Rainha Diambi Kabatusuila celebra a herança africana em visita à UFRGS

Em visita ao país, Sua Majestade Real realizou conferência no Centro Cultural na noite de ontem e participou de atividades com a comunidade do Colégio de Aplicação na manhã desta quinta-feira (13)

13 de novembro de 2025 às 14:32
Rochele Zandavalli/UFRGS

Na tarde de quarta-feira (12), a rainha tradicional do povo Bakwa Luntu Diambi Kabatusuila Tshiyoyo Muata realizou uma visita oficial à UFRGS, sendo recebida pelo vice-reitor Pedro Costa no Salão Nobre da Reitoria. Acompanhada de sua comitiva, a monarca conversou com representantes da comunidade universitária e falou sobre o propósito de sua vinda ao Brasil.

Na chegada, Sua Majestade cumprimentou pessoalmente com um abraço caloroso a cada um dos convidados ao encontro, solicitando em seguida que se apresentassem. Dessa forma, manifestaram-se: o professor e pesquisador do IFCH José Rivair Macedo; o mestrando do PPG em História e integrante da comitiva oficial da Rainha no Brasil Duan Kissonde; o pró-reitor e a vice-pró-reitora de Ações Afirmativas e Equidade Alan Alves Brito e Rita dos Santos Camisolão; a vice-pró-reitora de Extensão Patrícia Xavier dos Santos; a chefe de Gabinete Maria Luiza Saraiva Pereira; a estudante de Arquitetura e Urbanismo Claudia Ntumbo; a docente do Colégio de Aplicação Mônica Torres Bonatto; a gerente da Secretaria de Relações Internacionais (Relinter) Tatiana Calvete; e o secretário e o vice-secretário da Relinter Benito Bisso Schmidt e Athos Moreira da Silva. Além desses, também fizeram uma breve apresentação o representante da rainha no Brasil Tata Lemba Dyala, o presidente da Fundação Bantuhub Véron Mankou, a jornalista que assessora a rainha no Brasil Uiara Zagolin, e um estudante de doutorado em Administração Pública belga que acompanhava a comitiva.

Em um esforço bem-sucedido para se comunicar em português, Sua Majestade falou da busca de seu povo pelo resgate da ancestralidade africana, uma vez que a República Democrática do Congo – a exemplo de outros países de colonização europeia – sofreu um processo de apagamento de sua cultura original. A Rainha Diambi contou ter assumido um compromisso ético e político pela valorização da memória sobre a ocupação do Congo e escravização do povo congolês, afirmando que esses processos ainda hoje representam uma vergonha para a nação e para o continente africano.

O professor Pedro celebrou a presença da rainha, ressaltando que sua visita reforça a lembrança dos reinos do Congo que tiveram seus habitantes escravizados e trazidos à força para o Brasil. Enfatizando a atuação da UFRGS no âmbito das políticas de ações afirmativas, ele comemorou a participação da soberana no evento “Confluências do real: um diálogo bantu-brasileiro”, que ocorreria na sequência daquele encontro.

Aporte de conhecimento

Ao saudar Sua Majestade, o pesquisador do Departamento de História da Universidade José Rivair Macedo destacou a presença dos saberes tradicionais africanos incorporados à cultura brasileira, comentando que a visita é simbolicamente importante também porque permite a qualidade do trabalho que vem sendo desenvolvido pelo mestrando Duan Kissonde junto ao PPG em História. Já o estudante, referiu a força da energia cósmica que precede emanada pela monarca: “Ela é de tal magnitude que, antes mesmo de sua aparição, é possível sentir que a rainha está chegando”.

O pró-reitor de Ações Afirmativas e Equidade Alan Alves Brito rememorou o momento da aprovação do sistema de cotas na Universidade, ocorrido em 2007, e as transformações observadas na UFRGS a partir da incorporação gradativa de cosmologias e práticas que antes eram ignoradas ou silenciadas no ambiente acadêmico. Ele citou também as muitas conexões entre as culturas africana e brasileira.

O secretário de Relações Internacionais Benito Schmidt refletiu sobre a mudança no escopo dos acordos, convênios e outras modalidades de interação acadêmica, que hoje já não têm como único horizonte as universidades da Europa a da América do Norte, voltando-se cada vez mais para as instituições dos países do Sul Global.

Valorização das ancestralidades

Dizendo-se muito honrada com a recepção, a Rainha Diambi declarou que vir ao Brasil é como reencontrar parte de sua família. Satisfeita por ver entre os presentes uma conterrânea, a estudante de Arquitetura e Urbanismo Claudia Ntumbo, nascida na capital congolesa Kinshasa, Sua Majestade começou sua fala afirmando que todos somos resultado de uma mescla de influências culturais e que a capacidade dos brasileiros de incorporar diferentes hábitos e tradições é uma inspiração para o povo africano.

Diambi denunciou que há muitos intelectuais africanos que não querem abraçar sua ancestralidade, desconsiderando as raízes que sustentam toda uma visão de mundo. “Não reconhecer a centralidade da contribuição africana é desonestidade intelectual”, afirmou. Segundo a monarca, tal atitude é um legado da escravização e funciona como uma carga energética: de um lado, a dor do abuso e dos maus-tratos por parte de quem foi vítima desse processo; do outro, a dor da culpabilidade, daqueles que inflingiram esse sofrimento ou foram beneficiados pela mercantilização de vidas humanas.

Ao falar do trabalho que vem desenvolvendo ao redor do mundo em prol da mudança da narrativa sobre o valor da herança cultural africana, a rainha foi categórica: “Muitas coisas podem mudar, como a ignorância, o racismo e a exclusão. Só não se pode mudar o orgulho e a arrogância”! Ela finalizou sua fala afirmando que a palavra-chave que define sua missão é a dignidade do reconhecimento de que a África é mãe, é ciência e é também tecnologia.

No final do encontro, a Rainha Diambi assinou o Livro de Ouro em que são registradas as visitas ilustres à Universidade.

Sobre a rainha Diambi

Nascida na Bélgica, filha de mãe belga e pai congolês, cresceu em Kinshasa, capital da atual República Democrática do Congo, e foi entronizada como rainha por todos os Chefes Bakwa Lunta em 2017. Dois anos mais tarde, também foi coroada Rainha Mãe do Povo Bantu do Brasil.

Tendo alcançado reconhecimento internacional por sua atuação em causas sociais, ambientais e culturais, preside a The Elikia Hope Foundation, instituição que promove iniciativas dedicadas à educação, à sustentabilidade e à valorização das identidades africanas.

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