Identidade e cidadania: pesquisa investiga o papel da arte no cotidiano de mulheres em prisão provisória

Encontros semanais foram pensados como ferramenta para a reconstrução de identidade das mulheres privadas de liberdade e para a ressignificação dos espaços em uma unidade prisional

12 de fevereiro de 2026 às 13:17
“Exercício contingente” (2022): peças simulam a constante dualidade de potência e fragilidade vivenciada na prisão. Crédito: Desirée Ferreira/ Acervo Balcão da Cidadania

“Nas celas lotadas, com sorte, duas pessoas dividem uma cama, dormindo ‘de valete’: com a cabeça para lados distintos. Um banheiro é usado por até 25 presas por um tempo de, no máximo, dez minutos. Caso queiram se depilar, fazem em outro momento, às vezes em cima da cama, com um potinho de água por perto. […] Não podem dormir com travesseiro; embolam roupas para repousar a cabeça. Não podem ter espelho na cela. Também não podem usar maquiagem. Falta papel higiênico, falta absorvente. Não é possível ter nenhuma intimidade, não há separação dos espaços, há pouca ventilação, e os ventiladores trazidos de casa não dão conta.” (Trecho da tese de doutorado em Artes Visuais de Márcia Machado Braga)

A descrição acima foi feita pela artista visual Márcia Braga, que desde 2019 trabalha voluntariamente no Presídio Madre Pelletier, no bairro Teresópolis, em Porto Alegre. O trecho, que oferece uma noção geral da realidade em alguns presídios femininos no Brasil, foi retirado da tese de doutorado de Márcia, que recebeu o Prêmio Capes de Tese 2025 na área das Artes. Além de trazer a ambientação do que é trabalhar em um ambiente prisional no Brasil e vivenciá-lo, ele reflete sobre a contribuição da prática artística para as mulheres em prisão provisória (isto é, aquelas que ainda estão aguardando o seu julgamento e sua pena definitiva). 

A introdução de práticas artísticas no dia a dia das mulheres que estão no Madre Pelletier foi uma iniciativa voltada para o autoconhecimento e a ressignificação de pensamentos, auxiliando-as a lidar com suas experiências na prisão, seus desejos e medos, suas necessidades, frustrações e angústias.

Os encontros semanais, que acontecem até hoje, promovem rodas de conversa, trabalhos coletivos de cerâmica, pintura, design e escrita criativa, em tentativa de conferir protagonismo às mulheres. Essa iniciativa aconteceu em colaboração com o coletivo do qual Márcia faz parte, chamado Balcão da Cidadania, composto por mulheres atuantes no Direito, na Psicologia, na Assistência Social e nas Artes Visuais.

Na tese, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação de Artes Visuais da UFRGS, a artista descreve memórias no Presídio Madre Pelletier e as principais ações do coletivo, além de destacar algumas das principais adversidades que atravessaram o período da pesquisa, como a pandemia da covid-19 e as enchentes de 2024.

“Quando acontece isso aqui fora, é muito difícil para a gente, psicologicamente falando. É traumatizante e coloca a vida em suspenso. Eu acho que dá um mínimo de percepção do que possa ser lá dentro, porque essa suspensão lá é constante, é todo dia”, comenta a psicóloga Kelly Alves, uma das integrantes do Balcão da Cidadania.

Confira a matéria completa no Jornal da Universidade.

Tese: Uma poética provisória e a (est)ética de outras emergências – táticas coletivas para (des)habitar uma prisão feminina
Autora: Márcia Machado Braga
Orientadora: Claudia Vicari Zanatta
Programa/Unidade: Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais – Instituto de Artes

Texto: Camila Fernandes de Souza, bolsista de Jornalismo no JU
Edição: Mírian Barradas
Revisão: Antônio Falcetta

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