Pesquisadores do IPH acompanham a situação com boletins períodicos publicados a partir de simulações de vazões nos rios
23 de setembro de 2026 às 08:38
Neste ano de 2026, a primavera no Brasil vem acompanhada do já conhecido fenômeno El Niño. Rodrigo Paiva e João Paulo Brêda, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS), acompanham a situação hidrológica no país e fazem parte do grupo responsável pela divulgação de boletins de previsão essenciais para a preparação das cidades no enfrentamento de cheias e demais consequências de eventos extremos. Para os meses de setembro, outubro e novembro, eles indicam atenção especial para possíveis cheias na Região Sul e estiagem nas bacias hidrográficas do centro e centro-norte do país.
O acompanhamento periódico é divulgado na plataforma SARDIM (South America River Discharge Monitor), por meio de simulações de vazões nos rios a partir de dados de chuvas observadas diariamente por satélites. Segundo explica Rodrigo Paiva, no módulo de previsão hidrológica sazonal, são utilizados cenários de chuvas futuras levando em conta a influência do El Niño, como apresentado no material divulgado no final de agosto: “O boletim contém as previsões, suas interpretações e toda a descrição metodológica para quem quiser se aprofundar no funcionamento do SARDIM”, explica.
Segundo o pós-doutorando no IPH João Paulo Brêda, duas situações relevantes foram apuradas para a primavera no Brasil: estiagem na região central e possíveis cheias na Região Sul. “As condições atuais dos rios na região do centro e centro-norte do Brasil (que incluem as bacias hidrográficas do Tocantins, Xingu, Tapajós, São Francisco e alto Paraná) já estão abaixo do normal para o período, e, como nos próximos meses a quantidade de chuva é normalmente muito baixa nessa região devido à sazonalidade, a tendência é continuar com níveis bem abaixo do normal”, aponta. Para Brêda, os impactos mais comuns em anos de El Niño são condições mais úmidas do que o normal na Região Sul do país e condições mais secas no norte da Amazônia (bacia hidrográfica do rio Negro e vizinhas), mas, neste ano, há uma coincidência pelo fato de “a região central do Brasil também atravessar um período de estiagem que tem um sinal marcado, com alta confiança na previsão”, pontua.
Impactos diferentes
Sobre o impacto no Sul, o indicativo dos pesquisadores é de atenção redobrada, pois “em anos comuns já existe um risco considerável de ter cheia durante a primavera, e em anos de El Niño esse risco é ainda maior”, salienta João Paulo Brêda. Para ele, “os gaúchos devem estar preparados, atentos às previsões de curto prazo elaboradas por órgãos competentes como o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do governo estadual, assim como aos serviços de alerta da Defesa Civil”. Ele reforça que há maior probabilidade de eventos de inundação durante anos de El Niño, porém isso não quer dizer que eles necessariamente ocorrerão. Os pesquisadores explicam ainda que vazão acima do normal não significa necessariamente situação efetiva de risco de cheia: “Vazão acima do normal significa que o volume total escoado pelos rios ao longo do mês será maior do que ocorreria em um ano normal. Já o risco de cheia indica uma probabilidade de ocorrer uma cheia (níveis elevados nos rios), mesmo que durante um curto intervalo de tempo”, detalha Rodrigo Paiva.
Por outros motivos, a atenção de risco hidrológico também recai nas áreas centro e centro-norte do país: “Essas regiões são bastante sazonais. As vazões atingem seu mínimo anual nos meses de setembro e outubro, e a vazão está atualmente abaixo do normal até mesmo para o período de estiagem. Como essa região tem uma memória hidrológica mais longa (solos mais profundos), a tendência é que a condição dos rios demore mais para se recuperar”, expõe Rodrigo Paiva. Segundo o professor e pesquisador do IPH/UFRGS, a previsão que considera a influência do El Niño ainda indica que os níveis dos rios continuam abaixo do normal mesmo em novembro, quando a estação chuvosa já estará bem consolidada.
Sobre a plataforma
Os boletins de previsão hidrológica sazonal e os avanços recentes da plataforma SARDIM são elaborados no contexto do projeto de pesquisa “Desenvolvimento do Modelo Nacional das Águas” em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). A plataforma também tem suporte do projeto de pesquisa “Aprimoramento de Sistema de Alerta de Cheias para o Rio Grande do Sul Hidrológico” em parceria com o Serviço Geológico do Brasil – Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (SGB/CPRM).
Uma nova versão do boletim de previsão hidrológica sazonal deve ser lançada na plataforma SARDIM até o fim deste mês, considerando então os meses de outubro, novembro e dezembro.
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