Doutores da Universidade se destacaram na premiação, que é uma das maiores distinções da ciência brasileira
08 de setembro de 2025 às 16:54
Na 20ª edição do Prêmio Capes de Tese, uma das maiores distinções da ciência brasileira, oito trabalhos de pesquisadores da UFRGS conquistaram reconhecimento. Neste ano, foram 49 teses selecionadas como vencedoras e 97 menções honrosas nesta proposta que valoriza as melhores pesquisas de doutorado defendidas no Brasil em 2024, nas áreas de avaliação definidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e que fazem parte do Sistema Nacional de Pós-Graduação.

Duas teses da UFRGS foram premiadas: uma na área de Artes Visuais, de Marcia Machado Braga, intitulada “Uma poética provisória e a (est)ética de outras emergências: táticas coletivas para (des)habitar uma prisão feminina”, e outra na área de Computação, de Jorge Alberto Wagner Filho, chamada “Designing and Evaluating Immersive Analytics Environments for Spatio-Temporal Data”.
“Ficamos muito felizes pelo reconhecimento do nosso trabalho pela Capes através desse prêmio que é, sem dúvida, o mais respeitado no país para este tipo de trabalho. O prêmio também destaca, claro, a pesquisa de nível internacional desenvolvida no nosso Programa de Pós-Graduação em Computação, que já conquista esta distinção pela segunda vez”, avalia Jorge Alberto Wagner Filho (foto), doutor pelo PPG em Computação, cuja orientação foi de Luciana Porcher Nedel e coorientação de Wolfgang Stuerzlinger.

“O Prêmio Capes de tese é um reconhecimento importantíssimo, que valoriza os esforços e desafios envolvidos na pesquisa, evidenciando sua contribuição para um campo social”, resume Marcia Machado Braga (foto), doutora junto ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, sob orientação de Claudia Vicari Zanatta.
Entre os vencedores, três receberão o Grande Prêmio, um para cada Colégio da Capes: Humanidades, Ciências da Vida e Ciências Exatas, Tecnológicas e Multidisciplinar. A avaliação considera originalidade, relevância para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e social, metodologia utilizada, qualidade da redação, organização do texto e qualidade e quantidade de publicações decorrentes da tese. A solenidade de entrega ocorrerá em dezembro.
Menções Honrosas
Conheça as seis pesquisas da UFRGS que receberam menção honrosa no Prêmio Capes de Tese:

Filipe Ferrari Ribeiro de Lacerda, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da UFRGS, foi responsável pela tese “Avaliação do eletrocardiograma do jogador de futebol brasileiro: um estudo observacional multicêntrico”. Ele conta que avaliou o perfil eletrocardiográfico de mais de 6 mil jogadores de futebol brasileiros de diferentes etnias, abrangendo 82 clubes de todas as 5 regiões do país. Em um dos estudos foi demonstrado que, em atletas com inversão da onda T ínfero-lateral, um ecocardiograma normal não descarta a presença de anomalias cardíacas, que podem ser detectadas pela ressonância magnética cardíaca. Filipe argumenta que, a partir da pesquisa orientada por Ricardo Stein, sugere-se que a ressonância seja o método de escolha na avaliação da pré-participação de jogadores com tal achado no eletrocardiograma de repouso. “Ser reconhecido com a menção honrosa mostra que pesquisas aplicadas à cardiologia esportiva podem fazer diferença na saúde e segurança de atletas brasileiros”.

Isadora Davila Tassinari escreveu a tese “Papel neuroprotetor do lactato em condições hipóxico-isquêmicas“, desenvolvida junto ao PPG em Ciências Biológicas: Fisiologia da UFRGS, sob orientação de Luciano Sturmer de Fraga e coorientação de Ana Helena Paz, na qual investigou os efeitos do lactato, uma molécula com potencial neuroprotetor, em um modelo animal que simula os danos da asfixia no cérebro de recém-nascidos. Isadora relata que os resultados mostraram que o tratamento com lactato aplicado durante o período neonatal pode reduzir a lesão cerebral e também melhorar as funções motoras e cognitivas até a fase adulta. Para ela, tais descobertas apontam o lactato como uma estratégia promissora para o tratamento de bebês que sofreram lesões cerebrais ao nascer. “Receber a menção honrosa evidencia a relevância do meu trabalho e reforça a importância de pesquisas que buscam proteger e melhorar a vida de recém-nascidos com lesões cerebrais.”

Autor da tese “Transações baseadas em capacidades: da limitação à complementaridade para inovar“, o doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da UFRGS Leandro da Silva Nascimento explica que a pesquisa, orientada por Paulo Antonio Zawislak, propõe uma nova abordagem teórica, denominada Capability-Based Transactions, que integra as teorias das capacidades de inovação e dos custos de transação. A partir de um estudo longitudinal de três anos e meio em uma vinícola familiar, a pesquisa demonstrou como empresas com limitações em capacidades tecnológicas e não tecnológicas podem superá-las por meio de transações comerciais. Leandro propôs avanços teóricos para o processo de complementaridade interorganizacional e aplicações práticas a fim de impulsionar a inovação em pequenas empresas. “Receber essa menção honrosa é a coroação de anos de dedicação e mostrou que é possível alcançar excelência acadêmica independentemente da origem, contribuindo para uma academia mais plural e diversa.”

Autora da pesquisa “Desvendando o mecanismo de armazenamento de hidrogênio em nanoestruturas de NixPd100-x (0 ≤ x ≤ 100)”, defendida junto ao PPG em Física da UFRGS, Livia Pugens Matte detalha que no trabalho, orientador por Fabiano Bernardi, relacionado a energias renováveis, observou-se que a criação de bolsões de paládio, um material conhecido por ter uma boa afinidade com o hidrogênio, porém caro, dentro de uma casca composta por níquel, um material mais barato, pode-se aumentar a capacidade de armazenamento de hidrogênio nestas nanopartículas, reduzindo os custos de sistemas sólidos para armazenamento de hidrogênio. Segundo ela, a tese contribui para o avanço das pesquisas que buscam disseminar o hidrogênio como fonte de energia. “Este reconhecimento motiva a continuar pesquisando soluções para armazenamento de energia, contribuindo para o avanço das energias renováveis e para o uso do hidrogênio como vetor energético.”

Rodolpho Pinheiro D’Azevedo se dedicou à tese “Dicionário on-line Português-Libras para aprendizes de Libras como segunda língua: um olhar para o registro de verbos“, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS, com orientação de Maria José Bocorny Finatto, em que elaborou o dicionário de verbos Português-Libras voltado a estudantes ouvintes que aprendem Libras como segunda língua. Ele argumenta que, com o avanço do ensino de Libras nos cursos de formação de professores, iniciado pelo Decreto 5626/2005, um grande número de estudantes universitários tem seu primeiro contato com a língua dentro das universidades brasileiras. Para o pesquisador, o trabalho contribui para o desenvolvimento de materiais de apoio para o ensino desta língua, ainda escasso no país. “Este prêmio é um reconhecimento que reforça a importância de desenvolver materiais de apoio para o ensino de Libras e promover a inclusão e valorização da comunidade surda.”

Sofia Favero Ricardo pesquisou sobre “Lapidar os sentidos da infância: reimaginando o cuidado com crianças trans” e justifica que a tese, defendida junto ao PPG em Psicologia Social e Institucional da UFRGS, orientada por Paula Sandrine Machado, fala sobre a experiência de atendimento clínico com crianças gênero-diverso, que estão transicionando ou se expressando para além do binário. Segundo ela, a pesquisa é uma leitura crítica sobre modelos de acompanhamento psicopatológicos e fornece horizontes de atuação guiados pelos direitos humanos, pois traz elementos para profissionais de saúde e familiares poderem atualizar as próprias gramáticas de cuidado e acolhimento institucional, além de pistas para metodologias experimentais e reflexões contemporâneas sobre os estudos da infância. “Sou uma aluna trans que precisou das ações afirmativas para poder entrar na universidade. Sinto que fui expulsa da escola, quando após a terceira reprovação decidi abandonar o ensino médio. Eu insisti na experiência acadêmica por ter feito uma promessa à minha mãe, que me pedia muito para estudar. Ela trabalhou como costureira toda a vida, sempre gostou muito de ler e vivia cercada de livros. Fui a primeira doutora trans a acessar as cotas no meu programa de pós-graduação. Receber esse reconhecimento é uma forma de estimular que pessoas iguais a mim, com histórias de vida parecidas, possam acreditar nas próprias ideias e atravessar obstáculos sociais dramáticos.”
Texto: Wagner Machado
Edição: Ânia Chala
Revisão: Cristina Thumé Pacheco