CRÍTICAS, POLÍTICAS E INTERNACIONALIZAÇÃO TEÓRICA
Antonio Barros, Antonio Sanseverino, Cláudia Caimi e Rejane Pivetta
O que é “estar” em uma cultura, para quem se dedica ao estudo teórico-crítico da literatura? Qual sentido de pertencimento experimenta o pesquisador que maneja constantemente um material que emerge em outra língua, com todo o peso de uma tradição cultural específica, e se desloca, atravessando fronteiras linguísticas, nacionais e culturais para servir ao pesquisador na tarefa cotidiana de questionar e responder às inquietações da literatura? Existe algum sentido em se dizer que se “está em casa”, quando se trata da pesquisa teórica em literatura? Mesmo a Literatura Comparada, que na sua origem no século XIX está atrelada às fronteiras do Estado-nação e às suas respectivas culturas, exibe a marca de uma teoria “transnacional” e “internacionalizante”. Isto é, os métodos e princípios que norteiam a atividade crítica segundo a Literatura Comparada são compartilhados, em que pesem as especificidades culturais – ligadas muitas vezes às agendas políticas – dos grupos sociais minoritários que viram no método comparativo um incremento às suas ambições acadêmicas. Também ao longo do século XX – processo que não se interrompe neste século XXI, a propósito –, vê-se um deslocamento constante e contínuo de teorias, filosofias e abordagens críticas que se espalham pelo globo. Assim, do formalismo russo ao estruturalismo tcheco, do estruturalismo e pós-estruturalismo franceses ao materialismo histórico-dialético e à Teoria Crítica, da psicanálise aos diferentes estudos da recepção, o que se nota é a internacionalização das teorias da literatura e das filosofias, ocupando territórios inesperados e produzindo, por atrito ou cooperação, leituras convergentes e divergentes, tão criativas quanto por vezes inusitadas, que amplificam a recepção das obras literárias no interior de uma cultura nacional, produzindo, com isso, a constante renovação política e social da cultura através de leituras ou desleituras (parciais ou completas) de teóricos e filósofos internacionais. Nesse caso, como não mencionar as leituras benjaminianas de textos da cultura brasileira produzidas nas últimas décadas? Ou as abordagens ricoeurianas do texto literário, seja do ponto de vista hermenêutico, seja ainda no que toca à relação entre a literatura e a ética, a metáfora ou o tempo? Ou, mais recentemente, os vieses agambianos que surgiram como suporte à crítica da violência e da exclusão social no Brasil, tão largamente manifestadas na literatura recente? Na direção oposta, por que não pensar nos incrementos que o perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro, as poéticas canibais da antropofagia oswaldiana, a dialética da malandragem de Cândido ou as distintas vozes da literatura marginal brasileira produzem ou ainda podem produzir na interpretação de obras estrangeiras? É desse modo que o trabalho com o texto literário se beneficia da internacionalização teórica e filosófica – movimento que, num primeiro momento, desorienta a crítica tradicional da cultura para, posteriormente, reorganizá-la em função de novos paradigmas.
EIXO 6 — DATA E ORDEM DAS COMUNICAÇÕES
23 de outubro (quarta)
Local: Prédio da FACED, sala 512.
1 Apenas um retrato na parede, mas como dói: algumas notas sobre fotografia e escravidão, Antonio Marcos Vieira Sanseverino
2 Agência e precariedade em Mariana (1871), de Machado de Assis, Júlia de Campos Lucena
3 Nem todas as crianças vingam: servidão industrial, documentos de barbárie e lógica maquínica em Machado de Assis, Jeison Karnal da Silva
4 Ampliação da leitura e contradições da imprensa abolicionista brasileira: o caso da Gazeta de Notícias, William Moreno Boenavides
5 A perspectiva da Teoria Social da Edição para desbravar a obra tipográfica de João Cabral de Melo Neto, Priscila Monteiro
6 A Antropofagia como crítica política da cultura, Rejane Pivetta de Oliveira
7 Poéticas ayahuasqueiras: esboço de uma cartografia, Fernanda Vivacqua de Souza Galvão Boarin
24 de outubro (quinta)
Local: Prédio da FACED, sala 512.
8 O teor testemunhal no teatro documental: aporia entre a representação do real e o labor memorialístico, análise da obra Proyecto 1980/2000, el tiempo que heredé, Rafael da Silveira Falcão
9 Narrando a vivência benjaminiana: uma reflexão sobre as escritas do eu na atualidade a partir da obra de Annie Ernaux, Elisa Fernandes Rodrigues
10 Memória, narrativa e violência: uma reflexão crítica sobre o romance O verão tardio, de Luiz Ruffato, Luísa Osório Rizzatti
11 A escrita do “eu” nos ensaios autobiográficos de Ernesto Sabato e Affonso Romano de Sant’Anna, Margarete J. V. C. Hülsendeger
12 O conto de Erico Verissimo à luz das teorizações de Júlio Cortázar, Bruno Brizotto
13 Os críticos e os territórios na Parte dos Críticos, de 2666, Gabriel da Fonseca Torres
14 Do texto literário a vida submersa: uma análise em El río sín orillas de Jose Juan Saer, Fidelainy Sousa Silva
25 de outubro (sexta)
Local: Prédio da FACED, sala 512.
15 O poder de quase todos: a política emergente da conformação social apresentada em O Senhor das Moscas, de William Golding, Juliana Boeira da Silva
16 Emancipar-se do tempo: mimese, ontologia e política, Antonio Barros de Brito Junior
17 Pensando a catástrofe com Stengers e Sebald: uma intervenção possível, Davi Alexandre Tomm
18 Elvira Vigna e a diférrance de Jacques Derrida, Karen Cristina Garbo
19 Por uma literatura do fora, Rodrigo Gonçalves Lima
20 A obsessão do pós-modernismo com o passado, segundo Linda Hutcheon, Jefferson José Pereira Figueiredo
21 Entre a cegueira e a lucidez: um diálogo com o Estoicismo, Pedro Nunes de Castro
22 Reflexões de Merleau-Ponty para uma interface entre a literatura e a filosofia, Éder Corrêa
EIXO 6 — RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES
1 Apenas um retrato na parede, mas como dói: algumas notas sobre fotografia e escravidão
Antonio Marcos Vieira Sanseverino
Júlio Cortázar aproxima o conto e a fotografia a partir do recorte de um fragmento do cotidiano e pela fixação de limites (2006). Cortázar faz uso da analogia para caracterizar melhor o conto, enquanto gênero. A fotografia, na sua história, pode ser pensada ainda mais além na reflexão sobre as condições da arte, e especificamente, da literatura, a partir do século XIX. Walter Benjamin traz a fotografia para o centro de uma reflexão sobre a arte contemporânea, a partir de uma alteração da sensibilidade, de uma abertura do campo da experiência pelo olho da câmera. Jacques Rancière realiza uma inversão ao propor que há uma alteração do campo da experiência sensível a partir do século XIX, que a fotografia gradualmente incorpora. No presente momento, interessa insistir nesse lugar que a fotografia ocupa para uma reflexão sobre a arte. A partir daí, interessa interrogar a entrada da fotografia no contexto de sociedades escravocratas nos Estados Unidos e no Brasil. No presente trabalho, é construído um esboço inicial para entender o lugar que os retratos de negros escravizados podem nos ajudar no debate sobre a fotografia em contextos periféricos.
Palavras-chave: fotografia; escravidão; Walter Benjamin; Jacques Rancière.
2 Agência e precariedade em Mariana (1871), de Machado de Assis
Júlia de Campos Lucena
O trabalho aqui proposto dá sequência à interlocução sugerida na cadeira de Contos Machadianos ministrada pelo professor Antônio Sanseverino no PPG de Letras da UFRGS entre a teoria de gênero da filósofa norte-americana Judith Butler, a partir da leitura parcial do texto Problemas de gênero (1990), e a análise do historiador Sidney Chalhoub do conto Mariana (1871) em Machado de Assis historiador (2003). O pequeno conto de Machado, segundo Chalhoub, é um verdadeiro documento histórico de um período em que ideias abolicionistas e leis emancipatórias tensionavam a relação entre escravidão, em vias de findar, e a liberdade. Por tratar de uma personagem mulher, a obra expõe também as condições impostas ao gênero feminino pela ideologia patriarcal e paternalista, que intensifica a lógica hegemônica da dependência pessoal. Nesse sentido, pretendo dar sequência à análise iniciada em aula a partir da teoria política desenvolvida pelas obras subsequentes de Judith Butler, quando a autora avança da teoria de gênero em direção às considerações acerca das minorias submetidas à precariedade pelas dinâmicas do poder. Textos como A vida psíquica do poder (1997), Vida precária (2004), Relatar a si mesmo (2005) e Quadros de guerra (2009) nos fornecem categorias de análise melhor elaboradas e mais precisas que propiciam novas chaves de leitura para obras literárias em cuja moldura estão representadas tanto as estruturas do poder hegemônico quanto as ações de agência e resistência do sujeito que sujeitado por ela (sujeição, que, em Butler, significa tanto ser subjugado pelo poder quanto se tornar sujeito). Esse, acredito, é o caso do conto Mariana. A posição intermediária de “escrava quase senhora” da protagonista a coloca no entre-lugar onde residem as tensões antes mencionadas e faz com que Mariana avalie com enorme lucidez sua condição. Mobilizada por um desejo que rompe as normas da estrutura social pela qual é constituída (ela se apaixona pelo senhor moço), ela revela o ímpeto do sujeito de resistir à sujeição absoluta, e de poder “narrar a si próprio” e constituir-se como subjetividade enquadrada em uma ética do reconhecimento (o que ela é apenas em partes, pois sempre que estica a corda, predomina a violência senhorial). Esse desejo atua como um propulsor de mudanças no comportamento da personagem, que passa a confrontar o seu estado de semi-emancipação (em que a mesma estrutura de poder que concede sua liberdade tem o poder de encerrá-la) e a adotar estratégias de resistência, isto é, de agência. Seu suicídio, ao final da narrativa, antes de um excesso romântico ou melancólico, talvez possa ser lido, sob o ponto de vista teórico proposto, como um extremo e violento ato de resistência pelo reconhecimento de sua individualidade e valor ético.
Referências
- ASSIS, Machado. Mariana. 1871. Disponível em: <http://machadodeassis.ufsc.br/obras/contos/avulsos/CONTO,%20Mariana,%201871.htm> Acesso em: 23.08.2019.
- BUTLER, Judith. Frames of War: when is life grievable? New York: Verso, 2009.
- ______. Precarious life: the powers of mourning and violence. New York: Verso, 2004.
- ______. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
- ______. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
- ______. The Psychic Life of Power. Theories of subjection. California : Stanford University Press, 1999.
- CHALOUB, Sidney. Machado de Assis historiador. Cia das Letras. 2003. Ebook
Palavras-chave: escravidão; paternalismo; Machado de Assis; precariedade; agência.
3 Nem todas as crianças vingam: servidão industrial, documentos de barbárie e lógica maquínica em Machado de Assis
Jeison Karnal da Silva
Pela camada mais exposta do conto “Pai Contra Mãe” (1907), do escritor Machado de Assis, desliza um narrador pragmático que dissimula.
A voz se contém, num emaranhado grotesco de naturalizações e contradições individuais a que Cândido Das Neves se põe (ou é posto). Diante do leitor, erupções de outros patamares instigam uma elaboração ex-post facto da jornada de Neves: asreações do particular à lógica social e econômica do período pré-Abolição da Escravatura. Parte da elite intelectual ocupava-se de ideais positivistas. A práxis da barbárie, ao largo, justificava-se pela urgência da manutenção do status quo. “A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. (…) Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. (…) Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar (…), e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas” (ASSIS, 1998, p.94). Eis a lógica maquínica do capital, cujo processo maturado ocuparia Engels. Machado refere que “há meio século os escravos fugiam com frequência”, o que faz depreender que o período referido da história nacional seria algo em torno de 1860, segunda fase do II Reinado, lucrativa para cafeicultores, com incremento de tecnologia ao processo.
Cabe ver os funileiros sob outro prisma: “corpos produtivos”. Resistem ao movimento de apagamento do saber artesanal e dispõem sua manufatura, assimilados pelo jogo concorrencial (com ou sem dilemas éticos).
Machado centraliza aspectos particulares (num contexto proto-fabril brasileiro, exógeno e pitoresco frente ao europeu). Dá forma estética à lógica de produção em escala de trabalhadores pobres ou escravizados, cujos corpos alienados operam no limite por um projeto de lucro. O texto traz já a semente da futura indústria dos Anos 1950.
A estética da máscara-de-flandres, em exibição, “a sombra antes do acontecimento”. O “utensílio” paira num entre-lugar simbólico: signo da violência institucionalizada e da oferta. Locus dialético: “agente da passiva” (sujeito e objeto, a cadeia da tortura). A dualidade: o impulso dos que ganham a vida “pegando escravos fugidios”. O narrador e as razões plausíveis: “(…) a necessidade de uma achega, a inaptidão para o trabalho (…)” (idem, p.96). O embate de dois desvalidos. Mesmo para os opressores há prazo de validade. Neves perdia lugar “para mãos mais novas e hábeis”. Mulheres e crianças, na Revolução Industrial, tomaram o lugar de homens robustos graças a motricidade fina (necessária para operar o novo maquinário). “Nem todas as crianças vingam”, justifica no retorno da guerra heroica. O aborto de uns é o florescer de outros.
A proposta aqui é “ler a contrapelo, trazer o passado ao sol, fazer as contradições abafadas se erguerem no céu da história”. Assim propõe Benjamin.
Referências
- ASSIS, Machado de. Contos: Pai Contra Mãe. Porto Alegre: L&PM, 1998.
- ENGELS, Friederich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Editora Boitempo. São Paulo 2008.
- BENJAMIN, Walter. O Anjo da História: Sobre o conceito de HIstória. São Paulo: Autêntica, 2016.
Palavras-chave: revolução industrial; materialismo dialético; Machado de Assis; Friederich Engels; Walter Benjamin.
4 Ampliação da leitura e contradições da imprensa abolicionista brasileira: o caso da Gazeta de Notícias
William Moreno Boenavides
A Gazeta de Notícias foi o maior entre os periódicos brasileiros identificados com o movimento abolicionista de fins do século XIX. No início da década de 1880, já rodava entre vinte e dois e vinte e quatro mil exemplares diários (Gazeta de Notícias, 03/08/1881, p. 1). Além disso, notabilizou-se por implementar a venda avulsa num período em que os demais jornais comerciais só eram vendidos por meio de assinaturas (RAMOS, 2010, p. 40-41) bastante inacessíveis pela falta de trabalhos fixos com pagamentos regulares (FRANCO, 1976). Tendo ainda um preço considerado baixo em relação aos demais, a Gazeta de Notícias foi entendida, tanto pelos seus contemporâneos quanto por estudiosos(as) da literatura e da imprensa brasileira, um periódico exemplar no que diz respeito à busca pela ampliação do público leitor e pela modernização de suas práticas comerciais (SODRÉ (1969), BARBOSA (2010), RAMOS (2005 e 2010) e CRESTANI (2014)). Neste trabalho, analiso a relação da Gazeta de Notícias com o movimento abolicionista da época, bem como seus traços considerados modernos no que tange à busca por maior público leitor. Numa perspectiva crítica, concentro-me nas contradições aí presentes. Elas se revelem pelo estudo do modo como o periódico valia-se da escravidão para veicular anúncios de aluguéis e vendas de escravizados (Gazeta de Notícias, 13/06/1888, p. 3), bem como aproveitava-se da mão-de-obra infantil para distribuição de seus exemplares (ARAÚJO,1889, posição Kindle 11121 e BARBOSA, 2010, p. 80). Destaco ainda que o preço de venda do periódico era bem maior do que os principais comentários sobre isso deixam entrever, podendo uma assinatura mensal custar, por exemplo, cerca de cinquenta por cento do salário de um servente de pedreiro no período (ALENCASTRO, 1988, p. 43-44; 55). Assim sendo, a partir do caso da Gazeta de Notícias, proponho o debate sobre o modo como não só a cultura, mas também sua transmissão não está isenta de barbárie, nas conhecidas palavras de Walter Benjamin (1994), nesse momento crucial da cultura brasileira em que as contradições da escravidão se cruzam com as da leitura.
Referências
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Proletários e escravos: imigrantes portugueses e cativos africanos no Rio de Janeiro, 1850-1872. Novos estudos, nº 21, julho de 1988, p. 30-56.
- ARAÚJO, Ferreira de. Press. In.: SANTA-ANNA NERY, Frederico José de. (org.) Le Brésil en 1889: avec une carte de l’empire en chromolithographie, des tableaux statistiques, des graphiques et des cartes. Paris: Charles Delagrave, 1889.
- BARBOSA, Marialva. Histórica cultural da imprensa: Brasil, 1800-1900. Rio de Janeiro: Mauad X, 2010.
- BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ed. – Trad. Sérgio Paulo Ruanet. Obras escolhidas vol. 1 – São Paulo: Brasiliense, 1994.
- CRESTANI, Jaison Luís. Machado de Assis e o processo de criação literária: estudo comparativo das narrativas publicadas n’A Estação (1879-1884), na Gazeta de Notícias (1881-1884) e nas coletâneas Papéis Avulsos (1882) e Histórias sem Data (1884). São Paulo: Nankin: Edusp, 2014.
- FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: Ática, 1976.
- RAMOS, Ana Flávia Cernic. As máscaras de Lélio: ficção e realidade nas “Balas de estalo de Machado de Assis. 410 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2010. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000473 160>. Acesso em: 23 ago. 2012.
- ______. Política e humor nos últimos anos da monarquia: a série “Balas de Estalo” (1883-1884). 168 f. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2005. Disponível em: <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?down=vtls000350 300>. Acesso em: 23 ago. 2012.
- SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 3ª ed., 1969.
Palavras-chave: escravidão; imprensa; séc XIX; Gazeta de Notícias; leitura.
5 A perspectiva da Teoria Social da Edição para desbravar a obra tipográfica de João Cabral de Melo Neto
Priscila Monteiro
A passagem de João Cabral de Melo Neto pelo mundo das Artes Gráficas não chamou a atenção acadêmica. Embora quase oitenta anos nos distanciem desde o início de sua fortuna crítica, poucos foram os teóricos que mencionaram a existência de O Livro Inconsútil para além da curiosidade anedótica. Paralelo à vida de vice-cônsul em Barcelona, ao longo de seis anos Cabral sustentou um projeto editorial a fim de publicar poesia. As cartas da época registram o esforço em criar um sistema literário receptivo à produção brasileira e à catalã no exterior. Dominar técnicas tipográficas para construir objetos tradicionais e concretos como livros é parte de um aprendizado que exige artesania e autorreflexão, características igualmente presentes no rigor formal e linguístico na poesia desse autor, sobretudo nas produções posteriores à essa experiência.
A Crítica Textual oferece ferramentas para compreender situações como essa, em que um dos autores mais estudados pelo mundo lusófono tem uma faceta criativa sua praticamente inédita. A Teoria Social da Edição, de D.F. McKenzie, e o conceito de código bibliográfico, de Jerome McGann, colocam em evidência os processos de significação bibliográfica como parte das redes de sentido que estruturam as formas textuais, portanto dialogam com as práticas de Cabral em seu projeto editorial, tendo em vista que atuou como editor, gráfico, tradutor e poeta, compondo e imprimindo à mão centenas de exemplares das catorze obras que publicou – sendo duas delas de sua autoria.
A origem do desinteresse do pensamento acadêmico em reconhecer Cabral-gráfico como parte do seu processo literário também é explicada pela Teoria. Segundo os autores, é preciso integrar processo de produção e de recepção formal à historicidade dos objetos culturais para além das abordagens semióticas e hermenêuticas, pois é a partir da valorização da materialidade específica de cada edição estudada que a bibliografia pode auxiliar a crítica literária a ampliar suas abordagens para além da exclusiva comparação entre textos. Assim, é possível encontrar importância em manusear as primeiras edições impressas pelo O Livro Inconsútil a fim de reconhecer nelas formas textuais não bibliográficas como parte da textualização, bem como perceber o que se modifica nas edições posteriores, consumidas pela maior parte do público-leitor. Para McKenzie, as bibliografias deveriam ser “sociologia dos textos”, abarcar diferentes mídias e suportes documentais, assim reivindicando uma crítica capaz de alargar os princípios interpretativos tão arraigados na cultura dominante letrada do mundo impresso. A hipótese central é que forma material específica que uma obra assume pertence ao estágio inicial de socialização dessa obra, logo sua reprodução e transmissão deveriam fazer parte das chaves de leitura quando pesquisamos criações artísticas de qualquer natureza, já que são, sobretudo, artefatos culturais.
Considerar os livros impressos por Cabral à luz dessa Teoria é minha pesquisa de tese. Essa comunicação é parte da discussão sobre o capítulo que estou desenvolvendo a respeito das Materialidades da Literatura aplicadas à epistemologia do livro de poesia artesanal e sua relação com as edições impressas de 1947 a 1953 por João Cabral.
Referências
- MCGANN, Jerome. Critique of Modern Textual Criticism. Chicago/London: University of Chicago Press, 1983.
- __________. Textual Criticism and Literary Interpretation. Chicago/London: University of Chicago Press, 1985.
- __________. The Textual Condition. Princenton/New Jersey: Princenton University Press, 1991.
- MCKENZIE, D.F. Bibliography and the Sociology of Texts. Cambridge University Press, 2004 [1986, 1999].
- __________. Making meaning: “Printers of the mind” and other essays. University of Massachusetts Press, 2002.
Palavras-chave: O Livro Inconsútil; D.F. McKenzie; Jerome McGann; poesia brasileira; livro artesanal brasileiro.
6 A Antropofagia como crítica política da cultura
Rejane Pivetta de Oliveira
A antropofagia constitui, nas palavras de Augusto de Campos, a “única filosofia original brasileira” – afirmação que talvez contradiga os princípios da crítica contida no conceito proposto por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago (1928). Criada no contexto das vanguardas do Modernismo brasileiro, a antropofagia responde, naquele momento, à demanda por afirmação de uma cultura nacional, rompendo a relação de dependência com os modelos europeus. Contudo, não se restringe a uma categoria do nacional, e certamente refuta as concepções de “original” e mesmo de “filosofia”. As relações entre o primitivo e o civilizado, o matriarcado e o patriarcado, o comunitário e o global, o espiritual e o material, o eu e o outro estão no fundo da elaboração conceitual de Oswald de Andrade sobre a antropofagia, resgatando do passado histórico o elemento indígena reprimido, tomado agora como substância crítica e matriz de pensamento sobre a cultura, e não como aspecto temático e identitário, tal como o fora no Romantismo. A antropofagia é um projeto crítico de interpretação da história e da cultura, continuamente retomado e desdobrado ao longo da obra de Oswald de Andrade, com repercussões na história dos movimentos de vanguarda e de resistência cultural no Brasil, como o Concretismo, o Tropicalismo, o Cinema Novo, o Teatro Oficina e a Poesia Marginal. A incidência do conceito se faz perceber também na produção artística e intelectual contemporânea, como é o caso da literatura marginal periférica, que explicitamente assume uma atitude de devoração antropofágica, e também no âmbito da antropologia, com os estudos de Eduardo Viveiros de Castro sobre o perspectivismo ameríndio e as metafísicas canibais, que estabelecem uma relação direta com o princípio da alteridade antropofágica. Herdeira da renovação estética do Modernismo, a antropofagia é uma formulação que ultrapassa o ímpeto da vanguarda, abrindo um campo fecundo de reflexão sobre as contradições, os impasses e as promessas mal cumpridas da civilização capitalista ocidental, cujos componentes de destruição, violência, desigualdade e autoritarismo ainda hoje persistem. Nesta comunicação, propomos o exame dos ensaios de Oswald de Andrade sobre o conceito de antropofagia, em particular o Manifesto Antropófago, “A psicologia antropofágica”, “A crise da filosofia messiânica” e o “O Antropófago”, com o objetivo de explicitar os desdobramentos e o alcance político do conceito, enquanto “filosofia” que confronta os esquemas explicativos da racionalidade civilizada ocidental. Interessa, sobretudo, ler nos textos de Oswald de Andrade o modo como o ritual da antropofagia ameríndia transforma-se em índice de crítica política da cultura.
Referências
- ANDRADE, Oswald de. Os Dentes do Dragão. (Entrevistas). São Paulo: Globo; Secretaria de Estado da Cultura, 1990a.
- ANDRADE, Oswald de. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Globo, 2004.
- ANDRADE, Oswald de. Pau Brasil. São Paulo: Globo, 2003.
- ANDRADE, Oswald de. Serafim Ponte Grande. São Paulo: Globo, 2007.
- ANDRADE, Oswald de. Um homem sem profissão. Memórias e confissões. Sob as ordens da mamãe. São Paulo: Globo, 2002.
- ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. 4. ed. São Paulo: Globo, 2011.
- BOPP, Raul. Vida e morte da antropofagia. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.
- CAMPOS, Augusto de. poesia, antipoesia, antropofagia. São Paulo: Cortez e Moraes, 1978.
- CAMPOS, Haroldo de. “Uma poética da radicalidade”. Em: ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. (Obras completas vol. VII). 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, INL, 1972.
- CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem & outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. 4. ed. 1. reimpressão. São Paulo: Perspectiva, 2004.
- CÂNDIDO, Antônio. Vários escritos. São Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro sobre Azul, 2004.
- FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade – biografia. 2. ed. São Paulo: Globo, 2007.
- NUNES, Benedito. “A antropofagia ao alcance de todos”. Em: ANDRADE, Oswald de. A utopia antropofágica. 4. ed. São Paulo: Globo, 2011. pp. 7-56.
- REVISTA DE ANTROPOFAGIA: 1ª e 2ª dentições. (fac-símile). São Paulo: Abril, Metal Leve, 1975. Disponível em https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/7064/1/45000033273.pdf.
- CASTRO ROCHA, João Cezar; RUFFINELLI, Jorge. Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: É Realizações, 2011.
- VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
- VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas Canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac & Naify, 2015.
Palavras-chave: Antropofagia; Oswald de Andrade; Perspectivismo; Modernismo brasileiro.
7 Poéticas ayahuasqueiras: esboço de uma cartografia
Fernanda Vivacqua de Souza Galvão Boarin
Este trabalho tem como objetivo esboçar uma cartografia das poéticas envolvendo a bebida psicoativa ayahuasca. A dificuldade que se impôs a esta tarefa, inicialmente, foi lidar com a pluralidade de produções estéticas ligadas à substância, mesmo que esta esteja recorrentemente associada a cantos, narrativas e outros atos performáticos que, de uma maneira ou de outra, constituem a cosmologia e a estética dos grupos que dela fazem uso. Assim, ao buscar uma geografia em torno de tais poéticas, o que encontrei foi um tracejo que desobedece aos limites das fronteiras nacionais, apontando para um outro desenho possível. Tendo isso em vista, em um primeiro momento, o trabalho apresenta algumas poéticas ayahuasqueiras, explicitando este território que se delineia e destacando os deslocamentos transnacionais nele percebidos. Para tanto, recorro à narrativa de Ricardo Yaiguaje, índio Siona da Colômbia, contada à Langdon (2002) e por ela traduzida; aos estudos em torno dos cantos visionários dos índios Kaxinawá no leste do Peru (KEIFENHEIM, 2002); e aos “Ícaros” – cantos de cura e ensino de povos indígenas na América Central (CALLICOT, 2017; HANSEN, 2017). Além disso, entendendo a importância de outros usos para a feitura de tal esboço, sobretudo aqueles hoje disseminados nos espaços urbanos, somo aos exemplos a religião brasileira ayahuasqueira Santo Daime (LABETE; PACHECO, 2009), com seus hinos e bailados, e obra “Seiva, veneno ou fruto.”, da poeta paulistana Júlia de Carvalho Hansen ([2016] 2018), encontrando um outro trânsito, entre a oralidade e a escrita. Após esse momento, e explicitada a pluralidade percebida, introduzo, no texto, as contribuições de Viveiros de Castro (2007a; 2007b; 2007c), ao propor a formulação de um pensamento amazônico – o “perspectivismo” –; e as noções de “paisagem” – como símbolo vivo de uma outra cosmovisão e, portanto, de uma outra mirada estética, do mundo e das produções humanas – e de “poética da diversidade”, encontradas em Glissant (2005; 2014). Dessa forma, acredito que o trabalho pôde não só esboçar uma cartografia de tais poéticas, como problematizar suas possibilidades, sem que se recaia em um retrato estático e calcado em concepções estranhas a essas culturas, ainda que muito afeitas ao pensamento ocidental.
Referências
- CALLICOT, Christina. Comunicação entre espécies na Amazónia Ocidental: a música como forma de conversação entre plantas e pessoas. caderno de leituras. n.71. São Paulo: Chão da Feira, jul. 2017.
- GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
- ______. O pensamento de tremor. La cohée du lamentim. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2014.
- HANSEN, Júlia de Carvalho. Ver o que o canto ensina a ver. caderno de leituras. n. 57. São Paulo: Chão da Feira, jan. 2017.
- ______. Seiva, veneno ou fruto. Belo Horizonte: Chão da Feira, [2016] 2018. 1a reimpressão.
- LABATE, Beatriz Caiuby; PACHECO, Gustavo. Música brasileira de ayahuasca. Campinas: Mercado das Letras, 2009. 118 p.
- LANGDON, Ester Jean. A tradição narrativa e aprendizagem com yagé (ayahuasca) entre os índios Siona da Colômbia. In: LABATE, Beatriz Caiuby; ARAÚJO, Wladimyr Sena. O uso ritual da ayahuasca. Campinas: Mercado das Letras; São Paulo: Fapesp, 2002. p. 69-97.
- KEIFENHEIM, Barbara. Nixi pae como participação sensível no princípio da transformação da criação primordial entre os índios Kaxinawá no leste do Peru. In: LABATE, Beatriz Caiuby; ARAÚJO, Wladimyr Sena. O uso ritual da ayahuasca. Campinas: Mercado das Letras; São Paulo: Fapesp, 2002. p. 97-129.
- VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O chocalho do xamã é um acelerador de partículas [1999]. In: VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2007a. p. 24-29.
- ______. O perspectivismo é a retomada da Antropofagia oswaldiana em novos termos [2007]. In: ______. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2007b. p. 114-129.
- ______. Temos que criar um outro conceito de criação [2007]. In: ______. Encontros. Rio de Janeiro: Azougue, 2007c. p. 162-181.
Palavras-chave: poéticas ayahuasqueiras; cartografia; pensamento amazônico; poética da diversidade; paisagem.
8 O teor testemunhal no teatro documental: aporia entre a representação do real e o labor memorialístico, análise da obra Proyecto 1980/2000, el tiempo que heredé
Rafael da Silveira Falcão
Proyecto 1980/2000 el tiempo que heredé, é uma obra de teatro peruana, dirigida por Sebastián Rubio y Cláudia Tangoa. Sua estreia ocorreu em 2012 no festival de artes performáticas do MALI (Museu de Arte de Lima). A obra se caracteriza enquanto teatro documental e foi inspirada no processo de construção cênica de Mi vida después, de Lola Arias (dramaturga argentina), peça que estreou em 2009 e foi apresentada não apenas na Argentina, mas também no Chile, Uruguai, Brasil, México, entre outros.
Se por um lado, me interesso pelo espaço político que é pensar o teatro desde e para América Latina, por outro, me interessa compreender como os sujeitos e sujeitas lidam com sua própria história, com seus traumas, com o tempo histórico que lhes tocou viver e a partir disso, continuamente, ressignificam as suas identidades. Ambos interesses convergem no estudo do teor/função testemunhal no teatro, que como tal, possui uma estrutura específica que delimita a experiência humana de indagar sobre suas origens e recriá-las, na tentativa de constituir narrativas que deem conta de entender o seu caminho e as implicaturas sociais do encontro dessas histórias. Os testemunhos dos performers na peça fazem alusão a um período de violência política e terrorismo que impactou durante duas décadas a vida a população peruana, e que direta ou indiretamente segue impactando.
Márcio Seligmann-Silva (2003, p. 11), avança na reflexão deixada por Walter Benjamin em 1936, de que frente a processos de construção de mitos e estetização da política, há que politizar a arte. Para Seligmann-Silva não basta politizar a arte, a arte política ainda serve a qualquer fim. Sua proposta é de que é necessário levar em consideração o paralelismo entre política e a arte/literatura de maneira crítica. Em tal sentido é que inicio o estudo da obra de teatro, a partir do seu espaço de publicação/circulação, ou seja, numa análise da “GESTOS – Revista de teoria e prática do teatro hispânico”, o objetivo aqui, foi entender qual o espaço político no qual o texto da obra Proyecto 1980/2000 el tiempo que heredé, estava inserido, para depois partir à análise do texto da obra propriamente dita.
Este movimento de análise surge porque partilho do debate de que falar sobre arte e literatura, estritamente em termos técnicos não é suficiente para entendê-la. É necessário justamente, buscar um lugar para ambas no contexto das demais expressões humanas, e dos modelos de vida a que essas expressões, em seu conjunto, dão sustentação. Clifford Geertz (1997, p. 146), evidencia que o processo de atribuição aos objetos de arte um significado cultural, é sempre um processo local, mesmo que as qualidades intrínsecas que transformam a força emocional em coisas concretas possam ser universais.
Espera-se que como resultado do exercício de análise da obra peruana, seja possível compreender como se articulam distintos mecanismos teórico-práticos utilizados na abordagem de questões que envolvem: memória, testemunho, representação e identidade. Para tal, os principais autores visitados, são: Márcio Selligmann-Silva, Roberto Esposito, Clifford Geertz, Walter Mignolo e Patrice Pavis.
Referências
- ARIAS, L. Mi vida después. Buenos Aires, AR. Disponível em: <http://lolaarias.com/proyectos/mi-vida-despues/>, Acesso em: 12 jun. 2019, 22:00:07.
- ESPOSITO, R. Communitas: origen y destino de la comunidade. 1ª ed., 2ª reimp. Buenos Aires: Amorrortu, 2012.
- GEERTZ, C. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Tradução de Vera Mello Joscelyne. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
- MIGNOLO, W. Colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. In: __. Historias Locales – Diseños Globales. Madrid: Akal, 2003, p. 18-60.
- PAVIS, P. O teatro no cruzamento de culturas. Tradução de Nanci Fernandes. São Paulo: Perspectiva, 2008.
- RUBIO, S; TANGOA, C. Proyecto 1980-2000, el tiempo que heredé. Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico: nuevas estratégias y memória histórica, Califórnia, v.29, n.58, p. 152-174, nov. 2014.
- RUBIO, S; TANGOA, C. Sobre el tiempo que heredamos. Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico: nuevas estratégias y memória histórica, Califórnia, v.29, n.58, p. 149-151, nov. 2014.
- SELIGMANN-SILVA, M. (Org.). História, Memória e Literatura: o testemunho na era das catástrofes. Campinas, SP: Unicamp, 2003.
- VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico. Califórnia, v.23, n.45, abr. 2008.
- VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico: en los escenarios del mundo hispânico, 2013, Califórnia, v.29, n.57, abr. 2014.
- VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico: nuevas estrategias y memoria histórica, Califórnia, v.29, n.58, nov. 2014.
- VILLEGAS, J. (Ed.). Revista GESTOS Teoría y Práctica del Teatro Hispánico: gestos transitórios: presente, pasado y futuro de las teorías sobre el teatro, Califórnia, v.30, n.60, nov. 2015.
Palavras-chave: Teatro documental; Testemunho; Representação; Memória; Identidade.
9 Narrando a vivência benjaminiana: uma reflexão sobre as escritas do eu na atualidade a partir da obra de Annie Ernaux
Elisa Fernandes Rodrigues
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre em que medida as escritas do eu, na forma de autobiografias e autoficções, são a representação atual da vivência benjaminiana, com foco na análise da obra da escritora francesa Annie Ernaux, que dedicou sua vida à escrita autobiográfica. Walter Benjamin desenvolve nos ensaios Experiência e pobreza (1933) e O narrador (1936) os conceitos de vivência (Erlebnis) e de experiência (Erfahrung), de onde partem este trabalho. A experiência benjaminiana é aquela que atravessa gerações, ligada às sociedades tradicionais e veiculada sobretudo pela narrativa oral. Benjamin defende que a modernidade, sobretudo nos grandes centros urbanos ocidentais, é marcada pelo declínio da experiência e pelo desaparecimento da figura do narrador, atribuindo à Primeira Guerra Mundial o golpe derradeiro da transmissão oral. Segundo Benjamin, isso se deve à impossibilidade de narrar o horror vivenciado nas trincheiras, à sensação de aceleração, intensificação e contração do tempo na modernidade, à mudança total das paisagens do pós-guerra e às grandes transformações técnicas. A vivência benjaminiana é, por sua vez, a experiência pobre da modernidade: fragmentária, contingente e limitada à existência de um homem. A temporalidade deixa então de ser linear, contínua e extensiva e passa a ser imediata, quebrada e descontínua, e a experiência moderna é, enfim, caracterizada sobretudo pela impossibilidade de transmitir um conhecimento que atravesse gerações. Rompe-se o laço entre os indivíduos, rompe-se a transmissão do passado coletivo e restam as singularidades. Segundo Silva (2015), Benjamin aponta para a “necessidade de uma nova ars narrativa” (p. 74) que desse conta, não mais da experiência, mas da vivência própria à modernidade, e que pudesse representar seu caráter fragmentário limitado, tal qual a Erlebnis, à vida de uma só pessoa. Para Benjamin, a poesia de Baudelaire teria conseguido esse feito, na figura do flâneur. Acredito que as escritas do eu deem conta não apenas do caráter efêmero da Erlebnis, mas também de seu caráter duradouro, conforme apresentado por Silva (2015). Interrogo-me por fim sobre a possível coletividade, durabilidade e, por que não, transmissão presentes nesse esforço de recordar, conforme Assmann (2011), testemunhar, escrever e publicar a própria vida, muitas vezes representativa de um grupo social ou de um fenômeno histórico.
Referências
- ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.
- BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza(1933). In: Walter Benjamin – Obras escolhidas. Vol 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre a literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Maria Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987.
- BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov(1936). In: Walter Benjamin – Obras escolhidas. Vol 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre a literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Maria Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987.
- SILVA, João Gabriel Lima da. O castelo da experiência: Walter Benjamin e a literatura. Rio de Janeiro: Editora Appris, 2015.
Palavras-chave: memória; escritas do eu; vivência; recordação; Annie Ernaux.
10 Memória, narrativa e violência: uma reflexão crítica sobre o romance O verão tardio, de Luiz Ruffato
Luísa Osório Rizzatti
A proposta do trabalho é uma reflexão crítica acerca do livro O verão tardio, do escritor mineiro Luiz Ruffato, através de um aporte teórico estrangeiro, contando, sobretudo, com pensamentos de Walter Benjamin, Paul Ricoeur e Jeanne Marie Gagnebin. Publicado em maio de 2019 pela Companhia das Letras, o romance é narrado pelo protagonista Oséias, um representante de vendas que trabalhava em São Paulo e que decide retornar a sua cidade-natal, Cataguases, em Minas Gerais, após ser abandonado pela esposa e pelo filho.
Cada capítulo corresponde a um dia da sua jornada de retorno às origens familiares: de terça a domingo, Oséias deixa registrado suas andanças, encontros e desencontros. No plano narrativo, existe uma mescla temporal do presente com o passado, de modo que o conteúdo do presente trata da enumeração de ações e de descrições de cenas, com frases curtas e pontuais, enquanto as referências ao passado parecem mais longas. Sob esse viés, a história trata, sobretudo, de um sujeito que tenta a todo instante reatar os cacos do passado e recuperar as memórias de outrora.
O problema, entretanto, é que nem ele nem Cataguases são mais os mesmos, ambos experimentaram mudanças que provocam conflitos nesse retorno. Oséias percebe-se como alguém inadequado e sem esperanças diante daquele universo violento, sujo e preconceituoso. Fora isso, bem como diz o próprio autor, o livro traz uma discussão acerca da história brasileira contemporânea através dos conflitos entre as personagens de diferentes estratos sociais.
Diante disso, a ideia do trabalho é trazer para o debate as duas dimensões evidentes no texto: uma individual e outra coletiva. Para a primeira questão, discutirei sobre memória e narrativa através de Jeanne Marie Gagnebin, com Lembrar escrever esquecer, com o intuito de entender como a personagem busca elaborar o seu passado e reconstruir a trajetória de sua vida a partir da narrativa. É sob esse viés que Tempo e Narrativa (Tomo 1), de Paul Ricoeur, também será importante para embasar a relação entre o ato de narrar uma história e o caráter temporal da existência. Já O narrador e Experiência e pobreza, de Walter Benjamin, colocam em cena a discussão das formas de narrar, possibilitando que se compreendam as dissonâncias das angústias individuais de um sujeito imerso em uma coletividade que não o representa.
O segundo aspecto, por sua vez, é macro, amplo, pois trata-se de um debate sobre o Brasil dos tempos atuais. O texto norteador dessa etapa será Sobre a crítica do poder como violência, de Walter Benjamin, para discutirmos as violências que aparecem no enredo e que estão imbricadas em toda e qualquer ordem social, englobando os discursos políticos corrompidos, o individualismo, a intolerância, a briga pelo poder e as atitudes medíocres de ascensão social. Essa temática é uma espécie de espelhamento do que acontece no país atualmente, em que deveríamos, em pleno século XXI, estar caminhando em direção a um país melhor, sem tantas desigualdades e preconceitos, mas, na verdade, o que vemos é quase um grande retrocesso à barbárie.
Referências
- BENJAMIN, Walter. Experiência e Pobreza. In: BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Organização e tradução de João Barrento – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
- BENJAMIN, Walter. O narrador. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Organização e tradução Sérgio Paulo Rouanet – São Paulo: Brasiliense, 2012 – (Obras escolhidas v. 1)
- BENJAMIN, Walter. Sobre a crítica do poder como violência. In: BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Organização e tradução de João Barrento – Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
- GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer – São Paulo: Editora 34, 2009.
- RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994, v.1
- RUFFATO, LUIZ. O verão tardio. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Palavras-chave: O verão tardio; memória; narrativa; temporalidade; violência.
11 A escrita do “eu” nos ensaios autobiográficos de Ernesto Sabato e Affonso Romano de Sant’Anna
Margarete J. V. C. Hülsendeger
O ensaio na América latina tem se mostrado como uma práxis capaz de interpretar as realidades sócio-políticas e econômicas de uma determinada época e lugar. Desse modo, o gênero acabou se tornando uma expressão artística que ao emanar do homem e do seu contexto histórico, não pode abster-se de refleti-lo. Entre as inúmeras características de um ensaio – vinculador de discursos, flexibilidade, abertura para diferentes temas, interdisciplinaridade – podemos citar também o seu carácter autobiográfico. No ensaio os ensaístas expressam, não apenas seus sentimentos, como também o processo no qual eles se desenvolveram, de tal maneira, que os textos ensaísticos, na maioria dos casos, sempre têm um caráter de íntima biografia. Nesse sentido, podemos citar os ensaios do escritor e ensaísta argentino Ernesto Sabato e do escritor e poeta brasileiro Affonso Romano de Sant’Anna como exemplos de uma escrita na qual se destaca o “eu” do autor, como uma espécie de bandeira que anuncia uma forte individualidade. O tom, muitas vezes confessional, desses escritos são mais do que uma manifestação do “eu”, pois os autores preocupam-se em escrever sobre o mundo que os rodeia e suas reações diante dele. Devido ao número significativo de ensaios escritos por Sabato e Sant’Anna, neste trabalho será analisada apenas uma obra de cada autor: A resistência (2000), de Ernesto Sabato e Entre leitor e autor (2015), de Affonso Romano de Sant’Anna. Nos dois livros, apesar da distância de 15 anos que os separa, encontraremos uma frutífera reflexão sobre questões relacionadas com a contemporaneidade, o prazer da escrita e o papel da literatura em um mundo em rápida e constante transformação. O objetivo deste estudo comparativo é assinalar pontos de convergência e divergência entre as ideias desses dois autores, demonstrando a possibilidade de se estabelecer um diálogo enriquecedor entre a produção literária da Argentina e do Brasil.
Referências
- SABATO, Ernesto. (2008). A resistência. Tradução Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
- SANT’ANNA, Affonso Romano. Entre leitor e autor. Rio de Janeiro: Rocco (Edição Digital), 2015.
Palavras-chave: literatura latino-americana; ensaio; autobiografia; Ernesto Sabato; Affonso Romano de Sant’Anna.
12 O conto de Erico Verissimo à luz das teorizações de Júlio Cortázar
Bruno Brizotto
No que diz respeito ao conjunto da ficção do escritor sul-rio-grandense Erico Verissimo (1905-1975), a crítica universitária tem se debruçado, desde a década de 1970 (CHAVES, 1972), em demasia diante do romance produzido pelo autor de Cruz Alta, negligenciando uma importante parcela de sua criação ficcional, a saber, o conto. Importa registrar, nesse sentido, que é por meio da narrativa breve que Erico inicia sua carreira literária, com a publicação, em 1929, na Revista do Globo, dos contos “Ladrão de gado” e “A tragédia de um homem gordo”. No ano seguinte, por insistência do amigo e jornalista Prado Júnior, o periódico Cruz Alta em Revista publica “Chico: um conto de Natal”. Nesse mesmo ano, remete a Souza Júnior, diretor do suplemento literário do Correio do Povo, o conto “A lâmpada mágica”. Nos anos 1930-1931, Verissimo segue escrevendo para jornais, destacando-se o Diário de Notícias e o mencionado Correio do Povo. Em 1932, publica seu primeiro livro, intitulado Fantoches, uma coletânea de quinze histórias, na qual “há um grupo de textos dramáticos e outro de textos narrativos, em que está representado um mundo irreal e fantasioso, aproximando-se, em muitos casos, dos chamados contos infantis de Perrault, Dickens e Irmãos Grimm.” (BITTENCOURT, 2005, p. 50-51) E, em 1972, com o intuito de comemorar os quarenta anos de vida literária do autor, é relançado o livro de estreia, agora “totalmente anotado com observações de próprio punho e com desenhos e caricaturas típicas de seu processo de composição” (BITTENCOURT, 2005, p. 50). Ao lado dos textos originais de 1932, encontram-se outros seis contos publicados ao longo de sua vida literária: “As mãos de meu filho” (1942), “O navio das sombras” (1942), “Os devaneios do general” (1942), “Esquilos de outono” (1959), “Sonata” (1959) e “A ponte” (1959) (VERISSIMO, 2007). E são precisamente tais narrativas que levaremos em conta nesta comunicação, a qual objetiva examinar a contística de Erico Verissimo à luz de uma série de proposições teóricas apresentadas pelo escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) em “Alguns aspectos do conto” (CORTÁZAR, 2006). Por meio da lente teórica cortaziana observaremos como “certas constantes [e] certos valores” (CORTÁZAR, 2006, p. 149) podem ser aplicados à narrativa breve redigida por Verissimo nas décadas de 1940 e 1950. Assim sendo, elegemos como tópicos de análise: (i) a diferenciação entre conto e romance; (ii) a definição do bom contista; (iii) o conto significativo; (iv) a escolha do tema; (v) o conto excepcional; (vi) o tema significativo; (vii) a relação entre contista e leitor; (viii) o domínio do ofício pelo autor; (ix) o escritor revolucionário e (x) a exigência errônea de uma literatura acessível a todos. Ao final, temos como resultado uma profícua grade de leitura, a qual, ao centrar-se na contística praticada por Erico Verissimo, possui meios de torná-la mais acessível tanto à crítica especializada quanto ao grande público.
Referências
- BITTENCOURT, Gilda Neves da Silva. O conto em Erico Verissimo. Ciências e Letras, Porto Alegre, n. 38, p. 50-58, jul./dez. 2005.
- CHAVES, Flávio Loureiro (org.). O contador de histórias: quarenta anos de vida literária de Erico Verissimo. Porto Alegre: Globo, 1972.
- CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Tradução de Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 147-163.
- VERISSIMO, Erico. Fantoches e outros contos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Palavras-chave: conto; Erico Verissimo; Julio Cortázar; literatura brasileira; teoria do conto.
13 Os críticos e os territórios na Parte dos Críticos, de 2666
Gabriel da Fonseca Torres
A literatura de Roberto Bolaño, e em especial o romance 2666, se insere como elemento importante da literatura hispano-americana do fim do século XX e começo do XXI, apresentando um grande panorama de figuras, acontecimentos e instituições da história recente. Essa multiplicidade da sua obra permite uma abordagem de diversos temas como a presença da literatura como instituição em diversos contextos, o papel e a atuação da crítica literária universitária, as relações e tensões entre nacionalidades e literaturas nacionais. A pesquisa busca abordar alguns elementos da parte dos críticos, segmento do romance 2666, do escritor chileno Roberto Bolaño. O romance se insere como obra de destaque nos livros do autor, e apresenta uma multiplicidade gigantesca de temas, personagens e narrativas. O romance é divido em cinco partes, cada uma com a devida centralidade, todas unidas pela confluência de um lugar específico, a cidade fictícia de Santa Teresa, no México, na fronteira com os Estados Unidos. A parte dos críticos narra a trajetória de cinco professores universitários de literatura alemã em seus respectivos países (França, Espanha, Inglaterra, Itália); todos tem suas carreiras acadêmicas direcionada para o autor alemão Benno Von Archimboldi, cujas informações biográficas são muito escassas. A busca por informações sobre o autor – e pelo próprio autor que ao que tudo indica está vivo – leva os críticos para a cidade mexicana de Santa Teresa – na qual há uma elevada recorrência de feminicídios – em busca de seu autor (seu objeto de estudo?). A pesquisa busca investigar as formas que a literatura se apresenta como território, conceito de Deleuze e Guattari: “O conceito não é objeto, mas território. Não há Objeto, mas um território”(2002). A partir dessa delimitação, é possível investigar os diferentes agenciamentos territoriais do território da literatura, tanto pelos discursos a respeito da crítica e do fazer literário, quanto pela constituição de um espaço institucionalizado como a universidade, na qual, de certa forma, a crítica literária é profissionalizada e fortemente territorializada (A profissão, o ofício, a especialidade, implicam atividades territorializadas, DELEUZE; GUATTARI, 2012). Para além do ambiente fortemente territorializado da universidade, um olhar sobre a viagem ao México expõe diversas formas de desterritorialização tanto pela viagem em si, quanto pela presença dos personagens em uma cidade violenta e de fronteira, mostrando diferentes agenciamentos e uma tensão peculiar às existências fronteiriças (BHABHA, 1998), e formas nem sempre familiares de dominação estrutural (SCHMIDT, 2011).
Referências
- BHABHA, H. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998BOLAÑO, Roberto. 2666. Barcelona: Editorial Anagrama, 2004.
- DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 4. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 2012.
- DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a filosofia?. Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 2002.
- SCHMIDT, R. O pensamento-compromisso de Homi Bhabha: notas para uma introdução. In: BHABHA, H. O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses: textos seletos de Homi Bhabha. Organização de Eduardo Coutinho. Tradução de Teresa Carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. p. 13-61.
Palavras-chave: Roberto Bolaño, Territorialização/Desterritorialização, Literaturas Nacionais, Crítica Literária, Literatura Hispano-Americana.
14 Do texto literário a vida submersa: uma análise em El río sín orillas de Jose Juan Saer
Fidelainy Sousa Silva
Em El rio sín orillas, o argentino Jose Juan Saer coaduna duas ideias centrais que abordaremos ao longo deste texto: a água do rio como personagem principal e Tratado imaginário como possibilidade teórica. A teoria literária enquanto categoria fixa é a problemática discutida neste texto. Pretende redirecionar o olhar literário para escritas provocadas por elementos da natureza, sem hierarquizar o poder do escritor sobre o rio. Com intenção de provocar um alargamento do conceito ficcional do livro de Saer devemos pautar a argumentação teórica, principalmente, em Ana Pizarro (2012). Ela aponta sobre a imposição de estruturas acadêmicas contar a história oficial sem perceber a ausência de vozes múltiplas das regiões de rios importantes como o rio Amazonas. A proposta dessa investigação além ampliar o constructo do tratado imaginário, pretende destacar a contribuição de Saer para a intersecção entre a escrita ficcional, não-ficcional e histórica. Portanto, esse debate abre para convergir vozes silenciadas que não puderam narrar sobre as águas do rio da Prata. Dentro da perspectiva saeriana, o rio interfere, reorganiza e expande as particularidades da escrita literária, assim como, amplia o espaço/tempo organizado pelos contornos do fluir do rio. Ademais, dentro de um campo amplo El rio sín orillas redimensiona, inclusive, a formação literária latino-americana.
Palavras-chave: Rio da Prata; tratado imaginário; Jose Juan Saer.
15 O poder de quase todos: a política emergente da conformação social apresentada em O Senhor das Moscas, de William Golding
Juliana Boeira da Silva
Publicado em 1954 por William Golding, O Senhor das Moscas aborda a trajetória de um grupo de meninos que sofrem um acidente de avião e caem em uma ilha deserta, necessitando criar sua própria conformação de sociedade para sobreviver. Dessa forma, vão irrompendo líderes e pequenos grupos dentro daquele sistema, que vai se configurando diante de disputas de poder e das necessidades que se mostram para os jovens. A partir dessa circunstância inusual, proponho analisar tanto a questão social quanto política que se manifestam na sociedade recém formada por esses meninos. Para embasar a análise de O Senhor das Moscas, irei associar dois teóricos cujos pensamentos tocam questões importantes presentes no livro: René Girard e Jacques Rancière. O primeiro fez-se conhecido, sobretudo, pela arquitetação da teoria do desejo mimético. Essa, em suma, prevê que o desejo não é uma característica inata ao homem, e sim que ele é criado a partir do desejo de outro. Dessa forma, o indivíduo seria incapaz de desejar por si próprio, precisando sempre de um intermediário que faça isso previamente. Essa hipótese cria a ideia do desejo triangular (objeto – modelo – sujeito), diante do qual acaba surgindo a violência – uma vez que há disputa do mesmo objeto por duas pessoas. A partir dessa perspectiva, é possível analisar toda a disputa que se instaura entre Ralph (o líder supremo do grupo) e Jack (que funciona quase como um vilão dentro da trama) em O Senhor das Moscas, uma vez que o lugar daquele que comanda é constantemente desejado e até mesmo invejado, fazendo com que exista uma intensa disputa de poder. Ainda segundo Girard, essa violência que surge da disputa do objeto de desejo passa a ser solucionada pela criação de um bode expiatório, transformando a violência generalizada em um movimento canalizado a apenas um indivíduo: aquele passível de sacrifício. Essa relação, portanto, faz-se valiosa ao se pensar a figura de Porquinho, escolhido pelo grupo para figurar como sofredor desse ônus. Logo, o desejo mimético e a figura do bode expiatório se relacionam com questões base apresentadas por William Golding, uma vez que a organização social que parte da disputa de poder e da intimidação constante de um dos personagens da obra é o ponto de partida para o início da construção de uma organização política. Para Jacques Rancière, portanto, o político é o encontro de heterogeneidades, por isso o processo de atrito é tão importante para que esse fenômeno se concretize. A criação dessa hierarquia dentro da obra de William Golding, então, coloca à prova o conceito de político que o sistema instaurado entre os jovens propõe, uma vez que busca hierarquizá-los. Desejo, por conseguinte, analisar a proposição de “regime de todos” que tenta ser passada pelos líderes dos meninos na ilha, onde teoricamente foi instaurada uma gestão popular, que leva em consideração a opinião tanto dos agentes mais importantes (como Ralph e Jack) quanto daqueles cujo nome nem é revelado ao longo da obra.
Referências
- GIRARD, René. A Violência e o sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
- GIRARD, René. Coisas ocultas desde a fundação do mundo: a revelação destruidora do mecanismo vitimário. Tradução de Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
- GIRARD, René. Mentira romântica e verdade romanesca. Tradução de Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009.
- GOLDING, William. O Senhor das Moscas. Tradução de Geraldo Galvão Ferraz. Rio de Janeiro: Editoria Nova Fronteira, 1983.
- RANCIÈRE, Jacques. Politique de la littérature . Paris: Éditions Galillé, 2007.
- RANCIÈRE, Jacques. Dissensus On Politics and Aesthetics. Tradução de Steven Corcoran. Nova Iorque: Continuum, 2010.
- RANCIÈRE, Jacques. Nas Margens do Político. Tradução de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2014.
- RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2015.
- RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Tradução de Raquel Ramalhete, Laís Eleonora Vilanova, Ligia Vassalo e Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora 34, 2017.
Palavras-chave: Política; Democracia; Desejo Mimético; Bode Expiatório; Distopia.
16 Emancipar-se do tempo: mimese, ontologia e política
Antonio Barros de Brito Junior
Se Jacques Rancière estiver certo, o tempo da emancipação não é o tempo das lutas sociais, mas sim o momento no qual o indivíduo, ao subjetivar-se politicamente, efetua um corte na temporalidade das condições sociais e inaugura um acontecimento político pontual, no qual a igualdade e a emancipação já ocorrem, em vez de ficarem à espera de um porvir. Nesse sentido, a emancipação não é o resultado prático de uma ação política, mas a própria ação política em toda sua efetividade, o que faz com que ela não fique à espera de um tempo que traga (“de uma vez por todas” ou “de volta”) as condições materiais propícias para a libertação política. Portanto, a partir da obra de Jacques Rancière, penso que é possível fazer-se a seguinte afirmação: a emancipação não é um emancipar-se no tempo, mas provavelmente um emancipar-se do tempo. Logo, considerando-se os vínculos entre a estética e a política na obra ranciereana, pode-se avançar a ousada hipótese de que a emancipação é também um emancipar-se de um determinado regime estético, o que significa produzir, poeticamente, as condições efetivas de visibilidade e dizibilidade do próprio frente ao alheio, do político frente ao sociológico. Nesta comunicação, portanto, daremos mais contornos a essa hipótese, tratando especificamente do regime mimético das artes, de origem aristotélica e consequentemente clássica, que se opõe ao regime moderno, tributário das revoluções políticas da época liberal e romântica. Pretende-se, então, avaliar como a emancipação política pode ter a ver com uma redefinição ontológica do ser social através da ruptura política, pondo em evidência as limitações do regime mimético e possivelmente abrindo caminho para outros regimes estéticos que, por isso, redefinem o papel social do humano.
Referências
- AUERBACH, Eric. Mimese. São Paulo: Perspectiva, s.d.
- LIMA, Luiz Costa. Mímesis e modernidade. Formas das sombras. São Paulo: Paz & Terra, 2003.
- RANCIÈRE, Jacques. O Desentendimento. Política e filosofia. Tradução de Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 1995.
- ______. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. Tradução de Lílian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
- ______. Nas margens do político. Tradução de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2014.
- ______. O tempo da emancipação já passou?. In: SILVA, Rodrigo e NAZARÉ, Leonor (orgs.). A república por vir. Arte, política e pensamento para o século XXI. Tradução de Vanessa Brito. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2011.
- ______. O espectador emancipado. In: RANCIÉRE, Jacques. O Espectador emancipado. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.
- WAIZBORT, Leopoldo. A passagem do três ao um. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
Palavras-chave: Jacques Rancière; Estética; Política; Emancipação; Mimese.
17 Pensando a catástrofe com Stengers e Sebald: uma intervenção possível
Davi Alexandre Tomm
Desastre de Mariana, desastre de Brumadinho, queimadas na Amazônia: em apenas quatro anos o país viveu (e ainda está vivendo) os maiores desastres ambientais de sua história. Por trás destes desastres, e de tantos outros que se repetem na nossa história mundial, encontramos não só a ganância humana, como o próprio modo de vida imposto pelo sistema capitalista, através da sua, aparentemente incontestável, ideia de progresso. Nesse contexto, torna-se atualíssimo discutir as ideias da filósofa belga Isabelle Stengers, no livro No Tempo das Catástrofes (2015), bem como a obra do autor alemão W. G. Sebald, pois ambas apresentam uma forma de pensar o problema do progresso e da destruição da natureza de um modo outro, através da afetação. A filósofa, no seu ensaio, afirma que nós estamos em um tempo suspenso entre duas histórias, a primeira, oficial, nos apresenta claramente as palavras de ordem: ‘é preciso mudar, a época mudou, nós precisamos todos fazer sacrifícios’, mas é obscura quanto ao que significa isso: mais desigualdade social, mais poluição, mas acirramento da guerra econômica, pois o discurso do progresso como crescimento irrefreável assume que ele concertará os estragos que produziu, embora o resultado será apenas novos desastres; a segunda história é clara quanto ao que está acontecendo: essa ideia de progresso ruiu, e se continuarmos seguindo-a, vamos continuar falhando, mas ela ainda é obscura quanto à resposta possível. Porém, é justamente a clareza dos fatos que se apresentam a nós hoje que deve ser aproveitada para se fazer pensar e aproveitar esse momento para realmente mudarmos, não como querem os agentes da primeira história, mas de outro modo que não envolva a ideia de progresso. Por isso, ela propõe uma “intervenção” (2015, p. 5), uma forma de fazer as pessoas pensar de outro modo, uma forma de dotar a constatação evidente de que “a época mudou”, com o poder de nos “fazer pensar, sentir, imaginar, agir” (p. 17). Esse outro modo de pensar, que envolve o sentir, o ser afetado, é também possível através da literatura. Sebald foi dos que empreenderam uma crítica à ideia de progresso através de sua literatura. Para ele, nós estamos sempre preparando a próxima catástrofe, mas quando ela acontecer, nós vamos nos surpreender, pois não percebemos o que fazemos: o ser humano é uma espécie que não aprende com seus próprios erros. A obra de Sebald é uma tentativa de mostrar isso através do difícil conceito de “história natural da destruição”, no qual as várias e diferentes catástrofes da nossa história se interconectam, em uma ordem que não pode ser entendida pela mera lógica causal ou de sucessão histórica, nem mesmo como uma mera naturalização do nosso ímpeto destrutivo que nos leva a um dar de ombros dizendo: “se é assim mesmo, não tem o que fazer”. O que pretendo mostrar aqui, com a aproximação entre essas duas obras, é como uma ajuda a iluminar a outra, nos fazendo pensar, sentir, nos movendo e comovendo para uma intervenção possível, nem que seja uma sem respostas prontas.
Referências
- STENGERS, Isabelle. No Tempo das Catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
Palavras-chave: Catástrofes; Crítica do progresso; Sebald; Setengers; Intervenção.
18 Elvira Vigna e a diférrance de Jacques Derrida
Karen Cristina Garbo
Ao pensar sobre as implicações espaciais das mudanças da narrativa para a literatura contemporânea, parte-se dos conceitos desconstrucionistas elaborados por Jacques Derrida para aplicação na obra da escritora carioca Elvira Vigna. Por acionar diversas indagações através de seu texto literário, quais sejam, o lugar da escrita feminina e da escrita latino-americana no circuito de produção cultural, o texto como espaço material e metafórico, as reflexões da comunicação passarão também pelas noções de centro e periferia, e como estas noções ainda pautam a produção e distribuição da literatura no Brasil e no mundo. A análise será de três romances de Vigna, falecida em 2017: Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas (2016), Nada a dizer (2010) e Deixei ele lá e vim (2006). Ao trazer as contribuições do teórico francês para a obra de Vigna, provocam-se também reflexões sobre a possibilidade de o texto literário ser um lócus único de enunciação, trazendo assim a literatura (e o texto escrito) para um patamar particular do ato comunicativo. Para isso, a proposta se alia principalmente ao conceito de diférrance de Derrida. Este conceito, que dá as mostras de uma diferença que só se percebe no texto escrito, conversa com o fazer literário e artístico de Vigna, que revela no seu texto palimpsesto a consciência de um esvanecimento próprio do discurso, cujo ato de escrita é uma luta no sentido de conexões e permanências. A proposta de comunicação é parte da pesquisa desenvolvida no mestrado, e nos usos da crítica literária como resposta a um momento político de reconfiguração dos discursos e narrativas. O fim da temporalidade no discurso histórico, fenômeno percebido por Reinhart Koselleck desde os anos oitenta, mostra assim as suas consequências para a prática literária, que passa por alterações irreversíveis frente a essas novas reconfigurações.
Referências
- DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2002.
- KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado – Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.
- VIGNA, Elvira. Como se estivéssemos em palimpsesto de putas. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2016.
- _________. Nada a dizer. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2010.
- _________. Deixei ele lá e vim. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2006.
Palavras-chave: Elvira Vigna; Jacques Derrida; Diférrance; Literatura; Espaço.
19 Por uma literatura do fora
Rodrigo Gonçalves Lima
Propõe-se um percurso a partir do que poderia ser entendido como um arranjo dos enunciados que compõem os agenciamentos criados por Maurice Blanchot, Gilles Deleuze e J.M. Coetzee. Através de conceitos operados por Blanchot que permitem um diálogo com algumas das proposições de Deleuze (algo que é reforçado pelo próprio Deleuze em seus escritos ao mencionar algumas propostas de Blanchot), busca-se refletir sobre a literatura, o fazer literário e a condição do escritor. Reflexões que, no entendimento desta proposta, atravessam o livro Elizabeth Costello, de Coetzee, e permitem que se opere essa aproximação com certas proposições dos outros dois autores estudados. Contudo não se pretende simplesmente aplicar os conceitos de Blanchot ou de Deleuze aos textos de Coetzee, mas sim enxergar praticáveis agenciamentos entre os três. A maneira como se optou por trabalhar é justamente através do encontro entre os autores, avesso a colocar um autor à serviço de outro. Assim como não se pretende determinar una a condição da relação entre os autores, mas desenvolver uma das múltiplas possibilidades que poderiam ser aventadas de acordo com as próprias propostas criadas por eles em seus textos. Vislumbrar a soma, sustentar o e, propor uma leve torção dos textos para apresentar esse acorde; além de permitir uma abertura ao próprio texto para gerar maquinarias outras.
Há algo de muito caro aos três autores em seus textos que está intimamente ligado à linguagem; o modo como empregam e concebem a linguagem talvez seja um caminho possível para a proposta apresentada, conduzindo também as maneiras de pensar a literatura e o fazer literário. Empurrar a linguagem até o limite, forçá-la quase a desterrar a fronteira limítrofe que demarca – ou melhor, desterritorializa – a si mesma, criando uma língua estrangeira dentro da própria língua através do trabalho com a sintaxe e permitindo, assim, uma quebra, uma fuga do modelo: esse procedimento linguístico apresenta uma condição outra, a condição de um devir-revolucionário. Levar a linguagem ao seu limite é também acercar-se do fora, é fugir ao senso comum e tornar-se errante no deserto, na busca por uma origem inacessível e de um povo menor que está sempre por chegar. Permitir que a linguagem fale em seu silêncio eloquente: operar a passagem do eu para o ele, esta solidão essencial submetida ao escritor que, a partir do tom imprimido no texto, assente cada vez mais nessa eloquente fala. É evidenciar o neutro, é evidenciar a linguagem em seu ser.
Referências
- BLANCHOT, Maurice. Livro por vir. Tradução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
- BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
- DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997.
- DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
- DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Tradução Gabriel Cunha. Lisboa: Relógio D’água, 2004.
Palavras-chave: Maurice Blanchot; Gilles Deleuze; J.M. Coetzee; Literatura; Escrever.
20 A obsessão do pós-modernismo com o passado, segundo Linda Hutcheon
Jefferson José Pereira Figueiredo
O objetivo desse estudo é compreender por que o pós-modernismo, segundo Linda Hutcheon, e seus romances têm como um dos eixos centrais temáticos a preocupação com a História, área do conhecimento. No entremeio das teorias pós-estruturalistas francesas e dos estudos culturais, o pós-modernismo insiste em investigar os caminhos pelos quais se transmite o conhecimento, refletindo não só sobre o saber em si como também sobre como e por que ele estrutura as ideias apresentadas. Hutcheon (1991) desenvolve o conceito de metaficção historiográfica, o qual articula a produção do conhecimento histórico e da sua metaprodução enquanto processo. Assim, partindo de alguns conceitos, tais como Benveniste (1976) e seu sistema enunciativo, Foucault (2008, 2013) e a questão sobre a composição e transmissão da epistémê, Lyotard (2002) e a crise das narrativas mestras do conhecimento, White (1978) e a sua reflexão sobre a produção do conhecimento histórico, a autora aponta a necessidade das narrativas do pós-modernismo de sempre tratarem o conhecimento como algo a ser concluído ou complementado, não como um objeto fechado e completo. Portanto, o passado se impõe como grande objeto de pesquisa, uma vez que a consciência sobre a sua elaboração traz consigo a necessidade de compreender – e, por vezes, discordar – sobre o que se apresenta como a verdade. Logo, pretendo abordar a forma com que Hutcheon (1990, 1991) desenvolve a necessidade do questionamento constante sobre a produção do conhecimento histórico enquanto saber, focando nas semelhanças existentes entre a construção do discurso literário e do histórico. Proponho apontar como conceitos como ironia (Hutcheon 2000) e paródia (Hutcheon 1989) são determinantes para a nova proposta de (re)avaliar o conhecimento histórico ao mesmo tempo em que as narrativas pós-modernistas expõe as formas que seus discursos são produzidos. A discussão sobre ironia e paródia enquanto ferramentas retóricas privilegiadas acontece devido ao seu papel de desestruturar o conhecimento abordado enquanto não o substitui, servindo como mecanismos que advertem para não sobrepor uma fala por outra, apagando a primeira – fato que é central na sua crítica.
Referências
- BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral. São Paulo: Editora da USP, 1976.
- FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
- _______. A ordem do discurso: aula inaugural do Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 23 ed. São Paulo: Loyola, 2013
- HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
- ______. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000.
- ______. The politics of postmodernism. London: Routledge, 1990.
- ______. Uma teoria da paródia: ensinamentos das formas de arte do século XX. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989.
- LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
- WHITE, Hayden. Tropics of the discourse: essays in cultural criticism. Baltimore: John Hopkins Press, 1978.
Palavras-chave: Linda Hutcheon; pós-modernismo; História; ironia; paródia.
21 Entre a cegueira e a lucidez: um diálogo com o Estoicismo
Pedro Nunes de Castro
Este artigo segue a esteira de outros estudos que evidenciaram a interação profícua que José Saramago estabelece em sua obra de ficção com a filosofia. Salzani e Vanhoutte (2018) são organizadores de uma coletânea com doze artigos em que explicitam notáveis contribuições sobre o patrimônio filosófico presente nas narrativas saramaguianas. Em “Introduction: Proteus the Philosopher, or Reading Saramago as a Lover of Wisdom”, os pesquisadores acima comentam as declarações do escritor sobre a sua relação com a filosofia. O ficcionista, por vezes se autodenominou ignorante nesta matéria, no entanto os autores atentam para a possibilidade de ele estar utilizando-se do artifício socrático: a ironia. E os demais textos do livro confirmam esta hipótese, porquanto indicam a presença de um amplo leque de correntes filosóficas na obra saramaguiana, tais como, Foucault, Filosofia da História e Karl Marx. Uma ausência, não podemos deixar de assinalar, é a da filosofia estoica neste relevante volume. Recordamos, por seu turno, que já existem trabalhos apontando nesta direção. Um deles é a tese defendida na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC – sob o título de “Todos os nomes da cegueira de Ricardo Reis” (CASTRO, 2016) e um artigo publicado na Revista Veredas que se propõe a evidenciar algumas das facetas do Estoicismo que repercutem na ficção do prêmio Nobel (CASTRO; CARDOSO, 2017). É sobre esta temática específica a proposta de comunicação. Fixando-nos em O ano da morte de Ricardo Reis (1984), Ensaio sobre a cegueira (1995) e Ensaio sobre a lucidez (2004) desvelamos os componentes estoicos que subjazem a estas narrativas. O âmbito ético desta filosofia, sobrevalorizado na fase romana, prescreveu diretrizes para que o ser humano alcance a eudaimonía, isto é, que seja feliz e virtuoso. Entretanto, tais preceitos acarretaram uma polaridade hermenêutica: facultou-se a inferência de que a atitude apropriada para se tornar uma pessoa virtuosa é adaptar-se às circunstâncias, preconizando uma atuação contemplativa, e de outro lado, autoriza-se a dedução de que as circunstâncias devam ser moldadas de acordo com as convicções, reportando-se a uma exortação à ação (REALE, 1994). E os romances do escritor português explicitam, através dos protagonistas Ricardo Reis e a mulher do médico, uma reflexão sobre a ética reproduzindo a duplicidade interpretativa mencionada. Entendemos que realçar e distinguir tais conteúdos da filosofia referida na ficção do prêmio Nobel em literatura suscitará inovadoras interpretações do texto literário. Sob o prisma metodológico, referenciamo-nos nas teorias de Kristeva (1974), e de Mikhail Bakhtin (1981).
Referências
- CASTRO, Pedro Nunes de. Todos os nomes da cegueira de Ricardo Reis: estratos estoicos na obra saramaguiana. 2015. Tese (doutorado). Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Florianópolis, SC, 2016.
- ______; CARDOSO, Rosane Maria. O ano da vida e da morte do estoico Ricardo Reis. Veredas, Revista da Associação Internacional de Lusitanistas. n. 27, p. 158-175, jan-jun, 2017.
- REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Tradução de Marcelo Perine; Henrique C. de Lima Vaz. São Paulo: Loyola, 1994. Vol. III.
- SALZANI, Carlo. VANHOUTTE, Kristof (eds.). Saramago’s Philosophical Heritage. Palgrave Macmillan, 2018.
Palavras-chave: Estoicismo; Cegueira; Lucidez; Intertextualidade; Dialogismo.
22 Reflexões de Merleau-Ponty para uma interface entre a literatura e a filosofia
Éder Corrêa
A filosofia fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty sofreu de certo ostracismo durante os últimos vinte anos. Suas colocações foram reatualizadas contemporaneamente pelos seus estudos sobre o corpo, que evidenciaram estar seus conceitos de acordo com os últimos estudos da neurociência. Todavia, sua obra refletiu o corpo não apenas como uma ruptura do dualismo cartesiano, mas como uma posição do sujeito no mundo. Para Merleau-Ponty, a redução fenomenológica, discordando de Husserl, é um reaprender a ver o mundo. Essa forma de reaprender é comparada, por ele, com a arte. Pela arte vemos o mundo de outro ângulo. Além disso, a produção artística cria “uma verdade diferente” daquela que se está acostumado a perceber, ou seja, a arte é uma reconstrução do sentido do mundo feita pelo artista. O pensamento ocidental constrói-se sobre um conjunto de dicotomias: o sujeito e o objeto, a alma e o corpo, o interior e o exterior, a ideia e a coisa, a representação e o fato, a vida e a obra, etc. Merleau-Ponty pressupõe que a única maneira de conseguir captar os fenômenos é eliminando essas dicotomias, pois qualquer análise feita sobre um elemento sempre colocará a ideia oposta em contraponto. Seu desejo é estudar e descrever os pares, sem divisão. Corpo e percepção são inseparáveis: para que exista percepção é preciso que exista corpo e para que se tenha a noção de ser um sujeito corporificado é preciso percepção. A intenção da fenomenologia do filósofo francês é eliminar completamente o dualismo cartesiano. A filosofia seria naturalmente uma estética, aponta Merleau-Ponty, pois arte e filosofia têm uma relação tênue e contribuem para modificar nossa percepção (aísthesis). O filósofo falou sobre a experiência humana em um mundo fenomenal, de conceitos que são adquiridos por meio da experiência em relação aos objetos que se dispõem no entorno dos sujeitos. Entre essas relações, a filosofia merleau-pontyana dedicou especial apreço à arte, que, para ele, é semelhante à própria filosofia ao desenvolver questões que são caras ao pensamento e aos seres humanos. Embora nunca tenha escrito um grande texto dedicado exclusivamente ao tema, suas proposições encontram-se espalhadas em suas obras, de maneira que é possível esboçar um entendimento da arte por meio da leitura das obras de Merleau-Ponty. A importância que Merleau-Ponty deu à arte, principalmente à literatura, merece destaque e é digna de ser melhor aprofundada para a compreensão de uma possível teoria estética fenomenológica que reconheça o corpo como agente de produção do objeto artístico e de sentido do mundo.
Referências
- DESCARTES, René. Discurso do método. As paixões da alma. Meditações. Objeções e respostas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
- HURSSEL, Edmund.. Meditações cartesianas: introdução à fenomenologia. São Paulo: Madras, 2001.
- MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
- MERLEAU-PONTY, Maurice . O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 2014.
- MERLEAU-PONTY, Maurice . O fantasma da linguagem pura. In: MERLEAU-PONTY, Maurice . A prosa do mundo. São Paulo: Cosac&Naify, 2006.
- MERLEAU-PONTY, Maurice . O olho e o espírito. São Paulo: Cosac&Naify, 2004.
- MERLEAU-PONTY, Maurice . Parcours deux. Lagrasse: Verdier, 2001.
- MERLEAU-PONTY, Maurice . Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
- MERLEAU-PONTY, Maurice. Le roman et la métaphysique. In: MERLEAU-PONTY, Maurice . Sens et nonsense. Paris: Nagel, 1966. p.45-72.
Palavras-chave: Merleau-Ponty; fenomenologia; percepção; estética; literatura.
