Artigo científico aponta a análise de 474 imagens captadas entre 4 de maio e 31 de agosto de 2024. Foram identificados 16.862 pontos de início de deslizamento
28 de agosto de 2025 às 17:02
O artigo “The biggest landslide event in Brazil: preliminary analysis of the Rio Grande do Sul mega disaster in May 2024” (“O maior evento de deslizamento de terra do Brasil: análise preliminar do megadesastre do Rio Grande do Sul em maio de 2024” – em tradução livre), liderado pelo professor do Instituto de Geociências Clódis de Oliveira Andrades-Filho, foi publicado nesta quinta-feira, 28 de agosto, na revista Landslides. A pesquisa divulga achados importantes sobre a análise do megadesastre por deslizamentos ocorridos durante as cheias do ano passado, com episódios no final de abril e começo de maio de 2024.
Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram 474 imagens captadas entre 4 de maio e 31 de agosto de 2024. Foram identificados 16.862 pontos de início de deslizamento, distribuídos ao longo de cerca de 18 mil quilômetros quadrados em 150 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. Isso corresponde a 30% das cidades gaúchas.
Clódis explica que a magnitude do acontecimento está relacionada ao elevado acumulado de chuvas de abril a maio de 2024, e que a maior parte das encostas íngremes do Estado se encontrava na área exposta à precipitação. “Esse trabalho permitiu revelar a grande dimensão da ocorrência de deslizamentos em termos de quantidade e área do Estado atingida, dimensão que só foi possível representar a partir do mapeamento realizado e que estabeleceu como o maior evento do país em quantidade de cicatrizes, ou seja, definiu o ineditismo desta catástrofe, além de expor à comunidade científica, à sociedade e à gestão pública a relevância e dimensão do desafio não somente para a emergência, mas para a recuperação das áreas atingidas, que abrangem 150 municípios”, ressalta o pesquisador.
De acordo com o levantamento, os pontos de início dos deslizamentos ocorreram principalmente em encostas voltadas para norte, norte-nordeste e noroeste-norte, áreas com cobertura vegetal mais esparsas comparadas às voltadas para o sul. Esses setores também sofrem maior pressão de intervenções humanas, como desmatamento, cortes para estradas e construções residenciais. A combinação desses fatores reduz a estabilidade das encostas e ajuda a explicar a concentração observada de deslizamentos nessa orientação. “Estas características, juntamente com demais características do relevo, como o grau de declividade, permitem indicar quais aspectos do terreno predominam nas áreas com maior ocorrência de deslizamentos”, explica Andrades-Filho. “Isso é essencial para estabelecer novos modelos e mapas que indiquem as áreas dos municípios com maior exposição a deslizamentos em grandes episódios de chuva”, defende.
O professor também destaca a identificação de 2.430 trechos de estradas afetados por deslizamentos, resultando no isolamento de comunidades rurais e cidades, além de mortes, feridos e perdas materiais. Segundo a equipe de pesquisadores, considerar as características do terreno e o risco geológico de cada região no planejamento e na adaptação das vias pode ser decisivo para evitar consequências mais severas em eventos extremos.
O método usado

Para ser desenvolvida, a pesquisa utiliza o geoprocessamento e sensoriamento remoto para análise integrada das seguintes bases de dados: a) a geolocalização das cicatrizes de deslizamentos ocorridos no desastre de 2024; b) a topografia digital de todas as áreas atingidas; c) mapas digitais de solo, geologia, hidrografia e estradas, ou seja, a representação digital georreferenciada das características do terreno do Rio Grande do Sul.
O cruzamento dessas informações se deu em ambiente computacional e permitiu a construção de uma “radiografia” dos deslizamentos de 2024 ocorridos no Rio Grande do Sul, o que proporciona o reconhecimento das condições e dos limites de estabilidade e instabilidade das encostas do Planalto Meridional numa situação de evento extremo de chuvas.
Essa “radiografia” contribui para os seguintes aspectos:
a) identificar quais são as áreas mais expostas a novos eventos de deslizamentos e, assim, embasar a elaboração de zoneamentos de risco nos municípios;
b) direcionar ações de recuperação da estabilidade do terreno nas cicatrizes de deslizamentos;
c) estabelecer parâmetros assertivos de localização e precipitação acumulada para emissão de alertas de risco geológico pelas Defesas Civis em situação de previsão meteorológica de tempestades;
d) desenvolver projetos que visam à revisão de Planos Diretores Municipais e à elaboração dos Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRRs);
e) servir como base em ações de formação de recursos para atuação em gestão de risco de desastres, sobretudo em termos de capacitação geotecnológica;
f) fornecer suporte na elaboração e implementação de ações de educação e monitoramento comunitário voltados a comunidades rurais, as mais atingidas por deslizamentos em 2024;
g) servir de suporte para o estabelecimento de planos de contingência em planos municipais e estadual de gestão de risco em desastres geo-hidrológicos.
MAIS
A liderança da pesquisa é do Grupo de Pesquisa Latitude, vinculado ao Centro de Pesquisas em Sensoriamento Remoto e Meteorologia (CEPSRM), do Programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto (PPGSR), e ao Instituto de Geociências (IGeo). Colaboraram, ainda, o Laboratório de Geoprocessamento e Análise Ambiental (Lagam/CEPSRM) e o Laboratório de Geologia de Engenharia e Ambiental do IGeo.
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Texto: Nicole Trevisol, com informações da Agência Bori
Revisão: Cristina Thumé Pacheco