Pesquisadores emitem alerta sobre as ameaças à biodiversidade do Cerrado

Estudo publicado na “Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change” ressalta os graves e crescentes riscos que as mudanças climáticas representam para as espécies do bioma brasileiro

01 de outubro de 2025 às 17:43
Intensificação da estação seca torna o bioma mais quente e árido – Imagem: Divulgação

Uma equipe multidisciplinar de 15 pesquisadores de diversas universidades e instituições brasileiras e internacionais emitiu um alerta sobre as ameaças que as mudanças climáticas representam para biodiversidade do Cerrado. O estudo, publicado hoje, 1º, pela Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change, aponta que os efeitos das mudanças climáticas são amplificados e funcionam em feedback com outras pressões humanas, particularmente a conversão do uso do solo para agricultura e pastagem intensivas. O principal fator de mudança climática é o aumento, bem como a intensificação, da estação seca, que se torna mais quente e árida.

A seca na região do bioma resulta de fatores como: a expansão do Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul, que altera a circulação atmosférica e desvia a umidade; o aquecimento das águas do Atlântico Tropical Norte, que reduz o transporte de umidade para a América do Sul; e a redução da evapotranspiração, a partir da conversão generalizada da vegetação nativa para agricultura e pastagem intensivas, o que diminui o suprimento de vapor de água regional e contribui para o aquecimento local. Esses fenômenos ocorrem de forma interligada.

O estudo sintetiza o entendimento mais recente sobre os processos que impulsionam as alterações climáticas no bioma, exclusivo do Brasil, destacando tanto os impactos já documentados quanto os potenciais impactos projetados para vários grupos de plantas, animais e micro-organismos. Intitulado “Climate Change in the Brazilian Cerrado: A Looming Threat to Terrestrial Biodiversity” (Mudança climática no Cerrado brasileiro: uma ameaça iminente à biodiversidade terrestre), o estudo faz um alerta para a iminente ameaça à biodiversidade do Cerrado brasileiro, a savana mais biodiversa do planeta.

Os pesquisadores, seis deles ligados à UFRGS, destacam que a estabilidade climática do Cerrado, que se estabeleceu ao longo dos últimos 5 mil anos e foi essencial para moldar suas comunidades ecológicas, está sendo desmantelada. As mudanças climáticas estão transformando o bioma em todos os níveis, afetando desde a vida de plantas e animais individualmente, até a organização de grupos de espécies e o funcionamento do ecossistema como um todo:

  • Vegetação: o aumento da temperatura, a redução da precipitação e o prolongamento da estação seca afetam a fisiologia e reprodução das plantas. A sobrevivência de várias espécies dependerá de quão adaptáveis serão e da capacidade de acesso à água subterrânea. Há uma preocupação com o aumento da mortalidade de árvores e a invasão por espécies exóticas.
  • Comunidades microbianas do solo: períodos secos mais longos e alteração nos regimes de água reduzem a biomassa e alteram a dinâmica das comunidades microbianas, com efeitos negativos nos ciclos biogeoquímicos essenciais, como os de carbono (C) e nitrogênio (N).
  • Invertebrados: o pronunciado aquecimento e a redução do orvalho noturno – uma fonte de água crucial para insetos polinizadores e outros animais de baixa mobilidade – representam uma ameaça crítica. São ainda esperadas alterações nas interações ecológicas, como naquelas entre as plantas e os herbívoros.
  • Vertebrados: o impacto mais forte é a perda de espécies especialistas ou endêmicas com distribuições restritas, levando à redução da diversidade geral na região e com possíveis processos de retroalimentação com outros grupos. A perda de algumas espécies poderá levar a desequilíbrios na ciclagem de nutrientes e na fertilidade do solo. A redução da diversidade de mamíferos, particularmente, poderá conduzir ao aumento de transmissões virais, elevando o risco de emergência sanitária, tanto em pessoas quanto na vida selvagem.

Ação imediata

Os autores enfatizam que a sobrevivência das espécies do Cerrado dependerá crucialmente de sua plasticidade, resposta evolutiva e capacidade de dispersão. “O Cerrado, com sua riqueza inestimável, está sendo ativamente remodelado pelas mudanças climáticas. Nossa síntese é um chamado urgente para informar estratégias eficazes de conservação e gestão do uso da terra. (…) É fundamental que as partes interessadas antecipem essas mudanças ecológicas, priorizem espécies e habitats vulneráveis e implementem medidas de mitigação e adaptação para salvaguardar os ecossistemas únicos do Cerrado”, aponta o estudo. Uma das medidas necessárias, de acordo com os pesquisadores, é expandir o fomento a pesquisas de longa duração para que alcancem a escala espacial para mitigar efetivamente os impactos ambientais e garantir a sustentabilidade futura deste e de outros biomas.

O artigo está disponível para consulta no link: https://wires.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/wcc.70022.

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