MÍDIAS, GLOBALIZAÇÃO E POÉTICAS
Elaine Indrusiak, Claudio Zanini e Lúcia Sá Rebello
O fenômeno da globalização, compreendido aqui para além de sua faceta econômica, caracteriza-se por uma livre circulação de capitais, bens, produtos, pessoas e, é claro, textos. Para tanto, demanda o cruzamento desimpedido de fronteiras, não raro resultando em seu completo apagamento, solapando regionalismos e nacionalismos que se pretendiam homogêneos e monolíticos. Os trânsitos estão na ordem do dia, a ponto de o meio revestir-se da mesma relevância antes reservada à mensagem (MCLUHAN, 1994), evidenciando que a fluidez de contornos e de limites extrapola o âmbito da geografia para se manifestar, também, nas poéticas que embasam a produção artística. Impulsionada pela revolução digital, a convergência cultural (JENKINS, 2006) instaura um novo paradigma de produção, circulação e consumo de produtos culturais, invertendo fluxos, desconstruindo hierarquias e elevando a natureza plural, híbrida e intersemiótica da arte a insuspeitados patamares. Examinar nexos do literário com outras manifestações através da análise intermidiática, introduz as pesquisas comparatistas junto aos imperativos da era global.
Referências
- JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where old and new media collide. New York: NYU Press, 2006. KEOHANE, Robert O. (Org.). Neorealism and its critics. New York: Columbia, 1986.
- MCLUHAN, Marshall. Understanding Media: The Extensions of Man. Cambridge: MIT, 1994.
EIXO 3 — DATA E ORDEM DAS COMUNICAÇÕES
23 de outubro (quarta)
Local: Prédio da FACED, sala 612.
1 The Remake Aspect of Bates Motel, Arthur Maia Baby Gomes.
2 O Barril de Amontillado: Como o conto de Edgar Alan Poe é revisitado na obra musical da banda The Alan Parsons Project e no vídeo de Ace Gallagher Productions, Débora Almeida de Oliveira.
3 O desenvolvimento de personagens na romantização de histórias de origem de The X-Files, Eduarda De Carli.
4 “You Don’t Own Me”: o papel da trilha sonora na caracterização da personagem June Osborne em The Handmaid’s Tale, Fernanda Nunes Menegotto.
5 Cenas de um casamento: Ingmar Bergman e as séries de TV contemporâneas, João Fabricio Flores da Cunha.
6 Rupturas e costuras: o tempo na ficção científica com a máquina de Wells e os ciclos de Dark, Lis Yana de Lima Martinez e Alisson Preto Souza.
24 de outubro (quinta)
Local: Prédio da FACED, sala 612.
7 Do papel às telas? O cenário gótico em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2000) e em Harry Potter e a Câmara Secreta (2000), de J. K. Rowling, Caroline Navarrina de Moura e Fabian Quevedo da Rocha
8 O gótico sulista: adaptação do ambiente em diferentes mídias, Icaro Carvalho e Bruno Amaral Dariva
9 Transmidiação e representação de mídias na Literatura Comparada: buscando sentidos, Ana Cláudia Munari Domingos
10 Quantas Brancas de Neve: adaptações e traduções intersemióticas, Daniel Soares Duarte
11 A influência dos leitores ubíquos “destacadores” no dispositivo de leitura Kindle, Jaimeson Machado Garcia
12 O sujeito pós-moderno em Star Wars: uma análise das migrações entre os lados da luz e da sombra, Alexandre Kirst de Souza
13 Adaptation and Transmedia Storytelling in the Telltale Games,Rosana Ruas Machado Gomes
25 de outubro (sexta)
Local: Prédio da FACED, sala 612.
14 As reminiscências da presença-ausência em Elena, de Petra Costa, Bruna Farias Machado
15 A produção multimidiática de sujeitos desajustados em “A arte de produzir efeito sem causa”, “O natimorto” e “Miguel e os demônios” de Lourenço Mutarelli, Cláudia Erthal
16 Reescrevendo a si mesmo: translados metaficcionais e identitários entre os EUA e o Leste Europeu, Rust Costa
17 Roberto Arlt e seu Brinquedo Raivoso em livro e filme, Alan Noronha
18 Costuras com a Palavra – A Escrita Criativa Numa Perspectiva Interdisciplinar, Geysiane Aparecida de Andrade
19 Performance em Geni e o Zepelim: A entoação e a dramatização de uma personagem marginalizada, Elisa Hübner Alves
20 A morte em carne e osso: uma análise de personagem em As intermitências da morte, de José Saramago, e em O sétimo selo, de Ingmar Bergman, Samla Borges Canilha
EIXO 3 — RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES
1 The Remake Aspect of Bates Motel
Arthur Maia Baby Gomes
From 2013 to 2016, the TV show Bates Motel presented a younger version of Norman Bates, the protagonist of the famous Alfred Hitchcock’s movie Psycho (1960). But in 2017, in its fifth and last season, the show would adapt parts of the original movie’s plot: Marion Crane, a young lady with a bureaucratic job steals money from her employees and flees from town, finally having the means to live with her boyfriend, Sam. She ends up in the Bates Motel in the middle of the road and is welcomed by Norman, who is secretly a disturbed serial killer and has a double personality, himself and his deceased mother Norma. This work aims to discuss what I am calling “the remake aspect”, according to Verevis’ definition of remakes (2017) and considering that Bates Motel is not proposed as a remake itself but makes use of elements of this form of dialogue between artistic works. Therefore, the way the recent TV show portrayed classic scenes, dialogues and characters is revealing of what is being purposed with this adaptation. According to Linda Hutcheon (2013), works that are adapted from a previous one also have its own context of production, and it is telling of how they appropriate their originals. And the Bates Motel version of Marion Crane and the development of her plot differ in many ways from Psycho and even Psycho’s 1998 Gus Van Sant’s remake, making itself in accordance to the moment of the feminist movement in the mainstream media, and to the status of television shows in the 21st Century, what Jason Mittell calls Complex TV (2015). For the author, contemporary TV shows are narratively structured in a more complex way than in the past century, and in time, this becomes what is expected from them. As Bates Motel portrays a famous story that is more than fifty years old, it ends up playing with classic tropes, but considering the contemporary audience it is aiming at.
Referências
- DREAMS Die First (Temporada 5, episódio 5). Direção de Nestor Carbonell. Produção de Anthony Cipriano, Carlton Cuse e Kerry Ehrin. Universal City: Universal Television, 2017. (44 min.), son., color. Série Bates Motel. Disponível na plataforma de streaming Netflix. Acesso em: 20 mar. 2018.
- HUTCHEON, Linda; O’FLYNN, Siobhan. A Theory of Adaptation. 2nd ed. London/New York: Routledge, 2013.
- MARION (Temporada 5, episódio 6). Direção de Phil Abraham. Produção de Anthony Cipriano, Carlton Cuse e Kerry Ehrin. Universal City: Universal Television, 2017. Son., color. Série Bates Motel. Disponível na plataforma de streaming Netflix. Acesso em: 14 set. 2019.
- MITELL, Jason. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling. New York: New York University Press, 2015.
- PSYCHO. Direção e produção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Joseph Stefano. Los Angeles: Shamley Productions, 1960. 1 DVD (109 min), son., preto e branco.
- VEREVIS, Constantine. Remakes, Sequels, Prequels. In: LEITCH (org.). The Oxford Handbook of Adaptation Studies. Oxford: Oxford University Press, 2017.
Palavras-chave: Alfred Hitchcock; remake; Bates Motel; Psycho; adaptation.
2 O Barril de Amontillado: Como o conto de Edgar Alan Poe é revisitado na obra musical da banda The Alan Parsons Project e no vídeo de Ace Gallagher Productions.
Débora Almeida de Oliveira
Na obra The Cambridge Companion to Edgar Alan Poe (2002), o autor Mark Neimeyer afirma que o Edgar Alan Poe é “um ícone da cultura popular” (p. 206). De fato, alusões às obras de Poe são amplamente percebidas em diversas outras mídias, como filmes, séries, novelas, desenhos animados, músicas, vídeos produzidos para o canal Youtube, etc. Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo lançar sobre Poe como um produto literário inspirador de adaptações modernas e populares. Primeiramente, será realizada uma contextualização do conto O Barril de Amontillado, escrito pelo autor em 1846 e publicado na revista feminina Americana Godey’s Magazine and Lady’s Book. A partir de então, será analisada a música Cask of Amontillado, lançada em 1976 em LP e relançada em 1987 em CD pela banda The Alan Parsons Project, grupo de rock britânico progressivo e conceitual que lançou seu álbum de estreia – Tales of Mystery and Imagination – apenas com músicas inspiradas em contos de Edgar Alan Poe. A música, apesar de ter sido composta há mais de trinta anos, acabou por ser utilizada em vários vídeos produzidos de forma caseira por fãs e armazenados no canal Youtube. O presente trabalho elegeu o vídeo produzido por Ace Gallagher Productions em 2006, em vista não só da utilização da música de The Alan Parsons Project como fundo musical, mas também em virtude de sua releitura visual em forma de animação da obra de Poe. Com base nas análises dos autores Neimeyer, Huckvale e Gardner, espera-se visualizar como o conto mencionado é revisitado de forma moderna e popular. Percebeu-se que a música de Alan Parsons foi além da simples musicalização de uma letra, pois não ficou somente na adição de melodia a uma história pronta. A banda resumiu, em narração própria, o conto de Poe, mantendo a tensão do conto em notas que inspiram suspense e terror. Ao quebrar a expectativa do público já acostumado com Poe, a banda recriou a obra ao contar, de forma resumida, os principais eventos do conto. Consequentemente, anos mais tarde, a Ace Gallagher Productions, criada pela artista gráfica Americana Jill D’Entremont, produziu uma animação curta para o canal Youtube colocando elementos visuais em harmonia com a letra da música de Alan Parsons. O vídeo mantém o suspense do conto de Poe utilizando, além da canção, um contraste de cores em preto e branco com uma única imagem colorida inserida nos quadros: uma taça de vinho vermelho. Na atualidade, pode-se considerar que Poe, através da música e vídeo aqui estudados, continua a ser um ícone moderno e popular, corroborando a fala do autor Mark Neimeyer.
Referências
- D’ENTREMONT, Jill. Cask of Amontillado. Youtube. 01 Ago. 2006. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=LBC7Rown13Q > Acesso em 18 jul 2019.
- GARDNER, Kimball R. Edgar Alan Poe and Alan Parsons: All that we see or seem is nevermore. Brigham Young University; Scholars Arquive. 2016. Disponível em <https://scholarsarchive.byu.edu/studentpub/161/>. Acesso em 18 jul 2019.
- HUCKVALE, David. Poe Evermore: The legacy in Film, Music and Television. Jefferson: McFarland and Company Inc. Publishers, 2014.
- NEIMEYER, Mark. “Poe and Popular Culture.” In: HAYES, Kevin J. (ed). The Cambridge Companion to Edgar Alan Poe. Cambridge: CUP, 2002. p. 205 – 224.
- POE, Edgar Allan. Conto: O Barril de Amontillado. Disponível em <http://www.culturabrasil.pro.br/zip/amontillado.pdf >. Acesso em 18 de Jul. 2019.
- The Alan Parsons Project. Cask of Amontillado. Tales of Mystery and Imagination. Inglaterra, Island Records, 1987. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=nrrIm4ozbUc>. Acesso em 18 jul 2019.
Palavras-chave: O Barril de Amontillado; The Alan Parsons Project; Ace Gallagher Productions; música; vídeo.
3 O desenvolvimento de personagens na romantização de histórias de origem de The X-Files
Eduarda De Carli
A série de televisão The X-Files, conhecida no Brasil como Arquivo X, foi ao ar pela primeira vez na televisão americana em 1993 e sua temporada mais recente terminou em 2018, com um número de 218 episódios ao total. A série foca nos casos investigados por Fox Mulder, interpretado por David Duchovny, e Dana Scully, interpretada por Gillian Anderson, dois agentes do FBI que lidam com arquivos cujos mistérios são inexplicáveis através da ciência, remetendo ao sobrenatural ou à grande mitologia do programa: extraterrestres – e esses casos estranhos são chamados de x files. Um dos fatores importantes trazidos pela série é ter uma mulher detetive como protagonista por tanto tempo que acabou se tornando referência para novas personagens – o que pode levar a especulações sobre a escalação da atriz como investigadora principal na série The Fall (2013-2016). Algumas obras literárias publicadas como parte do universo do seriado são romantizações, ou seja, histórias criadas a partir do produto audiovisual (NEWELL, 2017). As romantizações estão presentes desde o início do cinema (BEATENS, 2007) quando os filmes eram lançados junto com as suas adaptações – ou antiadaptações, como a autora propõe – em prosa. Na década de 60 surgiram as primeiras romantizações de programas de televisão com dois tipos de produções; um seguia o mesmo modelo Hollywoodiano trabalhando em cima de um roteiro, o outro, porém, inovou o gênero e apresentou novas narrativas utilizando elementos dos programas (NEWELL, 2017) e explorando o universo e personagens já criados. Com The X-Files não poderia ser diferente. Parte de uma série de livros intitulada The X-Files: Origins, o livro Devil’s Advocate (2017), de Jonathan Maberry é uma romantização que conta a história de origem de Dana Scully, com foco no seu primeiro contato com o universo que é apresentado no seriado, baseado em momentos na séria televisiva em que fatos dos passados das personagens são mencionados mas não completamente desenvolvidos. Levando esses elementos em consideração, este trabalho tem como objetivo analisar a criação do passado da personagem Dana Scully e sua construção enquanto personagem literária no romance Devil’s Advocate, observando as relações intermidiáticas (ELLESTRÖM, 2017; RAJEWSKI, 2005) com a série de televisão e o desenvolvimento da personagem no audiovisual (MITTELL, 2015). É possível ver, então, que o preenchimento das lacunas deixadas pelo seriado tendo como base eventos e pistas proporcionadas pelos roteiristas e pela interpretação da atriz são capazes de trazer novos elementos para o universo criado e também aprofundar e explorar mais as personagens, reforçando a quebra da hierarquia do produto literário sobre o produto audiovisual enquanto relacionados intermidiaticamente.
Referências
- BEATENS, Jan. From screen to text: novelization, the hidden continent. In: CARTMELL, Deborah; WHELEHAN, Imelda (eds). The Cambridge Companion to Literature on Screen. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. pp. 226-238.
- ELLESTRÖM, Lars. Adaptation and Intermediality. In: LEITCH, Thomas. (ed) The Oxford Handbook of Adaptation Studies. Oxford: Oxford University Press, 2017.
- GARCIA, Kami. Agent of Chaos. EUA: Imprint, 2017.
- MABERRY, Jonathan. Devil’s Advocate. EUA: Imprint, 2017.
- MITTELL, Jason. Complex TV: The Poetics of Contemporary Television Storytelling. EUA: New York University Press, 2015.
- NEWELL, Kate. Expanding Adaptation Networks: From Illustration to Novelization. Londres: Palgrave Macmillan, 2017.
- RAJEWSKI, Irina. Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality. In: Intermédialités, N. 6, Outono 2005. pp. 43-64.
Palavras-chave: adaptação; intermidialidade; personagem; romantização; televisão.
4 “You Don’t Own Me”: o papel da trilha sonora na caracterização da personagem June Osborne em The Handmaid’s Tale
Fernanda Nunes Menegotto
Este trabalho tem como objetivo analisar como a trilha sonora que acompanha os créditos finais de cada episódio da série de televisão The Handmaid’s Tale (2017-), adaptação da distopia de mesmo nome da autora canadense Margaret Atwood, contribui para a caracterização de sua protagonista, June Osborne. A trilha sonora que fecha The Handmaid’s Tale varia a cada episódio, utilizando-se por vezes de uma gama variada de canções populares de Nina Simone, Lesley Gore e Tom Petty, por exemplo, e por outras de faixas instrumentais criadas especialmente para a série. Para embasar a análise são utilizadas as propostas de Jason Mittell (2015) a respeito das narrativas televisivas enquanto experiências serializadas, caracterizadas primeiramente pelos intervalos entre seus episódios. Nesse sentido, Mittell destaca o papel dos marcadores iniciais e finais de cada episódio (tais como as sequências de créditos, as recapitulações de momentos anteriores e as prévias de revelações futuras, por exemplo) para constituir tal experiência. O trabalho se atém ainda sobre as proposições de Annette Davison (2014), que explora o papel do que chama de “posfácios musicais” nas séries de televisão. Tais posfácios seriam justamente a prática relativamente recente, originada com a série The Sopranos (1999-2006), de modificar a cada episódio a trilha sonora que acompanha os créditos finais. A partir dessa base teórica, explora-se o papel das canções finais utilizadas na primeira temporada de The Handmaid’s Tale, as quais funcionam como um fechamento para o episódio que acompanham. Propõe-se que as canções escolhidas são estratégicas para reforçar a caracterização da protagonista como uma personagem pintada em tons heroicos, conforme explorado em diversas avaliações críticas, tais como as de Emily Nussbaum (2017) e de Constance Grady e Emily VanDerWerff (2017). Tal caracterização existe em oposição ao papel mais ambíguo da personagem –frequentemente interpretada como uma vítima passiva ou até mesmo conivente com os atos do regime autoritário – no romance de Atwood, conforme se vê nas leituras de autores como Stephanie Barbé Hammer (1990), Jamie Dopp (1994) e S. C. Neuman (2006), dentre outros. Por isso, o trabalho parte das propostas de Linda Hutcheon e Siobhan O’Flynn (2013) para pensar a série enquanto adaptação e, portanto, fruto de um processo de interpretação e criação por parte daquele que adapta.
Referências
- ATWOOD, Margaret. The Handmaid’s Tale. London: Vintage, 2017 [1985].
- BARBÉ-HAMMER, Stephanie. The World as It Will Be? Female Satire and the Technology of Power in “The Handmaid’s Tale”. Modern Language Studies, v. 20, n. 2, p. 39-49, 1990.
- DAVISON, Annette. The End is Nigh: Music Postfaces and End-Credit Sequences in Contemporary Television Serials. Music, Sound, and the Moving Image, v. 8, n. 2, p. 195-215, outono de 2014.
- DOPP, Jamie. Subject-position as victim-position in The Handmaid’s Tale. Studies in Canadian Literature, v. 19, n. 1, 1994. Disponível em: <https://journals.lib.unb.ca/index.php/SCL/article/view/8193/9250>. Acesso em 17 mar. 2018.
- HUTCHEON, Linda; O’FLYNN, Siobhan. A Theory of Adaptation. 2nd ed. London/New York: Routledge, 2013.
- MITTELL, Jason. Complex TV: The poetics of contemporary television storytelling. New York/London: New York University Press, 2015.
- NEUMAN, S. C. ‘Just a Backlash’: Margaret Atwood, Feminism, and The Handmaid’s Tale. University of Toronto Quarterly, v. 75, n. 3, p. 857-868, verão de 2006.
- NUSSBAUM, Emily. A cunning adaptation of “The Handmaid’s Tale”. The New Yorker, 22 maio 2017. Disponível em: <https://www.newyorker.com/magazine/2017/05/22/a-cunning-adaptation-of-the-handmaids- tale>. Acesso em: 17 jul. 2019.
- THE HANDMAID’S TALE. Primeira temporada. Episódio um: “Offred”. Direção de Reed Morano. Roteiro de Bruce Miller. MGM/Hulu. 2017a.
- ______. Episódio dois: “Birth Day”. Direção de Reed Morano. Roteiro de Bruce Miller. MGM/Hulu. 2017b.
- ______. Episódio quatro: “Nolite Te Bastardes Carborundorum”. Direção de Mike Barker. Roteiro de Leila Gerstein. MGM/Hulu. 2017c.
- ______. Episódo cinco: “Faithful”. Direção de Mike Barker. Roteiro de Dorothy Fortenberry. MGM/Hulu. 2017d.
- ______. Episódio seis: “A Woman’s Place”. Direção de Floria Sigismondi. Roteiro de Wendy Straker Hauser. MGM/Hulu. 2017e.
- ______. Episódio oito: “Jezebels”. Direção de Kate Dennis. Roteiro de Kira Snyder. MGM/Hulu. 2017f.
- ______. Episódio dez: “Night”. Direção de Kari Skogland. Roteiro de Bruce Miller. MGM/Hulu. 2017g.
- VANDERWERFF, Emily Todd; GRADY, Constance. The Handmaid’s Tale season 1, episode 5: “Faithful” tries to add romance to the show, with mixed results. Vox, 10 maio, 2017. Disponível em: <https://www.vox.com/culture/2017/5/10/15601756/the-handmaids-tale-episode-5-recap-faithful>. Acesso em: 17 jul. 2019.
Palavras-chave: adaptação; adaptação televisiva; narrativa serializada; paratexto; The Handmaid’s Tale.
5 Cenas de um casamento: Ingmar Bergman e as séries de TV contemporâneas
João Fabricio Flores da Cunha
Os seriados televisivos vêm ganhando crescente importância na cultura contemporânea a partir de inovações tecnológicas que alteraram a forma de consumo desses produtos midiáticos e do que parece ser uma maior complexidade da linguagem audiovisual dessas séries que vem sendo desenvolvida recentemente por parte delas. Este trabalho defende a ideia de que a minissérie que o diretor sueco Ingmar Bergman realizou para a televisão em 1973, Cenas de um casamento, antecipa elementos da linguagem de determinadas séries de TV que surgiram por volta do início do século XXI, como Os Sopranos, The Wire, Breaking Bad e Mad Men, e que se caracterizam por uma densidade e uma profundidade da narrativa que pareciam restritas a outras mídias, como a literatura e o cinema, estando previamente ausentes da televisão. Essas séries realizadas nos Estados Unidos nos últimos 20 anos compõem um quadro de quality television (ou televisão de qualidade) que vem sendo tratado informalmente como uma nova “era de ouro da televisão”. Assim, a minissérie de Bergman pode ser vista como uma importante precursora de tais séries. A fundamentação teórica deste trabalho é construída a partir do pensamento de Vilém Flusser (2007; 2011) e de Marshall McLuhan (2006). Na perspectiva com a qual trabalhamos aqui, Cenas de um casamento não é pensada como cinema sendo exibido na televisão, mas como parte de um processo de formalização de uma linguagem audiovisual específica da televisão. Acreditamos que a minissérie de Bergman apontava, já no início dos anos 70, para potencialidades contidas no meio televisivo que seriam retomadas e trabalhadas mais claramente apenas a partir da virada do século XXI. Procuramos refletir sobre Cenas de um casamento e as séries contemporâneas diacronicamente, buscando, na minissérie de Bergman, aspectos que viriam a ser retomados posteriormente por seriados televisivos. Bergman, parece-nos, evidenciou, já em Cenas de um casamento, que a linguagem de um seriado televisivo permite que ele construa elementos como densidade da narrativa construída em episódios e profundidade da construção dos personagens de maneira diferencial em relação ao cinema.
Referências
- BERGMAN, Ingmar. Cenas de um casamento. Versátil, 1973.
- FLUSSER, Vilém. O mundo codificado. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
- FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Annablume, 2011.
- McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2006.
Palavras-chave: comunicação; audiovisual; seriados televisivos; Ingmar Bergman; Cenas de um casamento.
6 Rupturas e costuras: o tempo na ficção científica com a máquina de Wells e os ciclos de Dark
Alisson Preto Souza; Lis Yana de Lima Martinez
Considerado inimigo para os deuses gregos, o tempo, corporificado na mitologia como o titã Krónos, desafia os sentidos e a percepção do ser humano. Sua estrutura é materializada em todas as “extensões”, as mídias (MCLUHAN, 2013), de modo a tentar compreendê-la, subjulgá-la ou desconstruir sua norma. No campo da Literatura, as categorias de narrador, de personagem, de enredo e de espaço são focos frequentes de pesquisa nos objetos de estudo. Neste momento, desejamos focalizar o tempo uma vez que o consideramos um dos componentes literários mais influentes da composição da ficção. Se para a física ele é observado e medido, a importância do tempo é central no desenvolvimento narrativo, administrando as relações causais dos eventos, a quebra do padrão sequencial, linear e as disrupturas. Segundo Coutinho (2008), o tempo é um tema caro à literatura. Na ficção científica, a exploração estética, histórica e temática se desdobra desde os quadrinhos, aos videogames e aos filmes. Enquanto Ricoeur (1994) concebe a representação do tempo como um rastro interpretativo na história, Nunes (2013) destaca que a narrativa preenche o tempo com a matéria dos acontecimentos na forma de uma sequência. Mas o que se faz quando esse preenchimento não segue a causalidade linear? E quando a seta do tempo se inverte ou o tempo se expressa de forma acronológica, paradoxal ou assequencial na narrativa? Compreendendo que mídias são parte integrante de nossa realidade – cultural, global e contexto independentemente de qualquer determinismo tecnológico ou ideológico- e partindo de duas distintas produções midiáticas separadas no tempo e no espaço, The time machine (2018) e Dark (2017), este trabalho pretende observar como o tempo é utilizado, focalizando aspectos como narrativa, ficção e ciências. Para tanto, apoiamo-nos de modo interdisciplinar na Teoria Literária, na História e na Filosofia por meio de uma análise comparativa do tema e da estrutura dos dois objetos de estudo.
Referências
- COUTINHO, Andréa. Ficção cientifica: Narrativa do mundo contemporâneo. Brasília: Revista de Letras, 2008.
- DARK. Quirin Berg (producer), Baran Bo Odar (director). Alemanha: Netflix, 2017. (495 min). Disponível na plataforma de streaming Netflix. Acesso em: 15 set. 2019.
- MCLUHAN, Herbert Marshall. Understanding media: the extensions of man. Berkeley: Gingko Press, 2013.
- NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. São Paulo: Edições Loyola, 2013.
- RICOEUR, Paul. Entre Tempo e Narrativa: concordância e discordância. Belo Horizonte, MG: Revista Kriterion, 2012
- WELLS, H.G. A máquina do tempo. / H.G.Wells; tradução William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2018.
Palavras-chave: tempo; Dark; The time machine; narrativa ; teoria literária.
7 Do papel às telas? O cenário gótico em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2000) e em Harry Potter e a Câmara Secreta (2000), de J. K. Rowling
Caroline Navarrina de Moura; Fabian Quevedo da Rocha.
Com novas formas de organização mundial e de estruturas socioeconômicas, novas formas de representação estética são necessárias para a identificação do público leitor com as possíveis representações da realidade no âmbito literário. O romance e seu subgênero gótico são exemplos dessas constantes mudanças (DAVISON, 2009), sendo os livros da série Harry Potter, de J. K. Rowling, uma significante representação dessa literatura já que se estabeleceram como clássicos populares e, desde o lançamento do primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal (2000), até os dias de hoje, mais de cento e sete milhões de cópias foram vendidas mundialmente. Além de terem sido traduzidos para diversos idiomas, os livros da série contam com um grande número de adaptações, que vão de parques temáticos a musicais e a peças de teatro, assim como jogos digitais, fanfictions e, claro, filmes. Tendo em vista que a série leva em consideração as convenções góticas como centro de sua narrativa, como a estrutura de uma história dentro de outra história, o ambiente aterrorizante e a transferência do medo exterior para o interior, causando a sensação de estranhamento (FREUD, 1955), esta pesquisa aborda as adaptações cinematográficas, de Chris Columbus, dos romances Harry Potter e a Pedra Filosofal (2000) e Harry Potter e a Câmara Secreta (2000), mais especificamente, analisando como é representado o cenário principal das obras da autora: o castelo de Hogwarts, a fim de intensificar a representação desses elementos góticos para as telas. Tal cenário do universo ficcional da escritora possui grande relevância na série: a trama, em sua quase totalidade, é ambientada em Hogwarts ou em suas dependências e, mais do que servir de simples pano de fundo para o desenrolar do enredo, o castelo está intrinsicamente ligado a aspectos centrais da narrativa: o locus horribilis, a presença fantasmagórica do passado, e a tentativa de evadir a morte. Todos esses elementos, fortemente marcados na obra escrita, tornam-se ainda mais expressivos na representação fílmica de Columbus. Para Linda Seger (1992), um dos aspectos fundamentais do romance é sua temática e, consequentemente, é de grande importância que, em adaptações fílmicas, os temas sirvam não apenas para o desenvolvimento do enredo, mas também para reforçá-lo e redimensionalizá-lo. Juntamente com os pressupostos de Ortiz (1982), Xavier (2003) e Rebello (2012), a metodologia utilizada é o destacamento das passagens literárias e fílmicas que contêm, na trajetória da personagem título, a presença de tais elementos representados, mostrando que a representação do cenário primordial é o elo que une o livro, o filme e o gênero gótico.
Referências
- DAVISON, Carol Margaret. History of the gothic: gothic literature 1764 – 1824. Valeta: Gutenberg Press, 2009.
- FREUD, Sigmund. “The uncanny”ǁ. In: An infatile Neurosis and other works. London: The Hogarth Press, 1955.
- HARRY POTTER e a câmara secreta. Direção de Chris Columbus. Londres: Heyday Films, 2002.
- HARRY POTTER e a pedra filosofal. Direção de Chris Columbus. Londres: Heyday Films, 2001.
- ORTIZ, A. M. B. “O texto literário no cinema”. O Estado de São Paulo, 27/06/1982.
- REBELLO, L. S. “Literatura Comparada, Tradução e Cinema.” Revista Organon, no 52. Porto Alegre: Instituto de Letras/UFRGS, 2012. pp. 139-158.
- ROWLING, J. K. Harry Potter e a câmara secreta. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000.
- ROWLING, J. K. Harry Potter e a pedra filosofal. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2000.
- XAVIER, I. “Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema.” In: Literatura, cinema e televisão. São Paulo: Senac, 2003.
Palavras-chave: comparatista; mídia; gênero gótico; Harry Potter; J. K. Rowling.
8 O gótico sulista: adaptação do ambiente em diferentes mídias
Bruno Amaral Dariva; Ícaro Carvalho
O sul dos Estados Unidos da América representa uma região dotada de significação própria, não apenas por suas corriqueiras ideologias, como também em virtude de sua geografia pantanosa. Por conta de fatores que tornam esta região única, um gênero chamado de “gótico sulista” desponta com o propósito de contar histórias ficcionais capazes de representar essas características não somente em seus personagens, mas também em sua ambientação. Como explica Teresa Goddu (2000), ao ser importado para os Estados Unidos, o gótico perdeu seus referentes característicos: na América do Norte não há castelos e outras figuras medievais. Uma vez excluídas essas características tradicionais, o gótico americano assumiu um caráter propriamente regionalista – em vez de atmosferas obscuras e heranças europeias, o “novo gênero” resgatou conflitos históricos inerentes a uma região de grandes fazendas onde predominava a escravidão. A autora Flannery O’Connor, expoente deste gênero, possui, dentre suas narrativas, o conto “A good man is hard to find”, que retrata a viagem de uma família entre Georgia e Tennessee, salientando a temática da violência. Já em comparação, tendo em mente que adaptações de obras literárias para as telas são cada vez mais corriqueiras, neste caso usa-se um exemplo de transposição do próprio gênero, almejando entender como um material audiovisual capta e se apropria de particularidades tão bem retratadas originalmente na literatura. Para isso, analisaremos como o gênero insere-se no meio audiovisual por meio da aclamada série True Detective (2014), produzida pelo canal de televisão HBO e criada por Nic Pizzolatto, onde a temática de crime mantém-se, mas dessa vez ambientada no estado da Louisiana. O “gótico sulista” requer uma visão muito característica (WALSH, 2013) de forma que adaptar um gênero surgido na literatura e suas características demonstra não ser simples. Dessa maneira, o principal objetivo deste trabalho é entender como as características presentes no conto de O’connor também se manifestam na série da HBO, de forma a demonstrar como as conexões entre essas duas mídias são possíveis independentemente da existência de uma narrativa comum. Busca-se discorrer sobre como os pântanos, as cores, as ideologias, o contexto socio- histórico e as temáticas político-religiosas – tradicionais do sul dos E.U.A. – aparecem nas duas obras e como as duas mídias exigem diferentes tratamentos para essas questões vitais para a formatação do gênero em questão. Usar-se-á também a obra fílmico-literária de Peter Verstraten para tratar sobre adaptações, narrativas e elementos cinematográficos. Ambas obras tratam de crimes que ocorrem em locações remotas, em locais desolados pela unicidade da paisagem do “Deep South” norte-americano, no sul que, desde a guerra civil, parece ter se tornado um repositório de ideias desviantes da grande nação. Assim, tenta-se mostrar como um estado-nação “criado” a partir dos ideais racionais iluministas acaba importando o gótico britânico e o adapta para um grotesco nada racional que versa principalmente sobre moral imposta e construída na tradição dessas regiões (GODDU, 2000) e as implicações que tanto ambiente quanto moralidade causam nos protagonistas de “A good man is hard to find” e True Detective.
Referências
- GODDU, Teresa A. “Introduction to American Gothic”. In: The horror reader. London & New York: Routledge, 2000.
- O’CONNOR, Flannery. A good man is hard to find. In: A good man is hard to find and other stories. Nova York: Harvest, 1983.
- TRUE Detective. Direção: Cary Joji Fukunaga. Produção: Mick Aniceto, Richard Brown, Lee Caplin , Carol Cuddy, Cary Joji Fukunaga, Steve Golin, Woody Harrelson, Jessica Levin, Matthew McConaughey, Nic Pizzolatto e Scott Stephens. Intérpretes: Matthew McConaughey, Woody Harrelson, Michelle Monaghan. Roteiro: Nic Pizzolatto. Nova York: HBO, 2014.
- VERSTRATEN, Peter. Film Narratology. Toronto: University of Toronto press, 2009.
- WALSH, Christopher J. “Dark Legacy”: Gothic Ruptures in Southern Literature. In: Critical Insights: Southern Gothic Literature. Salem Press; Har/Psc edition, 2013.
Palavras-chave: gótico sulista; ambientação; adaptação; estudo comparativo; gêneros literários.
9 Transmidiação e representação de mídias na Literatura Comparada: buscando sentidos
Ana Cláudia Munari Domingos
Pensar o leitor neste universo de convergência e globalização cultural, significa compreendê-lo como um navegador que desliza sobre um oceano de textos que se misturam e se confundem. Para Nicolas Bourriaud (Pós-produção, 2004), ele é o semionauta: produtores e receptores de produtos culturais usam os objetos, as formas e o mundo para reprogramar as obras e produzir, através e entre elas, singularidades. É assim, através desse agenciamento possível com o uso das mídias digitais, que as obras transformam-se em espaço de manobra. Nesse lugar de bricolagem, onde os textos se encontram e são usados, surgem novas funções para as mídias, que dizem respeito não apenas ao papel da midiação ou da re-midiação, mas também ao entendimento do meio como um signo. É nesse aspecto que a intermidialidade, como fenômeno, torna-se estratégia de comunicação. Mas, se o consumo de produtos culturais intermidiais parece naturalizado, enquanto as práticas dos semionautas relacionam-se com a construção e a manutenção da sobrevivência cidadã, parece-nos necessário perguntar como as compreendemos e, mais, talvez mesmo como as distinguimos no caos semiótico. Os estudos de intermidialidade, ao se debruçarem sobre esse universo da “pós-produção” (Bourriaud, 2004), buscando distinguir tipos e produtos de mídia nas interações, colaboram para a compreensão dos textos em seu significado, fim de todo ato de comunicação. Lars Elleström, um dos mais importantes pesquisadores do campo na atualidade, entende a intermidialidade a partir do universo macro da comunicação, mostrando como a compreensão dos fenômenos intermidiais reverbera, ao fim e ao cabo, na leitura semiótica dos produtos de mídias e das modalidades das mídias. Elleström (2013; 2014) distingue duas categorias de fenômenos intermidiais, as representações de mídias e as transformações das mídias. Neste trabalho, descrevo e analiso essa perspectiva teórica, através de exemplos da literatura comparada. Para tanto, também se faz necessário definir conceitos que, embora básicos, necessitam de limitação quando entendemos a literatura como uma mídia, tais como o próprio sentido de mídia, tipos de mídias e modalidades das mídias (ELLESTRÖM, 2017).
Referências
- ELLESTRÖM, Lars. Media Transformation. The Transfer of Media Characteristics among Media. Palgrave Pivot, 2014;
- ELLESTRÖM, Lars. “Adaptation within the media transformation”. In: BRUHN, Jørgen; GJELSVIK, Anne; HANSSEN, Eirik Frisvold. Adaptation Studies: New Challenges, New Directions. London and New York: Bloomsbury Academic, 2013. ELLESTRÖM, Lars. Midialidade: ensaios sobre Comunicação, Semiótica e Intermidialidade. Org. de Ana Cláudia Munari et al. Porto Alegre: Edipucrs, 2017. BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
Palavras-chave: literatura comparada; intermidialidade; pós-produção; transmidiação; representação de mídias.
10 Quantas Brancas de Neve: adaptações e traduções intersemióticas
Daniel Soares Duarte
Este trabalho tem como objetivo discutir algumas traduções intersemióticas e adaptações que o conto de fadas “Branca de Neve” sofreu ao longo dos tempos. Trata-se, senão do conto de fadas mais conhecido na modernidade, de um dos mais adaptados e traduzidos (cerca de 55 adaptações fílmicas até o momento, sem contar outras mídias como a literária e as histórias em quadrinhos). Esse objetivo se coaduna a um escopo mais teórico e amplo, o de estudar a tradução intersemiótica (a partir dos estudos semióticos que Peirce desenvolveu e da noção de tradução intersemiótica classificada por Jakobson (2000)) e a adaptação (no sentido desenvolvido por Linda Hutcheon no livro Uma teoria da adaptação (2013)) como processos em vez de como produtos, seguindo a distinção de Toury (1995) para a tradução. Os dois produtos centrais para investigação serão a série em quadrinhos Fábulas, escrita por Bill Willingham entre 2002 e 2015, e a série Once Upon a Time, da emissora estadunidense ABC, que foi televisionada entre 2011 e 2018. A preferência por tomar a tradução intersemiótica e a adaptação como processo é devida ao fato de concordarmos com o artigo de Katja Krebs, que considera ambas como dois lados de uma mesma moeda ideológica (RAW, 2012). As classificações de Hutcheon sobre os modos de engajamento na adaptação (contar, mostrar, interagir) e a consideração da adaptação como processo criativo apontam para os objetivos do mapeamento de uma obra para outra mídia, enquanto a investigação da tradução intersemiótica a partir da base peirceana torna-se uma ferramenta adequada para a descrição do mesmo mapeamento, na consideração de um interpretante sígnico como destino do sentido de um texto qualquer (JEHA, 1994). O estudo se concentra em duas personagens: Branca de Neve e a Rainha Má, e os processos de tradução entre diferentes modalidades de signos mostram grandes ambivalências nas construções das mesmas. A manutenção do nome Branca de Neve mantém a aura da princesa imaculada e perseguida, que é complexificada pela posição que ocupa em Fábulas, na qual é prefeita de uma cidade onde as fábulas se escondem, divorciou-se do Príncipe Encantado e tem personalidade dominante. Também a Rainha Má ganha contornos menos binários em Once Upon a Time, revelando motivações mais profundas para seus atos.
Referências
- HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Florianópolis: UFSC, 2013.
- JAKOBSON, Roman. On linguistic aspects is translation. In: VENUTI, Lawrence. The Translation Studies Reader. Londres, Nova York: Routledge, 2000, p. 113-118.
- JEHA, Julio. Intersemiotic translation: the Peircean basis. In: Fifth Congress of the International Association for Semiotic Studies, 1997, Berkeley. Semiotics in the World: Synthesis in Diversity. Berlin: Mouton, 1994. p. 639-642.
- ONCE UPON A TIME. Criação: KITSIS, Edward; HOROWITZ, Adam. ABC, 2011-2018. Disponível na plataforma de streaming Netflix.
- RAW, Lawrence. Translation, Adaptation and Transformation. Nova York: Continuum Publishing Corporation, 2012.
- IMDb. Snow White adaptations and references. Disponível em: https://m.imdb.com/list/ls027524724/. Acesso em 23/08/2019.
- TOURY, Gideon. Descriptive Translation Studies and Beyond. Amsterdam: John Benjamins, 1995.
- WILLINGHAM, Bill. Fábulas (1 a 10). São Paulo: Panini, 2018.
Palavras-chave: adaptação; tradução intersemiótica; Fábulas; Once Upon a Time; semiótica.
11 A influência dos leitores ubíquos “destacadores” no dispositivo de leitura Kindle
Jaimeson Machado Garcia
Em novembro de 2007, a Amazon, empresa americana de comércio eletrônico, lançou no mercado de ereaders a primeira geração de seu dispositivo eletrônico para a leitura de livros digitais, o Kindle. Desenvolvido pela subsidiária Lab126, o Kindle oferece ao leitor ubíquo — termo cunhado por Santaella (2013) para descrever os leitores capazes de locomover por entre nós e nexos multimídias graças as suas aptidões cognitivas, sem que percam o controle de sua presença e entorno do espaço físico onde estão situados — a possibilidade de pesquisar, comprar, baixar e armazenar livros digitais adquiridos virtualmente pela loja da Amazon. Do ponto de vista da midialidade, o Kindle se constitui como uma mídia técnica (ELLESTRÖM, 2017) responsável por definir a “forma” dos livros digitais a partir da sua materialidade corpórea. E como mídia técnica, é capaz de midiar, principalmente, livros digitais no formato de textos eletrônicos, isto é, seu “conteúdo”. Dentre todas as suas funcionalidades, o Kindle permite ao leitor ubíquo marcar trechos de livros digitais considerados importantes por meio do recurso “destaque”. Por conta de sua convergência (JENKINS, 2009), o Kindle possibilita que esses trechos possam ser armazenados no dispositivo, enviados por e-mail ou compartilhados no microblogging Twitter. Quando o mesmo trecho de um mesmo livro é destacado por uma quantidade significativa de leitores ubíquos, o Kindle apresenta, no ato da leitura, o número de “destacadores” da passagem na forma de hipertexto. Tendo em evidência essa possibilidade desse recurso, passamos a nos indagar sobre as possíveis influências de leitores ubíquos “destacadores” sobre outros leitores ubíquos durante o processo de leitura e seleção de passagens consideradas importantes. Para respondermos a essa indagação, estabeleceremos uma pesquisa netnográfica, de plano de análise quantitativa, por meio de um questionário fechado. O questionário fechado será construído baseado na Escala de Likert, de natureza psicométrica, com o intuito de medir o nível de influência dos leitores ubíquos. O questionário será aplicado a uma amostra de participantes do grupo “Kindle :: Brasil”, maior grupo de Facebook em língua portuguesa do país sobre o dispositivo de leitura da Amazon. A hipótese levantada por essa investigação é a de que os leitores ubíquos “destacadores” influenciam outros leitores ubíquos, seja em maior ou menor grau, durante o processo de marcação de trechos considerados importantes em um mesmo livro digital.
Referências
- ELLESTRÖM, Lars. Midialidade: ensaios sobre comunicação, semiótica e intermidialidade. Domingos, Ana Cláudia; Klauk, Ana Paula; Melo, Maria Guiné (ORGS.). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2017.
- JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. São Paulo: Aleph, 2009.
- SANTAELLA, Lucia. Comunicação ubíqua: Repercussões na cultura e na educação. São Paulo: Paulus, 2013.
Palavras-chave: midialidade; leitura; leitor ubíquo; Kindle; destacadores.
12 O sujeito pós-moderno em Star Wars: uma análise das migrações entre os lados da luz e da sombra.
Alexandre Kirst de Souza
A presente pesquisa procura refletir acerca das questões da identidade cultural e de como esta está sendo debatida em uma narrativa de massa. Para tanto, iremos nos debruçar sobre as mais recentes produções cinematográficas da saga Star Wars, Episódio VII – O despertar da força e Episódio VIII – Os últimos jedi. Em especial, nos voltaremos às personagens Finn e Kylo Ren, justamente por estas realizarem uma migração dentro da trama entre os dois grandes polos sociais e de poder daquele mundo ficcional. Kylo Ren, filho de Leia Organa e Han Solo, dois dos heróis dos filmes anteriores, rebela-se contra seus pais e torna-se um símbolo da Primeira Ordem, um governo de caráter totalitário que procura controlar a galáxia. Por sua vez, Finn é apresentado inicialmente como um membro da Primeira Ordem, mas realiza o caminho inverso: torna-se um desertor e configura-se em um membro da Resistência, organização que visa enfrentar o governo opressor. Para realizar tal análise, partiremos do conceito de sujeito pós-moderno, de Stuart Hall. Traremos em diálogo com o posicionamento de Jean-François Lyotard acerca da condição pós-moderna, principalmente no que tange à ideia defendida por ele de que estaríamos vivendo em um período caracterizado pela crise dos metarrelatos. Além disso, por essa migração realizada pelas personagens ter um caráter dicotômico, lançaremos mão da estratégia da desconstrução, de Jacques Derrida, difundida principalmente em obras como Gramatologia e A escritura e a diferença. A desconstrução, conforme disserta Jonathan Culler, é uma posição filosófica, uma estratégia política ou intelectual e um modo de leitura. Dessa forma, é uma operação crítica por meio da qual as oposições binárias podem ser enfraquecidas, revelando contradições e demonstrando como um termo de um lado também pode estar presente no seu oposto. Portanto, buscaremos realizar uma análise sobre como a ficção, mais especificamente a saga Star Wars, está tratando das questões culturais em relação à identidade do sujeito pós-moderno.
Referências
- CULLER, Jonathan. Sobre a desconstrução: teoria e crítica do pós-estruturalismo. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.
- DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2014.
- DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2017.
- HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2019.
- LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
Palavras-chave: desconstrução; Star Wars; identidade cultural; pós-modernidade; narrativa.
13 Adaptation and Transmedia Storytelling in the Telltale Games
Rosana Ruas Machado Gomes
Telltale Games was an independent digital entertainment developer and publisher that launched several games from 2004 to 2018. The studio became famous for producing narrative-driven episodic adventure series based on licensed properties such as George R. R. Martin’s A Song of Ice and Fire (1996-) and the comic book series The Walking Dead (2003-). In addition to adapting elements of the source materials, Telltale also focused on further exploring different storyworlds and some of their characters, creating new or additional plotlines. Therefore, the aim of this work was to examine some aspects of a few of the games produced by the company and to analyze whether adaptation or some other process took place in their development, what (if anything) was adapted in the games, and how those possible adaptations related to the videogame medium. In order to do that, a discussion of some concepts related to adaptation studies, transmedia storytelling studies, and videogame studies was presented. Some of the scholars who inform such discussions are Espen Aarseth, Kevin Flanagan, Linda Hutcheon, Henry Jenkins and Marie-Laure Ryan. Through an analysis of different Telltale games, it was possible to observe that their designs attempt to replicate the atmosphere of the source material, allowing the players to recognize and experience elements with which they are familiar. As for transmedia storytelling, the games tell new stories and provide more information about established worlds through a different medium, corroborating Linda Hutcheon’s observation that transmedia storytelling has the fictional world as its core. Rather than looking for a way to retell a certain story, Telltale seemed more invested in further exploring universes and providing more information on certain characters. Additionally, the creation of new stories and plotlines seems to be a decision more suited to the choice-system adventure game genre, since making a decision whose outcome is already known to the players, even in their first playthrough, would probably take away one of the most fun elements of this particular game genre: the not-knowing what will happen as the outcome of one’s choices. Furthermore, Marie-Laure attributes the popularity and addicting property of transmedia storytelling to the need to inhabit and return to the same storyworlds in order to make new discoveries, and it is precisely this providing of new experiences and discoveries in already beloved storyworlds that seemed to be the very aim of the games developed by Telltale.
Referências
- AARSETH, Espen J. Cybertext: Perspectives on Ergodic Literature. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.
- FLANAGAN, Kevin M. “Videogame Adaptation”. LEITCH, Thomas (Ed.). The Oxford Handbook of Adaptation Studies. Printed from Oxford Handbooks Online on May 2017.
- Game of Thrones – A Telltale Games series (2014). Microsoft Windows, OS X, PlayStation 4, PlayStation 3, Xbox One, Xbox 360, iOS, Android. Telltale Games.
- HUTCHEON, Linda; O’FLYNN, Siobhan. A Theory of Adaptation. 2nd ed. London: Routledge, 2013.
- JENKINS, Henry. “Transmedia Storytelling 101.” Confessions of an Aca-Fan. Web, 2007. Available at <http://henryjenkins.org/2007/03/transmedia_storytelling_101.html> Accessed on 31 July 2018.
- _____. “Transmedia 202: Further Reflections.” Confessions of an Aca-Fan. Web, 2011. Available at <http://henryjenkins.org/blog/2011/08/defining_transmedia_further_re.html> Accessed on 31 July 2018.
- KIRKMAN, Robert. The Walking Dead (2003-). Image Comics.
- MARTIN, George R. R. A Song of Ice and Fire (1996-). HarperCollins Publishers L.L.C.
- RYAN, Marie-Laure. “Transmedia Storytelling as Narrative Practice”. LEITCH, Thomas (Ed.) The Oxford Handbook of Adaptation Studies. Edited by Thomas Leitch. Printed from Oxford Handbooks Online on May 2017.
- Telltale Games. Web. Available at <https://telltale.com/> Accessed on July 31 2018.
- The Walking Dead. Android, iOS, Kindle Fire HDX, Microsoft Windows, OS X, PlayStation Vita, PlayStation 4, PlayStation 3, Xbox One, Xbox 360. Telltale Games, 2012.
Palavras-chave: media; adaptation; transmedia storytelling; videogame studies; videogame adaptation.
14 As reminiscências da presença-ausência em Elena, de Petra Costa
Bruna Farias Machado
O premiado documentário Elena (2012), de Petra Costa, aborda a temática do suicídio ao narrar a vida – e morte – da irmã da diretora. Sob uma esfera em que realidade e ficção, bem como narração autobiográfica e atuação se imiscuem, o documentário surpreende seu espectador ao explorar poeticamente a presença-ausência de Elena e as reminiscências que sua morte culminou na irmã caçula, Petra, e na genitora. Publicada dois anos após o lançamento do lançamento do documentário, a obra literária Elena: o livro do filme de Petra Costa (2014), além de apresentar o roteiro do filme, contém depoimentos, ensaios fotográficos, imagens de arquivo e uma entrevista com Petra, dados estes que não estão presentes, em sua maioria, no documentário. Além disso, há análises de pensadores expoentes do jornalismo, da psicanálise, da literatura e do cinema que fazem com que a obra literária ganhe uma tessitura cognitiva que corrobora com a multiplicidade de olhares que o documentário proporciona. Sob esse viés, o presente trabalho tem como objetivo, primeiramente, analisar a obra literária, à luz dos estudos de Gérard Genette (2009), como um paratexto da obra fílmica cuja importância deve ser valorizada, uma vez que os materiais inéditos mencionados anteriormente dão subsídios para reflexões importantes, como, por exemplo, a análise de Eliane Brum sobre a necessidade de matar o que só vive como dor e saudade para seguir vivendo. Sob essa assertiva, o segundo objetivo do presente trabalho dialoga diretamente com a necessidade de Pietra de encenar a morte da irmã no documentário, tarefa que, segundo a teórica Cathy Caruth (1991), possibilita que ocorra a reelaboração e posterior ressignificação da dor através da teatralização da morte. Por fim, terceiro objetivo do trabalho tem como foco analisar a construção do espaço, mais especificamente a relação que Pietra tem com Nova York em sua tentativa de recriar os passos de Elena pela cidade. À luz de Michel Collot (2013, 26), que afirma que “a paisagem não é apenas vista, mas percebida por outros sentidos, cuja intervenção não faz senão confirmar e enriquecer a dimensão subjetiva desse espaço”, a análise versará sobre a relação singular que Petra estabelece com a cidade ao tentar encontrar algum rastro da irmã (busca que começa no início do documentário), indo ao encontro do pensamento de Michel Certeau (1998), que compreende que o indivíduo simboliza o lugar a partir de interferências que podem ser corpóreas ou cognitivas, dando subsídio para que seja possível inferir que a tentativa utópica de encontrar Elena nas ruas de Nova York faz com que ocorra transformações que moldam o lugar, uma vez que cria-se uma rede de significados que modificam o uso desses espaços.
Referências
- CARUTH, Cathy. Unclaimed experience: Trauma and possibility of history. Yale French Studies, n. 79, Literature and Ethical Question, 1991, p.181-192.
- CERTEAU, Michel. Relatos de espaço: a invenção do cotidiano. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
- COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2013.
- ELENA. Direção: Petra Costa. Produção: Bernardo Bath; Julia Bock; Petra Costa; Sara Dosa; Fernando Meirelles; Caroline Onikute; Moara Passoni; Tiago Pavan; Tim Robbins; Daniela Santos. Brasil: Busca Vida Filmes, 2012. 122 min. Son., Color., 35 mm
- GENETTE, Gérard. Paratextos editoriais. São Paulo: Editora Ateliê, 2009.
- VOLPATO, Cadão (Orgs). Elena: um filme de Petra Costa. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2014.
Palavras-chave: suicídio; espaço; corpo.
15 A produção multimidiática de sujeitos desajustados em A arte de produzir efeito sem causa, O natimorto e Miguel e os demônios de Lourenço Mutarelli
Claudia Erthal
O projeto de tese intitulado A produção multimidiática de sujeitos desajustados em “A arte de produzir efeito sem causa”, “O natimorto” e “Miguel e os demônios” de Lourenço Mutarelli propõe a análise das narrativas mencionadas a partir do “quê” elas representam, relacionando-se a “como” se dá essa representação, focando em seus elementos discursivos e estruturais e nas personagens, pelas complexidades que apresentam. Em O natimorto (2009) e Miguel e os demônios (2009), o discurso narrativo se apresenta de forma híbrida com o roteiro cinematográfico, a linguagem dos quadrinhos e o texto dramático, nesse sentido busca-se observar como se dá essa simbiose como os elementos discursivos de outras mídias. Em A arte de produzir efeito sem causa (2008) percebe-se uma “contaminação” com discurso imagético através de representações gráficas realizadas pelo protagonista, sendo interpretadas como parte da narrativa e não meras ilustrações. Um aspecto importante que esta narrativa aponta, é a insuficiência da linguagem verbal (escrita) dar conta de toda a subjetividade do sujeito, sendo essa subjetividade vista do ponto de vista da racionalidade moderna, que se mantêm ainda como modelo de expressão de pensamentos, percepções e sensações. A problematização específica é a desconexão entre a ordem racional da linguagem e as referências do mundo externo, assim, a subjetividade como entendemos, moderna, gradativamente vai se dissolvendo. Nesse sentido, inserem-se na discussão algumas teorias que caracterizam a contemporaneidade ou pós-modernidade a partir de Lyotard (1990), Vattimo (1996), e Villaça (1999), bem como algumas explicações sobre o sujeito contemporâneo, o “mal-estar” proposto por Birman (2016). Voltando para a discussão sobre o discurso literário e seu diálogo com o roteiro, partiremos dos pressupostos Bakhtin (2014) a respeito da capacidade do romance de absorver outros gêneros, seu “plurilinguismo” e seu potencial “dialógico”. Metodologicamente, a investigação será interdisciplinar e comparativa, pois trata das relações entre as três narrativas propostas com outros gêneros com o contexto social extraliterário; nesse sentido, insere-se também em uma perspectiva dialética e sociológica de análise. O trabalho encontra-se ainda na fase inicial de investigação, as conclusões e encaminhamentos poderão ser expostos a partir da análise discursiva das três narrativas que compõem o corpus.
Referências
- BAKHTIN, Michail. Questões de literatura e estética. São Paulo: HUCITEC, 2014.
- BIRMAN, Joel. O mal-estar na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
- LYOTARD, Jean-François. O inumano. Considerações sobre o Tempo. Lisboa: Editorial Estampa, 1990.
- MUTARELLI, Lourenço. A arte de produzir efeito sem causa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
- _____. Miguel e os demônios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
- _____. O natimorto. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
- VATTIMO, Gianni. A crise do Humanismo. In: O fim da Modernidade. Niilismo e Hermenêutica na Cultura Pós-Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
- VILLAÇA, Nízia. Dessubjetivação e Contemporaneidade. LOGOS, v. 6, no 1, UERJ, 1999. Disponível em: <http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/logos/article/view/14651> acesso em: 25 jun. 2019.
Palavras-chave: linguagem; subjetividade; roteiro; HQ’s; contemporaneidade.
16 Reescrevendo a si mesmo: translados metaficcionais e identitários entre os EUA e o Leste Europeu
Rust Costa Machado
Este trabalho busca apresentar minha pesquisa de mestrado (defendido em setembro de 2018), a qual focou nas obras Everything Is Illuminated (Jonathan Safran Foer, 2001) e Maus: My Father Bleeds History (Art Spiegelman, 1982-93), afim de explorar relações possíveis entre a construção narrativa do “eu” e o processo do fazer artístico encapsulado por técnicas metaficcionais. Apesar da diferença substancial entre as mídias nas quais são elaboradas (romance e romance gráfico, respectivamente), essas obras são aproximadas por uma variedade de traços comuns: o sangue judeu, a narração da experiência desmoralizante de eventos genocidas da Segunda Guerra, o resgate a este passado transoceânico e transgeracional, e sobretudo o desejo de comunicá-lo por meio de uma obra de arte. A partir de noções que associam a utilização de técnicas metanarrativas com a construção de identidade por um viés narrativo (amparado por conceitos teóricos concebidos por Paul Ricoeur e outros), este trabalho busca a justaposição das obras (gráfico)literárias referidas, sinalizado suas diferenças formais, aproximando suas confluências temáticas e estabelecendo um lugar no literário que proporciona, através da protagonização do fazer artístico, um espelhamento do processo de construção narrativa do “eu”.
Ambas as obras apresentam-se estruturadas em 3 níveis narrativos distintos e intercalados. A análise desta comparação se deu pela identificação desses níveis, tratando-os de modo independente (dos demais níveis) e em paralelo (obra com obra). No primeiro deles, as personagens narradoras, americanos filhos de sobreviventes de uma Grande Guerra histórica há décadas já acabada, evoluem em suas investigações por um passado familiar que traz conexões com eventos perturbadores de submissão física ao terceiro Reich. Já na segunda divisão narrativa, a narração volta-se ao passado leste-europeu, sendo atribuída a (ou focalizada por) familiares dos primeiros, os quais tiveram de sucumbir ao regime nazista, enfatizando a experiência desumanizadora e degradante do holocausto. Por fim, o terceiro nível retorna às personagens narradoras do primeiro nível, agora apresentadas sob o signo transformador da narração autoconsciente e metaficcional. Nesse processo, acabam por se reconhecer como sujeitos de narrativas que, de fato, tiveram início antes mesmo de seu nascimento, passando, assim, a incorporar noções de “Pós-memória” (Hirsch) às suas concepções identitárias.
Esse processo de construção artística, tematizado e explorado a nível de metaficção explícita (Hutcheon) nas obras observadas, alude a uma leitura sobretudo poética do processo de uma construção e assimilação do “Eu”. Junto a isso, a estruturação tripartida delas permite uma interação objetiva com noção de identidade narrativa formulada por Ricoeur, cuja fundamentação, também em 3 estágios, encontra correspondência com cada um dos níveis apresentados nas obras. Assim, é guardada à metaficcionalidade observada nessas narrativas – cada qual segundo os códigos das mídias que lhes dão supoerte – a função de ilustrar a investigação e assimilação dos elementos narrativos que compõem a concepção do “si mesmo” de um indivíduo.
Referências
- BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro:Tinta Negra, 2010.
- BERRY, R. M. Metafiction. In: Routledge Companion to Experimental Literature. p. 128-141. 2012.
- BINET, Laurent. Book of a Lifetime: Maus, by Art Spiegelman. 2013. Disponível em <https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/reviews/book-of-alifetime-maus-by-art-spiegelman-8465437.html> Acesso em 1 set 2018.
- BROWN, Michael. Of “Maus” and Men: problems of asserting identity in a postholocaust age. Studies in Jewish American Literature (1981-). Vol. 12 pg. 134-140. Penn State University Press, 1993.
- CALVINO, Italo. Levels of reality in Fiction. In: Uses of literature. Harcourt Brace & Company. USA, 1986. p. 101-124.
- COETZEE, J. M; KURTZ, Arabella. The Good Story: Exchanges on Truth, Fiction and Psychotherapy. USA: Viking, 2015.
- CROWLEY PATRICK. Paul Ricœur: The Concept of Narrative Identity, the Trace of Autobiography. In: Paragraph Vol. 26, No. 3. pp. 1-12 (November 2003)
- FREDMAN, Stephen. How to get out of the room that is the book? In: BLOOM, Harold (Org.) Bloom’s Modern Critical Views: Paul Auster. Chelsea House Publishers, 2004. p. 7-42.
- FREEMAN, Mark. Rewriting the self: history, memory, narrative. Routledge, 1993.
- FLÜDERNIK, Monica. Metanarrative and Metafictional Commentary: from metadiscursivity to metanarration and metafiction. Poetica, Vol. 35, No. 1/2, p. 1-39. Germany, 2003
- HIRSCH, Marianne. Family Pictures: Maus, Mourning, and Post-Memory. Discourse. Vol. 15, No. 2, pp. 3-29. USA, 1993.
- HUTCHEON, Linda. Narcissistic Narrative: The Metafictional Paradox. Wilfrid Laurier University Press, Canada, 1980.
- MCADAMS, Dan P., The Psychology of Life-Stories. Review of General Psychology, Vol. 5 (2) p. 100-122. USA, 2001.
- MCADAMS, Dan P; MCLEAN, Kate C. “Narrative Identity”. Association of Psychological Science (APS). Journal of Directions in Psychological Science, 22(3). 223-238. USA 2013.
- MCGLOTHLIN, Erin. No time like Present: Narrative and time in Art Spiegelman’s Maus. Narrative, Vol. 11, No. 2 The Ohio State University. USA, 2003.
- MEYER, Sandra. The Quest for Identity and its Literary Representation through Metanarrative and Metafictional Elements in Kate Atkinson’s ‘Emotionally Weird’ and ‘Human Croquet’. English Studies, Vol. 91, N. 4, June 2010. 443-456. Routledge.
- RICOEUR, Paul. Time and Narrative, Vol. 3. Chicago Press. 1985 [1990]. USA
- SAFRAN FOER, Jonathan. Everything Is Illuminated. Penguin Books. USA, 2002.
- SPIEGELMAN, Art. Maus: A Survivor’s Tale. Vol. I: My Father Bleeds History. USA: Penguin Books, 1989
- _____. Maus: A Survivor’s Tale. Vol. II: And Here My Troubles Began. USA: Pantheon Books, 1992.
- WAUGH, Patricia. Metafiction: The theory and practice of self-conscious fiction. USA: Routledge,1984.
Palavras-chave: Everything is Illuminated; Maus; metaficção; auto-narrativa; pós-memória.
17 Roberto Arlt e seu Brinquedo Raivoso em livro e filme
Alan Noronha
O escritor argentino Roberto Arlt foi pioneiro no romance urbano na América Latina. Diletante, distante da erudição de muitos de seus contemporâneos, Arlt com apenas 26 anos lançou El Juguete Rabioso (O Brinquedo Raivoso) em 1926, romance que inaugura em nosso continente temáticas dostoievskianas, existencialismo avant la lettre, personagens marginalizados no caldeirão de imigrantes que era Buenos Aires nas primeiras décadas do século passado. Lançado no mesmo ano que Don Segundo Sombra, obra gauchesca de seu protetor Ricardo Güiraldes, diferentemente deste último, o romance de Arlt demorou algumas décadas para ser apreciado pelo meio literário bonairense. O uso da gíria porteña, a conjugação dos verbos com voseo, personagens que transitam entre camadas menos favorecidas da sociedade, tudo chocava as pretensões europeizantes dos literatos da época. Concluiu-se que ele “escrevia mal”, que tinha “problemas de ortografia e sintaxe”. Apenas a partir dos anos 50, com o crítico Raúl Larra, sua obra passou a ser revista. As décadas seguintes o colocaram em posição mais central no cânone da literatura argentina, endossado por nomes de peso como Ricardo Piglia, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti, e frequentemente citado como antípoda de Borges. El Juguete Rabioso foi adaptado para o cinema duas vezes, e recentemente seus romances Los Siete Locos e Los Lanzallamas foram transformados em uma minissérie televisiva.
O presente trabalho compara o romance El Juguete Rabioso com sua primeira adaptação cinematográfica, de 1984, que teve roteiro da própria filha de Roberto Arlt, Mirta Arlt, quem também foi romancista e escreveu vários livros de crítica sobre a obra do pai. O filme se aproxima do tom do texto original, mas como é um meio mais conciso, opera com seleção de cenas e com reordenação da sequência em que aparecem: O primeiro dos quatro capítulos é contado em breves flashbacks no decorrer do filme, e o Rengo, personagem central do último capítulo, já aparece desde o início. Outros procedimentos usados são a condensação de atos de vários personagens em um só, para economia da narrativa, além do encurtamento ou alongamento de algumas cenas conforme a necessidade, e inclusão de cenas que não existem no livro.
O teórico do cinema André Bazin usava o termo “cinema impuro” (BAZIN, 1991, p. 85) para se referir ao inevitável diálogo do cinema com outras artes – um diálogo frutífero, com os elementos e recursos particulares de que cada meio dispõe. Abandonando a ingênua noção de “fidelidade” ao livro em que um filme está baseado, Robert Stam (STAM 2008, p. 20) afirma que um meio multifacetado como o filme não deve se limitar a recontar o enredo de um livro, mas usar todos os recursos sensoriais possíveis para criar sua própria obra. O diálogo entre essas produções – ou outras como adaptações para teatro ou quadrinhos – amplia e enriquece o universo da obra original. A obra de Roberto Arlt continua a se expandir e a encontrar novos públicos no novo milênio.
Referências
- BAZIN, André. Por um Cinema Impuro. In: O Cinema: Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991. pp 82 # 104.
- LARRA, Raúl. Roberto Arlt, el torturado. Buenos Aires: Futuro, 1950; 3a edición: Buenos Aires: Quetzal, 1962.
- ONETTI, Juan Carlos. “Roberto Arlt”. In: RUFFINELLI, Jorge (Ed.). Requiem por Faulkner y otros artículos. Ed. Buenos Aires: Calicanto, 1976. pp. 127- 37.
- PIGLIA, Ricardo. Crítica y Ficción. Buenos Aires: Editora Debolsillo, 1986.
- STAM, Robert. Introdução à Teoria do Cinema. Campinas: Papirus, 2009.
- _________. A Literatura Através do Cinema: Realismo, magia e arte da adaptação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
Palavras-chave: Juguete Rabioso; Arlt; romance urbano; adaptação cinematográfica; cinema impuro.
18 Costuras com a palavra – A escrita criativa numa perspectiva interdisciplinar
Geysiane Aparecida de Andrade
A Escrita Criativa tem ganhado cada vez mais espaço entre as oficinas, cursos e, mais recentemente, na Academia. Este trabalho tem o objetivo de apresentar algumas questões sobre o desenvolvimento da área em uma perspectiva interdisciplinar, a fim de discutir o panorama contemporâneo e compreender as especificidades dos processos criativos em escrita, analisando sua estreita relação com outros campos do saber, como a comunicação e as artes visuais. Pensar a interdisciplinaridade é pensar no que Agamben (2009) vai chamar de contemporaneidade intempestiva, ou seja, um tempo de mudanças, do heterogêneo, do efêmero, uma urgência que rege os tempos atuais. Nessa emaranhada rede do mundo, é importante entender essa relação temporal que mostra um presente que se projeta no passado e o passado que responde às inquietações do agora. Ao mesmo tempo, muitas vezes não conseguimos elucidar os questionamentos e resolver todos os problemas de uma forma unilateral. Morin (1996) diz que vivemos numa revolução paradigmática, que envolve uma mudança nas premissas do pensamento, nada está isolado no universo e tudo está em relação. Nesse contexto, Olga Pombo (2003) lembra que a interdisciplinaridade surge como um esforço de superar a fragmentação do conhecimento, relacioná-lo com a realidade e os problemas da vida moderna para que, assim, a ciência possa encontrar respostas para as muitas complexidades, impossíveis com essa divisão. A interdisciplinaridade avança no sentido de combinação, convergência e complementaridade. Assim, deixamos as raízes fasciculadas e verticais engessadas e estabelecemos uma conexão em rede, onde um ponto pode se conectar a qualquer outro, até formar o todo, como um rizoma. Nessa inter-relação, o contemporâneo é pluralismo, um cruzamento de materiais e dispositivos. Há uma espécie de deslizamento e fluidez, na qual nada é limitado no espaço e tempo. As formas e culturas são variáveis e estão em constante transformação. Com esse fluxo de mudanças, as linguagens também se fluidificam, o que Santaella (2008) dá o nome de linguagens líquidas. Dessa forma, como descreve a autora, nos novos tempos da comunicação móvel não há mais obstáculos, há liberdade na troca de informações. Texto, som e imagens complementam-se e entrecruzam-se. O que muda os modos de viver, criar e pensar. Assim, as formas de linguagem e escrita são alteradas e moldadas para a sociedade globalizada. Surgem novos suportes de escrita, novos temas, vozes e autores. Um novo poder e uma nova relação da palavra. E a Escrita Criativa também está nesse lugar de contaminação e hibridização. Derrubaram-se as barreiras do conhecimento. As linguagens deslizam-se umas para as outras, seja nas letras, nas artes ou na comunicação, aplicando a interdisciplinaridade numa troca de teorias e metodologias que dão origem a novos conceitos para entender as complexidades e também para desenvolver projetos criativos. O processo criativo não é linear, caminha em várias direções. A partir de uma obra é possível desconstruir, ressignificar e costurar novas ideias. Já dizia Cecília Almeida Salles (1998), criar é uma contínua metamorfose.
Referências
- AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.
- MORIN, Edgar. Epistemologia da Complexidade. In: SCHNITMAN, Dora Fried. Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
- POMBO, Olga. Epistemologia da Interdisciplinaridade. Cátedra Humanismo Latino. Seminário Internacional Interdisciplinaridade, Humanismo, Universidade, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 12 a 14 de novembro de 2003.
- SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Fadesp: Annablume, 1998.
- SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2008.
Palavras-chave: Escrita criativa; contemporaneidade; interdisciplinaridade; criação; processo criativo.
19 Performance em Geni e o Zepelim: A entoação e a dramatização de uma personagem marginalizada
Elisa Hübner Alves
O estudo da música popular é visto por Tagg (2003) como um “campo de estudo sociocultural” (p.17) e como estudo interdisciplinar (p.10), isto é, que abrange diversas áreas de conhecimento e aspectos culturais que envolvem canção e performance de compositores e artistas. Visto isso, o presente trabalho se propõe a analisar a canção “Geni e o Zepelim” na voz da atriz Letícia Sabatella, que realiza a performance com suas escolhas interpretativas. Há uma série de aspectos para a análise, como o ambiente, o figurino, a luz de palco e, claro, a própria autoria da intérprete, que se diferencia de outras na sua execução – o que é o esperado, pois “nenhuma performance jamais será igual à outra” (ABREU, 2016, p. 151) –, trazendo uma outra visão de mundo para a performance que se realiza pela voz, pelo gesto, pelo olhar.
A canção, composta por Chico Buarque, foi escrita para a peça Ópera do Malandro (1979), e conta a história de uma travesti que é rechaçada pelo povo da cidade diariamente, mas que cede ao seu pedido de ajuda e se entrega a um comandante para salvar a cidade, sendo violentada por ele. Mesmo depois de seu sacrifício, a cidade não a aceita, e continua a agredir e humilhar Geni. Há, portanto, o elemento da denúncia na música, que retrata a realidade de uma personagem marginalizada e dá voz a ela, protagonista que normalmente não teria espaço no centro da canção. Como se sabe, é recorrente na obra de Chico a presença dos “desvalidos e oprimidos” (MENESES apud ABREU, 2016, p.144) na parte mais crítica de sua obra, indivíduos explorados de algum modo pela ordem social.
Tendo em mente que a obra se passa no plano do “cômico e rebaixado, em um musical que tende à farsa e à caricatura” (ARAÚJO, 2014, p. 81), procurei analisar a performance de Sabatella e da maneira como ela personifica diversos personagens na canção de Geni. A atriz realiza a entoação interpretando uma pluralidade de vozes, que são intercaladas conforme o andamento da canção, demonstrando o “caráter performático e cênico” que é próprio da canção popular (PETRUCCI, 2018, p. 18).
A performance de Sabatella traz novas possibilidades de análise à figura de Geni, personagem marginalizada que toma o foco da narrativa na entoação da atriz. A representação da voz da personagem e do coro de personagens são interpretados com competência pela intérprete, que coloca o contraste entre as vozes à mostra ao entoar a canção, revelando o caráter de naturalização de crueldade trazido pela obra.
Referências
- ABREU, Carolina Soares de. “Folhetim’ segundo Gal Costa: possibilidades analíticas em torno da construção de identidade de gênero feminina”. In: O alcance da canção: estudos sobre música popular. Org. FISCHER, Luís Augusto; LEITE, Carlos Augusto Bonifácio. Porto Alegre: Arquipélago editorial, 2016.
- ARAUJO, Homero. “Um pote até aqui de mágoa: Chico Buarque e Paulo Pontes retomam os heróis populares de Guarnieri e Dias Gomes”. In: Futuro pifado na literatura brasileira: promessas desenvolvimentistas e modernização autoritária. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2014.
- BUARQUE. Chico. Ópera do Malandro. Disponível em: < https://tapetedepedra.weebly.com/uploads/5/6/9/2/569206/opera_do_malandro.pdf > Último acesso em: 06.12.2018.
- LIMA, Heloisa Bezerra; NASCIMENTO, Raul Victor Rodrigues. Transgeneridade e cárcere: diálogos sobre uma criminologia transfeminista. Revista Transgressões: ciências criminais em debate. 2014.
- PETRUCCI, Lígia. A canção e cena: corpo e gesto nas vozes Mônica Salmaso e Maria João. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Porto Alegre, junho de 2018.
- ROSSETO, Robson. O exercício campo de visão na formação do espectador-artista-professor. Revista Científica de Artes, v. 14, n. 1, p. 1-118. Curitiba: jan./jun. de 2016.
- TATIT, Luis. “Dicção do cancionista”. In: O cancionista. 2ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
- TAGG, Philip. “Analisando a música popular: teoria, método e prática”. Revista Em Pauta, v. 14, n. 23. Dezembro de 2003.
- WANDERLEY, Cremilda da Silva Aguiar. O Conteúdo Político na Dramaturgia de Chico Buarque: “Calabar”, “Gota D’água”, “Os Saltimbancos” e “Ópera do Malandro”. Intercom, Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste. São Paulo, 07 a 10 de maio de 2008.
Palavras-chave: Geni e o Zepelim; Canção Brasileira; Entoação; Performance; Marginalização.
20 A morte em carne e osso: uma análise de personagem em As intermitências da morte, de José Saramago, e em O sétimo selo, de Ingmar Bergman
Samla Borges Canilha
O medo da morte é talvez um dos sentimentos mais comuns aos homens. Ao longo da História, a consciência de um fim repentino e/ou inesperado serviu diversas vezes de mote para grandes manifestações artísticas – os exemplos são inúmeros, mas pode-se citar A divina comédia, de Dante Alighieri e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, restringindo-nos aos clássicos, como exemplos de textos que tomam a morte de ponto de partida. Diversas outras abordagens são possíveis. Delas destaco, neste trabalho, o romance As intermitências da morte, do escritor português José Saramago, em que a morte decide deixar de atuar, o que gera diversas consequências político-econômicas e sociais, e o filme O sétimo selo, do diretor sueco Ingmar Bergman, em que é narrada a história do retorno para casa de um cavaleiro, Antonius Block, após lutar nas Cruzadas, através de uma Suécia devastada pela peste negra e pelos absurdos da Inquisição. Em tal contexto, Block depara-se com a Morte, que surge para levá-lo; o cavaleiro, entretanto, nega-se, alegando ainda não ter encontrado o sentido de sua existência e que, por isso, precisa de mais tempo. A partir de uma análise de teor comparatista, busco observar como a personagem morte é construída por cada um dos artistas, procurando relacioná-la com a representação tradicional da morte na cultura ocidental. O que se pode perceber, a partir disso, é que ambos retomam, de fato, uma tradição – calcada no período medieval – através de elementos como a Dança Macabra, por exemplo. Destaca-se o fato de que ambas as obras abrem mão da representação esquelética da morte, dando-lhe um corpo, uma materialidade, o que faz com que a figura adquira também novos significados. Apesar de eventuais diferenças na forma como constroem e inserem a personagem em suas narrativas, em ambos os casos, nota-se uma subversão dessa tradição na forma mais apaziguadora (ao menos mais humana) como tão temida figura é representada.
Referências
- O SÉTIMO selo. Direção: Ingmar Bergman. Produção: Allan Ekelund. Intérpretes: Max Von Sydow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Bibi Andersson e outros. Roteiro: Ingmar Bergman. 1959. (96min).
- SARAMAGO, José. As intermitências da morte: romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Palavras-chave: morte; Intermitências da morte; José Saramago; O sétimo selo; Ingmar Bergman.
