O projeto DNA do Brasil é o maior banco de dados genômicos da população brasileira e pode indicar características pontuais para o desenvolvimento de doenças
10 de julho de 2025 às 13:29
* Reportagem atualizada em 15/07/2025 às 15h51
Caracterizar a população brasileira do ponto de vista genético foi a missão do projeto DNA do Brasil, uma parceria de pesquisadores da UFRGS, USP e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). A iniciativa resultou no maior mapeamento genético populacional já realizado no país, reunindo 2.723 genomas completos, dos quais mais de 800 são do Rio Grande do Sul.
Publicado na revista Science, uma das principais publicações científicas do mundo, a pesquisa revela mais de oito milhões de novas variantes genéticas que antes não eram conhecidas em nenhuma comunidade, demonstrando a importância desse mapeamento. Entre elas, foram identificadas cerca de 36 mil alterações genéticas com potencial risco à saúde dos brasileiros. Em desenvolvimento desde 2019, o maior e mais diversificado banco de dados genômicos da população brasileira opera na análise das três bilhões de diferentes regiões do DNA, que incluem os genes, responsáveis pelas funções executadas pelo corpo. Os resultados já apontaram potenciais conexões genéticas em doenças cardíacas, infecciosas e em condições como a obesidade, bem como variantes que promovem a fertilidade, as quais, juntamente com genes relacionados à resposta imunológica e ao sistema metabólico, teriam sido favorecidas pela seleção natural ao longo de 500 anos de cruzamentos em solo brasileiro
A participação gaúcha no projeto foi coordenada pela professora Fernanda Vianna, em colaboração com as pesquisadoras Célia de Souza e Maria Cátira Bortolini, que destacam a pesquisa como um marco ao revelar como a diversidade genética brasileira impacta a saúde da população. As coletas locais se dividiram em dois grandes grupos, entre pacientes diagnosticados com covid-19 durante a pandemia e pessoas autodeclaradas negras com e sem doença renal crônica. Ao longo da análise, traços genéticos de povos indígenas extintos, como os Charrua, foram identificados, além da presença africana. A pesquisa desmonta a falsa ideia de que o Sul do Brasil é exclusivamente geneticamente europeu, e mostra como o passado de migração forçada e colonização violenta em todo o país moldou nossa diversidade biológica, permitindo dizer com precisão como os fatores genéticos se distribuíram ao longo do tempo no território, influenciando a saúde das populações atuais.