Projeto aposta na linguagem simples para reduzir riscos e desigualdades na comunicação em saúde

CorPop Saúde investiga como textos técnicos mais acessíveis podem ampliar a autonomia de pacientes e fortalecer políticas públicas

26 de junho de 2026 às 10:18
Foto: Cristine Rochol/PMPA

Entender corretamente como usar um medicamento ou seguir uma orientação médica básica ainda é um desafio para grande parte da população brasileira. Para enfrentar esse problema estrutural, pesquisadores da UFRGS desenvolveram o CorPop Saúde, um projeto que busca democratizar o acesso à informação médica por meio da simplificação de textos técnicos, combinando linguística, estudos de letramento e uso responsável de inteligência artificial.

Selecionado no Edital 06/2025 do Programa Pesquisador Gaúcho (PqG) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), o projeto terá duração de 36 meses e financiamento para bolsas, coleta de dados e desenvolvimento metodológico. A iniciativa é coordenada pela professora Maria José Bocorny Finatto, do Programa de Pós-graduação em Letras da UFRGS, e dá continuidade ao CorPop, corpus de textos simplificados criado em 2018 pela linguista Bianca Pasqualini, então doutoranda da Universidade.

Compreender para agir com segurança

Para a professora Maria José, a compreensão plena de um texto técnico não é um detalhe, mas uma condição essencial para que o cuidado em saúde seja efetivo. “Quando o paciente entende perfeitamente uma instrução, ele consegue executar a ação sabendo do que se trata e entendendo as conexões envolvidas”, afirma. Segundo ela, erros simples como misturar medicamentos com determinados alimentos ou não realizar cuidados básicos após o uso de inaladores podem comprometer tratamentos e gerar novos problemas de saúde.

Essas falhas, destaca a pesquisadora, não decorrem de negligência individual, mas de um cenário estrutural de baixo letramento em saúde. “Isso pode gerar desperdício de recursos e dificuldades na interação entre usuários e servidores do SUS. E não é culpa das pessoas”, reforça. Em muitos casos, palavras comuns em textos oficiais, como “armazenar”, já são suficientes para criar barreiras de compreensão.

Um dos focos centrais do CorPop Saúde é a análise de termos de consentimento livre e esclarecido (TCLEs), documentos obrigatórios em pesquisas e procedimentos médicos. Para a professora, a maioria desses textos não cumpre sua função principal. “Na prática, as pessoas assinam sem entender. Os termos viraram uma formalidade jurídica e, em geral, são incompreensíveis”, critica.

Maria José defende que a simplificação desses documentos seja tratada como um processo de tradução intralinguística, adaptando o texto ao repertório linguístico do leitor. Estudos desenvolvidos no grupo apontam que, sem compreensão real, o consentimento informado perde seu sentido ético.

Da linguística ao direito ao entendimento

A origem do CorPop está na pesquisa de doutorado de Bianca Pasqualini, que investigava a complexidade em traduções literárias. Ao longo do trabalho, ela percebeu que não existia um corpus que representasse o letramento médio da população brasileira, predominantemente básico. “Estávamos traduzindo textos complexos para um grupo muito pequeno e exclusivo de pessoas”, relata.

Segundo Bianca, há uma tradição que valoriza a complexidade e confunde simplicidade com ignorância. “Proficiência de leitura não é o mesmo que proficiência na língua”, afirma. Esse cenário, avalia, contribui para um verdadeiro “apartheid linguístico”, especialmente na comunicação oficial, em que o direito ao entendimento deveria ser garantido.

Um dos maiores desafios do projeto é equilibrar acessibilidade e precisão. Para a pesquisadora, não existe uma solução única. “Tudo depende de quem escreve, para quem se escreve e com qual objetivo”, explica. O tipo de texto, se é uma bula, uma cartilha, uma notícia ou um termo de consentimento, e o perfil do leitor determinam o nível de detalhamento necessário.

Nesse sentido, o CorPop Saúde funciona como uma base de referência, reunindo vocabulários mais recorrentes e potencialmente mais fáceis de entender, além de mapear como conceitos especializados já circulam no cotidiano das pessoas, mesmo quando esses entendimentos são parciais ou imprecisos do ponto de vista científico.

Inteligência artificial com responsabilidade

O projeto também incorpora ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) e inteligência artificial para análise e organização dos textos, mas com limites bem definidos. A professora Maria José integra o comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em Inteligência Artificial Responsável para Linguística Computacional e Disseminação da Informação (TILD-IAR), rede nacional que discute usos éticos dessas tecnologias.

“As ferramentas de IA não assumem responsabilidade por nada. Quem responde é quem usa”, alerta. Em áreas sensíveis como a saúde, ela ressalta que a validação humana é indispensável. “Um profissional que traduz ou simplifica um texto assina o trabalho e pode ser responsabilizado. Em temas de saúde, isso pode envolver riscos à vida.”

Além da pesquisa acadêmica, o CorPop Saúde pretende impactar diretamente a formulação de políticas públicas de comunicação em saúde, alinhando-se à Política Nacional de Linguagem Simples, instituída pela Lei nº 15.263. O projeto prevê parcerias com outras universidades, programas de letramento e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, além da aplicação de questionários em diferentes regiões do país.

Ao organizar dados linguísticos e testar a compreensão real dos textos, o CorPop Saúde busca contribuir para uma comunicação mais justa, eficiente e segura. Para as pesquisadoras, garantir que a população compreenda informações médicas básicas não é apenas uma questão de linguagem, é uma condição para a autonomia, a equidade e o pleno exercício do direito à saúde.

Texto: Marcelo Rosinski, bolsista de Jornalismo do Jornal da Universidade

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