Gilberto Gil é o novo Honoris Causa da UFRGS

Artista agradeceu a honraria, celebrando a importância das ações humanas e afirmando o valor dos pequenos gestos, sentimentos e pensamentos no cotidiano

05 de setembro de 2025 às 19:21
Fotos: Rochele Zandavalli, Pietro Scopel e Flávio Dutra | Secom-UFRGS

O público que teve o privilégio de acompanhar a cerimônia de concessão do título de Doutor Honoris Causa para Gilberto Gil, na tarde desta sexta-feira, 5 de setembro, no Auditório Ipê assistiu uma aula sobre simplicidade e empatia.

A honraria, já entregue a grandes personalidades como ao educador e filósofo Paulo Freire e aos escritores Érico Verissimo, Mário Quintana e José Saramago, foi proposta pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS e aprovada pelo Conselho Universitário (Consun) em março desde ano.

Em entrevista aos veículos de comunicação da UFRGS, concedida minutos antes do recebimento da homenagem, o cantor e compositor baiano falou sobre o que considerava mais urgente e necessário transformar nas universidades brasileiras. “A primeira coisa é o apoio material. Pelo que sei, as universidades sofrem muito com as restrições orçamentárias. Governos de todas as esferas, industriais e comunidades associadas a empreendedores, isto é, todos que têm um papel na construção do mundo coletivo, têm como tarefa principal produzir esse aporte mais efetivo de recursos para a vida universitária. Cumprida essa primeira tarefa, é importante dar conta de questões como prover quadros para o ensino e se dedicar ao trabalho natural de estímulo ao convívio mais intenso e amplo entre estudantes e professores”. Para Gil, a palavra-chave é fazer, porque há muito a ser feito.

Na sequência, em um momento reservado na Sala Abacateiro do Centro Cultural, Gil foi recebido por integrantes da Administração Central e fez a assinatura do Livro de Ouro, no qual estão registradas as mensagens dos mais de 70 doutores que o antecederam no recebimento da deferência.

Saudação

A sessão solene teve início quando o diretor do IFCH Hélio do Couto Alves conduziu o homenageado à mesa do cerimonial, onde já o aguardavam a reitora Marcia Barbosa, o vice-reitor Pedro Costa e o orador Vitor Queiroz, professor do Departamento de Antropologia.

Pedro Costa fez a leitura da decisão do Consun e, a seguir, o orador Vitor Queiroz apresentou seu discurso de saudação. No texto, relembrou o exílio do artista em Londres, em 1969, que deixou o país por conta das arbitrariedades impostas pelo Ato Institucional nº 5. Destacando a verve criativa de Gil, ao citar canções como Back in Bahia, ele frisou que nessas e em outras criações o autor passou a cantar que “apenas vez em quando se sentia longe, e que era nesse instante que ele se reencontrava”. Conforme, Vitor, essa sensação de estranhamento, reencontro e reordenação de si no convívio com o outro é familiar a todo pesquisador e aos antropólogos em particular. “Esse deslocamento, em muitos sentidos, descreve bem o nosso método por excelência: a etnografia”, afirmou, lembrando o pensamento de Claude Lévi-Strauss, para quem tal como acontece com as matemáticas ou com a música, a etnografia é uma das raras vocações autênticas. Sendo possível descobri-la dentro de nós mesmos sem nunca a termos aprendido.

O antropólogo disse ainda que a justificativa para o Pós-Graduação em Antropologia Social e o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas proporem esta homenagem a Gilberto Gil “ultrapassa qualquer semelhança fortuita entre uma condição, a de exilado, e os sentimentos de desencanto e encantamento simultâneos, de estranhamento e auto-percepção que qualificam tanto a obra do nosso artista quanto nosso oficio”.

Como ministro da Cultura, entre os anos de 2003 e 2008, Gil colocou em prática a maior transformação na história daquela pasta. “A atuação do ministério caracterizou-se, dentre outras coisas, pelo estímulo à criatividade em diversos níveis; a valorização econômica, artística e intelectual da chamada cultura popular, negra e indígena; a capilaridade e o descentramento de todas as suas iniciativas e, além disso, pela inclusão digital, o acesso e a criação de novas mídias”, enfatizou o orador. Ainda segundo ele, a ideia central da gestão do artista no Minc encarava a cultura nacional como um corpo cultural, um sistema dinâmico que integra o dia a dia dos brasileiros, mantendo-se aberto ao tempo, ao espaço e à dialética permanente entre a tradição e a invenção. “O Minc de Gilberto Gil afastava-se da concepção estreita e elitista que havia regido a política cultural brasileira até então e retomava velhos sonhos que ainda não tinham sido e talvez nunca sejam plenamente realizados, renovando o espírito da Constituição de 1988 que reconhecia nossa pluralidade cultural e que indicava, antes da Unesco, a necessidade de alargar as noções de herança, patrimônio e memória”, celebrou Vitor.

O orador encerrou seu discurso afirmando que os verdadeiros premiados são os integrantes da comunidade universitária: “É a academia que deve se curvar diante de Gilberto Gil, que  recebe o título de doutor honoris causa por todos os seus méritos de produção artística e reflexiva, por seus inúmeros ensinamentos e por sua atuação social lúcida e necessária em muitos níveis, formais e não formais, mediados e transcendentes, infinitos e infinitesimais. Que bom que ele nos concede, hoje a honra de homenageá-lo”!

Ciência e arte

A reitora Marcia Barbosa saudou a plateia reiterando que a UFRGS é uma universidade pública, gratuita e de excelência que pertence ao povo brasileiro e que duas características marcam a sua história institucional: visão e coragem.

Para sustentar essa afirmação, a dirigente lembrou que a UFRGS lançou seu Programa de Ações Afirmativas antes da criação da lei federal: “E isso gerou hoje inúmeras lideranças negras neste estado, que tem uma tradição tão conservadora. Esta universidade, quando desafiada, ampliou em 30% o número de vagas e criou novos cursos. Se mobilizou para ter mais pessoas da população pobre aqui dentro, porque sabe que o ensino de excelência é um caminho fundamental para criar novas lideranças com novas visões de mundo. Em maio deste ano, com todas as restrições orçamentárias, esta universidade criou uma Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade, para garantir que todos e todas que ingressem tenham o direito de terminar e ter o seu diploma; e a gente ter uma sala com esta no futuro, em que o maior percentual do público não seja de pessoas brancas”.

Ao analisar a obra de Gilberto Gil, Marcia disse ter encontrado esse mesmo DNA marcado pela visão e pela coragem. Como uma professora de física teórica, a reitora revelou que o trabalho que mais a encanta é o disco Quanta, lançado em 1997. “Quanta é o plural de quantum, que é o menor pacote de energia que pode existir. É uma partícula muito estranha, porque é ora partícula, ora onda. Se vocês forem acompanhar a música que dá nome ao disco – que prometo não cantar – perceberão que essa transição de ora falar do concreto e ora trazer essa onda que é a musicalidade faz a conexão entre a ciência, que às vezes é tão dura, com a musicalidade da arte. Para fazer este caminho, é preciso ter uma enorme coragem e uma visão de mundo que entende que a ciência não pode ser uma coisa desconectada da arte”, avaliou.

Por fim, a reitora citou a letra de outra canção Ciência e Arte, também do álbum Quanta, para dizer que “por meio dessa música, que mostra o valor do povo brasileiro, que tem a ousadia de dizer que nós podemos realizar as coisas, homenageia um grande marco da Física que é César Lattes – reconhecido por todos não por sua história, mas porque virou nome de currículo. É esse caminho, que faz pontes e que traz para a ciência dura, ética, reconhecimento, equidade e diversidade, que nos une como Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E, certamente é esse caminho unificador com esse novo doutor Gil, que nos honra por aceitar essa pequena homenagem desta casa”.

A vida de um é a vida de todos

Gilberto Gil iniciou sua fala agradecendo pelas palavras dos que o antecederam. Singelamente, confessou não haver preparado um discurso para a ocasião. Ao tentar explicar à plateia os motivos para essa atitude, disse que talvez fosse decorrência da busca do sossego natural que a velhice, o passar do tempo e o escoar dos anos produzem em determinadas pessoas. “No meu caso, possivelmente para fugir do desasossego de ter que imaginar coisas a dizer a vocês. Por isso, adotei esse sossego do silêncio, da contenção, da economia verbal que, afinal, acaba não sendo cumprido, porque apesar de ter vindo aqui para não dizer nada, acabo dizendo tanta coisa”, comentou.

O músico manifestou sua satisfação por ter ouvido da reitora a menção à música Quanta, que considera como um dos momentos lapidares de seu trabalho como pessoa interessada na visão poética das coisas. Recitou, então, a primeira estrofe da letra: “Quanta do latim, plural de quantum / Quando quase não há / Quantidade que se medir / Qualidade que se expressar”. Brincando e filosofando sobre a letra, acrescentou: “No campo da especulação sobre a realidade no mundo físico, enfim, admitimos que o que é, pode ao mesmo tempo não ser; o que está, pode ao mesmo tempo não estar; ou o que está, pode ao mesmo tempo estar para mais além. O mistério quântico é algo que tem me interessado muito. Até confesso à professora que, em minhas últimas leituras, esse mistério profundo da mecânica quântica tem sido um dos meus grandes interesses”.

Gil também saudou a reitora por ter escolhido pesquisar um campo tão vasto e estranho quanto a Física e, terminou sua fala agradecendo novamente pela concessão da honraria pela universidade. “Vim aqui para não dizer nada, e acabei dizendo um monte de coisas! Queria, mais uma vez agradecer a vocês por terem vindo, por terem atribuído a esse momento um papel distinto, corroborando o fato de que a vida de vocês é feita da vida de todos nós; de que tudo que está ao redor de vocês, nas mãos, nos pés, nos corpos, nas lentes e nos corações de todas as pessoas lhes diz respeito e importa para vocês. Tudo o que as pessoas fazem tem importância: seus pequenos gestos do cotidiano, os fragmentos mínimos de seus sentimentos e pensamentos têm importância para si e para todos”, concluiu.


Confira como foi a cerimônia de outorga do título de Doutor Honoris Causa da UFRGS na transmissão da UFRGSTV


Texto: Ânia Chala
Edição: Wagner Machado

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