Solenidade histórica marca o compromisso da UFRGS com a luta antirracista e com a proposta de ser uma instituição plena para todas as pessoas
29 de novembro de 2025 às 21:40
Na noite de sábado, 29 de novembro de 2025, a UFRGS realizou uma cerimônia histórica ao conceder sua honraria máxima, o título de Doutor Honoris Causa, ao rapper, cantor e compositor Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. O público presente no Salão de Atos prestigiou uma solenidade marcada pelo sentimento de Ubuntu, recebendo em conjunto o diploma com o homenageado.
“Hoje é um momento histórico para esta Universidade que, na semana de seu aniversário, tem a oportunidade de promover o reconhecimento de outros saberes que constituíram e constituem o nosso país e que ficaram de fora das narrativas oficiais de quem colonizou, escravizou, enriqueceu e tomou para si a nação e a universidade brasileira”, destacou o vice-reitor, Pedro Costa. “Este dia é marcado por mais um gesto para a desconstrução de um modelo elitista e excludente, que deve dar lugar a uma universidade aberta e plural”, completou.
Fotos: Flávio Dutra/Secom UFRGS
Retomando a citação de versos de Emicida pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia em voto proferido na ação que discute a omissão do Estado na garantia de direitos da população negra – “a felicidade do branco é plena; a felicidade do preto é quase” –, o vice-reitor refletiu sobre a importância de as instituições sociais responderem às mudanças trazidas pelo seu tempo e de assumirem o compromisso de serem plenas para todas as pessoas. “A universidade precisa dar conta das grandes questões e das grandes injustiças do nosso tempo e precisa, também, ser povoada pela presença das pessoas que foram historicamente excluídas, para que possa, em vez de perpetuar passados opressores e desiguais, construir novos futuros”, disse Costa.
Proposta pela Faculdade de Educação (Faced) em conjunto com o Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia (Cenp), o Coletivo UFRGS Negra, Movimento Negro Unificado (MNU) no Rio Grande do Sul e o Diretório Central dos Estudantes (DCE), a outorga do título de Doutor Honoris Causa a Emicida teve aprovação unânime do Conselho Universitário (Consun). A decisão considerou a potência transformadora da cultura hip-hop, a legitimidade dos saberes produzidos na diáspora africana no Brasil e o papel fundamental da juventude negra e periférica na construção de um país mais justo. O Consun ressaltou, ainda, as dezenas de pesquisas acadêmicas (entre teses, dissertações e trabalhos de conclusão de curso) que têm Emicida e sua produção poética como objeto de estudo.
Com transmissão ao vivo pelo canal da UFRGS TV, a solenidade integra a programação do Festival UFRGS Negra. Em sua terceira edição, o evento se inspirou nas palavras de Emicida para elaborar o tema deste ano: “A universidade é nóiz”.
Das quebradas para o Salão Nobre
O paulistano Leandro Roque de Oliveira é formado em Desenho pela Escola de Arte de São Paulo. No entanto, o maior poder de seus traços está nas palavras. Seu pensamento afiado e sua linguagem mordaz nas batalhas de freestyle, arte de improvisação do rap, lhe renderam o apelido artístico de Emicida: fusão da sigla MC com a palavra homicida, em alusão a sua performance “assassina” na poesia. O nome também funciona como uma sigla: E.M.I.C.I.D.A (Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte).
Considerado um intelectual orgânico das periferias que utiliza sua arte como ferramenta para a conscientização, o rapper se estabeleceu como uma figura central nos debates sobre identidade, história e luta antirracista no Brasil. Sua titulação, como destacado pela oradora Eliane Duzac, representa uma abertura simbólica de portas antes fechadas às epistemologias que surgem das quebradas e reforça o compromisso da UFRGS com a inclusão, a justiça social e a construção de uma universidade antirracista.
Com uma obra que permite aos educadores desconstruir estereótipos e mediar discussões sobre diversidade étnico-racial em sala de aula, Emicida contribui para a superação de uma lacuna curricular importante, relativa ao ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio (Lei 10.639/03), conectando-as à realidade dos estudantes.
A mesa cerimonial foi composta pelo vice-reitor Pedro Costa, pela diretora da Faculdade de Educação (Faced), Aline Cunha, pelas oradoras Eliane Duzac, aluna do curso de Pedagogia e representante do Coletivo de Alunos Negros da UFRGS, e Carla Zhammp, coordenadora-geral do Museu da Cultura Hip-Hop RS, e pela secretária do Conselho Universitário (Consun), Rosemeri Antunes, que deu início à solenidade com a leitura da Resolução n. 318, de 7 de novembro de 2025, que aprova a concessão do título de Doutor Honoris Causa a Emicida.
“É importante dizer que, para nós, estudantes, professores e trabalhadores negros desta Universidade, Emicida não é apenas inspiração. Ele é referência, é espelho, é caminho. Ver este título ser entregue significa respirar um pouco mais fundo. Significa saber que nossos saberes não são exceção; que nossa história não é rodapé. Que nossa presença aqui não é concessão, é direito”, afirmou Eliane.
A futura pedagoga falou sobre a contribuição política e epistemológica do rap à educação. “Integrar o rap às práticas pedagógicas significa ampliar o repertório sensível e crítico. Seremos docentes capazes de dialogar com os territórios onde a vida pulsa, reconhecer saberes populares, legitimar narrativas periféricas e compreender que educação também é cultura, identidade e resistência”, refletiu. “Ele traz consigo a periferia, os corpos que historicamente foram empurrados para fora dos espaços de prestígio, histórias que raramente ocupam púlpitos acadêmicos”, pontuou.
“Como é estratégico te ter aqui! Teu simbolismo, visibilidade e trajetória nos dão voz”, acrescentou a também MC e coordenadora-geral do Museu da Cultura Hip-Hop RS, Carla Zhammp. “Nós, assumindo o papel de mostrar o caminho, de educadores”, afirmou, reforçando a importância do hip-hop para a cultura ancestral negra e para a construção de uma sociedade antirracista.
Ubuntu
Visivelmente emocionado, o homenageado da noite agradeceu aos presentes frisando a importância da capacidade de improvisar. “Para mim é muito especial receber este título de uma universidade pública e também do estado que nos deu Oliveira Silveira, Lupicínio Rodrigues, Mario Quintana, Rafa Rafuagi e que tem nos presenteado com a (rapper) Cristal”, declarou.
Ao agradecer a indicação para o título, Emicida lembrou que o lançamento de sua primeira música ocorreu em evento promovido pelo DJ Gê Powers: “Foi aqui, em Porto Alegre, que eu toquei ‘Triunfo’ pela primeira vez”. Os versos provocativos desta composição apresentam a visão de mundo do artista: “Não escolhi fazer rap não, na moral / O rap me escolheu porque eu aguento ser real / Como se faz necessário, tiozão / Uns rimam por ter talento, eu rimo porque eu tenho uma missão / Sou porta-voz de quem nunca foi ouvido”.
Ele também sublinhou o caráter coletivo do título. “Tudo isso não é uma conquista do Emicida, tudo isso aqui é de verdade, e eu ouso ser indicado por um coletivo de estudantes negros em um contexto como o que nós vivemos neste país, sabendo o quanto o cotidiano pode ser árduo para um jovem negro e para uma jovem negra”.
Invocando a amplitude da filosofia africana, reforçou a relevância de se tornar a causa uma ação que beneficie a coletividade como um todo: “Não existe ferramenta mais poderosa neste intuito do que a educação. A segunda metade da palavra Ubuntu – ntu – abriga um conceito de existência tão amplo, uma noção de coletividade e de comunidade tão absurda, que eu só consigo traduzir como aquele sentimento que se tem quando você tromba com seu parceiro, sua parceira e fala: ‘É nóiz!’”.
Emicida fez um apelo para que o reconhecimento pela UFRGS seja um convite a uma compreensão do racismo pelo seu antônimo: a ternura. “Nós temos a possibilidade de inventar outra forma de existir, ampliando nossa cultura e abraçando outras. Se existe um lugar em que se pode recobrar a condição de humanidade, ele se chama Brasil”, encerrou.
Texto: Cristiane Miglioranza
Edição: Wagner Machado
Revisão: Cristina Thumé Pacheco