Artigo publicado na Revista Bio Diverso contém a síntese de 25 anos de coleta, revelando as novas espécies e os peixes ameaçados de extinção no local
23 de junho de 2026 às 10:22
Após 25 anos de pesquisas no Parque Estadual de Itapuã, o Laboratório de Ictiologia da UFRGS encerra o inventário local com grandes novidades: a catalogação de cinco novas espécies e o primeiro registro, no local, de outras 32 — que ainda não haviam sido encontradas nesta unidade de conservação gaúcha.
Ao todo, o Rio Grande do Sul abriga 422 espécies de peixes de água doce, distribuídas nas três principais bacias hidrográficas do estado: a bacia do Rio Uruguai, o sistema da laguna dos Patos e o sistema do rio Tramandaí. Apenas 13% dessas espécies são encontradas nos três sistemas hidrográficos, por isso a conservação desses espaços é de extrema importância.
De acordo com os novos dados do Laboratório de Ictiologia, o Parque Estadual de Itapuã abriga 92 espécies de peixes atualmente — uma lista com 32 nomes a mais do que o último mapeamento havia indicado, em 1996. Os achados foram publicados na Revista Bio Diverso.
“O Parque de Itapuã, por ser uma área de proteção integral, é extremamente importante, porque ele tem a maior conservação dos ambientes semelhantes aos ambientes ancestrais da região de Porto Alegre. Sempre que nós vamos trabalhar com uma área que sofreu muita influência humana, algumas espécies podem desaparecer dessas áreas, simplesmente por mudança do ambiente”, comenta Luiz Malabarba, professor do departamento de Zoologia da UFRGS e um dos autores do trabalho.

Entre as espécies recém descobertas, ele destaca três peixes elétricos: tuvira-de-sela (Brachyhypopomus gauderio), tuvira-dragão (Brachyhypopomus draco) e tuvira-tigre (Gymnotus cuia), encontrados nas lagoinhas. Também há o cascudinho-de-crista (Otothyris rostrata) e o bagrinho-da-areia-barrado (Scleronema macanuda), que ocorrem nos charcos — áreas de inundação de tamanho inferior a um lago — e nos riachos, respectivamente.
Os peixes elétricos detectam e geram campo elétrico no ambiente em que estão. Essa característica é usada na comunicação, detecção de presas, defesa, reprodução e mobilidade desses animais na ausência de luz. “Pelo menos três pessoas começaram a estudar os peixes elétricos do Parque de Itapuã e seus aspectos da biologia, como alimentação e reprodução. Elas também começaram a investigar as descargas elétricas do peixe, e isso nos ajudou a entender que, na verdade, aqueles bichos ali eram espécies novas”, relembra Juliano Ferrer, técnico de Coleções Zoológicas do Instituto de Biociências.
Outra contribuição da pesquisa foi o mapeamento de espécies invasoras. O penharol (Trachelyopterus lucenai), a corvina-de-rio (Pachyurus bonariensis) e o biruzinho-tracejado (Steindachnerina brevipinna) são peixes nativos da bacia do Prata que, por estarem em um ecossistema diferente, podem causar impactos na cadeia alimentar, nas condições físicas do ambiente e na pesca artesanal.
A má notícia que as coletas revelaram foi a inclusão de mais uma espécie à categoria “em perigo”. Em 1996, no último levantamento, apenas uma delas estava ameaçada de extinção. Agora, os pesquisadores também chamam a atenção para o bagre-branco (Genidens barbus), que sofreu diminuição drástica de indivíduos no Rio Grande do Sul e no Brasil.
O peixe-anual (Cynopoecilus nigrovittatus), que está há mais tempo na lista, é endêmico do bioma Pampa e encontra-se ameaçado devido à destruição e alteração de seu habitat. Nesse sentido, as unidades de conservação — como o Parque Estadual de Itapuã — têm um papel fundamental, tanto para a pesquisa, como para a manutenção da biodiversidade local.
Esses peixes se desenvolvem principalmente no inverno, quando as poças do parque estão cheias e se formam os charcos temporários. Eles se reproduzem na época de chuvas, porém não sobrevivem os meses seguintes, quando as poças secam. Somente os ovos permanecem, e se desenvolvem no ano seguinte, quando recomeçam as chuvas.
Com a publicação do levantamento no Parque Estadual de Itapuã, a pesquisa do Laboratório de Ictiologia assume novos horizontes. Agora, as coletas principais acontecem no Refúgio da Vida Silvestre Banhado dos Pachecos (em Viamão) e no Parque Nacional da Lagoa do Peixe (em Mostardas). No entanto, os pesquisadores afirmam que eventualmente retornarão à Itapuã, já que a tarefa de monitoramento deve ser constante.
“Tem algumas áreas que ainda não foram exploradas, porque são de difícil acesso. A gente tem que chegar nessas áreas, para ver se encontramos algumas espécies que a gente não captou até hoje, e reamostrar os locais que já foram explorados”, conclui Juliano.
Artigo: A importância da pesquisa científica em unidades de conservação: um estudo de caso sobre a ictiofauna do Parque Estadual de Itapuã (RS, Brasil)
Autores: Juliano Ferrer, Juliana Lopes da Silva, Fernanda Carello-Collar, Paula de Oliveira Bernardes, Dener Heiermann, Luís Felipe Florentino, Martin Klippel Lui, Thaís Flores Battistella, André Luiz Netto Ferreira, Luiz Roberto Malabarba
Programa/Unidade: Programa de Pós-graduação em Biologia Animal – Instituto de Biociências
Texto: Camila Fernandes de Souza, bolsista de Jornalismo do Jornal da Universidade