Doutores da Universidade estão entre os destaques da premiação que figura entre as mais importantes distinções da ciência brasileira
09 de setembro de 2026 às 11:29
É na pesquisa que novas perguntas encontram caminhos e é também nela que uma universidade revela a dimensão do conhecimento que produz. Na edição do Prêmio Capes de Tese 2026, oito trabalhos desenvolvidos na UFRGS estão entre os reconhecidos pela premiação, uma das principais distinções da ciência brasileira. Quatro receberam o Prêmio Capes de Tese, e outros quatro foram contemplados com menção honrosa. Em todo o país, 49 teses foram selecionadas como vencedoras, e 96 receberam menção honrosa. A premiação reconhece pesquisas de doutorado defendidas no Brasil em 2025, nas diferentes áreas de avaliação que integram o Sistema Nacional de Pós-Graduação.
Conforme regulamento, os ganhadores serão contemplados com passagens aéreas e diárias para o autor e o orientador participarem da cerimônia de premiação, que ocorrerá em dezembro, certificados de premiação para autor, orientador, coorientador e programa de pós-graduação, medalha para o autor, prêmio de R$ 3 mil ao orientador e bolsa de pós-doutorado em instituição nacional, por até 12 meses, para o autor da tese premiada.
A ciência da UFRGS em destaque
Quatro áreas do conhecimento, quatro perspectivas de investigação e quatro trajetórias acadêmicas distintas se encontram entre os trabalhos da UFRGS agraciados com o Prêmio Capes de Tese. Física, Ciências Biológicas, Engenharia Civil e Arquitetura estão representadas entre as pesquisas premiadas nesta edição. Entre os autores está Juliano Caldas de Vasconcellos, docente do Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS.
Conheça os pesquisadores que conquistaram a honraria:

Gustavo Zottis Girotto foi premiado pela Investigação de nanopartículas plasmônicas de Ag-Cu: catalisadores promissores para a reação de fotossíntese artificial, defendido no Programa de Pós-Graduação em Física. O trabalho foi orientado por Fabiano Bernardi, com coorientação de André Rodrigues Muniz. O pesquisador salienta que a premiação reforça a convicção de que está capacitado para realizar pesquisa de alto nível e para contribuir de forma relevante para a ciência. “Esse reconhecimento também evidencia o potencial dos doutorandos e da pesquisa desenvolvida no PPG Física da UFRGS, mostrando que é possível produzir ciência de excelente qualidade e de impacto internacional a partir de uma universidade pública brasileira.” E complementa: “O prêmio aumenta minha responsabilidade de continuar fazendo ciência de qualidade e contribuindo para desafios estratégicos do nosso país, como o desenvolvimento de tecnologias para a geração de energia limpa a partir da luz solar”.
Zottis acrescenta que a tese buscou desenvolver e entender catalisadores capazes de transformar CO₂ em combustíveis, como o metanol, usando luz visível e água. “Sintetizamos nanopartículas de cobre e prata e estudamos seu funcionamento na conversão de CO₂. Utilizamos simulações computacionais e técnicas avançadas de caracterização de materiais no Sirius/CNPEM e ALS/Berkeley Lab para entender, em escala atômica, como os catalisadores se modificam durante a reação. O objetivo é contribuir para tecnologias de conversão de CO₂ em combustível usando energia solar”, argumenta.

João Pedro Ferrari Souza recebeu a distinção pelo trabalho Contribuição glial, genética e vascular para fisiopatologia da doença de Alzheimer no cérebro humano, apresentado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas: Bioquímica. O estudo foi desenvolvido sob a orientação do pesquisador Eduardo Rigon Zimmer, tendo como coorientador Tharick Ali Pascoal. João ressalta que a conquista é uma validação de que está no caminho certo e de que a produção desenvolvida pode fazer diferença na sociedade. “Dediquei os últimos anos a estudar a doença de Alzheimer, uma condição ainda sem cura que afeta milhões de pessoas e suas famílias em todo o mundo. Assim, fico ainda mais motivado a seguir fazendo ciência. Afinal, por mais complexas que sejam as perguntas que investigamos, a ciência é feita para as pessoas e é a elas que o conhecimento que produzimos deve servir.”
Conforme o médico, a tese buscou compreender a natureza multifatorial da doença de Alzheimer no cérebro humano. Combinando diferentes exames de neuroimagem com análises de sangue e líquido cefalorraquidiano, demonstramos que a inflamação cerebral, fatores genéticos e doenças cardiovasculares desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na progressão dessa condição neurodegenerativa. “Nossos achados ampliam o entendimento da doença de Alzheimer como resultado da interação entre múltiplos fatores e abrem caminhos para o desenvolvimento de tratamentos direcionados a novos alvos terapêuticos”, avalia.

José da Silva Andrade Neto está entre os pesquisadores reconhecidos pelo trabalho Advances in Understanding the Influence of Clinker Chemistry and Mineralogy on the Performance of Portland Cement, defendido no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil: Construção e Infraestrutura. Ana Paula Kirchheim orientou a pesquisa, que também contou com a coorientação de Paulo Ricardo de Matos. Docente na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), José sustenta que a distinção é uma forma de valorizar a universidade pública brasileira e, em especial, a UFRGS, onde fez o mestrado e o doutorado. “O prêmio confirma que é possível fazer ciência de ponta no Brasil, com forte conexão com o setor produtivo, e me dá ainda mais convicção do caminho que sigo agora como professor e pesquisador, formando novos profissionais e mantendo o vínculo com a indústria”.
Ele argumenta que a produção de cimento representa uma das principais fontes de emissões de gases do efeito estufa na construção civil. “A produção de cimento é responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂, originadas sobretudo da fabricação do clínquer, seu principal componente. Compreender como a química e a mineralogia desse material governam a reatividade do cimento é, portanto, decisivo para a transição da indústria”, revela.

Juliano Caldas de Vasconcellos, também docente da UFRGS, conquistou a premiação com o trabalho Pré-fabricação sem fábrica: pré-moldagem à brasileira de 1924 a 1968”, defendido no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura. O percurso acadêmico stricto sensu foi acompanhado pelo professor emérito Carlos Eduardo Dias Comas, e o recém-doutor analisa que a valorização coroa a trajetória de pesquisa desenvolvida no Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e reforça a importância de investigar a arquitetura moderna também a partir de sua dimensão construtiva. ” Vejo o prêmio ainda como uma valorização da história da engenharia brasileira e dos arquitetos, engenheiros e construtores que contribuíram para um período de extraordinária experimentação técnica no país”.
Ele detalha que a tese investiga o desenvolvimento do concreto pré-moldado no Brasil. Segundo Juliano Vasconcellos, a pesquisa mostra como arquitetos, engenheiros e construtores formularam soluções próprias, adaptadas às condições técnicas e produtivas do país, muitas vezes por meio da pré-moldagem realizada no próprio canteiro. “Ao recuperar obras, agentes e experiências pouco estudados, o trabalho revela a relevância da arquitetura brasileira e demonstra que o Brasil esteve, naquele período, na fronteira tecnológica mundial da construção civil”, reflete.
Menções honrosas
A produção científica da UFRGS também está representada entre as menções honrosas do Prêmio Capes de Tese 2026. Quatro pesquisadores da Universidade foram reconhecidos por trabalhos desenvolvidos nas áreas de ensino de Física, Computação, Planejamento Urbano e Regional e Engenharia Elétrica. São três homens e uma mulher entre os autores, incluindo Lucas Nunes Alegre, professor do Instituto de Informática da UFRGS.
Leia mais sobre os doutores laureados:

Kaleb Ribeiro Alho recebeu menção honrosa em razão da pesquisa “Interculturalidade no ensino de Ciências Físicas: desafios e potencialidades da Astronomia Cultural em escolas ribeirinhas amazônicas”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física. A pesquisa teve como orientador o professor e pró-reitor de Ações Afirmativas e Equidade Alan Alves Brito. Atualmente docente na Universidade Federal do Amazonas, Kaleb afirma que receber o prêmio é uma forma muito significativa de reconhecimento de um percurso científico construído ao longo de anos. “Esse reconhecimento não representa apenas uma vitória individual, mas também a valorização de conhecimentos e saberes que até então eram marginalizados e esquecidos pela academia, conhecimentos esses construídos há séculos por homens e mulheres ribeirinhos amazônicos que historicamente são invisibilizados nas pesquisas acadêmicas. Para minha trajetória profissional, reforça meu compromisso com uma pesquisa em Astronomia Cultural e em Educação em Ciências socialmente situada e comprometida com a realidade amazônica”.
Segundo ele, o estudo investiga como comunidades ribeirinhas da Amazônia constroem conhecimentos sobre o céu e estabelecem relações entre os astros, a terra, a água e seus modos de vida. O estudo identificou um sistema de conhecimentos astronômicos próprios que integram a tríade “céu–terra–água”, no qual constelações, estrelas, o Sol e Lua orientam atividades como navegação, pesca, caça e agricultura. “Os resultados evidenciam a importância de reconhecer esse sistema de conhecimento no ensino das Ciências Físicas (Física e Astronomia) e de construir uma educação mais plural, democrática e conectada às realidades amazônicas”, resume.

Lucas Nunes Alegre, docente na UFRGS, foi agraciado com a menção honrosa pelo trabalho Sample-Efficient Multi-Task and Multi-Objective Reinforcement Learning by Combining Multiple Behaviors, apresentado no Programa de Pós-Graduação em Computação. Ana Lucia Cetertich Bazzan foi responsável pela orientação do estudo. Para o pesquisador, a distinção representa a validação de anos de trabalho dedicado durante o doutorado e reforça a convicção de que a pesquisa que vem desenvolvendo em inteligência artificial (IA) e aprendizado por reforço tem relevância e impacto real, tanto na comunidade científica internacional quanto em aplicações práticas. “Esse prêmio me motiva a seguir investigando problemas fundamentais na área e atuando diante de desafios estratégicos com novos métodos inovadores, visando colocar a UFRGS em posição de destaque na área de aprendizado por reforço e IA”.
Lucas explica que a tese apresenta métodos que solucionam três grandes problemas em aberto na literatura de Inteligência Artificial, incluindo a primeira técnica de aprendizado por reforço capaz de solucionar, de forma ótima, sem necessidade de coletar dados adicionais, quaisquer novas tarefas de tomada de decisão sequencial envolvendo múltiplos objetivos conflitantes, como velocidade, segurança e consumo de energia. “As contribuições já geraram ferramentas de código aberto usadas por centenas de pesquisadores no mundo todo e dão um passo significativo para aplicações de IA mais robustas, escaláveis e seguras”, adianta.

Patricia Fernanda de Sousa Cruz se destacou com a menção honrosa pela tese “Cidade acaba com o sertão. Acaba?”: Narrativas cartográficas de um lugar-sertão no Piauí, do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional. O trabalho foi realizado com orientação do pesquisador Paulo Edison Belo Reyes. A pesquisadora compartilha a alegria de ter sido contemplada pela Capes. Segundo ela, a valorização é um reconhecimento de um percurso acadêmico que se fez com muitas andanças pelos sertões dos Gerais e do Nordeste brasileiro. “Agradeço, de modo muito especial, a cada sertaneja e a cada sertanejo que se dividiu comigo em suas histórias e experiências e que, com sua generosidade, tornou essa pesquisa possível”, aponta. Segundo a pesquisadora, essa distinção também é especial porque reconhece “uma pesquisa que atravessa fronteiras e nasce desses encontros; além de valorizar outras formas de pensar e fazer nos estudos urbanos e regionais”.
Patrícia informa que a tese investiga a relação entre cidade e sertão a partir da implantação da barragem da Pedra Redonda, no alto curso do rio Canindé, entre os municípios de Jacobina do Piauí e Conceição do Canindé, ambos no Piauí. “Minha pesquisa reflete como a ideia de cidade e os processos hegemônicos de urbanização incidem sobre os modos de vida de um lugar-sertão e, em contraponto, como o sertão absorve, recusa e/ou resiste a essas formas de produção do espaço. A tese reivindica, com isso, o sertão como lugar de produção de conhecimento sobre o urbano, mostrando que existem múltiplas e diversas maneiras de viver e habitar o mundo”, constata.

Rodrigo Borges Tavares completa a lista de menções honrosas da Universidade com o trabalho Modelo da máquina YASA pentafásica incluindo harmônicas espaciais e temporais, defendido no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica. Paulo Roberto Eckert orientou a pesquisa, que contou ainda com a coorientação de Luis Alberto Pereira. Docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSUL), Rodrigo comenta que, desde que entrou na Pós-Graduação em Engenharia Elétrica, sempre se sentiu motivado a aprender novos temas e a desenvolver estudos científicos. “Essa distinção serve como um incentivo para continuar atuando na minha área, que envolve o estudo teórico e o desenvolvimento de máquinas elétricas projetadas para aplicações específicas, como a mobilidade elétrica, um tema de grande relevância na atualidade”.
Ele acrescenta que a tese teve como foco a máquina YASA pentafásica, uma máquina elétrica de alto desempenho com potencial para aplicação em tração elétrica. Segundo o pesquisador, a tese propôs modelos analíticos inéditos para determinar os campos magnéticos, parâmetros elétricos e desempenho da máquina sob diferentes condições de operação. “Os modelos foram validados por simulações pelo Método dos Elementos Finitos e por experimentos com um protótipo, demonstrando sua consistência e aplicabilidade como ferramenta no projeto eletromagnético da máquina, no desenvolvimento do sistema de controle e na caracterização de desempenho”, garante.
Texto: Wagner Machado
Edição: Marcelo Sousa
Revisão: Cristina Thumé Pacheco