Eixo 1

LITERATURA, DIPLOMACIA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Elizamari Becker, Ian Alexander, Gabriel Adam e Andrei Cunha

Tanto a literatura comparada quanto o estudo das relações internacionais pressupõem uma geografia, um mosaico ou uma rede de forças em interação. O modelo, digamos, “competitivo” das literaturas nacionais e de suas interações proposto por Casanova (2002), por exemplo, teria muito a ganhar em complexidade e potência explanatória se adotasse em maior escala os conceitos e raciocínios próprios às disciplinas que se dedicam ao estudo da geopolítica internacional (ver KEOHANE, 1986). As duas disciplinas descrevem o mundo a partir de uma perspectiva histórica. Essa talvez seja a interface mais simples de ser demonstrada, pois o panorama diacrônico das nações e das literaturas é (obviamente) concomitante e dialogante. Frequentemente, a mera existência de um país no plano político é vista como motivo suficiente para falar na existência de “uma nação” e de “uma literatura” no plano da sociedade e da cultura. Esse paradigma do “nacional — que é uma língua — que é uma literatura” é o mesmo, tanto para a política tradicional como para os estudos literários mais ortodoxos, mas quanto menor e menos hegemônico o país, menos adequado o paradigma como ferramenta analítica. O prêmio Nobel do poeta Derek Walcott deveria ser creditado à literatura de Santa Lúcia? Ou da antiga federação do Caribe anglófono? Ou do Caribe como um todo, plurilíngue? Ou da América da experiência negra? Ou da África e da sua diáspora? Mesmo entre os países mais centrais, as tentativas teóricas de relativização, crítica e transcendência com relação ao modelo das unidades nacionais tem diversos pontos em comum nas duas disciplinas, com arcabouços teórico-críticos como o pós-estruturalismo e o feminismo fazendo aparições importantes em ambos os campos acadêmicos. No inextricável escopo das relações internacionais, a literatura — e, sobretudo, a literatura traduzida — sempre desempenhou papel de relevância na concretização dos intercâmbios culturais e na articulação de ações estratégicas para interações supranacionais pautadas pela diversidade, pela extraterritorialidade e pelo desenvolvimento sustentável. Trata-se de uma forma de soft power (NYE, 2004): a internacionalização da literatura — e, na contrapartida, a literatura da internacionalização, já que se trata de um processo de mão dupla — não raras vezes conta com agentes diplomáticos comissionados para a representação de suas nações, culturas e literaturas bastante peculiares: os escritores-embaixadores. Alguns desses escritores fazem carreiras diplomáticas por investidura junto a embaixadas e consulados; outros atuam como agregados de embaixadas ou legações de um país, em missões de intercâmbio ou internacionalização, como é o caso dos adidos culturais, comerciais e de imprensa. O Brasil possui um rol significativo desses escritores-embaixadores: Aluísio de Azevedo, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes, dentre outros. Atuando como representantes culturais do Brasil, ainda que fora da carreira diplomática, encontramos Jorge Amado e Erico Verissimo. No entanto, esse fenômeno não se limita ao Brasil: Carlos Fuentes, Paul Claudel, Gabriela Mistral e Giórgos Seféris são alguns de muitos exemplos internacionais. Este eixo temático receberá trabalhos (1) que versem e investiguem sobre os frutos da experiência diplomática no fazer literário dos escritores-embaixadores; (2) que proponham perspectivas sobre a interface Relações Internacionais / Literatura Comparada; (3) que discutam fatos literários a partir de ferramentas teóricas da diplomacia e das Relações Internacionais; (4) que indiquem exemplos de sinergia entre o literário e o político, no plano transnacional; (5) que proponham ou discutam sistemas e interfaces entre o geopolítico e o cultural; (6) que investiguem a produção ou recepção da literatura em locais em que as próprias instituições (universidades, moedas, times esportivos) já são transnacionais.

Referências

  • CASANOVA, P. A república mundial das letras. Tradução de Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.
  • NYE, J. Soft power: the means to success in World Politics. Cambridge: Public Affairs, 2004.
  • KEOHANE, R. Neorealism and its critics. Nova Iorque: Columbia University, 1986.

EIXO 1 — DATA E ORDEM DAS COMUNICAÇÕES

23 de outubro (quarta)

Local: Prédio da FACED, sala 402.

1 Cartografias literárias, mobilidades culturais e alteridades, Luciana Wrege Rassier

2 As viagens do gato preto, Nícollas Cayann

3 O senhor embaixador: o intelectual engajado em contexto internacional, Mariana Figueiró Klafke

4 As marcas da carreira diplomática de Monteiro Lobato em sua escritura: vamos perguntar a Mister Slang, Elizamari Rodrigues Becker

5 Dinah Silveira de Queiroz: vida literária e diplomacia, Ana Cristina Steffen

6 Relações diplomáticas em Olga, narrativa de Fernando Morais, e reconstrução histórica, Márcia Rohr Welter e Juracy Assmann Saraiva

24 de outubro (quinta)

Local: Prédio da FACED, sala 402.

7 Do que estamos falando quando falamos da literatura de língua inglesa?, Ian Alexander

8 Vestígios de ordens: Kazuo Ishiguro e a questão do internacional, Andrei Dos Santos Cunha

9 Emissários entre(-)lugares, mensagens entre tempos e os crisântemos do imperador: prêmios literários e ideologias político-linguísticas em Yoko Tawada, Marianna Ilgenfritz Daudt

10 A literatura soviética como instrumento de soft power, Gabriel Pessin Adam

11 Carlos Lacerda, operador do soft power norte-americano, Andrea Cristiane Kahmann

12 Catch-22 e o discurso político: uma leitura de narrativas não-confiáveis, Rafael Conter

EIXO 1 — RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES

1 Cartografias literárias, mobilidades culturais e alteridades

Luciana Wrege Rassier

A Fundação Oriente — criada em 1988 e sediada em Lisboa, com delegações na Região Administrativa Especial de Macau, na Índia e em Timor-Leste – privilegia, em suas publicações, a edição de fontes inéditas ou de acesso difícil que sejam significativas para a análise das relações históricas e culturais entre Portugal e os países asiáticos, mas também publica ensaios e textos literários com temática oriental. A “Série Oriental Viagens” é uma coleção publicada em parceria com a Editora Cotovia, entre 2000 e 2003, que engloba narrativas de viagem resultantes de estadas de dois a três meses feitas pelos autores em um local à sua escolha no Oriente, graças a uma bolsa da Fundação. Os quatro autores contemplados são de língua portuguesa – o angolano José Eduardo Agualusa, os portugueses Jacinto Lucas Pires e Paulo José Miranda e o brasileiro Bernardo Carvalho – e localizaram suas narrativas respectivamente em Goa, no Japão, em Macau e na Mongólia. O presente trabalho interessa-se pelo primeiro e pelo último volumes da coleção, Um estranho em Goa (2000) e Mongólia (2003). Na obra de Agualusa, o narrador é um jornalista que vai a Goa em busca de um personagem com atuação controversa na luta pela independência de Angola, um agente infiltrado. Na obra de Carvalho, o narrador principal é um ex-embaixador brasileiro na China, que reconstitui, a partir de diários, a viagem na Mongólia feita por um diplomata em busca de um fotógrafo brasileiro desaparecido. Também o diplomata baseia-se nos diários do fotógrafo para reconstituir seu itinerário. Propõe-se em um primeiro momento refletir sobre a literatura como instrumento de diplomacia cultural relacionado ao conceito de soft power proposto por Joseph Nye (2004). A seguir, analisa-se Um estranho em Goa (2000) e Mongólia (2003) buscando identificar em que medida se filiam ao gênero da narrativa de viagens e que tratamento dão a questões como exotismo (SEGALEN, 1978) e orientalismo (SAID, 2007).

Referências

  • AGUALUSA, José Eduardo. Um estranho em Goa. Lisboa: Fundação Oriente/Editora Cotovia, 2000.
  • CARVALHO, Bernardo. Mongólia. Lisboa: Fundação Oriente/editoria Cotovia, 2003.
  • NYE, Joseph. Soft power: the means to success in World Politics. Cambridge: Public Affairs, 2004.
  • SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • SEGALEN, Victor. Essai sur l’exotisme. Paris: Fata Morgana, 1978.
  • Palavras-chave: literatura e relações internacionais; literatura e identidades; narrativas de viagem; José Eduardo Agualusa; Bernardo Carvalho.

2 As viagens do gato preto

Nícollas Cayann

Alicerçado majoritariamente na teoria de literatura de viagem, o trabalho analisa Gato preto em campo de neve (1941) de Erico Verissimo em comparação com outros dois de seus livros de viagem: A volta do gato preto (1944) e México (1957). O trabalho busca verificar a relação que o autor brasileiro (e latino-americano) estabelece ao narrar o norte-americano e o latino-americano (mexicano), questionando desse modo as fronteiras e litorais da ideia de América Latina naquilo que tange identidade e alteridade, principalmente no caso brasileiro. Um dos principais insumos na composição da literatura de viagem é aquilo que se chama de “monstro da alteridade” (RUBIES, 2000, p. 8). Neste sentido, entende-se a literatura de viagem como um gênero que se nutre do ato de representar o outro. A literatura de viagem é feita de condições literárias, aspectos geográficos e históricos, e de muitos outros fatores; é uma composição ampla, na qual a alteridade tem um papel significativo. É no exercício de ultrapassar limites, transpassar fronteiras e desembarcar em litorais que se compreende a ideia de literatura de viagem. Este trabalho busca estabelecer, também, uma ligação entre as áreas da Literatura Comparada e das Relações Internacionais; para tanto, se baseia na proposta de que a literatura de viagem é um instrumento, inegavelmente, pertencente a ambas. Coloca-se em debate também as definições de escritor/diplomata, visto que Erico Verissimo não é diplomata, embaixador ou chanceler de carreira, mas sim um diplomata cultural (adido cultural), deste modo flexibilizando a categoria no intuito de compreendê-la como “escritor/internacionalista”.  No panorama atual, uma grande crise migratória, política, econômica e identitária se estabelece em proporções globais e, em meio a este cenário, o presidente de uma (outrora) das maiores potências da América Latina trata o estrangeiro com o descaso de um tweet. Não é mais possível ignorar estes aspectos do âmbito político, internacional, geográfico e histórico que também são parte da construção da historiografia literária (HASSAN, 2018). Deste modo, o trabalho proposto, no uso de uma abordagem qualitativa, dados secundários, análise documental e revisão bibliográfica, busca entender qual o uso que este escritor/internacionalista, latino-americano e brasileiro faz do mundo.

Referências

  • HASSAN, Waïl S. A geopolítica e os paradigmas da literatura comparada americana. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 35, 2018.
  • RUBIÉS, Joan Pau. Travel Writing as a Genre: facts, ficstions and the invention of scientific discourse in early modern Europe. Journeys Journals, p. 6-35, 2000.
  • VERISSIMO, Erico. Gato Preto em Campo de Neve. Porto Alegre: Globo, 1957 [1941].
  • VERISSIMO, Erico. A volta do gato preto. 1ª ed Rio de Janeiro: Globo, 1969 [1944].
  • VERISSIMO, Erico. México. 11 ed. Porto Alegre: Globo, 1957.

Palavras-chave: Erico Verissimo; Literatura de viagem; Alteridade; Relações Internacionais; Escritor/diplomata.

3 O senhor embaixador: o intelectual engajado em contexto internacional

Mariana Figueiró Klafke

Na obra de Erico Verissimo, o tema do engajamento do intelectual em uma revolução de caráter violento é recorrente: além de O senhor embaixador (1965), o tema aparece em Saga (1940), O arquipélago (1961) e O prisioneiro (1967). A figura do homem de pensamento que se torna homem de ação, entretanto, se fortalece muito no imaginário do escritor na segunda metade da década de 1960. De acordo com o autor, O senhor embaixador seria sua oportunidade de estudar a estrutura política, econômica e social das repúblicas latino-americanas, bem como suas relações com os EUA, além de “mexer com um problema que sempre me preocupou: a participação do intelectual na política militante e, mais especificamente, numa revolução de caráter violento” (VERISSIMO, 1976, p. 55). Uma motivação essencial para a escrita de O senhor embaixador certamente foi a experiência de Erico Verissimo com a diplomacia de Washington, que parece ter levado o escritor a rever sua visão sobre os Estados Unidos da América. Em seus livros de viagem Gato preto em campo de neve (1941) e A volta do gato preto (1947), Verissimo manifestava simpatia pelos EUA: “o que ele vira fora a mobilização dos norte-americanos na defesa da liberdade e os benefícios que a civilização da alta tecnologia, da livre imprensa e da justiça para todos trouxera àquela nação sob Roosevelt” (BORDINI, 2014, 27). Sua experiência posterior como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da OEA propiciou outro ponto de vista. Ao visitar diversos países latino-americanos, Verissimo teve oportunidade de observar ações imperialistas por parte do “grande irmão do norte”, que, durante a Guerra Fria, tinha em curso uma forte política de “contenção” do avanço comunista na América. Minchillo (2014) chama a atenção para o fato de que a América Latina aparece desde cedo nos romances de Erico Verissimo, mas a partir de um determinado momento de sua obra surge um elemento de coesão entre as nações latino-americanas que é comum a muitos outros artistas e intelectuais: a contraposição à América anglo-saxã, ou seja, pensar a condição de latinidade passa pelo questionamento da hegemonia norte-americana, cuja interferência nos demais países da América é constante. Bordini (2014) defende que a partir de O Arquipélago (1961), quando Erico Verissimo entra em uma fase mais decididamente política de sua produção, as discussões ideológicas entre os personagens ganham importância muito maior do que antes tinham na obra do autor. Algo muito importante que Bordini propõe é que nesta fase mais política Erico Verissimo não constrói mais perspectivas privilegiadas, ainda que não deixe de manifestar seu próprio ponto de vista e esquema de valores através de determinados personagens. A questão é que esse ponto de vista não impregna todo o romance, de forma que a diversidade de opiniões não fica prejudicada na narrativa. Procuraremos analisar como essa diversidade se manifesta e demonstrar o quanto setorna difícil chegar a uma conclusão inequívoca sobre a tese defendida nesse romance. Para tanto, será importante compreender a visão das relações entre Estados Unidos e países latino-americanos construída na narrativa.

Referências

  • BORDINI, Maria da Glória. “A figuração de um tempo de extremos: Erico Verissimo e o século XX”. Fragmentum. Santa Maria: Editora Programa de Pós-graduação em Letras, n. 43, out./dez. 2014.
  • MINCHILLO, Carlos Cortez. “A América Latina de Erico Verissimo: vizinhança, fraternidade, fraturas”. Varia Historia, Belo Horizonte, v. 30, n. 54, p. 705-723, set/dez 2014.
  • VERISSIMO, Erico. O senhor embaixador. Porto Alegre: Editora Globo, 1965.
  • _____________. Solo de Clarineta: memórias. Vol. 2. Porto Alegre: Editora Globo, 1976. 

Palavras-chave: literatura e política; engajamento; Erico Verissimo.

4 As marcas da carreira diplomática de Monteiro Lobato em sua escritura: vamos perguntar a Mister Slang

Elizamari Rodrigues Becker

Na produtiva intersecção entre Literatura Comparada e Relações Internacionais, com frequência encontramos escritores-embaixadores que alimentam as literaturas nacionais com textos ficcionais claramente devotados a render suas experiências diplomáticas ao público leitor. Monteiro Lobato foi um escritor, empresário e articulador político bastante controverso. Seu artigo “Paranoia ou mistificação?” (1922) foi o estopim de suas contendas com os modernistas, contendas essas que lhe renderam o rótulo de reacionário, mas o conjunto de sua obra voltada para público adulto evidencia que sua pugna era dedicada a combater justamente o atraso de nosso país em relação a outras nações, novas e velhas, que já possuíam economias impulsionadas na velocidade do ferro e do “ouro negro” – o petróleo que Lobato tanto sonhou ver extraído no Brasil, ideal que lhe custou a liberdade e a saúde.  O livro Mister Slang e o Brasil (1927), integrante do conjunto de obras da literatura adulta de Monteiro Lobato, constrói e expõe, em literatura dialogada, as opiniões e posicionamentos político-ideológicos do escritor do Buquira acerca de questões de desenvolvimento do Brasil e sob os impulsos das políticas de internacionalização do governo que o comissionou. Acredita-se que a experiência diplomática de Lobato como adido comercial (1927-1931) do consulado brasileiro na maior metrópole estadunidense, Nova Iorque, ocorrida durante o governo de Washington Luís, deixou marcas significativas nesse e em outros escritos seus, bem como definiu suas escolhas tradutórias e editoriais e o levou a criar uma espécie de rede intertextual com a aparição e reaparição de uma personagem, Mr. Slang, que não coube em um só livro,  Mister Slang e o Brasil, e acabou querendo mais, viajando para a China no final daquele relato e reaparecendo de lá em um livro de ensaios e crônicas sobre a vida nos Estados Unidos, América (1931). É a partir do olhar desse estrangeiro que o narrador de Lobato busca compreender a problemática brasileira, com ele dialogando sobre governança, tecnologia e inovação, industrialização, modernização e sobre inúmeras outras temáticas congêneres. A ficcionalização a partir desse diálogo é relativamente congruente com o olhar estrangeiro e estrangeirizante desses mandatários-embaixadores, olhar dirigido pela pretensa isenção de quem vê de fora, de quem toma a distância requerida para ver o todo, para ver com clareza, para avaliar com imparcialidade, mas nunca totalmente desprovida de interesse, de apego (Almeida, 2018). Este estudo pretende, portanto, percorrer parte da literatura adulta de Lobato, procurando identificar possíveis encontros entre seu Mr. Slang com sua própria voz de experiência e carreira diplomáticas.

Referências

  • ALMEIDA, Paulo Roberto de. Dez obras para melhor entender os problemas do Brasil, Spotniks, Brasília, jun., 2016. Disponível em: http://spotniks.com/dez-obras-que-voce-precisa-ler-para-entender-melhor-os-problemas-do-brasil/. Último acesso em: 20/07/2019.
  • MONTEIRO LOBATO, José Bento. América. São Paulo: Brasiliense, (1931)1951.
  • MONTEIRO LOBATO, José Bento. Mister Slang e o Brasil e Problema Vital. São Paulo: Brasiliense, (1927)1951.
  • MONTEIRO LOBATO, José Bento. Paranoia ou mistificação? In.: Urupês. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, (1922) 1951.

Palavras-chave: Monteiro Lobato; Mister Slang e o Brasil; America; carreira literária; carreira diplomática; políticas de internacionalização.

5 Dinah Silveira de Queiroz: vida literária e diplomacia

Ana Cristina Steffen

 A paulista Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), apesar de pouco conhecida e estudada nos dias de hoje, teve uma carreira literária com mais de 40 anos, durante os quais produziu uma vasta e diversificada obra. A autora passou pelos mais variados gêneros: romance, conto, literatura infanto-juvenil, ficção científica, jornalismo literário, teatro, além de uma biografia da Princesa Isabel Cristina Leopoldina de Bragança e de importantes traduções – dentre elas, a primeira versão brasileira de Sense and sensibility, de Jane Austen, publicada em 1944. Como cronista, assinou as seções “Jornalzinho Pobre” do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, e “Café da Manhã”, do também carioca A Manhã. Também foi colaboradora nas rádios Nacional e do Ministério da Educação, nas quais eram veiculados textos de sua autoria; suas crônicas eram lidas mesmo nos períodos em que se encontrava fora do Brasil exercendo funções diplomáticas, como Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Madri – para a qual foi nomeada em 1962 – ou enquanto acompanhava o segundo marido, o também diplomata Dário Moreira de Castro Alves. Assim sendo, um dos objetivos deste trabalho é discutir a presença de elementos relacionados à atuação diplomática na literatura produzida por Dinah Silveira de Queiroz, principalmente no romance Guida, caríssima Guida, além de algumas crônicas reunidas na coletânea Café da manhã. Ademais, essa pesquisa também se propõe a ressaltar a circulação internacional da obra de Dinah: além de várias de suas obras terem ganhado traduções e publicações fora do Brasil, em países como Canadá, Coreia do Sul, Espanha, França, Itália, Japão e Portugal, em 1983 foi realizado, nos Estados Unidos, um seminário em memória da autora (ALVES, 1989). Este trabalho, por fim, também pretende contribuir para divulgação da obra de Dinah, bem como para o resgate de uma autora que, apesar da intensa atuação no meio literário e cultural, atualmente está em esquecimento.

Referências

  • ALVES, Dário Moreira de Castro. Dinah, caríssima Dinah. Brasília: Horizonte, 1989.
  • QUEIROZ, Dinah Silveira de. Café da manhã. Rio de Janeiro: Olivé Editor, 1969.
  • ______. Guida, caríssima Guida.Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.

Palavras-chave: Dinah Silveira de Queiroz; Guida, caríssima Guida; Café da manhã; Escritores diplomatas; Literatura brasileira.

6 Relações diplomáticas em Olga, narrativa de Fernando Morais, e reconstrução histórica

Márcia Rohr Welter e Juracy Assmann Saraiva

O entrecruzamento de história e de literatura sempre foi um campo fértil para as investigações de ambos os campos. A narrativa Olga, de Fernando Morais (2008), conta a vida de Olga Benario, a esposa judia e comunista de Luís Carlos Prestes que esteve no Brasil para realizar uma revolução comunista e foi deportada para a Alemanha nazista. A obra de Morais oferece um panorama da sociedade brasileira e alemã da primeira metade do século XX, e, no processo de reconstrução do passado, Morais utiliza vestígios históricos, como recortes de jornais e cartas, para demonstrar as relações diplomáticas travadas entre Brasil e Alemanha e Brasil e Estados Unidos da América. A partir disso, no presente trabalho, exploram-se as significações provenientes das relações diplomáticas entre esses países, no final da década de 30 e início da década de 40, realizando um confronto entre literatura e história por meio do texto “O Estado Getulista (1930-1945)”, de Boris Fausto (2002). Para isso, são utilizados os pressupostos teóricos de Keith Jenkins (2009), que afirma que a história é um constructo pessoal no qual o historiador, a partir de vestígios do passado, elabora a sua versão dos fatos; de Regina Zilberman (1989), que aponta que o modo como a obra se apropria de elementos do cotidiano indica seu contato com a sociedade do período; e de Mary Del Priore (2009), que afirma que o texto biográfico lança luzes sobre um explícito –  ao propor a análise da sociedade de uma época –  e de um implícito – ao reunir, em um indivíduo, os conflitos de um período – da sociedade de um tempo. Assim, valendo-se de uma investigação de cunho indutivo e de revisão bibliográfica, pode-se perceber que os contatos da polícia brasileira com um funcionário da embaixada norte-americana, na ocasião das prisões de membros da revolução socialista, tinham por intuito extinguir o comunismo do Brasil; igualmente que a manifestação de ideais antissemitas e a aberta colaboração com a Gestapo, por meio de um diplomata brasileiro em Berlim, revelam que esses pensamentos se faziam presentes na sociedade do período e que não eram recriminados, uma vez que eram expressos de modo aberto em correspondências oficiais.

Referências

  • FAUSTO, Boris. O Estado Getulista (1930-1945). In: ______. História Concisa do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. p. 185-218.
  • JENKINS, Keith. O que é a História? In: ______. A História repensada. São Paulo: Contexto, 2009. p. 23- 52.
  • MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo: Companhia de Letras, 2008.
  • PRIORE, Mary Del. Biografia: quando o indivíduo encontra a história. Topoi, v. 10, n. 19, jul- dez. 2009, p. 7-16. Disponível em: http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/topoi19/topoi%2019%20-%2001%20artigo%201.pdf. Acesso em: 11.jun. 2019.
  • ZILBERMAN, Regina. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Editora Ática, 1989.

Palavras-chave: relações diplomáticas; Olga; literatura; história; Fernando Morais.

7 Do que estamos falando quando falamos da literatura de língua inglesa?

Ian Alexander

Alguns impérios apenas mudam de nome. Em 1889, o Império Brasileiro sofreu um golpe e se transformou em república, sem nenhuma descolonização. Em 1957, depois da sua derrota na Crise de Suez, o Império Britânico entrou em colapso. Entre março de 1957 e janeiro de 1984, cinquenta dos seus antigos territórios na África, na Ásia, nas Américas e na Oceania se transformaram em países independentes: desses cinquenta, apenas cinco não fazem parte da Comunidade das Nações (antiga Comunidade Britânica de Nações), com sede em Londres e a Rainha Elizabeth II como chefe. Os países da Comunidade variam em população entre 1,3 bilhões (Índia) e 11 mil (Nauru), e todos têm outras línguas além do inglês. Diferente dos países da Comunidade Lusófona, nenhum dos quais é vizinho do outro, a maioria dos membros da Comunidade (Britânica) divide uma fronteira terrestre ou marítima com pelo menos um outro membro; vários utilizam moedas regionais, junto com esses vizinhos; alguns inclusive jogam esportes internacionais como parte de times conjuntos. Se o senso comum dá o nome Literatura Brasileira a toda a literatura produzida no antigo Império Brasileiro e na atual República Federativa, esse mesmo senso comum não serve para o mundo anglófono. Esse trabalho procura investigar as definições e as classificações aplicadas à literatura de língua inglesa em partes diferentes do mundo anglófono, através dos currículos de universidades públicas. Foram excluídos países que se tornaram independentes antes do século XIX, como os Estados Unidos, que foram anexados ao Império Britânico depois da Primeira Guerra Mundial, como a Tanzânia ou a Jordânia, ou que já tinham uma forte tradição literária antes da chegada da língua inglesa, como a Índia ou o Egito. Os países restantes são da África, das Américas e da Oceania, e se dividem entre aqueles que se tornaram formalmente independentes em 1931 (o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul) e aqueles que ganharam a independência a partir de 1957. De cada continente, foram escolhidos os países de maior população, e a principal universidade pública dentro de cada país. Duas dessas universidades são transnacionais: a University of the West Indies (UWI), com campi nas ilhas de Jamaica, Trinidad e Barbados, e a University of the South Pacific (USP), com campus principal em Fiji. A partir dos sites dessas universidades, foram identificadas as disciplinas obrigatórias e eletivas para completar um diploma de graduação em Literatura de Língua Inglesa, calculando-se as porcentagens máxima e mínima de conteúdos oriundos do país em questão, da região a qual pertence, de outras regiões, e das Ilhas Britânicas. Nos países em que uma maioria branca se tornou independente em 1931, a maior parte dos conteúdos continua sendo do Reino Unido, enquanto nos países em que uma maioria não branca ganhou a independência na segunda metade do século XX, a maior parte é ou regional (africana, caribenha, do Pacífico), ou da diáspora negra. Nenhum dos casos apresenta a nação como sendo um recorte dominante.

Palavras-chave: literatura de língua inglesa; literatura africana; literatura caribenha; literatura do Pacífico; currículo universitário.  

8 Vestígios de ordens: Kazuo Ishiguro e a questão do internacional

Andrei Dos Santos Cunha

No romance Os Vestígios do Dia, de Kazuo Ishiguro (1989; 1990; 2016), há um encontro diplomático entreguerras na casa do patrão do narrador. A cena, ambientada em 1927, une o doméstico, o conflito de classes, a questão da Alemanha, e outros exemplos de confronto político em um único evento complexo, como que para demonstrar como diferentes fatores e dramas ecoam e distorcem uns aos outros, tanto no plano dialógico como no sincrônico. O livro também ressuscita temas relacionados à história da literatura inglesa, como o conflito de classes e a validade do romance psicológico de formato realista para descrever o século XX, mas destacando que a Inglaterra tinha um lugar central no mundo da época, o que se reflete na forma mesma, realista e didática, com que Ishiguro conta a história. É uma discussão de política internacional, mas ao mesmo tempo um caso bastante eloquente de problematização de temas que a literatura comparada está sempre discutindo. O próprio autor de Os Vestígios do Dia, Kazuo Ishiguro, tem uma identidade híbrida, mais facilmente descrita por teorias literárias pós-colonialistas e que também é um elemento de debate corrente nas relações internacionais. Nascido no Japão, ele se identifica como um autor de língua inglesa, o que pode ser causa de desconforto — não para o próprio Ishiguro, e sim para os que buscam descrevê-lo como representante desta ou daquela nacionalidade. Nesse sentido, a situação existencial, política e artística de Ishiguro se assemelha à de tantos outros escritores que escrevem, por opção ou vicissitude, em línguas diferentes da materna — algo que, em nosso mundo de 2018, só tende a aumentar, devido às forças da guerra, da violência e da economia global, e que a autora Tawada Yôko (japonesa, que escreve em alemão) chama de “exofonia” (2003).

Referências

  • ISHIGURO, K. Os vestígios do dia. Tradução de Eliana Sabino. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.
  • ISHIGURO, K. Os vestígios do dia. Tradução de José Rubens Siqueira. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
  • ISHIGURO, K. The remains of the day. Londres: Faber & Faber, 1989.
  • TAWADA, Y. Ekusofonii: bogo no soto e deru tabi [エクソフォニー ―― 母語の外へ出る旅]. Tóquio: Iwanami, 2003.
  • VESTÍGIOS do dia. Título original: The Remains of the Day. Direção: James Ivory. Roteiro: Kazuo Ishiguro (romance); Ruth Prawer Jhabvala (adaptação). Reino Unido, EUA: Merchant & Ivory, Columbia e outros, 1993. 1 DVD (134 min).

Palavras-chave: exofonia; Kazuo Ishiguro; Vestígios do dia; relações internacionais; identidades híbridas.

9 Emissários entre(-)lugares, mensagens entre tempos e os crisântemos do imperador: prêmios literários e ideologias político-linguísticas em Yoko Tawada

Marianna Ilgenfritz Daudt

Em 18 de dezembro de 2018, o embaixador do Japão, Takeshi Yagi, convidou Yoko Tawada para o visitar em sua casa em comemoração pelo recebimento do prestigiado prêmio da Fundação Japão que a autora recebia por sua literatura naquele ano. O prêmio é concedido anualmente, desde 1973, a pessoas ou organizações que promovem o intercâmbio cultural e a compreensão mútua internacional do Japão com o mundo. O prêmio japonês foi recebido apenas dois depois de Tawada receber o importante Prêmio Kleist na Alemanha, em 2016. A crescente notoriedade alcançada pela autora, especialmente nos dois países, faz com seja considerada pela Fundação Japão como uma figura única e nunca vista na história literária japonesa moderna, personalidade que aponta para uma nova direção no futuro da literatura mundial. Ette (2004; 2016), por sua vez, destaca o papel da escrita translinguística no contexto alemão e o potencial de renovação e enriquecimento que os escritores de língua estrangeira, como Yoko Tawada, representam para literatura de língua alemã e do mundo. Com o presente trabalho, busca-se traçar a trajetória de Tawada em termos de reconhecimento no cenário literário mundial, com foco na Alemanha e no Japão, e discutir as implicações de seu papel como mediadora entre fronteiras, culturas e idiomas, bem como suas abordagens literárias com relação aos temas que tangem às relações políticas e ideológicas entre os diferentes países e culturas. Para tanto, serão apresentados e discutidos o romance Kentoshi (2014) – traduzido na Alemanha como Sendbo-o-te -; os contos “Ma und Mu” e “Bioskoop der Nacht”, presentes, respectivamente, nas coletâneas Sprachpolizei und Spielpolyglotte (2007) e Überseezungen (2002) e em poemas de Wo Europa anfängt und Ein Gast (2014). Yoko Tawada atua como mediadora entre culturas por meio de sua poética intercultural, de seu posicionamento como tradutora e de seu fazer literário, que inclui críticas às posturas políticas e ideológicas de diversos países do mundo. Em sua poética, a interação entre culturas é buscada de forma constante e consciente, seja pelo evocar das diferenças e das experiências entre culturas ou do entrelaçamento entre as línguas de seu convívio, o japonês e o alemão. Como tradutora, Tawada defende a importância da tradução como obra de igual valor ao texto de partida, e aponta como a tradicional primazia dos textos originais esteve sempre atrelada a conceitos que privilegiam as línguas e culturas de países hegemônicos, cujas políticas teriam sedimentado suas identidades linguísticas como fator de identificação e imposição nacionais. Em sua literatura, podem-se observar análises cruas sobre padrões políticos que impõe ou impuseram formas de pensar ou de se expressar, especialmente em suas referências ao modelo de imposição linguística japonesa durante a Era Meiji e ao modelo eurocêntrico, cuja presunção de centralidade ainda hoje marginaliza formas não-centrais/europeias de expressão cultural. Dessas e de outras formas, suas criações trazem à luz, por meio da literatura, em termos tanto de conteúdo como de trânsito e reconhecimento autoral, discussões que vem se fazendo cada vez mais necessárias no cenário mundial e que tem o potencial de renovar e trazer nova energia às literaturas alemã, japonesa e de todo o mundo.

Referências

  • ETTE, Otmar. Pensar o futuro: a poética do movimento nos estudos de transárea. Tradução: Luiz Barros Montez. ALEA, Rio de Janeiro, v. 18/2, p. 192-209, mai.-ago. 2016.
  • ETTE, Ottmar. ÜberLebensWissen. Die Aufgabe der Philologie. Berlim: Kulturverlag Kadmos, 2007.

Palavras-chave: Yoko Tawada; literatura alemã; literatura japonesa; exofonia; tradução.

10 A literatura soviética como instrumento de soft power

Gabriel Pessin Adam

O período de 1945 a 1991 foi um marco na história das relações internacionais. Duas superpotências, Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), eram os polos de poder de uma estrutura bipolar inédita até então e ainda não repetida. A disputa de proporções globais foi denominada de Guerra Fria, devido à impossibilidade dos rivais entrarem em confronto armado direto, meio tradicional de resolver disputas entre potências centrais na política internacional. Segundo Fred Halliday (1999), tal confronto era intersistêmico, pois para além de serem EUA e URSS os dois líderes dos seus respectivos blocos, eles propagavam para os demais países a superioridade de sua conformação político-econômica-social, o que seria demonstrado com o passar do tempo, quando um dos sistemas prevalecesse sobre o outro. A busca por esta superação histórica envolvia diversos setores dos dois governos e de suas sociedades. O elemento mais evidente desta disputa era a competição militar, seguido de perto pelas relações político-diplomáticas. Contudo, outro aspecto de considerável importância no período era a disputa ideológica, afinal cada uma das superpotências precisava demonstrar de modo cabal que seu sistema era superior, ao mesmo tempo em que operava no sentido de demonizar o sistema da outra. Variadas formas de arte foram utilizadas como instrumento de propaganda ideológica, entre elas a literatura. Desde o início de sua existência, a União Soviética compreendeu a importância da literatura como instrumento de hegemonia (no sentido gramsciano) para legitimar e fortalecer o seu regime perante sua população e junto aos países que faziam parte de sua zona de influência. Todavia, a literatura produzida por soviéticos não foi utilizada apenas por Moscou. Com o passar dos anos, alguns dos dissidentes do regime soviético ganharam proeminência no Ocidente em função de obras literárias que publicaram denunciando o que consideravam falho ou opressivo no governo da URSS. Os EUA e os demais países da Europa Ocidental colaboraram para que algumas destas obras fossem amplamente divulgadas entre os leitores do bloco capitalista e, supostamente, democrático. Duas obras se destacaram entre todas, Arquipélago Gulag (1973), de Alexandr Soljenítsin, e Doutor Jivago (1956), de Boris Pasternak. Inseridas no conflito ideológico da Guerra Fria, as duas obras foram utilizadas como propaganda antissoviética, logo, serviram aos propósitos de soft power dos Estados Unidos e de seus aliados. A presente pesquisa tem como objeto de estudo a interface entre cultura, mais especificamente a literatura, e relações internacionais, sendo temporalmente delimitada ao período da Guerra Fria. Além das duas obras literárias citadas, serão utilizados como base para o seu desenvolvimento obras de Joseph Nye (2002), para delimitar o conceito de Soft Power, Antonio Gramsci (2017), a fim de conceituar hegemonia e de Fred Halliday (1999), autor neomarxista de relações internacionais, o qual desenvolveu a visão da Guerra Fria como um conflito intersistêmico. 

Referências

  • HALLIDAY, Fred. Repensando as Relações Internacionais. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1999.
  • LIGUORI, Guido; VOZA, Pasquale. Dicionário Gramsciano. São Paulo: Boitempo, 2017.
  • NYE, Joseph. O Paradoxo do Poder Americano: Por que a única Superpotência do Mundo não Pode Prosseguir Isolada. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
  • PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
  • SOLJENÍTSIN, Alexandr. O Arquipélago Gulag. Porto: Editora Sextante, 2017.

Palavras-chave: Literatura Soviética; Guerra Fria; soft power; hegemonia; Relações Internacionais.

11 Carlos Lacerda, operador do soft power norte-americano

Andrea Cristiane Kahmann

Em 1º de junho de 1950, Carlos Lacerda escreveria no editorial do seu recém-fundado Tribuna da Imprensa: “O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Getúlio havia há pouco afirmado em entrevista a Samuel Wainer: “Eu voltarei, mas não como líder de partido, e sim como líder de massas” (FERREIRA, 2011: 60). E, desta vez, viria acompanhado por dois jovens seguidores com ele parecidos no porte, nas ideias e na linguagem típica da fronteira do sul do Brasil: Leonel Brizola e João Goulart. A Tribuna da Imprensa promoveu e sustentou com factoides a queda de dois desses “caudilhos” gaúchos: Getúlio Vargas suicidou-se em 1954, sob a comoção causada pelo atentado da Rua Tonelero contra o próprio Carlos Lacerda, e João Goulart sofreu o golpe militar em 1964. Mas nem só a partir dos discursos inflamados no jornal de sua propriedade Lacerda trabalharia em prol dos interesses norte-americanos. Ele, que em 1940 fora contratado pela Agência Interamericana, sob o comando de Nelson Rockefeller, para traduzir e publicar no Brasil material vindo dos Estados Unidos (DULLES, 1992: 67), já tinha algum reconhecimento como tradutor e pretendia-se também escritor. De sua “vasta produção literária”, formada por poemas, contos, crônicas, romances e teatro, que lhe dava “acesso” a Congressos de Escritores, temos conhecimento em função da extensa biografia em dois volumes escrita por John Dulles, secretário de Estado de Eisenhower entre 1953 e 1959, nome recorrente em estudos sobre os primeiros anos da guerra fria e associado especialmente à luta contra o “comunismo internacional”. A obra, entre nós intitulada “Carlos Lacerda: a vida de um lutador”, foi publicada pela Nova Fronteira, editora fundada por Carlos Lacerda em dezembro de 1965, e constitui a principal referência bibliográfica para esta comunicação, que discute, a partir do caso de Carlos Lacerda, os usos políticos da produção literária “original”, da tradução e da crítica. Ao material bibliográfico que nos foi legado por Dulles, somam-se documentos provenientes de consultas ao CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro) e à Hemeroteca Brasileira, seja a Digital, seja ao setor de obras raras, disponíveis para consultas presenciais na Fundação Biblioteca Nacional.  

Referências

  • DULLES, John W. Carlos Lacerda: a vida de um lutador. Tradução de Vanda Mena Barreto de Andrade. vol. 1. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 512p.
  • FERREIRA, Jorge. João Goulart: uma biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. 713p.
  • TRIBUNA DA IMPRENSA. Editorial. 1º de junho de 1950. Pág. 4. Disponível em: Hemeroteca Digital Brasileira – Coleção Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional <http://memoria.bn.br/DocReader/>. Acesso em: 8 dez. 2016.

Palavras-chave: Literatura Comparada; Relações Internacionais; geopolítica da cultura; soft power; Carlos Lacerda.

12 Catch-22 e o discurso político: uma leitura de narrativas não-confiáveis

Rafael Conter

Catch-22 é um romance satírico escrito por Joseph Heller, publicado originalmente em 1961. A história se passa durante a Segunda Guerra Mundial e acompanha o dia-a-dia dos soldados e oficiais Norte-Americanos estacionados na ilha fictícia de Pianosa, na Itália. O romance é narrado em terceira pessoa e se desenvolve em uma cronologia não-linear com elementos surrealistas e de humor negro, e conta com inúmeros exemplos de discurso não-confiável. De acordo com as teorias de Sternberg e Yacobi, a não-confiabilidade é uma hipótese que o leitor assume quando confrontado com as tensões e as inconsistências de um texto, e as estratégias usadas para criar e dar sentido a esse texto. Segundo esses autores, há uma busca por coerência que envolve uma série de mecanismos, ferramentas utilizadas pelo leitor para acomodar a narrativa de um determinado texto ou discurso. Há, por exemplo, um mecanismo genérico, que resolve inconsistências através do gênero, como os exageros estilísticos da sátira; ou, também, um mecanismo de perspectiva, que acomoda as tensões entre o narrador e os personagens narrados. Este trabalho é uma tentativa de ler Catch-22 sob a luz dessa teoria, e oferecer algumas ideias de sua aplicação no discurso político. A questão da confiabilidade está em voga atualmente, com a construção de narrativas não-confiáveis penetrando e ameaçando os campos político e jornalístico. Em um vídeo intitulado Há um golpe militar em marcha no Brasil hoje, Vladimir Safatle chama atenção para os perigos de se encarar discursos autoritários com graça e comédia, tais como os discursos de ódio de parcelas da extrema-direita e do neo-fascismo, e estratégias políticas como as fake news e o firehosing. Se esse for o caso, um estudo sobre a não-confiabilidade se faz cada vez mais urgente, e os personagens e tópicos presentes em Catch-22 oferecem um material extremamente rico de análise. Narrativas ficcionais e políticas não são a mesma coisa, mas podem ser lidas e entendidas de maneiras similares. Sendo assim, um estudo da não-confiabilidade em Catch-22 pode nos auxiliar a entender melhor não só a linguagem, como também o mundo em que vivemos.  

Referências

  • HELLER, Joseph. Catch-22. 
  • SAFATLE, Vladimir. Há um golpe militar em marcha no Brasil hoje. Acesso em: https://www.youtube.com/watch?v=BwLg13hSkRk. 
  • STERNBERG, Meir & YACOBI, Tamar. (Un)Reliability in Narrative Discourse: A Comprehensive Overview. Poetics Today. Duke University Press: 2016.

Palavras-chave: Catch-22; confiabilidade; narrativa; fake news; firehosing.