COSMOPOLITISMOS E CARTOGRAFIAS PÓS-NACIONAIS: MESCLAS TEXTUAIS / CORPOS-CORPUS EM TRÂNSITO / FAZERES TEÓRICOS-TRADUTÓRIOS-LITERÁRIOS-CULTURAIS
Cinara Ferreira, Denise Salles, Rita Lenira Bittencourt
A literatura comparada contemporânea apresenta-se como uma ecologia cultural, na contramão de processos globalizantes e estandardizados que, via de regra, montam um cenário de tropos-topos midiatizados e mercantilizados. Existe hoje um consenso de que a errância e a deriva marcam, desde sempre, os saberes e os fazeres literários, e o comparatismo estabelece marcos teórico-críticos que permitem a produção de conhecimento sobre esses processos e sobre as mutações de formas estéticas, na literatura e nas outras artes. Para tanto, são operacionalizados agenciamentos plurais e deslocamentos de fronteiras geográficas e disciplinares, em espaços múltiplos de significação estético-cultural, evocando noções de territorialidade e desterritorialidade, geocultura, comunicação intercultural e adaptabilidade cultural. Vale, nessa direção, remontar a Angel Rama (1982), com seu conceito de “transculturação”, em Transculturación narrativa en América Latina; a Édouad Glissant (1981), com o conceito de “mestiçagem”, entendido inicialmente no processo semiótico/estético da cultura antilhana e posteriormente estendido a outros objetos literário-culturais; e, ainda, a Walter Mignolo (2000), que em seu Local histories/Global designs elabora a noção de “pensamento de fronteira” como pressuposto para o estudo das formas literárias produzidas nas Américas. Juntam-se a estes teóricos, as noções de “transcriação”, de Haroldo de Campos, (1962), de “culturas híbridas”, de Néstor Garcia Canclini (1998); de “literatura anfíbia”, desenvolvida por Silviano Santiago (2004); de “alteridade planetária”, formulada por Gayatri Spivak em 2003, e, por fim, a de “hibridismo”, de Homi Bhabha (1998), que, em O local da cultura, explora o termo em chave analítica, capaz de dar conta do trabalho fronteiriço das culturas. Neste contexto, podemos afirmar que o comparatismo promove o descentramento das noções tradicionais de nação e fronteira, rejeitando uma noção essencialista de origem, cultura e literatura, para se voltar ao “outro”, às alteridades e diferenças, aos processos de contaminação e disseminação, nos quais se incluem as questões vinculadas à tradução.
Referências
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013.
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 2.ed. São Paulo, SP: Edusp, 1998. - GLISSANT, Édouard. Le discours antillais, Paris: Seuil, 1981.
- MIGNOLO, Walter. Local histories / Global designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. New Jersey: Princeton University, 2000.
- RAMA, Ángel. Transculturación narrativa en América Latina. Buenos Aires: Ediciones El Adariego, 1982.
- SANTIAGO, Silviano. Uma literatura anfíbia. Revista ALCEU. v.3, n.5, jul./dez. 2004. p. 13-21.
- SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Death of a discipline. New York: Columbia University Press, 2003.
EIXO 2 — DATA E ORDEM DAS COMUNICAÇÕES
23 de outubro (quarta-feira)
Local: Prédio da FACED, sala 611.
1 Reflexão teórico-prática a partir de sugestão de tradução ao português brasileiro de parte de La novela de mi vida, romance do escritor cubano Leonardo Padura, Nathália Hecz Couto
2 O entre-lugar da apropriação: disseminação, propriedade e despossessão na escritura, Luis Felipe Silveira de Abreu
3 Literaturas e nacionalidades na Rússia contemporânea, Denise Regina de Sales
4 As mesclas transnacionais problematizadas em Arquivo das crianças perdidas, de Valeria Luiselli, Samara Alves; Eunice T. Piazza Gai; Maria Luiza Berwanger da Silva
5 O andante e a fronteira: o paradoxo cultural e a maternidade linguística em Elias Canetti, Ricieri Camatti Ramos Silva
6 O retorno, de Dulce Maria Cardoso: apontamentos para entender a lusofonia, Luciana Rosa Costa
7 Tradução literária e cultural de Himani Bannerji: reflexões sobre o processo tradutório, Rodrigo da Rosa Pereira
24 de outubro (quinta-feira), sessão A
Local: Prédio da FACED, sala 611.
8 A Máquina do mundo e o jus publicum europaeum, João Guilherme Dayrell
9 A voz de Sherazade: O fogo será tua casa, de Nuno Camarneiro, Gabriela Silva
10 Escritas do corpo: textualidade fora da lei, Rita Terezinha Schmidt
11 Viagem e alteridade: a paisagem literária da Itália de Goethe, Renato Barros de Castro
12 Paisagens do íntimo e poéticas de internacionalização, Maria Luiza Berwanger
13 Da Arquiliteratura de Conformópolis: Cartografia literária, Tiago Radatz Kickhöfel
14 Poéticas à deriva em Berkeley em Bellagio e Lorde, de João Gilberto Noll, Kim Amaral Bueno
24 de outubro (quinta-feira), sessão B
Local: Prédio da FACED, sala 511.
15 “Como uma onda no mar” – ética e criação literária através da poesia, Gisela Rodriguez
16 Redescobrindo a humanidade: uma análise fílmica de Distrito, Marlova Soares Mello
17 Contar para deslocar: espacialidades do lirismo crítico entre a poesia brasileira contemporânea e a literatura coreana, Douglas Rosa da Silva, Melissa Rubio dos Santos
18 As facetas da melancolia na canção In Darkness Let Me Dwell, de John Dowland, e sua ressignificação na ecologia cultural atual, João Alexandre Straub Gomes, Werner Ewald, Marcelo Barros de Borba
19 O olhar oitocentista e a pintura de paisagem de Caron: notas para uma poética da relação, Ana Carla de Brito
20 A música em e a partir de As intermitências da morte, de José Saramago, Cinara Ferreira, Carlos Walter Soares
21 Das Letras à Geografia, a possibilidade de uma fusão, Cristiane Marques Machado, Maria Luiza Berwanger da Silva
25 de outubro (sexta-feira)
Local: Prédio da FACED, sala 611.
22 Migraaaantes e o cerceamento de todas as cercas ou O devir-minoritário de Matei Visniec frente à democracia assustada, Diego Lock Farina
23 Em busca de personagens invisíveis: fragmentos de cartografia, Gabriela Semensato Ferreira
24 A estranha poesia das mulheres: corpos, vozes, performances, Rita Lenira de Freitas Bittencourt
25 A traição da carta: o mal contado e o permeável, Israel Augusto Moraes de Castro Fritsch
26 A ficção da ficção: uma leitura comparatista das narrativas de estupro n’O cortiço (1890) e em Duas irmãs (1883), Karine Mathias Döll
27 Cicatrizes e lusórias, André Winter Noble
28 Entre ready-mades e colagens: a mescla textual de Valêncio Xavier em Crimes à moda antiga, Taynara Leszczynski
EIXO 2 — RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES
1 Reflexão teórico-prática a partir de sugestão de tradução ao português brasileiro de parte de La novela de mi vida, romance do escritor cubano Leonardo Padura
Nathália Hecz Couto
Esta pesquisa tem por objetivo apresentar uma reflexão teórico-prática a partir de sugestão de tradução ao português de parte de La novela de mi vida, de Leonardo Padura, com foco nas características da tradução literária e nos aspectos culturais envolvidos nesse processo. No cenário atual da literatura hispano-americana, o trabalho do autor cubano tem ganhado cada vez mais espaço e reconhecimento, conquistando leitores em diversas línguas, como inglês, italiano, alemão e português. Portanto, a escolha da referida obra para a realização deste trabalho se justifica pelo motivo de que não há, até o presente momento, uma tradução publicada ao português brasileiro. Sendo assim, a sugestão de tradução apresentada se configura como um trabalho inicial, com o fim de gerar discussões e comentários acerca da atividade tradutória em relação aos aspectos culturais, intrínsecos à língua do texto original. A partir de uma viagem à origem da consciência nacional por meio da vida de seu primeiro grande poeta, La novela de mi vida transforma-se numa leitura de aspectos da história cubana. Padura nos apresenta, inicialmente, a Fernando Terry, professor que dedicou sua tese de doutorado ao poeta José María Heredia. Depois de ser expulso de seu cargo universitário e após dezoito anos de exílio, decide voltar por um mês a Havana, interessado na possibilidade de encontrar a autobiografia desaparecida do poeta, intitulada La novela de mi vida. Nesse contexto, criam-se paralelismos entre a vida dos personagens e a história de Cuba, permeando o destino de cada um. Após a contextualização com informações sobre Leonardo Padura, sua obra e sua relação com Cuba, dá-se lugar às considerações teóricas acerca da tradução literária. Para a discussão de aspectos referentes à linguagem literária e à equivalência, são citados García Yebra (1983), Bassnett (2003) e Pym (2011). Para o embasamento teórico a respeito da atividade tradutória como formadora de identidade cultural, procede-se à leitura de Venuti (2002). Sobre a tradução como atividade de produção de significados, apresentam-se ideias expostas por Frota (2000). Como ponto de análise, com o aporte teórico de Bhabha (2007) sobre estrangeiridade na atividade tradutória, alguns exemplos de tradução são comentados e comparados ao texto original em espanhol. Por fim, conclui-se que, a partir da prática e do estudo teórico realizados, é essencial que o tradutor tenha a consciência de que a tradução não é um trabalho meramente de cópia ou transferência de significados, resgatando as reflexões de Frota (2000). Além de se ter o cuidado de prezar o sentido do texto original e a língua para a qual se traduz, há de se levar em conta o grande impacto cultural que essa atividade é capaz de fomentar. Conforme proposto por Venuti (2002), o trabalho de tradução tem influência na formação de identidades culturais, gerando respeito, estigma ou aversão, considerando a recepção do texto traduzido. Como efeito disso, pode-se explicar o grande impacto das traduções das obras de Leonardo Padura, levando a identidade cubana, com seus estigmas e controvérsias, a diversos países através do trabalho do tradutor.
Referências
- BASSNETT, Susan. Estudos de tradução: fundamentos de uma disciplina. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa: Orgal impressores, 2003.
BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Glaucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 2007. - FROTA, Maria Paula. A singularidade na escrita tradutora. Campinas: Pontes Editores, 2000.
- GARCÍA YEBRA, Valentín. En torno a la traducción: teoría, crítica e historia. España: Editorial Gredos, 1983.
- PADURA, Leonardo. La novela de mi vida. Barcelona: Tusquets Editores S.A., 2002.
- PYM, Anthony. Teorías contemporáneas de la traducción: materiales para un curso universitario. Tarragona: Intercultural Studies Group, 2011. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/266557109_Teorias_contemporaneas_de_la_traduccion> . Acesso em: 03. mar. 2018.
- VENUTI, Lawrence. Escândalos da tradução: por uma ética da diferença.Trad. Laureano Pelegrin, Lucinéia Marcelino Villela, Marileide Dias Esqueda, Valéria Biondo.Bauru, SP: EDUSC, 2002.
Palavras-chave: tradução literária; La novela de mi vida; Leonardo Padura; literatura hispano-americana.
2 O entre-lugar da apropriação: disseminação, propriedade e despossessão na escritura
Luis Felipe Silveira de Abreu
Este ensaio começa em um sinal; o hífen interposto por Jacques Derrida (2016) na grafia de ex-apropriação. O termo insurge-se em meio à sua reflexão sobre a condição linguageira de um francês magrebino. Neste espaço-além-do-território, Derrida identifica o problema como sendo do monolinguismo do outro: não tenho nenhum língua que não a minha, ao passo que não tenho nenhuma língua que não a dos outros. O quase-conceito de ex-apropriação opera demonstrando o paradoxo de propriedade existente no exercício da linguagem transcultural. Identifica-se uma despossessão perpétua; mas é justo esse vazio que enseja as práticas de tomada de posse da escritura. Partindo da aporia que movimenta aquele ensaio, movimentamos nossa pesquisa à respeito de práticas de apropriação, cópia e imitação em textualidades contemporâneas. Neste texto, de caráter conceitual e exploratório, propomos um estudo da ex-apropriação como lógica dessas (re)escrituras. Deste modo, o texto retoma o quase-conceito, retomando seus debates e apreendendo sua lógica e sua inserção na compreensão derridiana da disseminação (DERRIDA, 1991; 2001; BHABHA, 1998). Na fulguração de seu hífen, buscamos entender a indecidibilidade deste lugar de fala transnacional também com a ideia entre-lugar, conforme elaborada por Silviano Santiago (2000). Traça-se aí uma relação entre o lugar de subalternidade e a tomada da escritura estrangeira entre a assimilação e a transgressão – o que ressalta o estatuto de entre dessas escritas, bem como desvela outras dinâmicas de disseminação na apropriação. De forma a interrogar de modo localizado esta problemática, entendendo que ela só se dá na escritura, partimos a apresentar e debater duas experiências desse entre. Expostas, revelam este estatuto transitório e tentativo não apenas dos locais de enunciação da cultura, bem como da indecidibilidade de atribuição da posse dos signos da linguagem. Experiências como a de Gloria Anzáldua em seu Borderlands/La frontera (1987), livro escrito em um inglês atravessado pelos dialetos da fronteira mexicana, discutindo a vivência do migrante. Para Anzáldua, não é possível possuir o inglês, mas já o espanhol também foi perdido. “Proprietária” de nenhuma dessas línguas, de nenhuma língua, porém, ela precisa a todo momento acioná-las para sua comunicação: de que modos se dão esses momentos de posse, e que repercussões socio-políticas eles ensejam, é matéria análises. De modo semelhante, acionamos também as poéticas de Édouard Glissant (2005): seus estudos sobre como o regime econômico de escambos no Caribe cria uma cultura de trocas precárias, origem das línguas crioulas. Processo debatido por Glissant sob a forja do conceito de despossessão, que nos faz retomar ao tema inicial contido na ex-apropriação: é possível possuir a linguagem, ou por ela que somos possuídos? Na leitura dos signos que emitem essas línguas bífidas, o ensaio vai concluir a produtividade de se enfocar o problema dos textos e trânsitos pós-nacionais pelo viés proprietário. Infere-se como as noções de ex-apropriação e entre-lugar suscitam esse aspecto, e permitem ler textos poéticos transculturais por tal chave – levando a uma compreensão da apropriação e da imitação como movimentos de um roubo que escancara a precária performance da posse.
Referências
- ANZALDÚA, Gloria.Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1998.
- DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. São Paulo: Papirus, 1991.
- DERRIDA, Jacques. O monolinguismo do outro ou a prótese de origem. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2016.
- DERRIDA, Jacques. Posições. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
- GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
- SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
Palavras-chave: ex-apropriação; disseminação; entre-lugar; apropriação; propriedade.
3 Literaturas e nacionalidades na Rússia contemporânea
Denise Regina de Sales
Esta comunicação tem o objetivo de refletir sobre a face multilinguística e multicultural da literatura publicada na Rússia em sua relação com a representação da literatura russa no Brasil. Em Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética, Boris Schnaiderman afirma que, “na realidade, a cultura russa não pode ser pensada sem a marca forte de um verdadeiro mosaico de povos” (SCHNAIDERMAN, 1997, p. 249). Essa riqueza cultural deve-se, historicamente, a expansões e retrações do Império Russo, da União Soviética e da atual Federação Russa. Muitos dos povos e etnias desse imenso território foram retratados na literatura por autores clássicos. Aleksandr Púchkin, por exemplo, passou períodos de sua vida no Cáucaso e, influenciado pela realidade sociocultural que ali encontrou, escreveu obras em língua russa baseadas em temas caucasianos, com exaltação do caráter e da vida dos montanheses. O fenômeno para o qual voltamos nosso olhar é o do renascimento da produção literária de diversos povos na sua língua local, por autores locais. De acordo com dados do Programa de Apoio a Literaturas Nacionais dos Povos da Rússia, considera-se que há mais de 80 línguas com expressão escrita dentro das fronteiras da Federação. São escritas e publicadas obras literárias em quase 60 delas. Nos últimos dois anos, foram lançadas três coletâneas bilíngues (com traduções para a língua russa) que revelam bem esse quadro. A primeira é um volume de obras poéticas de 229 autores, em 57 línguas; a segunda, de literatura infantojuvenil, com textos de 201 autores, em 55 línguas; e a terceira, de prosa, com 116 autores e 50 línguas. Em que medida a representação da literatura russa no Brasil reflete essa face multilinguística e multicultural? Algum desses escritores têm alcançado o nosso público? Qual é o papel do tradutor e do pesquisador da tradução na abertura para o “Outro não familiar” (SAID, 2007, p. 22) desse mosaico de povos?
Referências
- SCHNAIDERMAN, B. Os escombros e o mito: a cultura e o fim da União Soviética. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Palavras-chave: Literatura russa; Nacionalidades; Tradução.
4 As mesclas transnacionais problematizadas em Arquivo das crianças perdidas, de Valeria Luiselli
Samara Alves; Eunice T. Piazza Gai; Maria Luiza Berwanger da Silva
Pensar em fronteira é tratar de demarcações, limites, pressupondo o dentro, o fora, o igual e o diferente. Sendo assim, tratar de fronteira é discutir a diferença e refletir sobre as formas de lidar com ela. A fronteira é o lugar próprio das trocas, das interações, das mobilidades culturais. Vincula-se à ideia de limite, mas ao mesmo tempo agrega as diferenças que separam, ou intentam separar. Dessa forma, o fronteiriço é o híbrido, o mestiço, aquele que encerra em si a articulação ambivalente entre dois espaços. É, como refere Bhabha, um entre-lugar, um interstício. Além disso, não é possível ignorar a função seletiva que a fronteira assume diante do fluxo que possibilita. É um espaço propício a trocas, misturas, porém não é garantido que qualquer mistura possa ocorrer. A fronteira determina como e em que direção viabilizará movências, por isso, ainda que permita a imbricação, não se pode pensá-la como um território pacífico, em que os fluxos são calmos e sossegados e onde as diferenças convivem afetuosamente. Ao contrário, a fronteira é também o local próprio do embate, do conflito, da discórdia, do choque, da contestação. Este é também o motivo da sua existência. Por isso, Paul Gilroy coloca a fronteira não como uma geografia fixa, mas campo fluído, em que os sujeitos moventes ocupam outras nações, territórios e culturas. Essa mescla vai de encontro com as representações do corpo humano como repositório fundamental da ordem da verdade racial, prevendo a ideia da morte da raça como um cálculo político e moral. Tendo em vista que a crise migratória é uma questão recorrente na ficção contemporânea e a partir dessas premissas iniciais, o trabalho se propõe a analisar a crise dos refugiados, especialmente das crianças, que diariamente atravessam a fronteira dos EUA, apresentada do livro Arquivo das crianças perdidas, da escritora mexicana Valeria Luiselli. No romance, a autora destaca que as crianças que atravessam a fronteira estão “sozinhas, elas viajam em trens e a pé (…) elas têm que atravessar fronteiras nacionais, rios, desertos, horrores. E as que finalmente chegam são postas no limbo. (…) elas esperam que sua dignidade seja restaurada” (LUISELLI, 2019, p. 58). Essas crianças não estão em busca do sonho americano, mas fugindo de circunstâncias de indescritíveis maus-tratos e violência sistemática, fugindo de países onde gangues se tornaram Estados paralelos, em que usurparam o poder e assumiram o império da lei. Dessa forma, com base no livro de Luiselli, este trabalho também procura questionar a definição de cultural nacional introduzida pelo o absolutismo étnico e busca explorar as relações entre raça, nação, nacionalidade e etnia, para colocar em xeque o mito da identidade étnica e da unidade nacional. Para debater essas questões, este trabalho tem como aporte teórico Homi Bhabha, Aijaz Ahmad, Eric Hobsbawm, Paul Gilroy, J. Kristeva, entre outros.
Referências
- AHMAD, Aijaz. Linhagens do presente: ensaios. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2002.
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renata Gonçalves. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
- GILROY, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
- HOBSBAWM, Eric. Tempos fraturados: cultura e sociedade no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
- KRISTEVA, J. Semiótica do Romance: a palavra, o diálogo, o romance. Lisboa: Arcádia, 1977.
- LUISELLI, Valeria. Arquivo das crianças perdidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Palavras-chave: Fronteiras; Margens, Trânsito; Literatura contemporânea; Valeria Luiselli.
5 O andante e a fronteira: o paradoxo cultural e a maternidade linguística em Elias Canetti
Ricieri Camatti Ramos Silva
Tendo em vista a movimentação em larga escala, também no sentido mais amplo de expansão, em direção às territorialidades desconhecidas, a abrangência de conflitos do andante se torna cada vez mais crucial, materializando-se no que concerne aos desafios encontrados pelo desconhecido, seja no âmbito das perturbações político-culturais, assim como nas linguísticas e toda a semiologia que o desconhecido carrega. O búlgaro sefardita Elias Canetti, um auto exilado em terras britânicas no estopim da segunda guerra, ao ser mais tarde galardoado em terras alemãs (sua língua “adotada”, tendo em vista que sua língua “materna” é a ladina) discursa sobre “acessos de palavras” (CANETTI, 2011), o que diretamente o liga ao seu caráter de escritor transitório, tanto dentro das turbulências da barbárie, como em pesquisas de campo, liberto de pretensões eurocêntricas. Um exemplo é sua visita ao Marrocos (CANETTI, 2006), país de seu total desconhecimento, onde se desnuda da sua tendência ao domínio linguístico, desta forma, dedicando a sua verve de poeta ao outro, em um exercício peculiar de alteridade. Porém, aquilo que o escritor define como sendo a sua língua ou sendo a língua do outro, pode também ser visto como um processo de invasão, ou incapacidade, se levarmos em conta a proposição de que “ a língua dita materna nunca é puramente natural” (DERRIDA, 2001), ou, em caráter judicioso, a provocação aforística que sentencia que “a língua é a mãe, e não a criada do pensamento” (KRAUS, 2019). Portanto, é importante destacar aquilo que, em princípio, cerceia o pensamento literário-filosófico, porque até mesmo a reflexão contemplativa, seja panorâmica ou não, pode impor ao “objeto” observado: até onde as fronteiras ditas perpassadas pelos itinerantes pesquisadores vão de (ou, ao) encontro dos itinerantes em situação de plena fragilidade? Qual o alcance da teoria e da língua defronte o vilipendio progressivo que se alastra em mundo demarcado? E o que é a importância do poeta e seu tempo (cada vez mais sombrios, onde o humano ainda permanece moeda de troca, e cada vez mais descartável), ou seja, a sua importância dentro da “contemporaneidade” (AGAMBEM, 2009)? Dadas as referidas questões, este trabalho dirige o olhar de Canetti para outros campos de investigação, confrontando aquilo que o autor considera de seu pertencimento com o que de fato as suas conclusões, partindo de experiências próprias, contribuíram e ainda podem contribuir; ou mesmo se podem ser consideradas, de certa forma, pueris (dado o contexto absolutamente humanista de toda a sua obra, ficcional ou não), para a violência dos desandares arbitrariamente impostos, forçando nichos e povos ao impacto afetante às suas próprias identidades? Portanto, eis uma reflexão da atualidade dos discursos ditos universais sobre diásporas, apropriações e desapropriações dos marginais, produzidos pelo labor artístico das escrituras daquele que delegara ao poeta a responsabilidade fundamental de, em princípio, entender a desagregação radical para, então, sim, dar-se o direito de assumir o seu ponto de vista sobre a violência e incomunicabilidade.
Referências
- AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo?. Tradução de Vinícius de Castro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.
- CANETTI, Elias. As vozes de Marrakech. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
- CANETTI, Elias. A consciência das palavras. Tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
- DERRIDA, Jacques. O monolinguismo do outro. Tradução de Fernanda Bernardo. Porto: Campos das Letras, 2001.
- KRAUS, Karl. Aforismos. Tradução de Renato Zwick. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2019.
Palavras-chave: Canetti; linguística; fronteira; alteridade; desagregação.
6 O retorno, de Dulce Maria Cardoso: apontamentos para entender a lusofonia
Luciana Rosa Costa
Eduardo Lourenço, em “A Nau de Ícaro”, a respeito da lusofonia, expõe: “Em nome da mitologia lusófona ou – antes da lusofonia – se fundou e faz repousar a recente arquitetura da comunidade dos povos de língua portuguesa” (2004. 176). Para entendermos o arranjo dessa ideia de lusofonia é necessário perceber a história de Portugal e a relação com as colônias e posteriores ex-colônias. A literatura portuguesa do final do século XX, início do século XXI, vai apresentar diversas perspectivas dessa história. Dulce Maria Cardoso, em “O Retorno”, narra a história de Rui, um adolescente “retornado” de Angola que, junto com sua família, é obrigado a recomeçar a vida em Portugal, após o final da ditadura e o rompimento dos tratos coloniais. 1975, seria o ano em que Portugal receberia um significativo grupo de portugueses sem pátria, família ou emprego. Eram os “retornados”, ou os sem pertencimento, uma vez que já não eram bem-vindos. Era o fim da história da nação colonizadora, o recuo definitivo do império ultramarino de Portugal, como enfatiza Lourenço. Assim, as personagens de Dulce Maria Cardoso são representações desses portugueses “retornados” que vivenciaram o momento de independência das colônias. Logo, começava a inversão de um sistema de poder, pois mesmo para quem agiu com justiça para com a população nativa dessas colônias, como foi o caso de Rui, não havia mais lugar para ele em Angola. A narrativa que discorre para além da situação financeira precária e limitada da família de Rui, traz uma reflexão sobre os sentimentos de quem tudo perdeu e já não pertence mais à lugar algum. Esse trabalho apresenta uma análise das personagens de “O retorno” em suas principais características constitutivas, bem como sua relação com a história de Portugal à luz das ideias de Eduardo Lourenço e outros pensadores, historiadores e teóricos.
Referências
- CARDOSO, Dulce Maria. O Retorno. Rio de Janeiro: Tinta-da-China. 2012.
- LOURENÇO, Eduardo. A Nau de Ícaro. Lisboa: Gravida, 2004.
Palavras-chave: lusofonia; mitologia; personagem; sem pertencimento; interculturalidade.
7 Tradução literária e cultural de Himani Bannerji: reflexões sobre o processo tradutório
Rodrigo da Rosa Pereira
O entrelaçamento entre teorias e práticas de tradução com questões sociais e culturais se mostra relevante em especial nos casos de literaturas não hegemônicas. Tendo como material de análise, pesquisa e tradução os contos da autora canadense sul-asiática Himani Bannerji, o presente trabalho tem por objetivo fornecer um breve relato reflexivo a partir do projeto “Traduzindo contos de Hinani Bannerji: um processo de tradução literária e cultural”, desenvolvido no âmbito do Programa de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC-CNPq), vinculado ao Grupo de Estudos em Tradução (GET) e ao Núcleo de Tradução (NUTRA) da Universidade Federal de Rio Grande (FURG). Fundamenta-se teoricamente no que entende-se não apenas de tradução, mas de “processo tradutório”, numa perspectiva discursiva, operando um deslocamento da tradução, como produto, para o processo de tradução, em consonância com Mittmann (2003). O projeto se norteia ainda por noções de tradução literária e cultural, segundo Oustinoff (2011), para quem uma língua não é apenas um conjunto de palavras, mas também, e sobretudo, uma maneira de pensar, de ver o mundo, pois não fazemos as mesmas associações de ideias, as mesmas construções mentais de uma língua para outra; consequentemente, traduzir é, ao mesmo tempo, habitar a língua do estrangeiro e dar hospitalidade a esse estrangeiro no coração de sua própria língua. Entendemos, nesse sentido, que é necessário não apenas dar conta de palavras e frases, mas da forma de escrever do autor e de suas particularidades, o que, trazido para um contexto cultural, pode nos mostrar o quanto essas características são fundamentais como marca identitária e para uma melhor compreensão de lugares de fala. Em Bannerji, verifica-se uma produção culturalmente marcada, que diz respeito aos anseios de toda sua obra, sendo ela uma autora que busca dar formas expressivas a experiências por ela denominadas “não brancas”, movendo-se da nostalgia da terra natal em direção à angústia da integração ao novo território, seu novo lar, conforme nos ajudam a perceber criticamente Pereira e Cunha (2013). Por fim, cumpre ressaltar que o referido projeto traz uma iniciativa pioneira, ao aproximar o estudante de licenciatura em Letras à área da tradução. Além de acrescer na formação acadêmica e profissional dos envolvidos, como resultados das leituras teóricas e das práticas de tradução, espera-se divulgar em língua portuguesa os contos da autora, profundamente engajada em questões feministas, marxistas e antirracistas.
Referências
- MITTMANN, Solange. Notas do tradutor e processo tradutório: análise e reflexão sob uma perspectiva discursiva. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2003.
- OUSTINOFF, Michaël. Tradução: história, teorias e métodos. [Tradução de Marco Marcionilo] São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
- PEREIRA, Rodrigo da Rosa; CUNHA, Rubelise da. Etnia e gênero: literatura canadense (sul-asiática) e a escrita crítico-criativa de Himani Bannerji. Interfaces Brasil/Canadá. Canoas, v. 13, n. 16, 2013, p. 299-324.
Palavras-chave: tradução; literatura; cultura; escritora canadense sul-asiática; Himani Bannerji.
8 A Máquina do mundo e o jus publicum europaeum
João Guilherme Dayrell
Esta comunicação toma como objeto um exercício de literatura comparada, qual seja, traçar as origens do tópico da “Máquina do mundo” partindo da menção feita por Nuno Ramos em Junco (2011) ao poema homônimo de Carlos Drummond de Andrade, de Claro enigma (1951), além da possível relação entre Ó (2008), do escritor e artista paulista, e o sermão “Nossa senhora do O” (1640), de Padre Antônio Vieira, no qual, por sua vez, a imensa Máquina é também mencionada. Destas breves referências, passaremos pela recorrência da temática na Commedia, de Dante Alighiere e em Luís de Camões. Em diálogo direto com estudo similar de João Adolfo Hansen, a saber, “Máquina do mundo” (2018), iremos propor, por nossa vez, a colossal Máquina exibida por Tétis a Vasco da Gama no canto X d’Os lusíadas como uma das primeiras e incontornáveis materializações na cultura do que o jurista Carl Schimitt conceituou como jus publicum europaeum, uma vez que às orbes metafísicas dantescas se soma o Globo terrestre em sua totalidade enquanto dado geográfico. Nota-se que tal nomos da Terra, cujo advento se deve à conquista do mar, como coloca o jurista colaboracionista citando Hegel, possibilita, posteriormente, a Revolução Industrial que marca, por sua vez e como observamos, o início do Antropoceno, isto é: o momento no qual as ações humanas passam a interferir nos ciclos geológicos do planeta Terra (Cf. LUCIANO, 2015; CRUTZEN, 2000; LEWIS, 2015). Com isto poderemos conceituar melhor o projeto teológico-político do barroco de Vieira, especialmente a mencionada por Hansen (2003a; 2003b; 2006a) e Alcir Pécora (2008; 2014; 2019) inclusão da Lei natural pela Lei positiva (seguindo as resoluções do Concílio de Trento, que Schimitt aponta como um dos efeitos da conquista do mar), que gera práticas como a dicionarização, catalogação e tradução unívoca das línguas babélicas do gentio para efeito de contraste com a língua portuguesa maior e ideal, conforme identificou Andrea Daher (2012) – ao invés da mera declaração de guerra aos não cristãos, como era comum antes das navegações. Com isto pretendemos, basicamente, sugerir à conclusão de Hansen outro desdobramento, qual seja: a recusa do eu-lírico de Drummond não somente como frustração acerca da impossibilidade do sublime no mundo capitalista, mas como recusa ao capitalismo (ou ao Antropoceno) como atualização do sublime matizado pela Máquina e preferência ao caminhar, à errância; além de indicar, pontualmente, a importância de tal gesto ao projeto de Ramos, especialmente no que tange à proposição de outras formas de articulação entre cultura e natureza, também presente em Drummond.
Referências
- ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade. Poesia completa e prosa. Volume único. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973.
- CRUTZEN, Paul J.; Stoermer, Eugene F. The Anthropocene. IGBP Newsletter, 41, 2000.
- DANTE, Alighieri. A divina comédia. Tradução, comentários e notas de Italo Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 2009.
- DAHER, Andrea. A oralidade perdida. Ensaio de história das práticas letradas. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.
- CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Prefácio e notas: Hernâni Cidade. São Paulo: Editora Abril, 1982.
- HANSEN, João Adolfo. “A civilização pela palavra.” In: LOPES, Eliane Marta Teixeira; FILHO, Luciano Mendes Faria; VEIGA, Cynthia Greive. (Org.). 500 Anos de Educação no Brasil. 3 edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2003a.
- _____. “Anchieta: poesia em tupi e produção da alma.” In: Abdala Jr., Benjamin; Cara, Salete de Almeida. (Org.). Moderno de nascença: figurações críticas do Brasil. 1ed.São Paulo: Boitempo, 2006a, v. 1, p. 11-26.
- _____. “Esquema para Vieira”. In: ROCHA, João Cezar de Castro (org). Nenhum Brasil existe. Pequena enciclopédia. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2003b.
- _____. “Máquina do mundo”. In: Teresa. Revista de Literatura Brasileira, n. 19; p. 295-314. São Paulo, 2018.
- LUCIANO, Dana. “The inhuman anthropocene”. Publicado no blog Avidly, em 22/03/2015. Disponível em: <http://avidly.lareviewofbooks.org/2015/03/22/the-inhuman-anthropocene/>.
- LEWIS, Simon L.; Maslin, Mark A. Defining the Anthropocene. Nature, 519, 2015.
- PÉCORA, Alcir. “O bom selvagem e o boçal (argumentos de Vieira em torno à imagem do ‘índio boçal’)”. Revista Lusófona de Ciência das Religiões, v. 13/14, p. 65-76, 2008.
- _____. Teatro do sacramento. A unidade teológico-retórico-política dos Sermões de Antônio Vieira. São Paulo; Campinas: Editora da Universidade de São Paulo; Editora da Universidade de Campinas, 1994.
- _____. “Sermões: o modelo sacramental”. In: VIEIRA, Antonio. Sermões. Tomo I. PÉCORA, Alcir. (Org.). São Paulo: Hedra, 2014.
- _____. “Vieira, o índio e o corpo místico”. Acessado em Blog do MIS. https://artepensamento.com.br/item/vieira-o-indio-e-o-corpo-mistico/. Acessado em 2019.
- RAMOS, Nuno. Ó. 3º reimpressão. São Paulo: Iluminuras, 2008.
- _____. Junco. São Paulo: Iluminuras, 2011.
- SCHMITT, Carl. O nomos da Terra no direito das gentes do jus publicum europaeum. Tradução: Alexandre Franco de Sá; Bernardo Ferreira; José Maria Arruda; Pedro Hermílio Villas Bôas Castelo Branco. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC Rio, 2014.
- VIEIRA, Padre Antônio. Sermões. Tomo 1. Organização: Álcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2014.
- _____. Sermões. Tomo 2. Organização: Álcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2001.
Palavras-chave: máquina do mundo; jus publicum europaeum; antropoceno; literatura; comparatismo.
9 A voz de Sherazade: O fogo será tua casa, de Nuno Camarneiro
Gabriela Silva
A literatura é um espaço fudamental da memória, afirma Helena Buescu. No âmbito da narrativa, a memória desdobra-se das mais diferentes maneiras e apropriações. Destarte, a literatura portuguesa tem como uma de suas principais características a aproximação histórica e a construção de vozes que se constituem como fonte inesgotável de conhecimento da história portuguesa, em diferentes momentos. No entanto, a literatura portuguesa contemporânea, em casos singulares, tem se constituído pelo afastamento dos temas recorrentes da história, e procurado absorver e conviver com o mundo fora do espaço português.Nesse contexto, a literatura portuguesa pode ser ententida como integradora, numa tentativa de cosmopolitismo que seria uma de suas principais características. Em O fogo será tua casa, de Nuno Camarneiro, um escritor português em viagem ao Oriente Médio, é mantido como refém junto a outros prisioneiros. O tempo, a fome, e o medo da morte são impostos pelos sequestradores. Os sequestrados, no exercício da solidão que lhes é imputada, resgatam do próprio passado, num amálgama de existências, diversas narrativas. As vozes que se conjugam no obscuro espaço da prisão, numa dinâmica polifônica, retomam a mítica Sherazade, com suas narrativas para afastar a morte. Por conta da diversidade cultural dos prisioneiros, o ambiente da prisão e a troca de narrativas, tornam-se um entre-lugar em que o mais importante é a sobrevivência. Amplia-se o sentido humanista da literatura e a ideia da aproximação dos sujeitos através da construção narrativa. Para além das delimitações das nacionalidades dessas personagens, as narrativas configuram-se como um arcabouço de conhecimentos e formas de pensar o mundo e sua história. A partir da aproximação com os textos teóricos de Helena Carvalhão Buescu, Eduardo Lourenço, Silvina Rodrigues Lopes e outros, este trabalho procura estabelecer os elementos essenciais da narrativa de Nuno Camarneiro, enunciando as peculiaridades da polifonia que é característica de sua escrita.
Referências
- BUESCU, Helena Carvalhão. Experiência do incomum e boa vizinhança. Literatura comparada e literatura-mundo. Porto: Porto Editora: 2013.
- CAMARNEIRO, Nuno. O fogo será tua casa. Lisboa: D. Quixote, 2018.
- LOPES, Silvina Rodrigues. A legitimação da literatura. Lisboa: Cosmos, 1994.
- LOURENÇO, Eduardo. O canto do signo. Existência e literatura (1957-1993). Lisboa: Gradiva, 2017.
Palavras-chave: literatura contemporânea portuguesa; polifonia; Nuno Camarneiro; cosmopolitismo.
10 Escritas do corpo: textualidade fora da lei
Rita Terezinha Schmidt
Apesar de a violência materna constituir um fato na série histórica da cultura ocidental, tal tema foi e ainda é silenciado em termos de investigação crítico-filosófica-cultural, e permanece às margens da cultura, marcado com o estigma de tabu, como expressão de uma alteridade radical a ser reprimida e negada, mas que ronda, tal como um espectro, as normas de inteligibilidade social e cultural. A partir de considerações sobre o processo de normalização do corpo feminino como um “fato natural” e, portanto, da construção do ser mulher como efeito de uma manipulação epistêmico-discursiva pelo sistema ontológico do pensamento patriarcal, pode-se afirmar que a constituição da maternidade funciona tal como um operador ontológico que inscreve valores inegociáveis na cultura moderna. Tomando como ponto de partida a premissa de que não há referência significativa à realidade humana fora dos termos da cultura, examino alguns percursos do discurso filosófico que permitem compreender a construção da mulher como ser “natural” à luz da qual estabeleço um contraponto no romance Uma duas, de Eliane Brum. Na figura performativa da violência materna pela lente do conceito de corpo abjeto e seu poder disruptivo, argumento que o referido romance desnaturaliza normas de inteligibilidade filosófica, social e cultural do corpo feminino decorrentes de um processo de colonização patriarcal e que seu alcance político reside no fato de abrir novos caminhos de reflexão sobre os limiares indizíveis do corpo feminino bem como de resignificar a categoria do humano, sem contudo reescrevê-la no dualismo humano/animal.
Referências
- AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Trad. Vinicius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos Editora, 2012.
- BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Trad. Waltemir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
- BORDO, Susan: Unbearable weight: feminism, western culture and the body. New York: Columbria University Press, 1997.
- BRUM, Eliane.Uma/Duas. São Paulo: Texto Editores Ltda., 2011.
- BUTLER, Judith. Cuerpos que importam. Buenos Aires: Paidós, 2002.
- FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Trad. Eduardo Jardim e Roberto Machado. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2013.
- KRISTEVA, Julia. Power of horrors. Trans. Leon Roudiez. New York: Colimbia University Press, 1982.
Palavras-chave: discurso, filosofia, maternidade, corpo, abjeção.
11 Viagem e alteridade: a paisagem literária da Itália de Goethe
Renato Barros de Castro
Este trabalho aborda a construção da paisagem e da alteridade na obra Viagem à Itália (1816), de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por meio da ótica do pensador francês Michel Collot (1952-), conforme expresso em Poética e filosofia da paisagem (2013). Distinguindo-a do conceito de paisagem geográfica ou cenário estático, Collot aponta a existência de uma paisagem enigmática, intraduzível e móvel. Ela tem a alteridade como um dos seus principais elementos constitutivos, apresentando-se como uma permanente construção, onde entram em cena a surpresa e o inesperado. E ajuda a responder a indagação: é possível “traduzir” um lugar visitado? Marco da chamada “literatura de viagem”, a obra Viagem à Itália, de Goethe, constitui-se uma ambiciosa tentativa nesse sentido. Publicada em 1816, ela deixa transparecer a busca do autor por transmitir o que não se consegue por meio de palavras: seu contato com uma terra estrangeira a qual lhe havia sido apresentada apenas por meio dos livros. Para entender o percurso de Goethe, é possível recorrer à distinção dos conceitos de “paisagem geográfica” e “paisagem literária” de que trata Michel Collot (2013). Para Collot (2013), a paisagem geográfica implica desconstrução, imobilidade, enquanto a paisagem literária é móvel e está sempre em construção, surpreendendo o enunciador. – Em Goethe, esses dois tipos de paisagem entram em evidência. Se a paisagem literária surge na interseção entre um certo espaço e um certo tempo, conforme Collot (2013), e se os lugares podem ser como pessoas, como lembra Bessa-Luís (2016), é possível refletir também sobre os espaços como instrumentos para o exercício da alteridade, proporcionando uma maneira de experimentar “o si-mesmo como um outro”, móvel e cambiante como essa paisagem literária sempre em construção. No que tange às narrativas de viagem, especialmente, tal experiência se torna uma primeira etapa para a descoberta do “outro”. Ao mesmo tempo em que se descobre, o autor também contribui com a construção identitária dos locais e comunidades visitados, levando-se em conta que, conforme os preceitos de Stanley Fish e Wolfgang Iser, uma obra não é algo objetivo e independente, mas também a experiência do leitor (CULLER, 1999, p. 120). Híbrida e interdisciplinar, a narrativa de viagem envolve um exercício do autor (e do leitor) na busca pela compreensão do alheio. A percepção do outro – que começa pela percepção de si mesmo –, de seus valores e modos de ver, torna-se um importante caminho para a transformação do mundo. A literatura comparada, nesse sentido, serve de bússola a fim de concretizar tal aspiração: a Weltliteratur, como Goethe a compreendia, e cujo estudo, para Homi Bhabha (2007), equivale ao “estudo do modo pelo qual as culturas se reconhecem através de suas projeções de ‘alteridade’” (BHABHA, 2007, p. 33). Conseguir enxergar bem a si mesmo pode significar, afinal, o alcance de uma compreensão melhor sobre os outros seres humanos, abrindo espaço para uma comunicação mais efetiva entre as pessoas e, sobretudo, um convívio mais tolerante: algo essencial a todas as épocas (como aquela da Itália de Goethe), mas ainda mais urgente no mundo contemporâneo.
Referências
- BESSA-LUÍS, Agustina. Breviário do Brasil.Rio de Janeiro: Tinta-da-China, 2016.
- BHABHA, Homi K. O local da cultura.Belo Horizonte: UFMG, 2007.
- COLLOT, Michel. Poética e filosofia da paisagem. Rio de Janeiro: Ed. Oficina Raquel, 2013.
- CULLER, Jonathan. Teoria literária: uma introdução. São Paulo: Beca, 1999.
- GOETHE, Johann Wolfgang Von. Viagem à Itália. São Paulo: UNESP, 2017.
Palavras-chave: Alteridade; Viagem; Literatura Comparada; Filosofia; Paisagem.
12 Paisagens do íntimo e poéticas de internacionalização
Maria Luiza Berwanger
A configuração da obra de Clarice Lispector por Julia Kristeva em Solei noir. Dépression et mélancolie (1987), como “valor purificador”, possibilita demarcar certa cartografia do “estado de graça” , dito por esta autora brasileira , encontrando , no diálogo do crítico literário Georges Bataille com o filósofo François Jullien, uma das prováveis mediações da produção brasileira às “poéticas de internacionalização”. Articulam essa mediação imagens nomeadas como “experiência interior” por Georges Bataille e “íntimo”, “transformações silenciosas” e “viver” por François Jullien, imagens que captam sua força dinamizadora da incessante errância à Alteridade. Percebe-se que , na narratividade de Clarice Lispector, formas e figuras traduzidas por territorialidades, sujeitos, subjetividades, campos outros de saberes simbólicos e não simbólicos , uma vez postos em intersecção, produzem o efeito do inusitado, constituindo-se como figuração exemplar da “felicidade clandestina”. Buscar decifrá-la pelo ato de escrever, sob o signo da palavra compartilhada, eis a singularidade da escritura clariceana, definida por Julia Kristeva como “valor purificador”. Com base nesse caminho teórico-crítico, a presente comunicação buscará evidenciar as diferentes práticas teóricas de natureza comparatista, resultantes da relação Íntimo/Alteridade/ Internacionalização e sua eficácia para a textualidade de Clarice Lispector. Considerar essa relação como fertilidade das “poéticas de internacionalização” inova a Literatura Comparada, nela sublinhando o caráter do literário como fato literário e cultural.
Referências
- BATAILLE, Georges. L’Expérience intérieure. Paris: Gallimard, 1954.
- BESSIÈRE, Jean. Forum Jean Bessière. Site Internet, 2013.
- INSTITUTO MOREIRA SALLES. Cadernos de Literatura Brasileira. São Paulo, dez. 2004.
- KRISTEVA, Julia. Soleil noir. Dépression et mélancolie. Paris: Gallimard, 1987.
- ___. Une félicité nommé Rousseau. Le Monde, Paris, p. 7-24, 2003.
- LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
- ___. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
- ___. Laços de família: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
- ___. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Palavras-chave: Clarice Lispector; paisagem; alteridade; Literatura Comparada; internacionalização.
13 Da Arquiliteratura de Conformópolis: Cartografia literária
Tiago Radatz Kickhöfel
Frutos da pesquisa para a construção do espaço de uma obra literária, as análises apresentadas aqui versam sobre questões latentes na relação sujeito-cidade-literatura na cartografia literária de “Conformópolis”, obra que resultará na dissertação de mestrado do autor. O escopo de aproximações teóricas, críticas e práticas entre estas esferas [subjetividade, espaço e palavra] foi chamado neste projeto de arquiliterário, lugar onde se experimenta a poética da matéria urbana; onde são dadas a ver metáforas geradas pela cidade (INTERNACIONAL SITUACIONISTA, 2007); onde se reflete o jogo de alteridades na paisagem (COLLOT, 2005); onde se leem discursos urbanos deslocados de seus contextos reais para outros, simbólicos (GOLDSMITH, 2011); onde se apresenta a construção de espaços literários, do projeto à criação / à fundação / à experiência (ECO, 1985; 1994). O estudo do espaço na literatura é campo produtivo à teoria literária, sobretudo após o surgimento dos estudos comparados e dos estudos culturais, que expandiram/hibridizaram horizontes de pesquisa com questões socioculturais mais amplas. E quando a pesquisa em urbanismo passa a incluir processos subjetivos da experiência urbana em seu escopo (antropologia urbana e psicogeografia, por exemplo), transcendendo a materialidade no estudo do espaço, há um avanço significativo na reflexão do espaço na própria literatura. Uma prática que faz emergir esta relação arquiliterária é a cartografia poética, dos afetos, humores, sons: discursos urbanos que revelam/fornecem aspectos também imateriais, tão significativos para a leitura polissêmica de um espaço. A essência da cartografia, como sugerem Deleuze e Guattari (1997), é a possibilidade que ela oferece de enxergar o não visível, experimentar cenários socioculturais por meio de elementos não definidos pelos mapas habituais, abrindo o jogo cartográfico às subjetividades da realidade circundante. É comum o cartógrafo utilizar o método de errância para provocar esses exames, dado que, enquanto prática, ele permite ter a cidade como espaço de experiência, explorando-a por meio de caminhadas, como jogo de absorção e investigação da urbe e do corpo (JACQUES, 2009), tendo como força motriz o ínfimo, as sensações que passam no corpo em contato com o outro, com a cidade; como sugere Barthes (1988), experimentar a cidade como uma consciência perceptível, uma imagem formada a partir dos seus leitores, com diferentes potenciais de legibilidade. O deslocamento destes discursos para o registro cartográfico pode ser organizado por outras linguagens, sendo a literária uma delas. Esse deslocamento, na literatura, gera metáforas a partir do próprio movimento, como é o caso do processo de criação ready-made, que transfere discursos reais e geralmente banais a um registro distinto, dando-lhes outros níveis de significação a partir da nova linguagem. É o que o “Projeto para Conformópolis” busca em seu mapeamento poético: perceber as metáforas geradas neste deslocamento discursivo. Assim, o que este trabalho procura discutir e apresentar é o modo pelo qual os discursos urbanos são deslocados para uma obra literária específica através da produção de cartografias poéticas, criadas por errância e arranjadas na forma de planta-baixa psicogeográfica, engendrando o corpo-plataforma para os enredos das curtas narrativas de “Conformópolis”.
Referências
- BARTHES, R. A Aventura Semiológica. Tradução de Maria de Sta. Cruz. Lisboa, ed. 70, 1987.
- COLLOT, M. Paysage et poésie: du romantisme à nos jours. Paris: José Corti, 2005.
- DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: Capitalismo e Esquizofrenia (Vols. 1-4). São Paulo, SP, Editora 34. 1997.
- ECO, U. Pós-escritos a “O nome da Rosa”. Editora Nova Fronteira, 1985.
- ________. Seis passeios pelos bosques da ficção. Companhia das letras, 1994.
- GENETTE, G. Espaço e linguagem. São Paulo, Perspectiva, 1972.
- GOLDSMITH, K. Uncreative writing: managing language in the digital age. Columbia University Press, 2011.
- INTERNACIONAL SITUACIONISTA. Deriva, psicogeografia e urbanismo totalitário. Erahsto Felício (org.). Porto Alegre, Deriva, 2007.
- JACQUES, P. Corpografias urbanas: a memória da cidade no corpo. In: VELLOSO, M, ROUCHOU J. e OLIVEIRA. Corpo: identidades, memórias e subjetividades. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009.
Palavras-chave: Cartografia; Cidade; Subjetividade; Psicogeografia; Produção literária.
14 Poéticas à deriva em Berkeley em Bellagio e Lorde, de João Gilberto Noll
Kim Amaral Bueno
Tropo recorrente na ficção moderna, a “viagem” reverbera, no contemporâneo, uma espécie de poética do desterro, como se verifica na obra de João Gilberto Noll. Importante autor gaúcho falecido em março de 2017, Noll publicou ao longo das últimas três décadas uma série de romances e contos nos quais figuram personagens marginais, sujeitos que acolhem o trânsito e a deriva como tônicas de suas existências, problematizando constantemente as noções de pertencimento e de fronteira, adequando-se, assim, às discussões sugeridas pelo eixo “Cosmopolotismos e cartografias pós-coloniais”, deste VIII Colóquio Sul de Literatura Comparada. O corpus de análise deste trabalho é constituído pelos romances Berkeley em Bellagio (2002) e Lorde (2004). Tais romances foram produzidos a partir de experiências do escritor advindas da realidade factual, isto é, de duas viagens suas como intelectual convidado por universidades nos Estados Unidos e na Inglaterra, respectivamente. São narrativas nas quais figuram narradores-protagonistas que partem da periferia do sistema global para o seu núcleo, carregando não apenas epistemologias que se confrontam com os sistemas hegemônicos de conhecimento, mas também com sensibilidades díspares para ver, ouvir, falar, perceber, enfim, o outro e a si mesmo. Partindo dos pressupostos apontados por Silviano Santiago (2004) em sua célebre conferência “Uma literatura anfíbia”, associados à ideia de uma forma de leitura dissonante e amplificadora semelhante àquela inspirada pelos atlas, conforme teoriza Didi-Huberman (2013), lê-se esses dois romances de Noll pelos seus “fios menos visíveis que tecem migrações culturais” constituindo um “conhecimento nômade, desterritorializado, que nos convida a impureza fundamental das imagens” (Didi-Huberman, 2013, p.25).
Referências
- DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou a gaia ciência inquieta: o olho da história, 3. Trad. Renata Correia Botelho e Rui Pires Cabral. Lisboa: KKYM/EAUM, 2013.
- NOLL, João Gilberto. Berkeley em Bellagio. São Paulo: Objetiva, 2002.
- NOLL, João Gilberto. Lorde. Rio de Janeiro: Record, 2014.
- SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004.
Palavras-chave: João Gilberto Noll; Literatura contemporânea; Literatura comparada; Deslocamentos; Fronteiras.
15 “Como uma onda no mar” – ética e criação literária através da poesia
Gisela Rodriguez
Como uma onda no mar é um texto produzido durante os estudos na disciplina Ética e Criação Literária I, na PUCRS, que mescla poesia e filosofia. Nesse trabalho, o estilo ficcional de Dante Alighieri surge como o fio condutor de uma narrativa sobre os tópicos estudados nas aulas de filosofia, no Programa de Pós-Graduação em Letras. O texto é dividido em seis momentos: 1º- o Prólogo, que introduz o leitor no “pensar sobre a linguagem”; 2º- o Exílio, que ressalta a solidão inerente à criação literária; 3º- a Realidade, que mostra as vicissitudes do oficio do escritor; 4º- o Livro, que fala dos processos criativos e da ética na escritura; 5º- a Alteridade, que aborda a importância do “outro” e a dialética e interdependência na produção artística; 6º- a Despedida, no qual a autora comenta sobre o desapego da autoria, mostrando que o livro não pertence a ela e sim ao mundo. A criação dos versos segue o padrão das obras poéticas de Dante, mas o conteúdo discorre sobre as aulas ministradas pelo filósofo e professor Ricardo Timm de Souza. A linguagem, nesse caso, é um mecanismo para envolver o leitor numa narrativa inusitada, por trazer a referência de uma obra clássica, e ao mesmo tempo, a reflexão sobre as concepções contemporâneas de alteridade, autoria e ética na literatura. Um dos aspectos mais importantes dessa experimentação, que resultou no texto Como uma onda no mar, pode ser identificado como um argumento para o repensar a questão da autoria, segundo Roland Barthes, e seguir para o caminho do descentramento das noções tradicionais de nação e fronteira dentro da criação literária. A apropriação de uma obra de maneira a revisitar uma época e um estilo, em concomitância com um pensamento da atualidade, reivindicando possibilidades de criações textuais permeadas pela contaminação e disseminação da escrita, em tempos digitais e globalizados.
Referências
- ALIGHIERI, Dante. Divina comédia (1º volume). São Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1964.
- ______. Divina comédia. (2º volume). São Paulo: W. M. Jackson Inc. Editores, 1964.
- BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
- SOUSA, Ricardo Timm. Ética do escrever (Kafka, Derrida e a literatura como crítica da violência). Porto Alegre: ZOUK, 2018.
Palavras-chave: poesia; escrita criativa; filosofia; processos criativos; apropriação.
16 Redescobrindo a humanidade: uma análise fílmica de Distrito
Marlova Soares Mello
A identidade cultural de um lugar é mantida dentro dos objetivos de seus cidadãos. Quando uma população estrangeira com intenções misteriosas é introduzida, há um período de grande inquietação. Dúvidas e medos crescem cada vez mais fortes à medida que os indivíduos enfrentam suas preconcepções e seus preconceitos. Distrito 9, do diretor sul-africano Neil Blomkamp aborda exatamente esse fenômeno. Uma nave alienígena sobrevoa Johannesburg trazendo em seu interior uma população doente e faminta que encontra refúgio em campos do governo montados no centro da cidade. Vinte anos depois, sobrevivendo com uma dieta de carne crua e comida de gato, os estrangeiros se transformam em uma sociedade animalesca e os moradores locais passam a exigir sua relocação. Como argumenta Michel Foucault em História da sexualidade, o racismo é predominantemente uma tecnologia que autoriza a implementação do biopoder como estratégia de governo. Dessa forma, a vida, em seu sentido pleno, não representa mais um lugar acessível para esses seres estranhos, e os humanos surgem como os seres soberanos capazes de conhecer, organizar e controlar a existência de todos. Este é o cenário onde está inserido Wikus Van De Merwe um dos protagonistas mais improváveis que o cinema já produziu. É na figura dessa personagem que o encontro com a diferença ocorre em sua forma mais profunda, uma vez que ele percebe estar se convertendo fisicamente em um extraterrestre. Contudo, o que essa transformação significa? Em um certo sentido, é uma queda para a morte, a partir do apodrecimento do corpo (dentes, unhas e a pele branca caem, e grandes escamas negras surgem).É o apodrecimento do corpo humano em detrimento do corpo alien que surge como um sopro de esperança em uma nova forma de relacionamento com os estrangeiros. Esse novo ser híbrido e improvável vai experimentar o outro lado da realidade e somente assim, ao deixar de ser “homem”, será possível redescobrir sua humanidade.
Referências
- DISTRITO 9, Direção Neill Blomkamp. QED International WingNut Films. Nova Zelândia/África do Sul. 2009. 112 min.
- FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
Palavras-chave: humano; híbrido; cinema; transformação; racismo.
17 Contar para deslocar: espacialidades do lirismo crítico entre a poesia brasileira contemporânea e a literatura coreana
Douglas Rosa da Silva, Melissa Rubio dos Santos
O presente trabalho tem como objetivo traçar um estudo comparado entre a literatura brasileira e a literatura coreana a partir do traço convergente de construção de espaço simbólico através do olhar das narradoras e do sujeito lírico, sendo este um elemento de destaque na poética de Marília Garcia e Park Wan Seo. É na engrenagem da produção lírica que os artefatos da paisagem transmutam os espaços de significação estético-cultural. A observação lenta do sujeito lírico e as imagens poéticas que constituem algumas das obras literárias na contemporaneidade focam nos fragmentos que têm como função o deslocamento – o contar para deslocar. Considerando que o espaço, para Doreen Massey (2008), dispensa a unidade e o que é definitivo, este trabalho explora as relações que são construídas tanto no espaço quanto na paisagem, encarando-as como imagens poético-espaciais que são da ordem da multiplicidade, da possibilidade da diferença. O corpus de estudo deste trabalho é composto pelas obras da poeta Marília Garcia e do livro In the realm of Budha da escritora sul-coreana Park Wan Seo. O contexto da obra da poeta brasileira destaca o ruído de fundo, também caracterizado como aquilo que é habitual, que pode ser descrito e aprofundado como uma experiência do infra-ordinário. Nas obras de Garcia, em especial em Câmera Lenta (2017) e 20 poemas para seu walkman (2006) as cartografias construídas pelo sujeito lírico aprofundam as instabilidades do deslocamento, em uma tentativa de descrever a experiência do sujeito mulher em relação a tudo que é e está público, exposto. Por outro lado, a narrativa de Park é tecida a partir de fatos do cotidiano de mulheres que parecem, a princípio, estarem totalmente distantes de relatos históricos do período traumático da Guerra da Coreia, mas este tipo de temática é introduzida como um deslize na construção crítica e poética. Na maioria desses relatos, essas narrativas revelam traumas do período da guerra e do pós-guerra. Com isso, destaca-se que as experiências fugidias instaladas na paisagem, os traumas averbados nas imagens e os transportes poéticos que desterritorializam os espaços aproximam a poeta brasileira e autora sul-coreana. Para pensar os encontros e os desencontros da experiência brasileira e da experiência sul-coreana, se utiliza dos aportes teóricos fornecidos por discussões recentes na Literatura Comparada, tais como as discussões encontradas em Michel Collot (2008), George Steiner (2012) e Jullien François (2013). Encontra-se, em ambas as autoras, a progressão de um lirismo crítico que coloca em perspectiva corpos-corpus em trânsito, de modo a evidenciar que a busca por novas políticas da espacialidade devem ser calcadas no aprofundamento das alteridades, no partilhar para deslocar, no cartografar para corromper.
Referências
- COLLOT, Michel. Poética e Filosofia da Paisagem. (trad: Ida Alves e Maria Luiza Berwanger). RJ: Oficina Raquel, 2013.
- FRANÇOIS, Jullien. As Transformações Silenciosas (trad Maria Luiza Berwanger) Porto Alegre: Paiol, 2013.
- GARCIA, Marília. Câmera lenta. São Paulo: Companhia das Letras. 2017.
- GARCIA, Marília. 20 poemas para seu walkman. São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.
- MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. 312 p.
- PEREC, Georges (2015). L’infra-ordinaire. Paris: Le Seuil.
- STEINER, George. A Poesia do pensamento (trad: Miguel S Pereira). Lisboa: 2012.
Palavras-Chave: espaços simbólicos; novas políticas da espacialidade; imagem poética; poesia brasileira contemporânea; literatura coreana.
18 As facetas da melancolia na canção In Darkness Let Me Dwell, de John Dowland, e sua ressignificação na ecologia cultural atual
João Alexandre Straub Gomes, Werner Ewald, Marcelo Barros de Borba
Na contemporaneidade, diversos grupos e artistas debruçam-se sobre o repertório da música antiga, propondo releituras, gravações e performances adaptadas a novos contextos. No processo de atualização, o repertório revela um potencial cosmopolita, ao se estender no tempo, compondo a ecologia cultural atual. Um dos compositores mais retomados na atualidade é o inglês John Dowland (1563-1626), regravado por artistas contemporâneos, entre os quais o cantor e compositor Sting. Tal apropriação revela espaços múltiplos de significação estético-cultural explorados desde o contexto de origem. Nessa perspectiva, o presente trabalho investiga a intertextualidade entre música e poesia, por meio da análise da canção “In Darkness Let Me Dwell”, de John Dowland. Inserida na publicação A Musicall Banquet (1610), a peça utiliza como material literário um excerto de um conjunto de poemas intitulado Funeral Teares (1606), do poeta inglês John Coprario. John Cooper ou Coperario ou Coprario (1570-1626) foi poeta e músico, servindo à corte inglesa como compositor, alaudista e gambista, de 1605 até sua morte em 1626. A publicação de Coprario celebra a morte do conde de Devonshire e contém canções de temática especialmente fúnebre e de luto. Porém, “In Darkness Let Me Dwell” também pode ser considerado um exemplo clássico de poesia melancólica. Dowland foi um compositor que se interessou muito pelo tema da melancolia, sendo um dos expoentes mais representativos na música elizabetana (HURVITZ, 1996: 47). Ao analisar o conteúdo temático da canção, a forma de versificação poética e a forma de expressão musical, nota-se que Dowland utiliza diferentes recursos técnicos para proporcionar uma interação fluida e orgânica entre os elementos textuais, melódicos e rítmico. Além de atribuir uma melodia ao poema, Dowland realiza interferências no próprio texto. Dowland também estabeleceu parcerias artísticas com outros poetas deste gênero como, por exemplo, Henry Lee. Estando em contato com artistas dotados de habilidades no trato das palavras, Dowland acabou sofrendo influência na sua maneira particular de criação. E essa intimidade também permitiu que o compositor manipulasse deliberadamente textos que não fossem de sua autoria, inclusive alterando a configuração de versos específicos, para intensificar determinados afetos. Tal procedimento pode ser interpretado como uma transcriação, segundo propõe Haroldo de Campus, na medida em que recria os versos na canção. Em Coprario, o poema contém duas estrofes, porém Dowland faz uso apenas da primeira na sua versão da peça, evidenciando mutações das formas estéticas já no contexto renascentista. O conteúdo temático da melancolia pode ser absorvido na leitura apenas da primeira estrofe. O resultado dessa elaboração e criatividade de manipulação dos materiais textuais e musicais culmina em uma canção com qualidades poéticas de comunicação afetiva, com simbolismos e jogos de duplo sentido” (ROOLEY, 2006: 450). Na análise, conta-se ainda com algumas referências específicas que dão suporte para o entendimento de parâmetros e convenções correntes nas artes e literatura do período renascentista inglês. Entre eles, Gerge Puttenham, Samuel Daniel e Thomas Campion com seus tratados sobre a poesia inglesa. Para a temática da melancolia, a principal referência é a Anatomia da Melancolia de Robert Burton (1621), na tradução de Guilherme Gontijo Flores.
Referências
- BURTON, Robert. (1621). Anatomia da Melancolia: vollume I / Tradução Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2011a. 266p.
- ________________. (1621). Anatomia da Melancolia: volume II: A Primeira Partição: Causas da Melancolia / Tradução Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2011b. 535p.
- ________________. (1621). Anatomia da Melancolia: volume III: A segunda Partição: A Cura da Melancolia / Tradução Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2012. 453p.
- ________________. (1621). Anatomia da Melancolia: volume IV: A Terceira Partição: Melancolia Amorosa / Tradução Guilherme Gontijo Flores. Curitiba: Ed. UFPR, 2013. 872p.
- CAMPION, Thomas. (1602). Observations in the Art of English Poesie. Oregon: Renaissansse Editions, 1998.
- CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013.
- COPRARIO, John. Funeal Tears. London,1606.
- DANIEL, Samuel. (1603). A Defence of Rhyme. Oregon: Renascence Editions, 1998.
- DOWLAND, John. A Musicall Banquet. London 1610.
- HURVITZ, Nathaniel Joseph. A Flood of Tears: Melancholy as Style in English Music and Poetry circa 1600. 167f. Dissertação (Master of Arts) School of Music, The University of British Columbia, Canadá, 1996.
- PUTTENHAM, George (1589). The Arte of English Poesie. Birmigham: English Reprints, 1869. 339p.
Palavras-chave: Melancolia; John Dowland; John Coprario; Transcriação; Música e Literatura.
19 O olhar oitocentista e a pintura de paisagem de Caron: notas para uma poética da relação
Ana Carla de Brito
Para esta comunicação abordamos a pintura de paisagem de Hipólito Boaventura Caron (1862-1892) no que tange à sua percepção dos ambientes que ele representava em diálogo com o pensamento de Michel Collot (2013) quanto à paisagem literária. Caron foi um artista brasileiro atuante entre 1882 e 1892, e é conhecido principalmente por ter participado do Grupo Grimm – a agremiação de artistas cuja característica mais celebrada por críticos de sua época era o fato de pintarem ao ar livre. Dos dez anos de atuação de Caron, cerca de três anos foram passados com Grimm, e o tempo restante se dividiu entre uma temporada na França (1885-1888) estudando com Hector Hanoteau, e os anos no Brasil (1888-1892), passados em sua maior parte na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais.
Tendo começado seu aprendizado na Academia Imperial de Belas Artes (AIBA), Caron foi um dos artistas que continuou a formação fora da instituição e foi identificado, junto a outros de seus colegas do Grupo Grimm, como uma promessa de renovação da arte brasileira do Oitocentos, justamente pela prioridade que alguns intelectuais conferiam à pintura de paisagem nesse projeto. Esses intelectuais correspondiam aos articulistas de periódicos que exerciam a crítica às exposições de arte da época, tais como Gonzaga Duque, Raul Pompeia, Oscar Guanabarino e Artur Azevedo, entre outros. Sabe-se que alguns deles eram também ficcionistas e que tinham acesso tanto a literatura estrangeira, quanto à crítica de arte europeia. Através das ideias desenvolvidas por Collot em Poética e filosofia da paisagem (2013) em que constrói uma noção de paisagem ancorada no olhar como relação entre um sujeito, a linguagem e o referente, procuramos lançar os fundamentos para pensar a incidência das concepções de paisagem na literatura sobre a percepção de Caron ao longo de sua carreira. Entendendo a incidência da crítica como o esboroamento tanto de fronteiras textuais (entre a crítica de arte e a literatura) quanto de fronteiras interartísticas (entre a literatura e a pintura). A percepção do espaço por Caron é pensada através de suas próprias pinturas, considerando o contexto em que ele estava inserido e pensando a adesão do artista aos modos de olhar de seus pares e de seus críticos. Questionamos as assertivas da crítica da época em relação à correspondência entre referente e representação sem mediação de modelos, valendo-nos das reflexões de Coccia (2010) segundo o qual a percepção seria sempre impura, sempre intermediada pelas imagens que temos como referência, e, ao mesmo tempo, de Collot (2013), para quem “a percepção já é uma forma de linguagem” (2013, p. 58). Por fim, procuramos averiguar através das obras de Caron a trajetória de um olhar que se altera, em parte por alterarem-se os elementos da relação constituinte do olhar, em parte, por sua busca por outras maneiras de figurar o ambiente circundante que poderia se aproximar mais de uma recriação da paisagem, do que, propriamente, de sua representação.
Referências
- COCCIA, E. A vida sensível. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2010.
- COLLOT, M. Poética e Filosofia da Paisagem. (trad: Ida Alves e Maria Luiza Berwanger). RJ: Oficina Raquel, 2013.
Palavras-chave: Hipólito Caron; pintura de paisagem; paisagem literária; Michel Collot; percepção.
20 A música em e a partir de As intermitências da morte, de José Saramago
Cinara Ferreira, Carlos Walter Soares
Em um primeiro momento, este estudo propõe a análise das relações entre música e literatura em As intermitências da morte (2005), de José Saramago, a fim de verificar em que medida e de que forma elementos musicais aparecem na composição da escrita. Para tal, serão levados em conta os aspectos da complementaridade, intertextualidade e imitação da retórica musical, bem como os aspectos apontados por Saramago em relação à musicalidade de sua prosa. Marcada pelo caráter evocativo e intertextual, As intermitências da morte é provavelmente o romance mais musical do autor português, que escolhe, entre outras peças, a 9.ª Sinfonia de Beethoven para mostrar a capacidade que a música tem de comover e humanizar até a própria morte, transfigurada numa Donzela, que se apaixona por um violoncelista. Saramago coloca em cena um repertório musical caracterizado também pela evocação (tanto musical quanto literária), produzindo um movimento espiralar entre obras artísticas, que retomam outras sugerindo novas configurações e novos sentidos. O repertório musical oriundo dos movimentos do Barroco, do Clássico Tardio e do Romantismo tem o papel de integrar as forças contraditórias do presente, que geram a crise no país em que não se morre mais. Como observa Miguel Wisnik, o som do mundo é ruído, o mundo se apresenta a nós a todo o momento através de frequências sonoras irregulares e caóticas com as quais a música trabalha para extrair-lhes uma ordenação, que contém também margens de instabilidade, com certos padrões sonoros interferindo sobre outros (1989, p. 33). Observa-se, portanto, uma similaridade entre música e literatura, no que tange a uma estética que nasce do jogo entre o som e o ruído produzidos no mundo contemporâneo. Em um momento posterior à análise, visando retroalimentar as relações entre música e literatura evidentes em As intermitências da morte e contribuir para mais uma camada no processo em que uma arte complementa a outra, ressignificando-a, este trabalho apresenta um conjunto de canções inspiradas no romance e nos elementos musicais presentes na narrativa, assim como a reflexão sobre o processo criativo envolvido no trabalho de transposição em um novo contexto. Para tal, são compostas canções representativas das diferentes partes do enredo, transpondo letra e melodia o conflito entre Vida e Morte e a ideia de integração da morte na vida, entendida como uma das chaves de leitura do romance de José Saramago.
Referências
- OJEDA, Esther Lopez. Literatura y música. BROCAR: cuadernos de investigación histórica, Rioja, v. 37, p. 121-143, 2013.
- OLIVEIRA, Solange Ribeiro. Introdução à melopoética: a música na literatura brasileira. In: OLIVEIRA, Solange Ribeito et al. Literatura e música. São Paulo: Editora Senac e Instituto Itaú Cultural, 2003.
- SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
- SARAMAGO, José. Cadernos de Lanzarote. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- SQUEFF, Enio. Música e literatura: entre o som da letra e a letra do som. Literatura e sociedade, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 139-148, 1997.
- VALENTE, Tânia. Saramago e a música: breve análise da obra As intermitências da morte. Glosas:Revista de Música, Lisboa, s.d.
- WISNIK, José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Palavras-chave: As intermitências da morte; José Saramago; Música e literatura; Interartes; Intertextualidade.
21 Das Letras à Geografia, a possibilidade de uma fusão
Cristiane Marques Machado, Maria Luiza Berwanger da Silva
A ideia de se lançar a refletir sobre as relações entre Espaço e Literatura Comparada revela-se tanto fascinante quanto desafiador: nem sempre é confortável adentrar territórios dos quais não se é especialista, como é o meu caso no que se refere à Geografia. Entretanto, àquele que empreende um caminho pela Literatura Comparada, a atração por territórios alheios parece inerente. Quanto mais o comparatista não domina uma língua, mais atraentes lhe soam os sotaques daqueles que a falam. Quanto mais estranhas as abordagens de determinadas disciplinas, mais ele as projeta ao quadrado, ao cubo, em suas análises. Exponencialmente, nem o céu – nem a milésima potência – é o limite para um comparatista. É como se a solução de um problema que busca resolver estivesse sempre contida não no livro em que a procurava, mas naqueles que estavam ao lado, sobrepostos. Em função disso, é possível vislumbrar a Literatura Comparada como uma disciplina que consome espaços. Audacioso, o comparatista é aquele que atravessa fronteiras tanto de campos elísios quanto de campos minados. Frestas, desvios, cantos, paragens, horizontes, paisagens, tudo isso o atrai. Por se comportar como um exilado, sua condição de estrangeiro lhe possibilita uma visão mais original, descontínua e plural dos objetos que estuda. Tal qual um aduaneiro das letras, uma sorte de supervisor da circulação das ideias e das formas, o comparatista é o sujeito que controla os agentes intermediários e as modalidades de trocas. Diante de uma fronteira, não almeja outra coisa a não ser atravessá-la. E, por ser porosa e permeável, a fronteira comparatista é o lugar por excelência destinado a trocas e transações que favorecem o transnacional. E é justamente nesse sentido que, neste trabalho, vislumbramos nas relações entre a Literatura Comparada e o Espaço, a possibilidade de uma fusão entre o pensamento de geógrafos e os estudiosos das Letras, em favor da disciplina Geografia Literária, proposta por Michel Collot, em Pour une Géographie Littéraire (2014).
Referências
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- WHITE, K. Le Plateau de l’Albatros: Introduction à la géopoétique. Paris: Grasset, 1994.
Palavras-chave: Geografia literária; espaço; paisagem; Geografia; Literatura Comparada.
22 Migraaaantes e o cerceamento de todas as cercas ou O devir-minoritário de Matei Visniec frente à democracia assustada
Diego Lock Farina
Ao referir-se que a questão do novo século será a dos refugiados, Giorgio Agamben incita-nos a atualizar o problema espinozista sobre o que pode um corpo. Corpo do qualunque, comunidade que vem (AGAMBEM, 2013), povo que falta (DELEUZE, 2011) ou mesmo, simplesmente, ce qui arrive (DERRIDA, 2012): como aproximar-se desse bloco assimétrico de austeridade, de cidadania em crise, e de resistências paradoxalmente solidárias (Pia Klemp, Carola Rackete) com o qual a Europa tem recebido suas atuais levas de migrantes? O tráfico internacional de pessoas, a promessa do Eldorado capitalista, as precárias embarcações, os menores afogados, os campos, o ódio, a exploração, o contraste das culturas, das violências, das religiões, o uso negocista do politicamente correto e a xenofobia das extremas-direitas ressurgentes com o propósito delirante da limpeza étnica, como cartografá-las em pleno século da radical tecnologização, reificação e virtualização das vidas? O que pode a arte à medida que atravessa tais desterritorializações rumo ao que Matei Visniec (2017) aponta como a revolução deste século, o humanismo migratório? Pode a arte narrar as inauditas possibilidades de existências que ficaram à deriva? Certamente, o teatro modular de Visniec, dramaturgo e jornalista romeno erradicado na França, diz muito a esse respeito. Migraaaantes ou Tem Gente Demais Nessa Merda de Barco ou O Salão das Cercas e Muros, estreada nos palcos em 2016, é uma peça arrebatadora, polêmica e visceralmente poética, que, ao denunciar a perversidade maquínica concernente à migração contemporânea, sem abdicar de estratégias que exploram os limiares do humor, aborda a incapacidade ou a falta de vontade das políticas institucionais para resolver um problema de dimensão tão grave e proliferante. Tal drama político polifônico, que oscila entre um realismo não demagogo/propagandista e um ambiente onírico/simbólico, reúne episódios fragmentados do cotidiano de quem migra e de quem recebe, trazendo em sua singular montagem, mosaica e descontínua, também uma intensa crítica aos meios de comunicação (de poder, de controle) que emolduram a Imagem, de maneira sempre seletiva, desses corpos-sem-rostos que desdobram-se. Os apátridas, os nômades, a ameaça ao conforto do nós, do consenso: são sujeitos larvares, como diz Deleuze (2000). A crueldade em Visniec ressoa Artaud; a estética insólita, Ionesco; a intimidade do absurdo, Beckett; mas seu estilo se distingue desses autores (todos viveram sob deslocamentos artísticos, linguísticos, territoriais) devido a seu intento materialmente engajado de transformação na emergência:migraaaantes, esse grito de pavor de uma democracia assustada ou o grito de socorro dos de-fora, dos sem-parte, convida-nos a um novo devir-minoritário, a uma nova ética afectiva, a uma outra partilha que ainda não se sabe qual é. Este trabalho, portanto, visa explorar os meandros da peça em destaque em diálogo crítico com as teorias estéticas, políticas e filosóficas citadas, cujo agenciamento com a questão doscorpos-migraaaantes torna-se notório. Ante a repulsa dos próprios, busquemos, na literatura menor, a criação das novas formas de doação, de hospitalidade e sobretudo de empatia para com aqueles que hoje arriscam a sorte e a vida ao movimento desejante ou pervivente de transladar.
Referências
- AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Tradução de Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
- DELEUZE, Gilles. A literatura e a vida. In: Crítica e clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 2011.
- ________. Diferença e repetição. Tradução de Luiz B. L Orlandi e Roberto Machado. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000.
- DERRIDA, Jacques. Uma certa possibilidade impossível de dizer o acontecimento. In: Acontecimento e experiências limites. Tradução de Piero Eyben. Brasília: Cerrados (UNB), n°33, ano 21, 2012, p. 231-251.
- ________. Jacques Derrida, penseur de l’événement. Entretien par Jérôme-Alexandre Nielsberg. Paris: L’humanité – 28 janvier, 2004.
- DERRIDA, Jacques; FERRARIS, Maurizio. El gusto del secreto. Traducción de Luciano Padilla López. Buenos Aires: Amorrortu, 2009.
- RANCIÈRE, Jacques. Se o irrepresentável existe. In: O destino das imagens. Tradução de Mônica Costa Netto. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
- ________. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2009.
- SAUVAGNARGUES, Anne. Deleuze et l’art. Paris: PUF, 2006.
- VISNIEC, Matei. Migraaaants, ou, On est trop nombreux sur ce putain de bateau, ou, Le salon de la clôture. Paris: L’Œil du Prince, 2017.
Palavras-chave: Matei Visniec; Migraaaantes; Refugiados; Devir-minoritário; Corpos.
23 Em busca de personagens invisíveis: fragmentos de cartografia
Gabriela Semensato Ferreira
Um corpo não é um todo uno, nem passível de ser totalmente decifrado, desvendando. Segundo Judith Butler (2015), o corpo singular a que se refere uma narrativa envolve uma opacidade necessária ao nosso entendimento de nós mesmos. Parte dessa opacidade, em trabalhos como Gotham Handbook (1999/2007), colaboração entre Sophie Calle e Paul Auster, deve-se às articulações criadas entre sua forma e seu pensamento. Obras como essa conectam, em um mesmo espaço, elementos diferentes que formam um corpo híbrido, verbovisual, e que, ao mesmo tempo, se pensa constantemente, pensa sobre seu próprio fazer, e também sobre aquele que o faz, o artista. Proponho, por isso, uma leitura dessa obra, com o objetivo de expor as operações imagético-verbais envolvidas em sua constituição e da cartografia que acaba por criar, em sua relação com a cidade. A leitura desse corpo/corpusmotivou uma pesquisa de Doutorado Sanduíche, em 2017, que proporcionou a experiência de caminhar por algumas cidades, entre elas Nova York, em busca de objetos identificados no trabalho de Sophie e Auster. A partir dos textos lidos, segui os passos de alguns de seus personagens pelas ruas da metrópole, buscando marcas – ao mesmo tempo visíveis e invisíveis – de sua existência. Por algum tempo, pude habitar alguns dos espaços encenados nesses trabalhos, procurar quadros perdidos, molduras vazias, cabines telefônicas pichadas. Esses deslocamentos se deram tanto a partir de “mapas” (descritos, desenhados, fotografados; mapas poéticos ou conceituais), quanto a partir do desejo de descoberta. Geraram também textos/imagens pessoais, feitos de reflexão e memória, espécies de suplemento cartográfico ao projeto desenvolvido pelos artistas. Assim, entramos em colaboração (por via indireta), através desses olhares sobre o espaço, o que resulta na criação de uma escrita-imagem em que se procura refletir, também, sobre as relações entre as artes e sobre a possibilidade de a própria arte/escrita refletirem, em si, (sobre) esses fazeres. O foco desta comunicação, portanto, será apresentar estes fragmentos de cartografia, à medida em que se descrevem as operações envolvidas em sua criação, entre as quais se destaca em especial a operação de articulação. Além das articulações entre linguagens artísticas e discursos (ficcionais, teóricos e críticos, por exemplo), importa aqui discutir uma articulação conceitual, como a descrita por Jacques Derrida em Disseminação (1981). Ela não permite chegar a uma solução especulativa entre dois “opostos”, mas instaura uma espécie de crise do versus. Além disso, mostra como é preciso “pôr as mãos no objeto” para entrar no jogo, como diz Derrida (2005, p. 7). Isto é, envolver-se, pôr algo de si.Rejeito, com Derrida, por isso, uma ideia de neutralidade da crítica e passo a refletir sobre esse lugar de junção e disjunção, de contato e articulação; nem separação completa, nem total indiferenciação. Caminhar por aí, para escrever, e escrever para caminhar foram, portanto, atos necessários, pois fizeram parte do método empregado nesta pesquisa. Sobretudo, não falar das misturas, articulações e disjunções observadas a partir de um “fora” ilusório, mas utilizar-se justamente dessas operações, dos desvios, cortes, saltos e próteses necessários, na própria investigação.
Referências
- AUSTER, Paul. The New York Trilogy. London: Faber and Faber Limited, 2004.
- BUTLER, Judith. Relatar a si mesmo. Crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
- CALLE, Sophie. Gotham Handbook. In: Double Game. 1o publicação 1999. England: Violette Editions, 2007.
- DERRIDA, Jacques. Dissemination. Translated, with introduction and additional notes, by Barbara Johnson. Chicago: The University of Chicago Press, 1981.
- ______.A farmácia de Platão. Tradução Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005.
Palavras-chave: articulação; corpo; movimento; cartografia; suplemento.
24 A estranha poesia das mulheres: corpos, vozes, performances
Rita Lenira de Freitas Bittencourt
A condição do poético impõe um compartilhar da sonoridade com a música e a encenação da linguagem com a performance, e mesmo com toda a tradição livresca, que incluiu a bidimensionalidade da página e os aspectos visuais da escrita, esses elementos continuaram ativos na literatura, especialmente em relação às formas da poesia popular e/ou, mais recentemente, da poesia dita marginal ou praticada por grupos minoritários. Na cena brasileira contemporânea, na esteira de poetas-narradoras ou poetas-cantadoras diversas, como Hilda Hilst, Cecília Meireles ou Cora Coralina, as jovens poetas retomam com muita ênfase as “inespecificidades” do dizer (Garramuño, 2014) e se jogam outra vez para fora das convenções, incorporando, literalmente, na palavra, o orgânico, o político, as condições específicas de gênero, raça e/ou classe, em busca de singularidades identitárias, por um lado, e em rota de fuga de lugares consolidados de certas dicções, por outro (Butler, 2016). Em suas produções, muito afinadas com o uso dos corpos e das vozes, elas exploram os limites estéticos e anestéticos (Benjamin, 1994) da arte, especialmente em obras de caráter coletivo, como, por exemplo, as antologias Blasfêmeas. Mulheres de Palavra (2016) ou Querem nos calar. Poemas para serem lidos em voz alta (2019). São produções que, pela multiplicidade e densidade, apresentam, ao mesmo tempo, uma “dificuldade de leitura” (Agamben, 2018), funcionam com uma força de “explosão” (Hollanda, 2018), atuam como dispositivos (Agamben, 2010) e fazem a poesia conformar e confirmar um acontecimento (Deleuze, 1992; Foucault, 1996). A condição de “estranho” aplicada a esses trabalhos, para além de um mero jogo formalista, decorre da constatação de que, nesses lugares, as práticas teóricas e poéticas da literatura se tornam performances, transbordam através de um dizer-fazer plástico e orgânico, dão a ver corpos/corpus em trânsito que são deliberadamente exibidos e priorizam a errância, a voz e uma autoencenação exploradora de artifícios.
Referências
- AGAMBEN, Giorgio. O fogo e o relato. Ensaio sobre criação, escrita, arte e livros.Trad.Andrea Saturbano e Patricia Peterle. São Paulo: Boitempo, 2018.
- O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2010.
- BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
- DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972/1990. Tradução Peter Pál Pelbart. Rio de Janeiro: 34, 1992.
- DUARTE, Mel (Org.). Querem nos calar. Poemas para serem lidos em voz alta. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019.
- FONSECA, Cristina. A poesia do acaso (na transversal da cidade). São Paulo: Queiroz, 1981.
- FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996.
- GARRAMUÑO, Florência. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea.Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
- HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explosão Feminista. Arte, curtura, política e universidade.São Paulo:Companhia das Letras, 2018.
- KUBOTA, Marília e BITTENCOURT, Rita L. de Freitas (Orgs.). Blasfêmeas. Mulheres de Palavra. Porto Alegre: Casa Verde, 2016.
- VITROLIRA, Luna. Aquenda. O amor às vezes é isso. São Paulo: V. de Moura Mendonça – Livros, 2018.
Palavras-chave: poesia; mulheres; corpo; voz; performance.
25 A traição da carta: o mal contado e o permeável
Israel Augusto Moraes de Castro Fritsch
O romance Dom Casmurro de Machado de Assis serve de parâmetro para explicar duas contaminações do processo literário. A obra sobre a suposta traição de Bento pela esposa Capitu é tomada como exemplo para o crítico Silviano Santiago desenvolver a ideia do mal contado, já que não é possível se chegar a uma conclusão acerca da acusação do narrador: “as histórias – todas elas, eu diria num acesso de generalização – são mal contadas porque o narrador, independentemente do seu desejo consciente de se expressar dentro dos parâmetros da verdade, acaba por se surpreender a si pelo modo traiçoeiro como conta sua história”. Já a pesquisadora Rita Schmidt considera que a narrativa do personagem Bentinho, ao memorar sua vida, está contaminada pelo processo: “a ruptura entre o eu do discurso e o sujeito da história ocorre por e na estruturação presente de um relato permeável à intromissão de reflexões e conjecturas que constroem simultaneidade de sentidos”, o que levaria o ciúme à uma ideia fixa sobre a traição. As duas leituras “casmurras” valem como parâmetro para se discutir também a ambivalência das cartas. Deste modo, Dom Casmurro se aproxima do entendimento sobre a prática epistolográfica de uma missivista contumaz: em crítica literária sobre a correspondência de Álvares de Azevedo, a poeta Ana Cristina Cesar afere que “escrever cartas é mais misterioso do que se pensa. (…) A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu”, por ser um meio “traiçoeiro” permeado pelas “reflexões e conjecturas”. Afora a contaminação do processo interno a partir das próprias escolhas do missivista, que dependem do contexto em que a carta é escrita e para qual destinatário é encaminhada (mal contado), o gap temporal e o processo editorial apontam, também, para uma contaminação externa (mau contato). Assim como o Bento narrador trai os leitores com este discurso construído pela memória enviesada, a correspondência pessoal escrita por autores, ainda que esteja calcada na realidade, está sujeita ao distanciamento, resultado entre o momento em que a carta é elaborada e enviada ao destinatário original e a futura publicação para um leitor terceirizado. Assim, este leitor é vítima e testemunha de um duplo processo de traição: testemunha da traição do missivista com seu interlocutor – a contaminação relatada por Schmidt, de simultaneidade de sentidos, e a limpidez que engana de Ana C. – e vítima da traição do editor das cartas ao publicar um texto datado, impreciso e permeável, mas que torna-se o que se classifica como escrita de si, em um contexto de obra permanente. Portanto, as cartas, por serem uma escrita errante entre o memorialístico e o literário, transitam entre o factual e o fictício. Perdem-se referências diretas feitas ao interlocutor original, mas ganha-se em literariedade.
Referências
- ASSIS, Machado. Obras completas. São Paulo: Nova Aguilar, 2015.
- SANTIAGO, Silviano. Meditação sobre o ofício de criar. In: Peixe-elétrico #05 [recurso eletrônico]. E-Galáxia, 2016.
- SCHMIDT, Rita Terezinha. Descentramentos/convergências: ensaios de crítica feminista. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017.
Palavras-chave: epistolografia; contaminação; escritas de si; memória; ficção.
26 A ficção da ficção: uma leitura comparatista das narrativas de estupro n’O cortiço (1890) e em Duas irmãs (1883)
Karine Mathias Döll
O presente estudo dedica-se a propor uma reflexão sobre o estupro enquanto fato linguístico, fundamentado numa retórica própria, a partir de dois textos literários produzidos por um autor e uma autora brasileiros e publicados na segunda metade do século XIX, a saber, O cortiço (1890), de Aluízio Azevedo, e Duas irmãs (1883), de Maria Benedita de Bormann (Délia). A heterogeneidade inequívoca das obras, quando contrastadas, mostra-se favorável ao objetivo do trabalho, uma vez que acentua os modos peculiares de aproximação com o real promovidos por cada uma delas no que diz respeito às narrativas de estupro engendradas pelos autores. Entende-se narrativas de estupro, com base no trabalho da pesquisadora inglesa Jocelyn Catty (2011), “como qualquer uma em que uma ameaça sexual é articulada, uma vez que o retrato da tentativa de estupro é revelador de atitudes tanto quanto o estupro realizado” (CATTY, 2011, p. 23). Assim, ao mesmo tempo em que se observa um sabido apelo canônico por parte da literatura já consagrada de Azevedo, observa-se também uma canonização dos recursos discursivos disponíveis para tratar do estupro ou da ameaça do estupro no contexto da literatura brasileira, recursos estes que são evidenciados e hostilizados pelas mãos de Délia, em contraponto. Se n’O cortiço é possível evidenciar três narrativas de estupro distintas, embora apenas uma traga em seu bojo contornos de violência sexual, em Duas irmãs, cuja narrativa de estupro, à primeira vista, também poderia escapar a uma tal leitura, engenhosamente é criada a partir de uma crítica à condição da mulher como esposa, “presa pelo dever”, que a obrigaria a situações de estupro constantes sob “o selo da legitimidade” (BORMANN, 2011 [1883], p. 83). É por reconhecer que a instituição literária “inscreve o estupro na cultura, conferindo-lhe tanto funções ideológicas quanto narrativas” (CATTY, 1999, p. 9), e que o entendimento do crime de estupro na sociedade brasileira está ainda pautado em determinados mitos norteadores que, em última instância, inviabilizaram-no precisamente enquanto crime, que considerar as narrativas de estupro como categoria de análise, sob a égide de uma crítica revisionista, torna-se imprescindível para a compreensão de nossos modos de viver e atuar no presente. Como aporte teórico para este trabalho, foram mobilizadas três linhas reflexivas complementares. A primeira, em relação às discussões que convergem o crime de estupro aos textos literários, estará fundamentada na obra Rape and Representation (HIGGINS; SILVER, 1991), Feminism, Literature and Rape Narratives (THOMPSON; GUNNE, 2010) e Writing Rape, Writing Women in Early Modern England: Umbridled Speech (CATTY, 2011). A segunda, em relação à conversão do estupro em fato linguístico e à noção de retórica do estupro, contará com os trabalhos das pesquisadoras Sharon Marcus (1992) e Garthine Walker (1998). Por fim, a terceira linha reflexiva volta-se ao aspecto cultural do estupro no Brasil, por meio de alguns de seus mitos promovidos historiograficamente, a partir das considerações de Ronaldo Vainfas (2017), Sueann Caulfield (2000) e Gilberto Freyre (1992).
Referências
- AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Editora Ática, 1989.
- BORMANN, Maria Benedita C. Duas irmãs. 2011. Disponível em: http://www.normatelles.com.br/livros/Duas_Irmas.pdf.
- CATTY, Jocelyn. Writing Rape, Writing Women in Early Modern England: Unbridled Speech. England: Palgrave Macmillan, 2011.
- CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.
- FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala.40a ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.
- GUNNE, S.; THOMPSON, Zöe B. (Org.). Feminism, Literature and Rape Narratives: violence and violation. London: Routledge, 2010.
- MARCUS, Sharon. Fighting Bodies, Fighting Words: A Theory and Politics of Rape Prevention. In: BUTLER, J.; SCOTT, Joan W. (Org.). Feminists Theorize the Political. New York: Routledge, 1992.
- VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
- WALKER, Garthine. Rereading Rape and Sexual Violence in Early Modern England. In: Gender & History, v. 10, n. 1, p. 1-25, 1998.
Palavras-chave: literatura brasileira; narrativas de estupro; Aluízio Azevedo; Délia; crítica literária.
27 Cicatrizes e lusórias
André Winter Noble
Sobre o registro maquínico, fotográfico, sobras humanas: imagens de onze mulheres reveladas em preto e branco [a mesma moça; uma mulher diferente a cada retrato, um corpo feminino distinto a cada piscadela] e linhas traçadas por elas mesmas: camadas de azul (cor atribuída ao celestial e reivindicada em voz grave pelo gênero masculino). No entanto, cada uma das mulheres e cada uma das linhas de cor, convertidas gradualmente em camada, se expõem em quadros diferentes. Referimo-nos à série de fotografias/pinturas/desenhos (que trataremos aqui como fotopinturas) intitulada Pintura Habitada, obra realizada em 1975 pela artista portuguesa Helena Almeida (Lisboa, 1934). Série de obras que, consideraremos aqui como o políptico inaugural desta artista que, na época de sua mostra, já revelava a potência de suas futuras criações. Consideramos, portanto, o políptico Pintura Habitada (1975) [o primeiro conjunto desta obra-série composta por 11 fotografias p/b de dimensões variáveis, com intervenções em tinta acrílica] como a pedra fundamental da Obra desta artista plástica e trazemos, para ajudar a arquitetar este lugar-de-pensamento, três poemas (considerados aqui como um tríptico) de “dimensões variáveis” (Grafia 1: 13 versos; Grafia 2: 6 versos; Grafia 3: 14 versos) da poetisa portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 1938 – 2007) cuja mostra inicial ocorreu junto à Poesia 61, revista de vida breve, com raras e densas edições dedicadas à poesia lusitana. Lá, com o conjunto de poemas intitulado <Morfismos>, Fiama Hasse Pais Brandão já revelava a potência de suas futuras criações. Lá, encontramos, somados a outros onze poemas, os três poemas intitulados Grafia 1, Grafia 2 e Grafia 3, poemas [aqui considerados como um tríptico] cujo desenho muscular só se alcança através do árduo exercício com a linguagem, do contínuo esfaimar e saturar o significante, do ininterrupto distender e desentesar do significado, e vice-versa. Fiama Hasse Pais Brandão, assim como Helena Almeida com sua Pintura Habitada, nos permite pensar os três poemas intitulados Grafia, tanto como um tríptico, quanto como a pedra fundamental de sua Obra poética, produção multidimensional na qual cada palavra e letra grafo-erigida, cada verso arquitetado, nos expõem infinitas aberturas e passagens de dimensões variáveis para adentrar cada corpo vocabular. Através deste texto, portanto, propomos pensar esses dois conjuntos de obras inaugurais de duas mulheres pensadoras portuguesas, lisboetas, nascidas nos anos trinta do século XX e cuja espessa produção verbo-visual se debruça sobre o fazer poético, o fazer político da artista-escritora mulher em Portugal e, sobretudo por terem elas testemunhado a ditadura salazarista, a qual foi maquinada e concretizada em 1933 e desmoronada com a revolução de 25 de abril de 1974.
Referências
- BRAGA, Teófilo. História do Romantismo em Portugal. Lisboa: Edições Ulmeiro, 1987.
- BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Âmago – Antologia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.
- COTTON, Charlotte. A Fotografia como Arte Contemporânea. Tradução: Silvia Maria Mourão Netto. São Paulo WMF Martins Fontes, 2013.
- MARTELO, Rosa Maria. O Cinema da Poesia. Lisboa: Documenta, 2012.
- ______. Os Nomes da Obra. Lisboa: Documenta, 2016.
- RAMOS, Rui (coord.). História de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009.
- ROUILLE, André. A Fotografia: Entre o Documento e a Arte Contemporânea. Tradução: Constancia Egrejas. São Paulo: SENAC, 2009.
Palavras-Chave: Fiama Hasse Pais Brandão; Helena Almeida; Artes Visuais; Poesia; Verbo-Visualidades.
28 Entre ready-mades e colagens: a mescla textual de Valêncio Xavier em Crimes à moda antiga
Taynara Leszczynski; Maria Salete Borba
A presente pesquisa tem por objetivo analisar o livro Crimes à moda antiga (2004) do escritor paranaense Valêncio Xavier, a fim de observar como o autor constrói o seu livro através de ready-mades e colagens. Assim, Dias (2016) destaca que a obra de Xavier possui uma “disposição caleidoscópica dos textos, alternados e misturados […] uma espécie de montagem de extratos, dispostos em colagem heterodoxa, cujo horizonte temporal é híbrido” (DIAS, 2016, p. 37). Borba (2011) ainda propõe olhar para a escritura valenciana considerando o seu caráter polifônico além do texto, isto é, entendendo que as colagens valencianas ultrapassam os limites da literatura, da imagem e do cinema. Crimes à moda antiga (2004) é composto por oito contos que remetem a crimes cruéis ocorridos no Brasil em meados do século XX e noticiados em jornais da época. Por serem tão incomuns, terem sido retirados de jornais e estarem em um livro, encontram-se na fronteira do real e do ficcional. Além da escrita baseada nessa dualidade (realidade-ficção), Xavier (2004) também traz ilustrações, fotografias, recortes de jornais, crítica cinematográfica, documentos e testemunhos em seu trabalho, constituindo assim o que Borba (2011) chama de “livro desdobrável”, pelas várias possibilidades de leitura. Logo na capa do livro de Xavier (2004) há uma espécie de subtítulo: “Contos Verdade”, o qual realça a maneira como o autor transita ora pela ficção, ora pelo campo jornalístico, aspecto que está estritamente ligado aos moldes da literatura policial. Nesse contexto, Piglia (1986) destaca que por mais que o crime na sociedade sempre chamasse muita atenção, os relatos policiais dos casos eram muito rasos e se constituam em uma mera narração de fatos. Sob essa perspectiva, a literatura policial teve em suas bases primordiais de fundação e impulsionamento a precisão de proporcionar os detalhes imaginativos dos crimes que os relatos não traziam. Ou seja, pelo viés do entretenimento, ela fortalecia as notícias de assassinatos e afins. Percebe-se, dessa forma, que o livro de Xavier (2004) é perpassado pela técnica ready-made, a partir da seleção dos crimes dos jornais, colando-os na ficção, ressignificando e reconfigurando-os em um espaço muito mais imaginativo e criativo. Essa mescla textual atravessada pela heterogeneidade e hibridez constitui um novo suporte, à moda contemporânea, enquanto uma descontinuidade de modelos e padrões. Por conseguinte, Dias (2016) nomeia esse fenômeno de “estética do almanaque”.
Referências
- BORBA, Maria Salete. Valêncio Xavier: uma construção impossível. Revista Letras, n. 84, p. 37-46, jul./dez. 2011. Disponível em: < http://revistas.ufpr.br/letras/article/view/25101/18610> Acesso em: 09 jun. 2017.
- DIAS, Ângela Maria.Valêncio Xavier o minotauro multimídia. Rio de Janeiro: Oficina, 2016.
- PIGLIA, Ricardo. Sobre el género policial in: Crítica y ficción. Buenos Aires: Lectulandia, 1986.
- XAVIER, Valêncio. Crimes à moda antiga. São Paulo: PubliFolha, 2004.
Palavras-chave: Valêncio Xavier; Crimes à moda antiga; ready-mades; colagens; polifonia.
