História de mais de quatro décadas de compromisso e de amor pela Universidade foi celebrada na manhã de hoje, 18, em sessão solene na Sala dos Conselhos
18 de setembro de 2025 às 15:55
Na manhã desta quinta-feira, 18 de setembro, a pesquisadora do Instituto de Biociências Norma Luiza Würdig recebeu o título de Professora Emérita da UFRGS. Na plateia, colegas, estudantes, familiares e amigos puderam acompanhar a consagração da docente que foi capaz de construir uma rede de relações humanas marcada pela abertura ao diálogo.
A cerimônia foi presidida pelo vice-reitor Pedro Costa, com as presenças da diretora do Instituto de Biociências Lívia Kmetzsch Rosa e Silva, da vice-diretora Clarice Fialho, e da oradora Cláudia Calegaro Marques.
A homenageada foi conduzida à mesa pela vice-diretora, e a sessão teve início com a leitura da decisão do Conselho Universitário (Consun), que concedeu o título à professora. Na sequência, Cláudia Marques proferiu seu discurso de saudação à homenageada, no qual destacou a dedicação de Norma à ciência, à educação e à UFRGS. No texto, a oradora celebrou não apenas a carreira acadêmica, mas também a generosidade, a capacidade de liderança e a paixão pela vida universitária demonstradas pela docente.

Formada em História Natural em 1972, Norma concluiu o mestrado em 1975 e o doutorado em 1984, tendo sido orientada em ambos por Irajá Damiani Pinto. Ingressou como docente em 1975 na UFRGS, onde permaneceu até sua aposentadoria em 2021, dedicando-se ao ensino de graduação e pós-graduação, à pesquisa e à extensão.
Cláudia apontou a extrema competência da colega para o exercício de atividades administrativas. Isso porque, em 1976, recém-contratada, assumiu a chefia do Departamento de Zoologia. Logo em seguida, participou da criação do Centro de Ecologia do Instituto de Biociências e da implantação do curso de Pós-Graduação em Ecologia. Em 1994, colaborou ainda na criação da Pós-Graduação em Biologia Animal e, dois anos mais tarde, da sua transformação no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal.
Driblando dificuldades
A oradora mencionou também o envolvimento de Norma na construção, organização e expansão do Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), que dirigiu por três períodos: de 1989 a 1997; de 2002 a 2008; e de 2012 a 2016. “Sob sua liderança, consolidaram-se o Museu de Ciências Naturais (Mucin), o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres e Marinhos (Ceram), laboratórios de ensino e pesquisa, a biblioteca, cursos para capacitação de professores e convênios que aproximaram a Universidade e a comunidade. Teve papel decisivo na criação do curso de bacharelado em Ciências Biológicas com ênfase em Biologia Marinha, aproximando ainda mais a instituição das demandas do Litoral Norte”.
Um aspecto celebrado por Cláudia foi o modo encontrado por Norma para driblar as dificuldades de infraestrutura e recursos: “Quando os tempos eram difíceis, era junto aos colegas e funcionários que Norma liderava mutirões. Pintavam paredes, montavam aquários, organizavam o museu. Era assim, com trabalho coletivo, que o Ceclimar seguia vivo e atuante”, lembrou. Sua contribuição foi essencial na implantação do Campus Litoral Norte, o primeiro fora da sede da UFRGS, com o ideal de realizar a total integração entre ensino, pesquisa e extensão na região.
No âmbito da pesquisa, Norma Würdig desenvolveu trabalhos voltados aos ecossistemas do Sul do Brasil, contribuindo para compreender a biodiversidade e para oferecer subsídios à conservação ambiental. Além disso, orientou dezenas de dissertações e teses, acompanhando de perto o desenvolvimento de seus orientandos. Muitos desses jovens hoje são doutores, professores e pesquisadores em diferentes universidades e institutos de pesquisa no Brasil e no exterior.
Refletindo sobre a trajetória da homenageada, Cláudia concluiu que o que se destaca é a rede de relações humanas que ela construiu. “Alunos, técnicos, professores e funcionários guardam na memória a presença atenciosa, a disposição para ouvir, o conselho amigo, a crítica construtiva. A professora Norma sempre soube que a Universidade é feita, acima de tudo, de pessoas, e que a Universidade só cumpre seu papel quando rompe muros e dialoga com a comunidade”, concluiu.

Reverência aos mestres
Norma Würdig iniciou sua fala agradecendo aos professores e colegas que a acompanharam durante o curso de História Natural; aos docentes do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia, onde foi bolsista durante a graduação, e especialmente às professoras Yvonne Sanguinetti, Lilia Pinto de Ornellas e Ivone Purper, que orientaram seu primeiro trabalho de pesquisa. Ao professor Irajá Damiani Pinto, seu orientador no mestrado e doutorado, fez uma menção especial: “Se aqui ainda estivesse, teria e tenho muito mais a agradecer. O incentivo e encorajamento para fazer o concurso de auxiliar de ensino para o Departamento de Zoologia, a orientação no doutorado e a sorte de poder acompanhar e participar de todo seu trabalho na criação do Ceclimar”.
A menina que caçava borboletas, gafanhotos e joaninhas no quintal da avó lançou então um olhar retrospectivo sobre o trabalho de toda uma vida acadêmica, pontuando vivências e lembranças, que não podem ser consultadas no currículo Lattes: “Surpreendida com esta homenagem, lembrei meus primeiros projetos e programas de extensão realizados no Litoral Norte e o que eles significaram para minha vida acadêmica. Meu primeiro projeto de pesquisa, Bioecologia e Sistemática de Populações da Costa Sul-Brasileira, iniciado em 1976, integrou pesquisadores do Departamento de Zoologia e Botânica da UFRGS e da Fundação Zoobotânica do RS, com financiamento da Fapergs. Deu início às primeiras pesquisas no Litoral Norte, vinculadas à ideia de conhecer os ecossistemas regionais e à criação de um centro de pesquisas no litoral, o Ceclimar, sonho antigo do professor Irajá Damiani Pinto”.
A professora afirmou que muitos projetos de pesquisa e de extensão contaram com o apoio da infraestrutura do Ceclimar: “Quando ele se instalou na área junto à Lagoa Tramandaí, os cursos e a visitação de aquários exigiram muitas improvisações. Os funcionários organizaram salas para trabalho, prateleiras, bancos, pintaram paredes e receberam com entusiasmo os primeiros visitantes – crianças das escolas da rede escolar da região, crianças veranistas e suas famílias –, que trouxeram alegria e suas curiosidades”, relembrou.
Bacharelado em Biologia Marinha
Sonhado desde a criação do Ceclimar, por ter tudo a ver com seu próprio nome, o bacharelado em Biologia Marinha teve seu projeto pedagógico organizado por Norma. “Com o apoio do diretor do Instituto de Biociências, Jorge Ernesto de Araújo Mariath, e do professor Eloy Garcia, então pró-reitor de Graduação na UERGS, foi formada uma comissão mista para discutir o currículo do curso. Graças a um projeto pedagógico caracterizado por uma sequência de disciplinas das áreas das ciências biológicas e das ciências exatas e da terra, as ênfases foram avaliadas pelo MEC com os conceitos 4 e 5. A primeira turma ingressou no segundo semestre de 2006, com 40 alunos procedentes de vários locais do país. Até 2018, atuaram docentes da UERGS e da UFRGS que, em trabalho conjunto, formaram alunos por estas duas universidades”, explicou.
O bacharelado tem hoje 124 alunos matriculados e 264 alunos diplomados. Biólogos marinhos preparados para atuar nas áreas de preservação e conservação ambiental, gestão e sustentabilidade dos ecossistemas marinhos, impactos ambientais sobre a biodiversidade oceânica e desafios emergentes como mudanças climáticas.
Norma enfatizou que a Universidade foi seu segundo lar, “pois representou muito mais do que o lugar onde eu era professora, pesquisadora, diretora ou gestora de projetos. Nesta casa vivi uma vida em que fui feliz. Criei laços e raízes; conheci pessoas que respeito e tenho em alta estima pelo que são e pelo legado que deixaram; fiz amigos que me deram a mão (às vezes até o ombro) e me ensinaram a importância de passar adiante todo o bem que recebemos! Não teria como nomear e agradecer a todos que me acompanharam ao longo desta jornada, participando dos sonhos, das realizações, dos tropeços e sucessos. Muitas destas pessoas eram quase anônimas, mas fazendo o trabalho de base me proporcionavam, indiretamente, um ambiente harmonioso e as condições necessárias para desenvolver meu trabalho. Acho que na época eu nem me dava conta que um bom dia sorridente do segurança ou das moças da portaria, o ambiente limpo e um chá quentinho da servente poderiam aquecer a alma e influenciar no meu dia a dia. Posso dizer que me sinto orgulhosa e realizada pela vida que tive”, avaliou.

A homenageada finalizou discurso dizendo que aprendeu a importância de buscar ajuda, trabalhar em grupos, diversificando, inovando, buscando a integração e compartilhamento de ideias com colegas de diferentes institutos e áreas de conhecimento desta Universidade. “Aprendi a importância de estar junto à comunidade, prestando atenção ao que ela fala e precisa, buscando respostas através da pesquisa, de projetos de extensão, de cursos inovadores”, concluiu.
A cerimônia foi encerrada pelo vice-reitor da UFRGS Pedro Costa, que saudou o espírito de construção coletiva representado pela trajetória da docente: “Nesse entrelaçamento entre pessoas, observamos a construção de relações marcadas pela duplicidade da racionalidade científica e da emoção pessoal, coisas que tornam a história da professora Norma tão significativa para a nossa comunidade”, afirmou o vice-reitor.