Artigo de pesquisadores da UFRGS é premiado em competição global da Royal Society

Texto destaca urgência de uma ação global que incorpore a dimensão microbiana das mudanças climáticas

20 de fevereiro de 2026 às 10:36
Grupo de pesquisadores da UFRGS, autores do artigo premiado - Foto: Arquivo pessoal

O artigo “Decoding microbial signatures: an interdisciplinary call in a warming world” (Decodificando assinaturas microbianas: um chamado interdisciplinar em um mundo em aquecimento), de autoria de pesquisadores da UFRGS, é o vencedor da competição que celebrou os 20 anos da Journal of the Royal Society Interface, importante revista científica internacional, publicada pela Royal Society – do Reino Unido –, focada em pesquisas interdisciplinares. Lançada em 2024, a competição convidou a comunidade científica internacional a refletir sobre a perspectiva dos estudos interdisciplinares nos próximos 20 anos. O prêmio é de mil libras esterlinas (cerca de R$ 7 mil).

O texto destaca que o combate ao aquecimento global exige compreender as comunidades microbianas, que, com o aumento das temperaturas globais e a maior frequência de eventos climáticos extremos, sofrem mudanças significativas, alterando sua composição e função. Essas mudanças não apenas influenciam a estabilidade dos ecossistemas, a dinâmica das doenças e a resiliência ambiental, mas também contribuem diretamente para a perda de biodiversidade em nível microbiano. O enfrentamento desses desafios exige pesquisa interdisciplinar, integrando microbiologia, ciências ambientais, física e modelagem computacional para prever as respostas dos ecossistemas microbianos.

As doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular Manoela Mace, Victoria Pommer e Maria Eduarda Krummenauer, ao tomarem conhecimento da premiação, decidiram escrever um artigo com uma temática de importância social unida ao objeto dos seus estudos e contaram com a participação de outros pesquisadores (ver abaixo os nomes de todos os autores e respectivas áreas de atuação). As alunas explicam a motivação para participar: “Queríamos escrever sobre algo que realmente importasse para nós. Em 2024, Porto Alegre vivenciou a maior enchente de sua história; diversos bairros permaneceram submersos por dias, com as políticas públicas levadas ao limite. Mais uma vez – após a pandemia de covid-19, que também foi devastadora para o Brasil em meio a profundas falhas na gestão da saúde pública – fomos confrontados com as consequências tangíveis das mudanças climáticas em múltiplas dimensões da vida e da ciência. Inspiradas por essas experiências e pelo livro What If Fungi Win?, de Arturo Casadevall, decidimos definir nossa contribuição explorando as fronteiras da nossa própria pesquisa”. Victoria Pommer acrescenta que o grupo viu a competição como uma oportunidade de reunir questões urgentes e interconectadas; “questões que não apenas exigem debate agora, mas que podem moldar profundamente o futuro do nosso planeta nos próximos 20 anos”, afirma.

Os autores acreditam que a premiação pode contribuir para ampliar a visibilidade da urgência de uma ação global que incorpore a dimensão microbiana das mudanças climáticas. “Nossa universidade abriga projetos extraordinários que exploram diferentes biomas e realidades, mas mesmo diante dessa riqueza, ainda há espaço para fortalecer colaborações e diálogos mais integrados. A ciência brasileira tem um potencial imenso: uma diversidade única de ecossistemas, perguntas científicas relevantes e perspectivas que precisam ser exploradas com profundidade e responsabilidade. Acreditamos que um país precisa investir de forma contínua em ciência e que políticas públicas devem ser construídas com base em dados, análise crítica e conclusões bem fundamentadas. Nesse sentido, esperamos que este artigo ajude a abrir discussões”, avalia Victoria.

Interdisciplinariedade

O reconhecimento da Royal Society, academia científica mais antiga do mundo, é resultado do trabalho integrado de pesquisadores de diferentes áreas, como explica Victoria: “Em nossas pesquisas, buscamos constantemente cruzar diferentes campos do conhecimento para compreender processos biológicos complexos em um mundo em transformação”.

Victoria Pommer desenvolve sua pesquisa sobre fungos de ambientes costeiros e marinhos, como a Restinga do Rio Grande do Sul, e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, com foco na identificação taxonômica de novas espécies. Maria Eduarda Krummenauer investiga interações patogênicas polimicrobianas, com o objetivo de compreender melhor o desenvolvimento da tolerância a antimicrobianos e como esse processo pode ser influenciado pelas mudanças climáticas. Manoela Mace dedica-se ao estudo dos mecanismos moleculares que sustentam a aptidão competitiva de Cryptococcus gattii, uma levedura patogênica que expandiu seu nicho ecológico em um mundo em aquecimento. O professor Mendeli Henning Vainstein, do Instituto de Física da UFRGS, atua principalmente em simulações computacionais e teoria de jogos. Os professores Augusto Schrank e Marilene Henning Vainstein lideram há mais de 20 anos laboratórios no Centro de Biotecnologia da UFRGS e atuam em projetos que integram pesquisas na microbiologia e na biotecnologia.

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