O estudo aponta que a falta de políticas públicas durante a emergência sanitária sobrecarregou professores do AEE e dificultou a aprendizagem de alunos com deficiência
30 de junho de 2026 às 16:20
A tese de doutorado da pesquisadora Carmen Horacina da Silva Carvalho buscou entender de que forma o Atendimento Educacional Especializado (AEE) foi realizado durante a pandemia de Covid-19. Ela concluiu que mesmo com a falta de políticas públicas que auxiliassem nesse processo, os professores fizeram o que estava ao seu alcance para garantir uma educação de qualidade para pessoas com deficiência, “Dentro do possível, fizemos muito.” afirma.
Analisando a própria vivência durante a pandemia como professora do AEE em uma escola pública localizada em uma colônia de pescadores no interior da cidade de Pelotas, Carmen sentiu a necessidade de compreender como outros professores da área enfrentaram diferentes obstáculos durante esse período.
Em tempos normais, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) acontece presencialmente dentro do ambiente da escola, em salas de recursos multifuncionais. Segundo a lei, elas devem ser equipadas com móveis acessíveis, materiais de ensino e recursos pedagógicos, como jogos educativos e outras atividades manuais que auxiliam no desenvolvimento de crianças que necessitam desse acompanhamento.
Porém, durante a pandemia, as escolas precisaram paralisar as suas atividades, assim como essas salas. A pesquisadora afirma que em alguns locais passou a ser papel do professor providenciar esses materiais, como letras do alfabeto e números que precisavam ser recortados e plastificados e depois entregues aos alunos, tirando o dinheiro para a produção muitas vezes do próprio bolso.
Segundo a tese A educação especial no Brasil em tempos de Pandemia de Covid-19 e a oferta de atendimento educacional especializado em contextos escolares, o poder público transferiu a responsabilidade e continuidade da educação às escolas, aos professores e às famílias, sem oferecer nenhum suporte financeiro, tecnológico (como internet e equipamentos) ou as orientações educacionais necessárias.
“Os materiais específicos para alunos com deficiência [que não tinham internet em casa] eram impressos pela escola e passavam pela minha revisão. Depois era feito o contato com a comunidade para que recebessem aquele material impresso também, que foi o que eu constatei na pesquisa: boa parte das escolas usaram o material impresso, por não ter o acesso à internet”, comenta Carmen.
Muitas crianças não tinham acesso à internet ou as famílias possuíam apenas um celular para atender as demandas escolares de mais de uma criança. Dados apresentados na tese evidenciam que essa dificuldade de realizar as atividades comprometeu a aprendizagem de alunos com necessidades especiais e agravou a evasão escolar, sendo as crianças entre 5 e 9 anos as mais atingidas. Houve um salto na taxa de evasão nesta faixa etária de 1,41% no último trimestre de 2019 para 5,51% no último trimestre de 2020.
Conforme a pesquisa, o AEE é um suporte extra oferecido pelas escolas para garantir que alunos com deficiência, transtornos ou altas habilidades consigam aprender e participar ativamente, sem enfrentar barreiras. Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas durante a pandemia, o serviço muitas vezes foi o único elo de manutenção de vínculos afetivos e comunicativos entre escola, alunos com deficiência e família.
Apesar de todos os esforços feitos na pandemia, a conclusão geral da tese é de que a garantia do direito à educação inclusiva e de qualidade não pode depender apenas de iniciativas individuais de educadores e familiares. A pesquisa mostra a urgência de que o Estado assuma seu papel, desenvolvendo políticas públicas robustas que promovam o investimento contínuo em tecnologias de informação e na formação docente para a Educação Especial.
Por fim, a pesquisadora relata que foi provocativo pesquisar esse tema: “Abriu espaço para muitas questões no foco do AEE e também para questionamentos da própria realidade do contexto educacional brasileiro”.
Tese: A educação especial no Brasil em tempos de Pandemia de Covid-19 e a oferta de atendimento educacional especializado em contextos escolares
Autor: Carmen Horacina da Silva Carvalho
Orientadora: Cláudio Roberto Baptista
Programa: Programa de Pós-Graduação em Educação
Texto: Diandra Conchy, bolsista de Jornalismo do Jornal da Universidade