Professor Gustavo Gauer, um dos integrantes da comissão responsável pela elaboração do Projeto Pedagógico do Curso, fala sobre os diferenciais da graduação em Psicologia na Serra Gaúcha
14 de janeiro de 2026 às 07:57
A UFRGS aprovou, na reunião do Conselho Universitário do dia 9 de janeiro, a criação dos primeiros dois cursos de graduação do Campus Serra. A unidade, a ser instalada em Caxias do Sul, começará com a oferta de Psicologia e Ciência de Dados, ambos com 60 vagas e ingresso nos dois semestres. As aulas estão previstas para iniciar ainda no primeiro semestre de 2026, a partir de processo seletivo específico ainda não lançado.
Previsto para funcionar no período noturno, o curso de Psicologia terá duração de 10 semestres, com carga horária total de 4.020 horas, envolvendo atividades obrigatórias, eletivas e complementares. A proposta considera a formação em Psicologia importante para a redução das desigualdades na região e para o fortalecimento da formação profissional nessa área em diálogo com as políticas públicas e demandas territoriais. Os diagnósticos utilizados para embasar a proposta apontam uma demanda do mercado de trabalho local, especialmente em áreas relacionadas à saúde do trabalhador e para a composição de equipes do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Em Porto Alegre, a UFRGS oferece Psicologia diurno (40 vagas) e noturno (30 vagas). A graduação aparece como uma das mais concorridas do Vestibular, tendo registrado no último concurso densidades de 23,75 candidatos por vaga (diurno) e 25,43 candidatos por vaga (noturno).

Para entender melhor o desenho da proposta aprovada no Consun, que já havia passado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão em dezembro passado, o site da UFRGS conversou com o professor Gustavo Gauer, um dos integrantes da comissão responsável pela elaboração do Projeto Pedagógico. O docente do Instituto de Psicologia, Serviço Social, Saúde e Comunicação Humana (IPSSCH) do Campus Sede trata da diferença da formulação para o novo curso em relação ao que existe em Porto Alegre, que possui mais de 50 anos. Gauer também explica a relação desejada com o mercado de trabalho local, assim como as expectativas para o desenvolvimento da graduação.
O que vai diferenciar a formação no Campus Serra em relação à UFRGS em Porto Alegre?
Gustavo Gauer: O currículo tem pontos em comum com o da capital, que tem 53 anos de história, mas foi amplamente atualizado e adaptado. Ele foi atualizado para contemplar aspectos culturais e sociais, como a diversidade dos sistemas de pensamento – incluindo os não europeus –, para abordar questões sociais contemporâneas, como as mudanças no trabalho e na educação, e para, principalmente, atender às demandas do Sistema Único de Saúde, em seus vários níveis. Ele foi adaptado à realidade regional da Serra e aos desafios para os quais psicólogos e psicólogas devem contribuir, como os contextos de agricultura familiar, migração, trabalhadores temporários e mudanças no perfil urbano e cultural das cidades e comunidades.
A proposta fala na formação de profissionais para atuar, também, na relação entre trabalho, subjetividade e saúde menta. Isso se deve ao perfil dos empregos projetados naquela região?
Gustavo Gauer (com a colaboração de Célvio Casal): As demandas e oportunidades de trabalho para a Psicologia na Serra foram debatidas com a regional do Conselho Regional de Psicologia (CRP). O trabalho em saúde mental na rede de saúde pública via prefeituras é uma das necessidades mais explícitas, mesmo porque a região carece historicamente de profissionais com essas habilidades e capacidades. O curso terá entre suas vocações uma prontidão única para responder a demandas como essas. A graduação está articulada prevendo a integração das práticas formativas com as redes de atenção psicossocial da região nas ações de ensino, pesquisa e extensão, oportunizando aos estudantes experiências de formação voltadas aos problemas e dificuldades identificados nos e com os territórios da Serra. Inclusive para as próximas etapas da implementação, prevemos encontros para proposição de parcerias com gestores públicos, movimentos e organizações sociais e coletivos da região.
O curso noturno em Porto Alegre possui 12 semestres, enquanto a proposta da Serra terá 10. Como foi compatibilizada essa redução do tempo total de integralização?
Gustavo Gauer: Essa possibilidade provém de um projeto de curso que já nasce priorizando a utilização efetiva dos recursos de atividades de ensino a distância. Não se trata de um curso EAD, mas de um curso presencial moderno que irá fazer o melhor uso dos recursos de ensino e aprendizagem.
No caso do curso noturno de Porto Alegre, criado em 2009, foi planejado de forma 100% presencial, quando recursos a distância eram limitados, e a legislação, incipiente. É possível, inclusive, que o curso do Campus Serra inspire alterações curriculares no curso de POA.
Qual a expectativa geral de vocês enquanto propositores quanto à receptividade do curso de Psicologia da UFRGS na Serra?
Gustavo Gauer: As expectativas são positivas, todas embasadas em evidências a que tivemos acesso. O estudo prévio do Gabinete da Reitoria e da Comissão Permanente de Seleção (Coperse) demonstrou que praticamente 30% dos inscritos (e dos aprovados) no Vestibular de Psicologia de Porto Alegre vinham de CEPs da região da Serra. Nosso comitê do IPSSSCH obteve informações preciosas em contato com a regional do CRP, que sinalizou uma demanda concreta para um curso público, gratuito e de qualidade. Por fim, dentro do nosso próprio comitê, contamos com alguém que lecionou e coordenou o primeiro curso de graduação noturno em Psicologia em Caxias do Sul nos anos 2000. Esse professor sou eu mesmo. Eu testemunhei os desafios familiares, laborais e financeiros que os estudantes enfrentavam para poder estudar, e eles me marcaram pelo valor que davam à formação universitária e ao trabalho. Isso tudo indica que aqueles que virão para o curso de Psicologia do Campus Serra da UFRGS farão o melhor porque receberão o melhor. E que isso terá impacto positivo no papel da Psicologia para a comunidade da Serra Gaúcha.
Comissão
Compuseram a comissão temporária para a construção da proposta: Kelly Lissandra Bruch (diretora do Campus) e os professores Carolina dos Reis, Gustavo Gauer, Lisiane Bizarro Araujo, Oriana Holsbach Hadler e Sandra Djambolakdjian Torossian.