiça podem perder significado. Que possamos construir novos caminhos solidários e produtivos no processo”, diz ela.

Sandra enumera três dificuldades enfrentadas por ela para se tornar a cientista de renome que é hoje: reconhecimento entre os pares no Brasil – o que passou a ser amenizada à medida que começou a ter parcerias internacionais; financiamento; ser mulher e mãe. “Ingressei como professora em 2006, e em 2010 nasceu meu primeiro filho, o segundo em 2016. No começo da minha carreira, meu tempo de dedicação à pesquisa foi limitado. Vejo que nos últimos quatro anos, tenho mais liberdade para sair de casa, participar de congressos e, até mesmo, fazer atividades de campo com meus alunos”, revela ela. Para a pesquisadora, prêmios como o concedido pela Capes-Elsevier fazem com que haja uma abertura para que jovens vejam mulheres na ciência como inspiração, além de perceberem que é possível ser reconhecida diante dos estudos e da dedicação. “Sou do interior do Estado, estudei em escola pública, sou mulher e mãe e acredito muito no fato de que essa vontade de ser cientista, de ter novos conhecimentos e seguir estudando são grandes motivadores para que nos tornemos pessoas de sucesso. É preciso que ultrapassemos várias barreiras, inclusive o machismo estrutural, mas o nosso principal aliado é a vontade de conhecer e de transmitir o conhecimento”, salienta Sandra.

Um dos desafios da UFRGS é ampliar as suas políticas de participação feminina na pesquisa, sendo que uma das adotadas são as bolsas de Iniciação Científica para Mulheres. Entretanto, para Sandra, é preciso que a representação feminina seja ampliada, em especial na visibilidade de cientistas como ela. “Acredito que a UFRGS poderia promover eventos em diferentes cursos como forma de apresentar e mostrar outras mulheres de sucesso que estão no anonimato, como forma delas contarem as suas experiências e ampliar a presença feminina em eventos”.

Para as jovens em início de carreira na pesquisa ou recém-ingressantes em um curso de graduação, Maria Inês pede para que, mesmo as mais tímidas, acreditem em seu potencial para seguir a carreira que mais lhes atrai. “Barreiras e obstáculos surgirão, mas poderão ser vencidos com perseverança e tenacidade como o meu e tantos outros exemplos mostram. Acredite que as características da mulher são benéficas na produção de pesquisa relevante e inovadora. Nem sempre encontramos o que procuramos, mas algumas vezes acabamos encontrando algo não imaginado. Tenha os olhos abertos para enxergar novas possibilidades, examine o que encontrou com cuidado, pois poderá ser mais importante que o previsto inicialmente. E trabalhe duro, o sucesso não cai prontinho do céu”, frisa ela.

Para a sua versão jovem, Sandra diria ‘não desista e não se diminua’. “Tenho sentido que a minha carreira é motivadora para outras meninas e vejo que, assim, elas perceberam que é possível chegar lá sendo mãe, do interior, de escola pública, sem abrir mão da família. Que a minha carreira sirva de exemplo para muitas meninas e digo: siga em frente, não tenha medo de nada porque tu é tão capaz quanto outras mulheres ou homens do Brasil ou do exterior. Não tenha receio da tua capacidade de pensar, de propor hipóteses, soluções e novos projetos de pesquisa. Não duvide da sua capacidade”, finaliza ela.

 

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