MINORIAS, DIÁSPORAS, FRONTEIRAS E TRADUÇÃO CULTURAL
Gerson Neumann, Liliam Ramos, Rafael Guimarães e Rita Schmidt
A identidade nacional, uma das questões mais discutidas no contexto ocidental nos séculos XIX e XX, sofreu, nas últimas décadas, um significativo redimensionamento e uma ampla problematização de suas premissas, na esteira do processo de globalização econômica e cultural. Os elementos balizadores da ideia de Estado-nação – o uso de uma mesma língua, a demarcação precisa do espaço territorial e o compartilhamento de uma cultura homogênea – há muito não configuram mais “portos seguros” onde se possa atracar a nau identitária. Em seu lugar, o multilinguismo e as questões de tradução (cultural), a concepção de fronteira como um locus móvel e poroso, bem como o caráter híbrido e plural que marca as práticas culturais contemporâneas assumiram o protagonismo, esfacelando a arcaica concepção de pertencimento nacional como algo “natural”. Para muito além da já remota fissura instaurada por Benedict Anderson (2008) e seu entendimento da nação como uma comunidade imaginada, a nossa relação com o espaço geográfico, político e simbólico constitui uma narrativa em constante processo de (re)escrita. Nesse sentido, distintas perspectivas teóricas têm apontado para direções nem sempre convergentes, mas que, a despeito disso, parecem estabelecer um diálogo entre si, na medida em que todas interrogam o caráter uno e sem fissuras da voz e do corpo que materializa a identidade nacional. Exemplos dessa mirada crítica acerca do nacional, bem como da relação deste com o global são as reflexões de Stuart Hall (2009) sobre os movimentos de diáspora, de Homi K. Bhabha (1998, 2011) sobre a diferença e a tradução cultural, de Walter Mignolo (2000) sobre a ideia de gnose liminar, de Aníbal Quijano (2000) sobre a colonialidade do saber e o bilinguajamento e de Edward Said (2007) sobre o orientalismo. Paralelamente, nomes como os de Simone de Beauvoir (2009), Elaine Showalter (1977), Luce Irigaray (2017) e Judith Butler (2015), que discutem as questões de gênero e as relações de opressão e violência do sistema patriarcal e heteronormativo, bem como o pensamento de Frantz Fanon (2008), Angela Davis (2016), Djamila Ribeiro (2017) e Achille Mbembe (2018) sobre a negritude, além da aposta de Silvia Cusicanqui (2018) no termo ch’ixi ao refletir sobre os processos culturais que atingem os povos originários latino-americanos, contribuem, juntamente com outras pensadoras e outros pensadores, no esforço de compreensão do papel que essas vozes e sujeitos postos à margem desempenham no processo de construção de uma identidade coletiva não homogeneizada e não excludente. No bojo dessa reflexão, este eixo temático está aberto a trabalhos que versem sobre as relações que a literatura e as demais manifestações artísticas estabelecem com o processo de internacionalização, com ênfase nas questões de fronteira e intercâmbios culturais, de diáspora e migrações, de minorias e sujeitos postos à margem, bem como aspectos referentes à construção e problematização de identidades culturais, étnicas e de gênero.
Referências
- ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
- BHABHA, Homi. O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses. Organização de Eduardo Coutinho; introdução de Rita Terezinha Schmidt; tradução de Teresa Dias Carneiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 8. ed. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2015.
- CUSICANQUI, Silvia R. Un mundo ch’ixi es posible. Ensayos desde un presente en crisis. Argentina: Tinta Limón, 2018.
- DAVIS, Angela. Mulheres. Raça e Classe. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
- FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
- HALL, S. Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Liv Sovik (Org.). Tradução de Adelaine La Guardia. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
- IRIGARAY, Luce. Este sexo que não é só um sexo: sexualidade e status social da mulher. Tradução de Cecília Prada. São Paulo: Senac São Paulo, 2017.
- MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo : n-1 Edições, 2018.
- MIGNOLO, Walter. Local histories / Global designs: coloniality, subaltern knowledges, and border thinking. New Jersey: Princeton University, 2000.
- QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000.
- RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.
- SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- SHOWALTER, Elaine. A literature of their own: British women novelists from Bronte to Lessing. Princeton, N.J. : Princeton University Press, 1977.
EIXO 5 — DATA E ORDEM DAS COMUNICAÇÕES
23 de outubro (quarta), sessão A
Local: Prédio da FACED, sala 701.
1 As Américas imaginadas em The underground railroad, de Colson Whitehead: discutindo a tradição das narrativas de escravos afro-americanos no exercício político das vozes “ex-cêntricas”, Isabel Speggiorin Devincenzi
2 A prostituta sob o signo da forma-mercadoria no teatro de Artur Azevedo, Rodrigo Cézar Dias
3 O custo para ser reconhecido como sujeito em O Fim de Eddy, de Édouard Louis, Lucas Demingos de Oliveira
4 Tem coisas que não se dizem! A tradição oral antilhana e seus não-ditos: análise do conto Julina, transcrito e traduzido por Ina Césaire, Jéssica de Souza Pozzi
5 A problematização da maternidade como constituição da identidade feminina em Buchi Emecheta e Lya Luft, Rosiana Kist
6 Rompendo o silêncio: poesia e (r)existência em Águas da Cabaça, de Elizandra Souza, Francine Vargas dos Santos Damasceno
23 de outubro (quarta), sessão B
Local: Prédio da FACED, sala 404.
7 O deslocamento como um metáfora da cisnormatividade: Reflexões sobre as personagens travestis em três narrativas brasileiras contemporâneas, Virgínea Novack Santos da Rocha
8 Expressões em línguas tradicionais na tradução de obras literárias africanas de língua inglesa: pensando escolhas e estratégias tradutórias, Carolina Kuhn Facchin
9 Pode o subalterno se autobiografar?, Adriana Kerchner da Silva
10 O eu, o outro e a orelha na garrafa com álcool, Pietro Gabriel dos Santos Pacheco
11 Travessias do Atlântico Negro: navegando com Fradique Mendes, Dilma Beatriz Rocha Juliano
12 Ayaan Hirsi Ali — existir pela palavra, Patrícia Ribeiro Brasil
13 Pelos vales desencantados da dor: a violência contra as mulheres em Insubmissas lágrimas de mulheres, Luciane de Lima Paim, Patrini Viero Ferreira
14 A fragilidade dos laços familiares elucidada no retorno ao lar: um estudo do romance The Green Road, de Anne Enright, Carla Luciane Klos Schöninger
24 de outubro (quinta)
Local: Prédio da FACED, sala 404.
15 A minha casa é onde estou?, Daniela Severo de Souza Scheifler
16 Deslocamento, abandono e (não) pertencimento no romance Com armas sonolentas: um romance de formação, de Carola Saavedra, Cristiane da Silva Alves
17 Uma tradição literária de culturas periféricas: o caso da martinicana Françoise Ega e da brasileira Carolina Maria de Jesus, Samanta Vitória Siqueira
18 A escrita desfronteirizante de Najat El Hachmi, Luciane da Silva Alves
19 “Isso também é obeah”: creolité e domínio cultural em Vasto Mar de Sargaços, Vanessa Gomes Alves de Oliveira
20 TEN (Teatro Experimental do Negro) um “entre-lugar” na cena teatral brasileira do século XX: pensando o teatro de Abdias do Nascimento a partir de uma perspectiva decolonial, Acevesmoreno Flores Piegaz
21 Unindo nações, desfazendo fronteiras: migração, memória e pertencimento em A imensidão íntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf, Mirvana Luz Teixeira
25 de outubro (sexta)
Local: Prédio da FACED, sala 701.
22 No escuro do porão: o conflito identitário em The Opposite House, de Helen Oyeyemi, Diego Bonatti e Ana Lúcia Tettamanzy
23 Alteridade em Adriana Lisboa: o conto “Feelings”, Felipe Maropo e Rauer Rodrigues
24 “E as ervas de Ossanha no chimarrão”: rumo a um negro imaginário rural dos Pampas, Ryan Benjamin Morrison
25 Juana Manso: uma autora latino-americana, Adriele Albuquerque de Souza
26 A voz da mulher-mãe na escrita de Conceição Evaristo, Elen Karla Sousa da Silva, Daniel Conte
27 Letra, voz e imagem femininas retomando o sagrado: o artivismo indígena de Eliane Potiguara, Katu Mirim e Moara Brasil, Paloma de Melo Henrique
28 O corpo-guerrilheiro no corpo-nação: contaminação, abjeção e ressignificação no corpo-romance de Herbert Daniel, Anselmo Peres Alós
29 Em busca de uma literatura yanomami, Pedro Mandagará
EIXO 5 — RESUMOS DAS COMUNICAÇÕES
1 As Américas imaginadas em The underground railroad, de Colson Whitehead: discutindo a tradição das narrativas de escravos afro-americanos no exercício político das vozes “ex-cêntricas”
Isabel Speggiorin Devincenzi
O presente trabalho apresenta uma leitura do romance norte-americano The underground railroad (2017), do escritor Colson Whitehead, com ênfase nos temas: “metaficção”, “história” e “política”, na discussão pós-moderna. É apresentada uma revisão biográfica e da fortuna crítica do autor Colson Whitehead, suas motivações na escrita, bem como, suas percepções sobre o romance analisado, tendo como base sua fala em entrevista (National Public Radio, 2016), no intuito de relacionar as subjetividades da escrita do texto com o exercício político dos sujeitos afro-americanos. A tradição das narrativas de escravos afro-americanos é retomada, de acordo com os estudos de Bernard Bell (1987), Asharaf Rushdy (1999) e Timothy Spaulding (2005), a fim de refletir e teorizar sobre os tipos de narrativas observadas por esses teóricos: as slave narratives, as neoslave e neo-slave narratives, e as postmodern slave narratives. Conjugada aos estudos sobre as narrativas de escravos, do ponto de vista da tradição e crítica literária, a articulação dos conceitos de “comunidade imaginada”, “entre-lugar” e “presente/passado” é proposta, em uma discussão orientada pelas leituras de Anderson (2008), Bhabha (2013) e Hutcheon (1991). Propõe-se a retomada de pressupostos teóricos e discussões do pós-moderno, a fim de situar o leitor sobre, especialmente, o conceito de “metaficção historiográfica”, e apontar elementos observados por Linda Hutcheon (1989; 1991; 2000) na estética dos romances pós-modernos, tais como a ironia, paródia e interdiscursividade, na análise do romance de Whitehead. Com base nos estudos de Hutcheon (1991), é observado como a figura do “ex-cêntrico” incide no pós-moderno, especialmente, na metaficção historiográfica, forma de expressão máxima desse movimento, segundo esta pesquisadora, através da revisitação dos conceitos de “centro/margem” e de “história” como um texto já textualizado por escritas prévias. O enfoque sobre a escrita do romance afro-americano como uma possibilidade de afirmação cultural e política dos sujeitos afro-descendentes no contemporâneo é concatenado à discussão, com base na tese de Gilroy (2012). É possível concluir que o romance The underground railroad promove uma fértil revisão histórica da escravidão no continente norte-americano ao mesclar fato e ficção e fazer uso de artifícios, na ordem da forma e do conteúdo da narrativa, como a paródia, a ironia, a interdiscursividade e a intertextualidade com as narrativas de escravos afro-americanas originais e as pós-modernas, como a de Toni Morrison, Amada (1987). Ademais, é observado que as slaves narratives, no âmbito literário, são ainda pouco estudadas no Brasil, bem como, são pouquíssimos os resultados de produções encontradas sobre o autor Colson Whitehead e o romance analisado, em língua portuguesa. Portanto, este estudo revela-se como uma possibilidade profícua de inserir o autor na nossa crítica contemporânea estrangeira e observar relações entre Brasil e Estados Unidos em sua produção literária ficcional e acadêmica sobre as narrativas de escravos originais e as pós-modernas.
Referências
- ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. Trad. Denise. Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
- BELL, Bernard W. The Afro-American novel and its tradition. Amherst: University of Massachusetts Press, 1987.
- BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila [et al]. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2013.
- GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Trad. Cid Knipel. São Paulo: Editora 34, 2012.
- GROSS, Terry. “Colson Whitehead’s ‘Underground railroad’ is a literal train to freedom”. Washington, D.C.: National Public Radio. 18 nov. 2016. Arquivo de áudio e transcrição disponíveis em: <https://www.npr.org/2016/11/18/502558001/colson-whiteheads-underground-railroad-is-a-literal-train-to-freedom>. Acessado em: 12 jun. 2018.
- HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia: ensinamentos da forma da arte do século XX. Trad. Teresa Louro Pérez. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989.
- ____. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
- ____. Teoria e política da ironia. Trad. Julio Jeha. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000.
- MORRISON, Toni. Amada. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- RUSHDY, Asharaf H. A. Neo-slave narratives: studies in the social logic of a literary form. Nova Iorque: Oxford University Press, 1999.
- SPAULDING, A. Timothy. Re-forming the past: history, the fantastic, and the postmodern slave narrative.Columbus: Ohio State University Press, 2005.
- WHITEHEAD, Colson. The underground railroad: os caminhos para a liberdade. Trad. Caroline Chang. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2017.
- ____. The underground railroad. Nova Iorque: Doubleday, 2016.
Palavras-chave: underground railroad; literatura afro-americana; narrativa de escravos; metaficção historiográfica; pós-modernismo.
2 A prostituta sob o signo da forma-mercadoria no teatro de Artur Azevedo
Rodrigo Cézar Dias
Em seus estudos acerca da poesia de Baudelaire, Walter Benjamin atribui à mercadoria a posição de mediadora da alegoria moderna, posição encarnada radicalmente pela figura da prostituta, herdeira de “todos os plenos poderes da alegoria barroca” (BENJAMIN, 2015, p. 173). Pensando na Paris plasmada pela poesia de Baudelaire, a prostituta, “que em hipostática união, é vendedora e mercadoria” (BENJAMIN, 1991, p. 40, grifo do autor), condensaria, pois, o princípio do capitalismo de que tudo pode ser metamorfoseado em mercadoria e reduzido a valor monetário. Posto isso, proponho um deslocamento do gesto crítico empreendido por Benjamin para defender a hipótese de que seria possível vislumbrar nas personagens prostitutas do teatro de Artur Azevedo índices da formalização do entrecruzamento de tensões sociais constitutivo da articulação entre substrato patriarcal-escravagista e ideologia liberal-burguesa no Brasil dos arredores da República. Nesse sentido, as figurações da prostituta na obra do autor iluminariam a condição do sujeito radicado no sistema capitalista, constituído na ambiguidade entre pessoa e mercadoria, situação configurada pela interseção entre gênero, raça, classe e outras variáveis identitárias (cf. Davis, 2016 e Butler, 2017). Para ilustrar essa dinâmica, esboço um panorama das personagens prostitutas presentes na obra de Artur Azevedo seguido de uma breve análise de A Capital Federal balizada pelas trajetórias das personagens Lola e Benvinda. Apesar de pouco interagirem entre si, ambas possuem uma relação significativa com o fazendeiro Eusébio: a primeira, cocote já estabelecida, caracterizada como “ilhoa disfarçada de espanhola”, tenta seduzi-lo para “aliviar suas algibeiras”; a segunda, caracterizada como “mulata” e “cria” da fazenda de Eusébio, foge da família do fazendeiro para tentar melhor sorte como prostituta na Capital Federal. Ao final da peça, ambas amargam o fracasso: Lola não consegue depenar Eusébio e é roubada por Lourenço, seu amante e cúmplice, cuja captura fica em suspenso, enquanto Benvinda falha em seu processo de formação como cocote e busca o perdão da família do fazendeiro. Enformadas a partir do lugar social do comediógrafo – um homem branco que integrava a elite intelectual –, essas personagens apresentam-se, entretanto, como pontos de resistência e tensão: ao serem retratadas, as prostitutas devolvem o olhar, desnudando a perspectiva que as representa de sua suposta universalidade ao possibilitar um delineamento das variáveis identitárias que a compõem.
Referências
- BENJAMIN, Walter. Paris, capital do século XIX. In: ______. Walter Benjamin: sociologia. Organização e tradução de Flávio R. Kothe. São Paulo: Ática, 1991.
- ______. Baudelaire e a modernidade. Edição e tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 15. ed. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
- DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.
Palavras-chave: Artur Azevedo; A Capital Federal; prostituta; forma-mercadoria; intersecionalidade.
3 O custo para ser reconhecido como sujeito em O Fim de Eddy, de Édouard Louis
Lucas Demingos de Oliveira
Um dos temas que atravessa A vida psíquica do poder, de Judith Butler (2018), são os processos de sujeição, isto é, os processos a que somos submetidos, através de relações de poder, para nos tornarmos sujeitos. Em seus trabalhos subsequentes, como Precarious Life (2006) e Quadros de Guerra (2015), a filósofa buscou investigar, detalhar e complexificar as relações ambivalentes entre sujeição e reconhecimento. Butler (2015) aponta que os “enquadramentos epistemológicos” que reconhecem uma pessoa como sujeito, ou mesmo como vida vivida, implicam uma violência contra esse sujeito, pois, de uma maneira ou de outra, eles exigem um certo encaixe em modelos de vida pré-estabelecidos. Entretanto, ao apontar a violência implicada por tais esquemas, também se assume que uma vida não reconhecida está em risco. A partir disso, questiono o custo pago por certas vidas para serem reconhecidas como sujeito. Para refletir sobre essa questão, proponho como corpus de análise o romance autobiográfico O Fim de Eddy, de Édouard Louis (2018). O romance narra a infância e adolescência de Eddy Bellegueule num vilarejo de Hallencourt, no norte da França, em um contexto permeado por pobreza, insultos e humilhação. Grande parte das violências sofridas por Eddy na narrativa se dão em torno dos modos e trejeitos afeminados do personagem em um espaço machista e explicitamente homofóbico. A narrativa encerra com um epílogo, no qual Eddy relata suas primeiras impressões do internato em que foi recentemente aceito, em outra cidade. Com base nos apontamentos de Judith Butler e na narrativa em questão, argumento que o custo exigido para Eddy poder ser reconhecido como um sujeito e homossexual é alto demais: é não guardar da infância “nenhuma lembrança feliz” (p. 13), é precisar sair (ou ser expulso) da cidade e abandonar a própria família; é, por fim, renunciar quem é e passar a se chamar Édouard Louis.
Referências
- BUTLER, Judith. Precarious Life: the powers of morning and violence. London: Verso, 2006.
- BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
- BUTLER, Judith. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.
- LOUIS, Édouard. O Fim de Eddy. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.
Palavras-chave: O Fim de Eddy; Judith Butler; Sujeito; Reconhecimento; Literatura
4 Tem coisas que não se dizem! A tradição oral antilhana e seus não-ditos: análise do conto Julina, transcrito e traduzido por Ina Césaire
Jéssica de Souza Pozzi
Este trabalho apresenta uma análise do conto Julina, transcrito do crioulo martinicano e traduzido para o francês por Ina Césaire, etnóloga e escritora, filha de Aimé Césaire, que faz parte da obra Contes de Nuits et de Jours aux Antilles, publicada em 1989 em edição bilíngue crioulo-francês pela editora Éditions Caribéennes. A obra faz parte de uma trilogia (juntamente com Contes de Mort et Vie aux Antilles, de 1976, e Contes de Soleil et Pluie aux Antilles, de 1988), que resultaram de um trabalho de recolhimento e registro do patrimônio oral e memorialístico antilhano pela organizadora das obras juntamente de sua colega e amiga Joëlle Laurent, também etnóloga. A análise do conto escolhido dentre os 14 reunidos no livro parte dos conceitos de cultura e imperialismo e pós-colonialismo de Edward Said e Frantz Fanon para explicitar o contexto político e social atual da Martinica, bem como dos demais Departamentos, Territórios e Regiões Ultramarinas francesas, com os quais a França que mantém ainda forte relação de poder e/ou comercial. Além disso, apresenta-se alguns conceitos importantes para a compreensão da tradição oral nas culturas diaspóricas através da revisão de sua história literária e ensaística a partir da obra de Eurídice Figueiredo, Construção de identidades pós-coloniais na literatura antilhana (1998) – destacando o trabalho de Aimé Césaire (2013) frente ao movimento da Negritude e de Edouard Glissant (1997) a partir do conceito de antilhanidade -, e de sua relação com a história da oralidade africana, apresentada através da obra de Hampaté Bâ, História da África, Metodologia e pré-história da África (1982). Por fim, baseando-se na tradução do conto para o português, feita pela autora deste trabalho, apresenta-se a análise de Julina baseada na reflexão sobre a cultura oral e o imaginário crioulo nas Antilhas.
Referências
- CÉSAIRE, Aimé. Discours sur le colonialisme suivi de Discours sur la Négritude. Paris: Présence Africaine, 2013.
- CÉSAIRE, Ina. Contes de jours et de nuits aux Antilles. Paris: Éditions Caribéennes, 1989.
- FANON, Frantz. Peau noire, masques blancs. Paris : Éditions Points, 2015.
- ______. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2010
- FIGUEIREDO, Eurídice. Construção de identidades pós-coloniais na literatura antilhana. Rio de Janeiro: Eduff, 1998.
- GLISSANT, Édouard. Le discours antillais. Paris: Gallimard, 1997.
- SAID, Edward. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
- HAMPATÉ BÂ, A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, J (Org): História da África, Metodologia e pré-história da África. São Paulo, Editora Ática/Paris: UNESCO, 1982, Vol. 1.
5 A problematização da maternidade como constituição da identidade feminina em Buchi Emecheta e Lya Luft
Rosiana Kist
O presente estudo está centrado na discussão e análise das formas pelas quais os romances As alegrias da maternidade (1979), da nigeriana Buchi Emecheta, e As parceiras (1980), da brasileira Lya Luft, reconfiguram as noções tradicionais de maternidade, tecendo aproximações entre as narrativas e as tendências críticas contemporâneas do pensamento feminista. Ao colocar em pauta algo pouco problematizado nesse campo que é a maternidade, a pesquisa identifica as marcas de gênero e suas especificidades na escrita de autoria feminina, para, em seguida, problematizar a concepção de maternidade como destino e como característica intrínseca à natureza e à essência feminina. As contribuições teóricas advém de pensadoras como Simone de Beauvoir (2016), Judith Butler (2003), Hélène Cixous (1976), Elaine Showalter (1994) Luce Irigaray (2017), Heloisa Buarque de Hollanda (2018) e Rita Terezinha Schmidt (2017), assim como das intelectuais Elisabeth Badinter (1985), Gayatri Spivak (2010), Angela Davis (2016), bell hooks (2018) e Djamila Ribeiro (2017). Ao analisar a constituição das protagonistas dos romances, Nnu Ego e Anelise, procuramos identificar como a noção de maternidade é reconfigurada por elas nas narrativas, para, finalmente, investigar de que maneira as particularidades culturais e de escrita contribuem para a problematização da ideia que as mulheres estabelecem para a maternidade dentro das obras estudadas. A utilização do estudo comparado como procedimento de pesquisa justifica a escolha do corpus: uma obra de uma escritora brasileira e uma obra de uma escritora nigeriana, reconhecidas pelo cânone tradicional e contemporâneas da década de 80. Ao estudarmos dois romances que abordam a mesma temática, porém em contextos distintos – Nigéria e Brasil -, o problema de pesquisa específico com o qual nos deparamos expõe a fragilidade desse estereótipo. Identificamos que a ideia universal de maternidade vai ser reconfigurada e particularizada em cada uma das culturas e na materialização da escrita (na forma), além de marcada pela condição do gênero, pois enquanto a personagem nigeriana valoriza a maternidade como única opção possível, a personagem brasileira questiona sua impossibilidade de conceber filhos, gerando nela conflito e sofrimento; sendo ou não mães, as mulheres desses romances não se sentem completas. Os resultados apontam ainda para diferentes significados atribuídos à experiência de ser mãe nas sociedades em que vivemos hoje e que tornam incertas e transitórias as identidades sociais.
Referências
- BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. 9. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
- CIXOUS, Hélène. The Laugh of the Medusa. Translated by Keith Cohen and Paula Cohen. The University of Chicago Press: Chicago Journals. Signs, Vol. 1, No. 4, 1976. p. 875-893.
- DAVIS, Angela Y. Mulheres, raça e classe. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2016. 244 p.
- EMECHETA, Buchi. As alegrias da maternidade. Trad Heloisa Jahn. 2. ed. Porto Alegre: Dublinense, 2018.
- HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Explosão feminista: Arte, cultura, política e universidade. Companhia das Letras, 2018. Edição Kindle.
- hooks, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Trad Ana Luiza Libânio. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
- IRIGARAY, Luce. Este sexo que não é só um sexo. Trad Cecília Prada. São Paulo: Editora Senac, 2017.
- LUFT, Lya. As parceiras. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 2015.
- RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 112 p. (Feminismos plurais).
- SCHMIDT, Rita Terezinha. Descentramentos/Convergências: ensaios de crítica feminista. 1. ed. Porto Alegre: UFRGS Ed., 2017.
- SHOWALTER, Elaine. A crítica feminista no território selvagem. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.) Tendências e Impasses. O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
- SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradução de Sandra R. G. Almeida, Marcos P. Feitosa, André P. Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Palavras-chave: Crítica Feminista; Identidade feminina; Maternidade; Buchi Emecheta; Lya Luft.
6 Rompendo o silêncio: poesia e (r)existência em Águas da Cabaça, de Elizandra Souza
Francine Vargas dos Santos Damasceno
Nos últimos anos, a literatura contemporânea testemunhou o surgimento de produções elaboradas por vozes postas à margem de um projeto hegemônico de nação, de literatura e de história da literatura. Essas narrativas, presentes na literatura marginal-periférica, ressignificam o imaginário nacional e, conforme afirma Homi Bhabha (1998), apresentam um discurso performático, pois desestabilizam o significado de povo como homogêneo, trazendo a memória esquecida e apontando para diferença cultural. Ademais, elas geram o deslocamento da perspectiva centralizadora, pois rasuram o discurso dominante e impulsionam esses indivíduos a ocuparem o seu lugar de fala. Desta forma, eles tornam-se agentes ativos de sua tradição, das suas experiências históricas e do seu discurso. Contudo, apesar de propor a emancipação dessas vozes marginalizadas, a literatura marginal-periférica apresenta um protagonismo exclusivamente masculino. As mulheres, mesmo participando de saraus e da agenda cultural, não publicam seus textos com a mesma frequência que os homens e poucas fazem parte da organização e liderança desse movimento literário. Essa falta de equidade fez com que as escritoras se rearticulassem para combater o sexismo na literatura produzida dentro e fora da periferia. Segundo Lucía Tennina (2014; 2017), é a partir de esse ponto de tensão, dessa posição de subalterna do subalterno, que essas escritoras, majoritariamente negras, elaboram os seus discursos. Nesse contexto, Elizandra Souza se destaca, pois, ao ocupar uma posição de outsider within (COLLINS, 2016), organizou novas formas de sociabilidade e intervenção para que ela e outras mulheres negras pudessem transcender as fronteiras impostas por uma sociedade machista e racista. Através do selo Mjiba, a escritora se autopublicou e lançou mais três obras que trouxeram outras mulheres negras e periféricas para o protagonismo da cena literária. Assim, a literatura transformou-se em uma ferramenta de (r)existência e em um elemento capaz de romper com a colonialidade do ser e do saber (ACHINTE, 2009; QUIJANO, 2000). Nessas produções, a poesia põe em evidência a pluralidade presente no cenário contemporâneo e atua como um mecanismo de autorepresentação e ressignificação. Desta forma, os estereótipos enraizados na sociedade começam a ser descontruídos e a produção artística ganha contornos diferentes do projeto moderno eurocêntrico que coloca o “outro” em uma posição exotizada (ACHINTE, 2009). Portanto, a presente proposta busca analisar cinco poemas – “Fertilidade”, “Poema Novo”, “Estribeiras do Mundo”, “À Nossa Maneira” e “Calar o Grito/Gritar o Silêncio” – contidos no livro Águas da Cabaça (2012) nos quais o fazer artístico constituiu-se como uma pedagogia decolonial (ACHINTE, 2009) ao fortalecer identidades e visibilizar a produção de sujeitos historicamente excluídos. Além disso, Elizandra Souza confronta o discurso dominante ao problematizar questões relacionadas à identidade da mulher negra. Portanto, serão utilizados os estudos de Angela Davis (2016) e bell hooks (2014) referentes aos problemas historicamente enfrentados pelas mulheres negras e sobre os desdobramentos da união entre racismo e machismo. Por conseguinte, as pesquisas da filósofa Djamila Ribeiro (2017; 2018) acerca do feminismo negro e do lugar de fala também embasarão a análise, assim como a obra de Judith Butler (2015) sobre a questão de gênero e do feminismo interseccional.
Referências
- ACHINTE, Adolfo Alban. Artistas indígenas y afrocolombianos: entre las memorias y las cosmovisiones. Estéticas de la re-existencia. In: MIGNOLO, W.; PALERMO, Z. (Org.) Arte y estética en la encrucijada descolonial. Buenos Aires: Ediciones del Signo, p. 83-112, 2009.
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 8. ed. Trad. Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.
- COLLINS, Patricia Hill. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Trad. Juliana de Castro Galvão. Revista Sociedade e Estado. v.31. n.1. jan-abr, 2016. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/se/v31n1/0102-6992-se-31-01-00099.pdf> Acesso em: 13 mar. 2019
- DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e Classe. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
- HOOKS, Bell. Não sou eu uma mulher: Mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Plataforma Gueto, 2014.
- QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.) La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000.
- RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.
- ________. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
- SOUZA, Elizandra. Águas da Cabaça. São Paulo: Edição Independente, 2012.
- TENNINA, Lucía. Cuidado com os poetas: literatura e periferia na cidade de São Paulo. Zouk, 2017.
- _________. La mujer negra periférica en la literatura brasileña contemporánea. Revista Internacional de Culturas y Literaturas. n. 15, Universidad de Sevilla, 2014. Disponível em: <https://idus.us.es/xmlui/handle/11441/61798> Acesso em: 10 mar. 2019.
Palavras-chave: palavra literatura marginal-periférica; Elizandra Souza; poesia; identidade; feminismo negro.
7 O deslocamento como um metáfora da cisnormatividade: Reflexões sobre as personagens travestis em três narrativas brasileiras contemporâneas
Virgínea Novack Santos da Rocha
O deslocamento, que pode ser representado geograficamente, parece ser uma das principais características da contemporaneidade. Sendo assim, é impossível falar do sujeito sem que se pressuponham as construções, desconstruções e reconstruções identitárias, o que, consequentemente, nos leva também a não pensar nas personagens para além desse paradigma. No entanto, essa perspectiva parece estar de acordo apenas com a cisnormatividade, uma vez que, ao analisarmos a representação de personagens trans* por uma perspectiva transfeminista, a metáfora do deslocamento na construção de personagens transgêneras e travestis, funciona como um reforço, não de identidades em movimento, mas sim, de identidades não verdadeiras, ou seja, nao-identidades, uma vez que o deslocamento ocorre devido a necessidade de manutenção da sociedade cisnormativa, pois como afirma Judith Butler em Problemas de gênero: “A matriz cultural por meio da qual a identidade de gênero se torna inteligível exige que em certos tipos de ‘identidade’ não possam ‘existir’ – isto é, aqueles em que o gênero não decorre do sexo e aqueles em que a prática do desejo não ‘decorrem’ nem do ‘sexo’ nem do ‘gênero’.” (BUTLER, 2016 [1990] p.44), sendo que as pessoas que não condizem com o sistema resta a exclusão ou até mesmo a morte. Esse foi o resultado a que se chegou a partir da análise de três narrativas brasileiras contemporâneas escritas e publicadas nos últimos anos: Do fundo do poço se vê a lua (2010), de Joca Reiners Terron, Sérgio Y vai à América (2012), de Alexandre Vidal Porto e As fantasias eletivas (2014), de Carlos Henrique Schoeder, nas quais, tanto Cleo quanto Sandra e Copi, personagens dos respectivos romances, deslocam-se geograficamente no exato momento em que assumem a identidade não cisnormativa, sendo que, seu deslocamento não parte de uma necessidade existencial, mas sim de uma exclusão gênero-geográfica. Assim, o deslocamento, Brasil-Egito, Brasil-EUA e Argentina-Brasil ocorre com a finalidade de construírem-se identidades que rompam com o passado, iniciando-se de uma espécie de ponto zero (do gênero) como uma identidade completamente nova em sintonia com esse novo espaço, ou seja, como um renascimento espaço-corpo. Assim, ao mesmo tempo em que a personagem travesti pode ser vista não como uma identidade em deslocamento, mas sim uma identidade em exílio, pois como Edward Said (2003) afirma “às vezes, o exílio é melhor do que ficar para trás […]” (SAID, 2003, p.51), ela parece também estar para além do exílio, uma vez que o passado precisa ser completamente apagado, ou seja, as três personagens não são apresentadas como sujeitos em construção, mas sim como identidades que ficcionalizam seu passado e, por consequência, suas próprias identidades e, sendo assim, o contato com esse passado, seja geográfico seja simbólico, leva, nas três narrativas, a um final unânime: a morte, ou seja, o reencontro com uma identidade pregressa mostra-se impossível, uma vez que, tal encontro é o encontro com a cisnormatividade.
Referências
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Trad: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
- PORTO, Alexandre Vidal. Sergio Y vai à América. São Paulo: Companhia das letras, 2012.
- SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio. In: SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.46-60.
- SCHOEDER, Carlos Henrique. As fantasias eletivas. Rio de Janeiro: Record, 2014.
- TERRON, Joca Reiners. Do fundo do poço se vê a lua. São Paulo: Companhia das letras, 2010.
Palavras-chave: deslocamento; problemas de gênero; cisnormatividade; identidade; travesti.
8 Expressões em línguas tradicionais na tradução de obras literárias africanas de língua inglesa: pensando escolhas e estratégias tradutórias
Carolina Kuhn Facchin
Esta pesquisa de mestrado, ainda em seus primeiros passos, pretende investigar as estratégias utilizadas por tradutores para lidar com a presença de palavras ou expressões em línguas tradicionais – como o Shona, do Zimbábue, e o Gikuyu, do Quênia – em textos literários originários de ex-colônias inglesas e escritos majoritariamente na língua do colonizador – o inglês. A pesquisa se guia por duas perguntas fundamentais, quais sejam: A manutenção das expressões em língua tradicionais afasta ou aproxima os leitores da obra? Essa manutenção apresenta uma nova língua e uma nova cultura aos leitores da tradução ou apenas exotiza o texto e o trata como algo alheio, Outro? O estudo se propõe a analisar e comentar traduções publicadas realizadas pela própria pesquisadora, tradutora de obras africanas de línguas inglesa, além de levar em consideração outros textos literários traduzidos, ainda a serem selecionados. A pesquisa parte de um questionamento da teoria de Lawrence Venuti (1995, 2009) sobre domesticação e estrangeirização, indagando se esses conceitos seriam adequados aos processos tradutórios utilizados na tradução daqueles textos que se originam fora do que seria considerado o “cânone” para línguas e culturas que também estão fora desta curva. A tradução de obras de países africanos para o português do Brasil serve de exemplo, fornecendo material para a análise. Para pensar esse questionamento e responder às perguntas propostas, a pesquisa, de caráter bibliográfico, vai se fundamentar em textos dos estudos de tradução, especialmente os estudos de tradução cultural conduzidos por Susan Bassnett (1998), André Lefevere (2017) e outros, passando também por estudos pós-coloniais, como os de Gayatri Chakravorty Spivak (1994), além de focar em teorias, filosofias e modos de pensamento de estudiosos de origem africana, como Kwame Anthony Appiah (1997) e Francisco Noa (2015), acerca de seu entendimento do uso dessas línguas tradicionais e de sua importância. A pesquisa foi iniciada em março de 2019. Atualmente, ainda está na fase de definição dos critérios de seleção do corpus de análise e de determinação do referencial teórico. Prevê-se que o estudo seja concluído nos primeiros meses de 2021.
Referências
- APPIAH, Anthony Kwame. Na casa de meu pai: A África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
- BASSNETT, Susan; LEFEVERE, André. Constructing cultures: Essays on Literary Translation. Clevedon: Multilingual Matters Ltd., 1998.
- LEFEVERE, André. Translation, rewriting, and the manipulation of literary fame. Londres; Nova York: 2017.
- NOA, Francisco. Perto do fragmento, a totalidade: olhares sobre a literatura e o mundo. São Paulo: Editora Kapulana, 2015.
- SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the Subaltern Speak? In: WILLIAMS, Patrick; CHRISMAN, Laura. (Ed.). Colonial Discourse and Post-colonial Theory. Nova York: Columbia University Press, 1994.
- VENUTI, Lawrence. The Translator’s Invisibility. Londres; Nova York: Routledge, 1995.
- VENUTI, Lawrence. Translation as cultural politics: régimes of domestication in English. In: BAKER, Mona. (Ed.) Critical readings in Translation Studies. Londres; Nova York: Routledge, 2009. p. 65-79.
Palavras-chave: literatura africana de língua inglesa; tradução literária; estudos pós-coloniais; línguas tradicionais africanas; tradução cultural.
9 Pode o subalterno se autobiografar?
Adriana Kerchner da Silva
Molloy (1994) define os relatos biográficos de pessoas escravizadas no século XIX como escritas que necessariamente passaram pela mediação de pessoas brancas, que detinham o capital para tal, nos termos de Bourdieu (2001; 2004). No caso específico de Juan Francisco Manzano, cuja autobiografia é o cerne desta comunicação, a mediação requerida foi não para escrever seu texto, já que ele era (precariamente) alfabetizado, mas para que sua obra pudesse ser publicada e lida por um público branco, que conformava a esmagadora maioria das pessoas alfabetizadas no século XIX. A autobiografia do poeta-escravo (2015 [1836]), título que recebeu o livro de Manzano no Brasil, é a única obra conhecida escrita por uma pessoa escravizada na América Latina. Elaborada pelo autor entre 1835/1836, a obra foi feita a partir de uma encomenda de um grupo de literatos cubanos, liderados por Domingo del Monte, cujo objetivo era mandar o relato para um abolicionista britânico, Richard Madden, que iria apresentá-lo em congressos antiescravidão em seu país. Madden traduziu o livro em 1840, realizando sua primeira publicação. A obra somente foi publicada em Cuba, terra natal de Manzano, em 1937, cem anos após sua escritura. A autobiografia de Manzano sofreu diversas alterações ao longo de sua história, desde a correção ortográfica antes do manuscrito ser enviado a Madden, passando pela tradução realizada pelo britânico, que efetuou diversas modificações no texto, até chegar nas diversas edições publicadas, sempre organizadas por intelectuais brancos. Nesse sentido, há muita discussão ao redor de poder ou não se considerar o texto de Manzano uma autobiografia “pura”, tendo em vista que em todo o processo editorial ela sofreu intervenções de terceiros, muitas delas bastante invasivas, como mencionado anteriormente. É nessa esteira que surge a pergunta que dá título a esta comunicação, evidentemente uma paráfrase do célebre ensaio de Spivak (2010): poderia Manzano realmente falar? Qual o nível de negociação que ele teve de fazer entre o que queria relatar e o que o grupo de literatos cubanos e o próprio Madden esperavam que ele dissesse? E será que todos esses homens brancos estavam preparados para escutar o que ele tinha para dizer, parafraseando, dessa vez, Kilomba (2017)? Além das teóricas já mencionadas, o referencial teórico deste trabalho passa também por Said (2005), para analisar as posturas tomadas pelos intelectuais, e por Ribeiro (2017), com a importante discussão sobre lugar de fala. Quanto às conclusões possíveis para responder questões tão complexas, algumas considerações podem ser tecidas. Ao mesmo tempo em que é importante notar a mediação na escrita de Manzano, não se pode descartá-lo como um escritor autêntico, como já tentaram fazer em alguns momentos (FIORANI, 2010), porque, de fato, ele mesmo escreveu o texto, até onde se sabe. Acredito que o que cabe criticar é a postura colonizadora dos intelectuais, que não deram, efetivamente, liberdade para Manzano, exigindo que ele seguisse determinados caminhos para que sua obra fosse publicada e, posteriormente, lida.
Referências
- BOURDIEU, Pierre. Espaço social e poder simbólico. In: BORDIEU, Pierre. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. p. 149-168. Tradução de Cássia R. da Silveira e Denise Moreno Pegorim.
- BOURDIEU, Pierre. Las formas del capital: Capital económico, capital cultural y capital social. In: BORDIEU, Pierre. Poder, derecho y clases sociales. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2001. p. 131-164. Traducción de Mª José Bernuz Beneitez.
- FIORANI, Flavio. Aprender la historia de Cuba: los recuerdos de un esclavo centenario. Confluenze. Rivista di Studi Iberoamericani, v. 2, n. 2, p. 189-201, dez. 2010. Disponível em: <https://confluenze.unibo.it/article/view/2005>. Acesso em: 27 mar. 2019.
- KILOMBA, Grada. A Máscara. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo, n. 16, p.171-180, maio 2016. Tradução de Jessica Oliveira de Jesus. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/clt/article/view/115286>. Acesso em: 16 set. 2018.
- MADDEN, Richard. Poems by a slave in the island of Cuba, recently liberated. London: Thomas Ward And Co., 1840. Disponível em: <https://archive.org/details/poemsbyslaveinis00manz>. Acesso em: 29 out. 2018.
- MANZANO, Juan Francisco. A Autobiografia do poeta-escravo. São Paulo: Hedra, 2015. Tradução e organização de Alex Castro.
- MOLLOY, Silvia. De la sujeción al sujeto: La “Autobiografía” de Juan Francisco Manzano. In: MOLLOY, Silvia. Acto de presencia: La escritura autobiográfica en Hispanoamérica. Ciudad de México: El Colégio de México, 1996. p. 52-77. Traducción de José Esteban Calderón.
- RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.
- SAID, Edward. Representações do intelectual: As Conferências Reith de 1993. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Tradução de Milton Hatoum.
- SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida, Marcos Pereira Feitosa, André Pereira Feitosa.
Palavras-chave: literatura negra hispano-americana; autobiografia; Juan Francisco Manzano; postura dos intelectuais; possibilidade de fala do subalterno.
10 O eu, o outro e a orelha na garrafa com álcool
Pietro Gabriel dos Santos Pacheco
O ser humano, enquanto indivíduo, não pode existir sem o contato com sua comunidade, seja ela familiar, religiosa, política ou social. É algo que se constrói durante a sua jornada, ao longo do contato com o outro. Essa herança adotada abre espaço para a construção da identidade maleável do indivíduo contemporâneo. A noção de África enquanto continente homogêneo limitou por muito tempo qualquer consideração política e intelectual, baseando-se tanto pela existência de semelhança étnico-racial, quanto por sua condição de território explorável economicamente pelo Europeu civilizado (CÉSAIRE, 2010; BIRMINGHAN in CHABAL, 2002). António Lobo Antunes, escritor português contemporâneo e ex-combatente em Angola, após largar as armas, passa a escrever com tinta sobre os fantasmas coloniais que assombram aqueles que voltaram de África. A guerra colonial é um tema recorrente e a consequência do pós-guerra, a partir da memória, sobretudo, é a base para as construções de personagens em constante conflito. Em Até que as pedras se tornem mais leves que a água (2017), seu penúltimo romance, temos a história sob duas perspectivas: a do pai branco, ex-alferez e a do filho preto, objeto de nosso estudo, que é retirado de sua terra natal após a morte brutal de seus pais e o incêndio de sua aldeia. Ao ser levado para Portugal, passa a viver e se adaptar a uma nova formação social e cultural, saindo de Angola, adentram no mundo da antiga Metrópole. O indivíduo, frente à nova cultura percebe-se como o diferente, o outro (BHABHA, 2013) e é a partir daí que a temática da identidade ganha força. Para Isabel Castro Henriques (2003): “O problema central reside na maneira como o Mesmo se consolida a si próprio e simultaneamente repele o Outro” (p. 123-124). Estar em Portugal é ser obrigado a civilizar-se, adquirir práticas e discursos que não são próprios de si. Moldar-se para não sucumbir; embranquecer. Esta adoção de práticas socioculturais se dá pelo caráter maleável da identidade que, segundo Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade, encontra-se sujeita a modificações, alterações e novos comportamentos. Entretanto, até que ponto eles estão sobrepostos à identidade primária? A memória é uma forma de não perder sua própria história (POLLAK, 1989; HALBWACKS, 1990), e um dos processos de construção identitária. Para Frantz Fanon (2017): “falar aqui, além de estar em condições de empregar certa sintaxe, ou possuir a morfologia de tal ou qual língua, é, sobretudo, assumir uma cultura, suportar o peso de uma civilização” (p. 14) voltar ao passado e enxergar-se como parte de algo maior.
Referências
- ANTUNES, Lobo. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. Lisboa: Dom Quixote, 2017.
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. – 2. ed. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
- BIRMINGHAN, David. The End of Empire. In CHABAL, Patrick. A History of Postcolonial Lusophone Africa. Indiana: Indiana University Press, 2002.
- CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Rio de Janeiro: Letras Contemporâneas, 2010.
- FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Bahia: Edufba, 2008.
- HALBAWACKS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
- HENRIQUES, Isabel Castro. Classificar o Outro: historização e flutuação dos conceitos. In RIBEIRO, António Sousa; RIBEIRO, Maria Calafate. Geometrias da memória: configurações pós-coloniais. Porto: Afrontamento, 2016.
- POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silêncio. Disponível em: http://encurtador.com.br/efLO2 . Acesso em 20/06/2019.
Palavras-chave: identidade; memória; história; Lobo Antunes.
11 Travessias do Atlântico Negro: navegando com Fradique Mendes
Dilma Beatriz da Rocha Juliano
A pesquisa em curso, trabalhando com as ficções nas travessias do Atlântico, no triângulo Brasil – África Meridional – Portugal, encontra com Nação Crioula (2011), livro escrito por José Eduardo Agualusa, publicado em 1997. Na tradição epistolar, o autor repõe na cena literária a figura de Carlos Fradique Mendes que, na virada do século XIX para o XX, serviu de crítico dos costumes e da literatura europeia moderna para as investidas de Eça de Queiroz e seus “camaradas do Cenáculo”. Nos dois volumes de Eça de Queiroz, A correspondência de Fradique Mendes e Cartas inéditas de Fradique Mendes e mais páginas esquecidas, o personagem se constitui em uma dessas presenças que impossibilita separar a literatura da vida em carne e osso. Ele aparece no mundo das palavras de Eça de Queiroz em 1867, num encontro ao acaso como tantos são os nossos com a palavra ficcional. Diz Eça de Queiroz: “A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Páscoa, — justamente na semana em que ele regressara da sua viagem à África Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admirável datava de Lisboa do ano remoto de 1867.” (s/d). Fradique Mendes em seu retorno da África Austral parece ser a pista para Agualusa que, em sentido inverso ao de Eça, inicia as cartas desde a chegada a Luanda, passando por Benguela, viajando a Paris e Lisboa, conhecendo o Rio de Janeiro, ainda no Brasil, compra terras e se instala em Olinda. Ao invés de tomar distância, e desde a Europa avaliar a história de colonização portuguesa, Fradique, em Nação Crioula (2011), relata suas impressões e pesa os efeitos da exploração econômica em terras africanas e brasileiras a partir do que experiência, do estar lá, do contato com a terra e com as gentes. Ele sente odores, se espanta com os hábitos, compara as culturas, adoece, se apaixona e a partir dessas experiências se permite repensar a racialização dos negros, colocados a serviço do enriquecimento europeu. Neste sentido, esta comunicação pretende examinar a posição (des)colonizadora do português, Fradique, buscando sustentar a hipótese de que Agualusa não só retoma Eça Queiroz, um português do século XIX anterior às independências políticas em África, mas reinventa Fradique Mendes numa espécie de revisionismo dos gestos colonizadores, de uma história racista, refazendo o desenho das violências que inventaram a raça como razão exploratória, no triângulo Atlântico. Para enfoque conceitual serão acionadas noções teóricas de Franz Fanon (2008) e Achile Mbembe (2017 e2018); e para a crítica histórica o apoio virá de Lilia Schwarcz e Flávio Gomes (2018) e de Célia Azevedo (2004), pretendendo tensionar, principalmente, as concepções de raça, racismo, naquilo que, via literatura, auxiliam o pensar em políticas de alteridade entre sujeitos que partilham uma mesma história de trânsitos culturais. A pesquisa tem apontado para um Fradique Mendes que, desde o título, reconhece a mestiçagem nas travessias e permite redimensionar a noção de nação, tecendo fios de reciprocidade desde aí.
Referências
- AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula. A correspondência secreta de Fradique Mendes. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2011.
- AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco. O negro no imaginário das elites século XIX. São Paulo: Annablume, 2004.
- QUEIROZ, Eça de. A correspondência de Fradique Mendes. (Memórias e notas). Porto: Lello & Irmãos, s/d.
- QUEIROZ, Eça de. Cartas inéditas de Fradique Mendes e mais páginas esquecidas. Porto: Lello & Irmãos, s/d. e liberdade
- SCHWARCZ, Lilia M. e GOMES, Flávio. Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Cia das Letras, 2018.
Palavras-chave: Raça e Racismo; Nação Crioula; José Eduardo Agualusa; Cartas inéditas de Fradique Mendes; Eça de Queiroz.
12 Ayaan Hirsi Ali – existir pela palavra
Patrícia Ribeiro Brasil
Os estudos teóricos pós-coloniais permitem uma possibilidade outra de narrativa às histórias únicas, viabilizando uma releitura dos processos de colonização eurocêntricos como modelo de civilização universal. A presente comunicação diz respeito a uma análise da autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, Infiel (2007). A escritora somali, em situação diaspórica, escreve esse livro da Holanda onde viveu até o ano de 2006. Atualmente, vive sob proteção do governo estadunidense. A política holandesa de origem somali relata suas experiências, por meio do gênero autobiográfico, retomando questões culturais de uma África muçulmana ignorada para muitos. O subtítulo da sua obra, A mulher que desafiou o Islã, nos introduz a uma narrativa que questiona o islamismo em muitos dos seus dispositivos de dominação: a educação, as relações sociais com as mulheres, as relações familiares, as relações étnicas, o casamento, a religião. Juntamente a isso, ela relata também todo o seu processo de fuga e de refugiada na Holanda. A materialidade de seu discurso em sua obra traz, de modo pungente, a religião em sua cultura – islamismo – e que produz um silenciamento opressivo e violento, um apagamento do eu e que só a escritura diaspórica da palavra pode libertar e fazer existir. Ser refugiada em um país europeu com ideais de liberdade distintos do que ela viveu, provocará reflexões contundentes sobre a vida, sobre o ser humano, sobre a individualidade, sobre identidade. Associa-se a essa narrativa, a escritura feminista que extrapola a bipolaridade patriarcalismo/feminismo da condição de pós-colonialidade; a construção identitária dessa mulher marginalizada, que desmascara o imperialismo cultural e que chega ao centro com o poder enunciativo da palavra, é reverberante no campo simbólico do imaginário colonial. Há algo a ser dito, a ser recontado, a ser traduzido desde outro locus, desse outro ponto de vista. Isso vem desde uma outra voz que é legítima e legitimadora. Desde um lugar de enunciação de mulher, negra, colonizada e à margem das centralidades de poder. A literatura é um desses lugares de fala e assumir esse lugar é, como disse a filósofa brasileira Djamila Ribeiro (2019), poder existir, pois se pensa esse lugar de fala como uma forma de refutar a historiografia tradicional e universalizante que hierarquiza saberes e seres. A obra que compõe o corpus desta comunicação recoloca sua enunciadora em um processo, de fato, comunicativo; em uma funcionalidade em que falar é existir plenamente para o outro, como assevera Fanon (2008).
Referências
- ALI, Ayaan Hirsi. Infiel: a mulher que desafiou o Islã. Tradução de Luiz A. de Araújo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
- FANON, Franz. O negro e a linguagem. In: Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira, Salvador, EDUFBA, 2008, p.33-51.
- RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. São Paulo, Pólen, 2019.
Palavras-chave: Ayaan Hirsi Ali; lugar de fala; pós-colonialismo; identidade; islamismo.
13 Pelos vales desencantados da dor: a violência contra as mulheres em Insubmissas lágrimas de mulheres
Luciane de Lima Paim, Patrini Viero Ferreira
O debate sobre a violência contra as mulheres torna-se, a cada dia, uma maneira necessária de denunciar atos tão cruéis e marcantes na vida das vítimas. Segundo as fontes midiáticas atuais, como jornais e redes sociais, ao três dias do mês de fevereiro de 2019, já haviam sido contabilizados 109 casos de feminicídios no Brasil. Nesse sentido, se as mazelas do patriarcado ainda eram motivo de discussões e dúvidas para a sociedade, com tais situações fica evidente que nós mulheres ainda somos reféns de um grupo que vê e materializa a mulher como um objeto, jamais como um sujeito. Para tanto, relacionar esse tema com a literatura brasileira torna-se uma ferramenta de resistência. Ferramenta essa que é capaz de levar para todos os espaços e para todos os grupos sociais a voz e as histórias de mulheres que tiveram a vida marcada por dor, violência e sofrimento. Conceição Evaristo, em grande parte do seu acervo literário, faz questão de representar, através de suas personagens, as histórias dessas mulheres. Assim, o objetivo desse estudo é identificar por quais tipos de violência física passam as personagens apresentadas em Insubmissas Lágrimas de Mulheres (2011). Metodologicamente, foram analisados excertos da narrativa que reforçam o que já foi mencionado por Beauvoir, Butler, Spivak, Bourdie, Scott, Tiburi, entre outros, sobre violência contra mulher, desigualdade de gênero, discriminações raciais, e patriarcalismo, visto que não há como desvincular tais temáticas do tema central. Por fim, conclui-se que como nessa pesquisa a mulher é vista como vítima, afirma-se que das personagens apresentadas pela autora e selecionadas para o estudo, todas sofrem algum tipo de violência.
Referências
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. v. 2. Traduzido por Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
- BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. v. 1. Traduzido por Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
- BOURDIEU, P. A dominação masculina. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
- BUTLER, J. “Sujeitos do sexo/gênero/desejo”. In: Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. Disponível em: http://minhateca.com.br/Angela.Rojo/Galeria/ARTES/BUTLER*2c+Judith.+Problemas+de+Genero+1-2,15243929.pdf>. Acesso em 24 abr. 2019.
- EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
- SCOTT, J. “Gender: A Useful Category of Historical Analysis”. In: Gender and the Politics of History. New York, Columbia University Press, 1988, tradução de Bete Suh.
- SPIVAK, G. C. Can the subaltern speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (eds.). Marxism and the interpretation of culture. Chicago: Chicago Press, 1988.
- TIBURI, M. Feminismo em comum: para todas, todes e todos. 4. ed., Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
Palavras-chave: Violência contra a mulher. Insubmissas lágrimas de mulheres. Conceição Evaristo. Contos brasileiros.
14 A fragilidade dos laços familiares elucidada no retorno ao lar: um estudo do romance The Green Road, de Anne Enright
Carla Luciane Klos Schöninger
Este estudo objetiva analisar o romance The Green Road, romance da escritora irlandesa Anne Enright (2015), considerando os deslocamentos dos personagens a fim de lidar com situações familiares. O romance The Green Road é dividido em duas partes: “Leaving” e “Coming Home”. A primeira parte divide-se em cinco capítulos: Hanna-Ardeevin, Co. Clare – 1980; Dan, New York – 1991; Constance, Co. Limerick-1997; Emmet. Ségou, Mali-2002; Rosaleen, Ardeevin- 2005. Os capítulos se intitulam com os nomes dos quatro filhos, lugares em que vivem e anos correspondentes, o quinto capítulo leva o nome da matriarca da família. A segunda parte é dividida em pequenos capítulos que tratam de locais e situações vivenciadas pela família. Nessa parte ocorre o retorno dos filhos pela estrada verde, tentativa de resgate das relações familiares e um último Natal em que iriam se reunir. O romance trata do deslocamento, da liquidez nas relações familiares, bem como sobre o reconhecimento. O contexto em que os personagens vivem, considera as perspectivas de Bauman (2001), Giddens (2002) e Hall (2006) e a vida dos personagens na cidade a partir da perspectiva de Haesbaert (2014), Gomes (2014) e Bolle (1994). Os personagens deslocam-se para, de alguma forma, poder encontrar a si mesmos e/ reestabelecer relações com o Outro. Os deslocamentos se dão na cidade, entre cidades, entre países e continentes. Esses deslocamentos ocorrem em The Green Road para tratar do resgate de si mesmo nas relações familiares. Portanto, os conceitos de Ottmar Ette sobre deslocamento e movimento são perfeitamente evidenciados neste estudo. É possível analisar conceitos e estudos condizentes com o cenário atual, retratado pelo sociólogo Zygmunt Bauman como contexto líquido. Contexto este em que tudo flui com dinamicidade, exigindo adaptações do indivíduo que, tendo uma “vida líquida”, obriga-se a mudar num curto espaço temporal, o que por vezes impossibilita que os hábitos e rotinas sejam consolidados e até mesmo as relações com a pessoas mais próximas, mostrando a fragilidade dos laços humanos. Ao mesmo tempo, na cidade emerge o medo, a insegurança, o isolamento e as atitudes evidenciam a indiferença com relação ao outro. A investigação da obra The Green Road permite a análise do cenário atual, um contexto líquido; em que fatos, circunstâncias e a forma como os personagens levam a vida resulta em conflitos pessoais, nas relações profissionais e nas relações familiares. Ao sair e posteriormente retornar para o lugar familiar, há de alguma forma um reencontro consigo mesmo.
Palavras-chave: Relações familiares; deslocamentos; contexto líquido; reconhecimento; cidades.
15 A minha casa é onde estou?
Daniela Severo de Souza Scheifler
O cenário é pós-colonial e de forte migração de africanos para o continente europeu. Tem-se aqui um mar mediterrâneo que se transformou em um cemitério a céu aberto, em vista das precárias embarcações que o atravessam, cheias do que se convencionou chamar de refugiados. Nessa paisagem, a escritora Igiaba Scego, através da sua literatura, mistura ficção, autobiografia e militância, ao recontar as estórias da sua infância que incluem acontecimentos históricos marcantes da Somália e da Itália. Em seu trabalho, nos apresenta os horrores históricos do colonialismo italiano que incidiu sobre e explorou a Somália, país dos seus ancestrais. Discute, também, as violências contemporâneas que acontecem na Itália, lugar onde nasceu, imigrante de segunda geração, e no qual também sofreu e sofre a herança do racismo e, portanto, das muitas colonialidades ainda presentes no mundo de hoje. A partir dessas reflexões, este artigo tem por objetivo trabalhar a questão das identidades diaspóricas, segundo Hall (2003) e o racismo que incide violentamente na vida dos africanos que migram para a Europa, frequentemente para o país de seus colonizadores. Visa também trabalhar com o entre-lugar de quem ocupa ou uma espécie de lugar entre parênteses na sociedade, um lugar afastado, mas um lugar de cura, para parafrasear Bhabha (2011), ao falar das minorias. O foco principal da análise será o romance autobiográfico La mia casa è dove sono (SCEGO, 2010) da escritora ítalo-somaliana Igiaba Scego. O estudo elucida, através da voz de Igiaba, as opressões e as inúmeras perdas que impõem a diáspora. Além disso, analisa também a necropolítica com suas práticas de extermínio, conceito de Mbembe (2018), mas também os possíveis caminhos para a descolonização dos saberes e do modo de viver que a reflexão e as experiências da personagem suscitam.
Referências
- BHABHA, Homi. O Bazar Global e o clube dos cavaleiros ingleses. Rio de Janeiro:Ed Rocco, 2011.
- HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Editora UFMG. Belo Horizonte, 2003.
- MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
- SCEGO, Igiaba. La mia casa è dove sono. Torino: Loescher, 2010.
Palavras-chave: literatura pós-colonial; diáspora; entre-lugar; racismo; necropolítica.
16 Deslocamento, abandono e (não) pertencimento no romance Com armas sonolentas: um romance de formação, de Carola Saavedra
Cristiane da Silva Alves
Neste trabalho busca-se refletir sobre o romance Com armas sonolentas: um romance de formação (2018), da escritora Carola Saavedra, chilena de nascimento e radicada no Brasil desde a infância. Tem-se por objetivo investigar a importância dos deslocamentos no desenvolvimento das protagonistas, Anna, Maike e uma terceira não nomeada (a avó). Intenta-se verificar, principalmente, se e como o percurso geográfico e emocional de cada uma dessas mulheres conduz ao rompimento ou à aceitação dos valores patriarcais e opressores da sociedade em que vivem(os), à medida que as suas identidades vão sendo (re)constituídas. Da mesma forma, levando-se em conta o subtítulo escolhido pela autora ao nomear o romance em questão, pretende-se averiguar as características que permitem que o identifiquemos como um romance de formação, ou bildungsroman. É oportuno mencionar, neste caso, que por tratar-se de romance de formação feminino e contemporâneo, apesar de apresentar algumas das características da trajetória de aprendizado e amadurecimento do bildungsroman clássico (de origem alemã), podem ser observadas algumas diferenças naturais (e significativas) que estão presentes na narrativa. Não será incomum, assim, deparar-se com certas particularidades que dizem respeito às questões de gênero e, igualmente, que se relacionam com as novas realidades sociais, históricas, políticas e culturais que cercam as produções literárias atuais. De início, em uma mirada superficial, é possível constatar que, diferentemente do tradicional modelo masculino, o romance de Saavedra não é construído a partir de uma figura central e heroica, mas sim em torno de três mulheres comuns e de suas respectivas trajetórias. Em seus deslocamentos, marcados por percalços, abandonos, desilusões, descobertas e transformações, as personagens-protagonistas obtêm, cada uma a sua maneira, variadas experiências, o que não significa, necessariamente, que elas consigam triunfar e/ou alcançar equilíbrio e integração no seu meio social. Para apoiar as análises, recorre-se às contribuições de Stuart Hall, Simone de Beauvoir, Judith Butler, Mikhail Bakhtin e Cristina Ferreira Pinto, entre outros.
Referências
- BAKHTIN, Mikhail. O romance de educação na história do realismo. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão G. Pereira. 2ª. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 221-276.
- BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
- BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
- HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Organização Liv Sovik; Tradução de Adelaine La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
- HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 11ª. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
- PINTO, Cristina Ferreira. O Bildungsroman feminino: quatro exemplos brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1990.
- SAAVEDRA, Carola. Com armas sonolentas: um romance de formação. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Palavras-chave: Carola Saavedra; literatura de autoria feminina; deslocamento; identidade; bildungsroman.
17 Uma tradição literária de culturas periféricas: o caso da martinicana Françoise Ega e da brasileira Carolina Maria de Jesus
Samanta Vitória Siqueira
Este trabalho apresenta uma primeira aproximação das obras de Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977) e de Françoise Ega (1920 – 1976), respectivamente Quarto de despejo: diário de uma favelada e Lettres à une noire, e pretende traçar um paralelo entre as autoras a fim de pensar em uma tradição literária “entre-lugares”. Em 1960, com a publicação de Quarto de despejo, a escritora negra, favelada e catadora de papel Carolina Maria de Jesus revolucionou sua época ao conseguir adentrar a porta excludente da branca e elitista literatura brasileira. Alcançando a marca de 100 mil exemplares vendidos em poucos meses naquele ano, Carolina também foi publicada em 40 países, com tradução para 14 línguas diferentes. Uma dessas traduções, mais precisamente um pequeno resumo de Quarto de despejo traduzido em francês e veiculado na França pela revista Paris Match, chega às mãos de Françoise Ega, uma martinicana que emigrou para a França durante a Segunda Guerra Mundial. Mulher negra, mãe, escritora e militante dos direitos dos imigrantes caribenhos na França, Françoise teve contato com a obra de Carolina a partir desse resumo que lera na revista, que parecia ser seu único luxo enquanto empregada doméstica em Marselha. É a partir desse contato que Ega não somente se identifica nas palavras da escritora brasileira, como enxerga também o dia a dia de muitas de suas companheiras imigrantes antilhanas ali. Dessa maneira, ela decide escrever um livro em formato de cartas endereçadas a Carolina Maria de Jesus para contar a sua “irmã” brasileira como suas histórias se pareciam. E assim nasce Lettres à une noire, publicado em 1978, após a morte de Françoise e também de Carolina. No livro Carolina (2018), os autores Barbosa e Pinheiro questionam: “Quantos pobres a conhecem, de verdade? Quantos negros foram influenciados por sua obra?” (2018, p. 121). Normalmente sabemos que sua literatura não influenciou e nem foi lida, por exemplo, pelos pobres da favela do Canindé. Ao mesmo tempo, não é coincidência Françoise Ega ter lido Carolina e isso ter suscitado nela a vontade de escrever um livro em resposta, um livro que conte, por sua vez, a história dos pobres, dos negros e dos explorados martinicanos na França. Entendendo que Carolina é fruto de um contexto político-social específico e propício para seu surgimento e sucesso, o trabalho estabelecerá o contato com a obra da escritora martinicana a fim de mostrar que Carolina não é um feito singular, mas sim plural. Inscrevendo-se na discussão de novas identidades que perpassam as fronteiras do nacional, parte-se das reflexões de Bhabha (1998) sobre categorias como entre-lugar para analisar essas identidades culturais periféricas como conciliadoras, mesmo não fazendo parte do mesmo recorte geográfico. O sucesso da obra da brasileira serve como pontapé inicial para o nascimento de uma ramificação, nos termos do crítico italiano Franco Moretti (2008), bastante específica: de mulheres, pobres, favelados, explorados; sujeitos periféricos e marginais que finalmente tomam a palavra e falam por si.
Referências
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
- EGA, Françoise. Lettres à une noire – récit antillais. Paris: Éditions Harmattan, 1978.
- JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
- MORETTI, Franco. A literatura vista de longe. Tradução de Anselmo Pessoa Neto. Porto Alegre: Arquipélago, 2008.
- PINHEIRO, João; BARBOSA, Sirlene. Carolina. 3ª edição. Pesquisa e argumento de Sirlene Barbosa. Roteiros e desenhos de João Pinheiro. São Paulo: Veneta, 2018.
Palavras-chave: culturas periféricas; entre-lugar; Françoise Ega; Carolina Maria de Jesus; ramificação literária.
18 A escrita desfronteirizante de Najat El Hachmi
Luciane da Silva Alves
A escritora Najat El Hachmi nasceu na cidade de Nador, no Marrocos, e migrou aos oito anos com a mãe para Vich, interior da comunidade autônoma da Catalunha, na Espanha, para onde seu pai já havia migrado antes de ela nascer. No primeiro texto publicado pela autora, o ensaio Jo també soc catalana, de 2004, El Hachmi parte de aspectos biográficos para abordar o tema da migração na região da Catalunha e, principalmente, reivindicar seu espaço de pertencimento e denunciar o lugar de “eterno estrangeiro” delegado aos imigrantes. Neste texto já aparecem os temas que posteriormente serão desenvolvidos em suas narrativas ficcionais. Os romances de Najat El Hachmi tratam principalmente da situação das mulheres de origem marroquina que migram para a Espanha. Na condição de sujeitos interculturais e híbridos, as personagens protagonistas de El Hachmi precisam recriar suas identidades a todo instante. Através dos elementos de diferentes culturas presentes nas narrativas e da linguagem híbrida em que as narradoras contam suas histórias, é possível perceber um processo de desfronteirização, como propõe Ottmar Ette (2015), onde se torna difícil definir o que é estrangeiro e o que é próprio, subvertendo as diferentes fronteiras que se apresentam a estes sujeitos: territórios, culturas, gênero e racismo. Neste trabalho, que integra meu projeto de tese “Mulheres migrantes na literatura contemporânea”, analiso a configuração de gênero e identidade das personagens mulheres nas obras La filla estrangera (20015) e L’ultim patriarca (2008), com o intuito de mostrar que o deslocamento pode permitir a existência de espaço de fala e de representação das mulheres migrantes, personagens e escritoras, que apontam para a reconfiguração do cânone tradicional e das fronteiras de todo tipo estabelecidas através de culturas nacionalistas e patriarcais. A partir das ideias de desfronteirização e de escrita em movimento, de Ottmar Ette (2015; 2008), é possível perceber a complexidade deste tipo de texto em cenários culturais ainda marcados por fronteiras discursivas muito fortes e também as contribuições das escritas migrantes a um processo de rearticulação dos cânones nacionais. A escrita de mulheres migrantes, principalmente no caso da autora apresentada, é uma escrita em movimento e movimentadora, que desloca fronteiras físicas e culturais, e também cruza os limites designados aos papéis de gênero e ao lugar de fala.
Referências
- EL HACHMI, Najat. La hija extranjera. Tradução: Rosa María Prats. Barcelona: Planeta, 2015.
- EL HACHMI, Najat. El último patriarca. Tradução de Rosa María Prats. Barcelona: Planeta, 2010.
- EL HACHMI, Najat. Jo també soc catalana. Barcelona: Butxaca, 2010.
- ETTE, Ottmar. Saber sobreviver: a (o)missão da filologia. Trad. Paulo Soethe e Rosani Umbach. Rosani. Curitiba: UFPR, 2015.
- ETTE, Ottmar. Literatura en movimiento. Trad. (esp.) Rosa Maria S. de Maihold. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2008.
Palavras-chave: Najat El Hachmi; Ottmar Ette; migração; gênero; identidade
19 “Isso também é obeah”: creolité e domínio cultural em Vasto Mar de Sargaços
Vanessa Gomes Alves de Oliveira
Em 1966, a autora caribenha Jean Rhys publicou um de seus romances mais conhecidos, Vasto Mar de Sargaços, após anos tentando escrever uma história para a infame personagem de Jane Eyre, de Charlotte Brontë, Bertha Mason. A personagem Crioula no romance inglês é silenciada, e ao invés de falar, rosna e grunhe como um animal. É vista como louca e selvagem. Para Rhys, a representação de uma personagem Crioula como incivilizada e louca é uma visão inglesa, e, portanto, tendenciosa. Vasto Mar de Sargaços vem para dar voz a essa personagem silenciada, contando, através da narrativa, seu caminho até se tornar a mulher louca no sótão em Jane Eyre. O resultado é Antoinette Cosway, uma Crioula branca vivendo em uma casa deplorável com uma família destruída. Ela não pertence a lugar algum; flutua como o Mar de Sargaços que nomeia o romance. Como herdeira de uma grande fortuna, seu destino é se casar com um homem inglês a quem não conhece. Dessa forma, o objetivo do presente trabalho é analisar e explorar o conceito de Creolité de Édouard Glissant, e a forma como este conceito aparece em Vasto Mar de Sargaços através dos personagens apresentados no romance. Além disso, será analisado de que formas o domínio cultural ocorre através do casamento e da suposta loucura da personagem principal, Antoinette, e sua mãe, Annette. Para realizar as analises, serão utilizados como aporte teórico de identidade cultural, Creolité, e a visão imperialista do marido do romance, Stuart Hall, Édouard Glissant, e Elaine Showalter. O romance apresenta as diversas formas sobre como a personagem Antoinette – e sua mãe antes dela – é considerada selvagem e exótica pelo olhar eurocêntrico. Por essa razão, deve ser dominada por seu marido inglês, perdendo, ao longo do caminho, seu o nome, sua sanidade, e sua identidade cultural.
Referências
- GLISSANT, Edouard. Caribbean Discourse: Selected Essays. Translated by: J. Michael Dash. 3rd ed., Virginia: The University Press of Virginia, 1999.
- HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais. Translated by: Adelaine La Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, Claudia Alvares, Francisco Rudiger, Sayonara Amaral. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003
- HALL, Stuart. Essential Essays: Identity and Diaspora. North Carolina: Duke University Press, 2019.
- RHYS, Jean. Vasto Mar de Sargaços. Translated by: Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2012.
- RHYS, Jean. Wide Sargasso Sea. New York: W.W. Norton, 1999.
- SHOWALTER, Elaine. A Literature of Their Own: British Women from Brontë to Lessing. New Jersey: Princeton University Press, 1977.
Palavras-chave: Creolité; Vasto Mar de Sargaços; Jean Rhys; literatura caribenha; pós-colonialismo.
20 TEN (Teatro Experimental do Negro) um “entre-lugar” na cena teatral brasileira do século XX: pensando o teatro de Abdias do Nascimento a partir de uma perspectiva decolonial
Acevesmoreno Flores Piegaz
Este artigo tem como objeto de reflexão o Teatro Experimental do Negro (TEN) inaugurado por Abdias do Nascimento (2004) e seus pares em 1944, enquanto um locus singular tanto no teatro brasileiro, quanto na luta dos movimentos sociais negros no século XX, através de uma perspectiva decolonial. Tal grupo teatral pensou o negro enquanto enunciado e enunciador da cena dramática, assim como cidadão e agente de um Teatro Negro, que nesta reflexão, refere-se ao conjunto de manifestações espetaculares cuja tessitura dramática está ancorada em matriciamentos culturais africanos ressignificados nas produções cênicas de grupos e coletivos teatrais cujos promotores são artista negros. O TEN constitui-se na cena teatral brasileira como um coletivo de resistência cultural enquanto um lugar de fala pós-colonial, trouxe luz a um debate sobre o racismo no teatro, da dramaturgia à encenação, com seus clichês e preconceitos no lugar reservado a atores e atrizes brasileiros negros nas produções nacionais. Nesse viés, o Teatro Experimental do Negro se impôs no cenário cultural do Brasil não através da concessão de espaços pelo establishment, mas, ao contrário, pelo corajoso enfrentamento, pois a “cultura é tornada visível pelo choque cultural” […] (WAGNER, 2012, p.54). O TEN, vanguardista em sua proposta, “incorporou ao projeto a perspectiva emancipatória do negro […] uma vez que o sentido de ser negro foi colocado na perspectiva da negação da suposta inferioridade natural dos negros (ou da superioridade dos brasileiros) ” (ROMÃO, 2005, p.119). Este grupo estreou outra “dimensão” do teatro, da estética e outro olhar do e sobre o mundo plasmado para a cena teatral, como nos revela Ricardo Gaspar Müller (1999). Neste contexto, o Teatro Negro pode ser pensado como um território de fronteira, um entre-lugar no cenário teatral brasileiro cujo objetivo final não se limitou a colocar o negro no “palco”, diz respeito a um contexto artístico mais complexo, em que caminham juntas a cena e a ação política do cidadão brasileiro negro. Assim, “o projeto decolonial reconhece a dominação colonial nas margens/fronteiras externas dos impérios […], bem como reconhece a dominação colonial nas margens/fronteiras internas do império […]” (BERNARDINO-COSTA e GROSFOGUE, 2016, p. 20). O TEN caminhou no sentido periferia/centro, ou nas margens/fronteiras internas, seus artistas/cidadãos negros foram fazendo e pensando o trajeto na ação. Herdeiros desta tradição coletivos, grupos teatrais e performers negros emergem no século XXI com uma dramaturgia negra como resistência cultural em reação ao racismo e as narrativas cênicas do século XX, que afirmavam uma hegemonia branca através da invisibilidade de personagens negros e/ou sua estereotipia – considerando que o estereótipo “[…] é uma forma de conhecimento e identificação que vacila entre o que está sempre ‘no lugar’, já conhecido, e algo que deve ser ansiosamente repetido […]” (BHABHA, p.105). O Teatro Experimental do Negro pode ser pensado como um entre-lugar, uma nova epistemologia no teatro e na dramaturgia nacional em que se tem, pela primeira vez, a negritude como base do pensamento cênico, entendendo esta na perspectiva de Frantz Fanon (2008), de Carlos Gadea (2013) e de Achille Mbembe (2018).
Referências
- BERNARDINO-COSTA, J. e GROSFOGUE, R. Revista Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, Janeiro/Abril, 2016. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/se/v31n1/0102-6992-se-31-01-00015.pdf. Acesso em: 03 mar. 2019.
- BHABHA, K. H. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
- FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
- GADEA, C. A. Negritude e pós-africanidade: crítica das relações raciais contemporâneas. Porto Alegre: Sulina, 2013.
- MBEMBE, A. Crítica da razão negra. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo : n-1 Edições, 2018.
- MÜLLER, R. G. Teatro, política e educação: a experiência histórica do Teatro Experimental do Negro (TEN) – 1945-1968. Educação Popular Afro Brasileira, Florianópolis, v. 1, n.5, p.13-31, 1999.
- NASCIMENTO, A. Teatro experimental do negro: trajetória e reflexões. Estudos Avançados. São Paulo, USP, vol.18, n.50, jan.-br. 2004. pp. 209-224. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142004000100019 >. Acesso em: 15 jul. 2019.
- ROMÃO, J. História da Educação do Negro e outras histórias. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005. Disponível em <http://etnicoracial.mec.gov.br/images/pdf/publicacoes/historia_educacao_negro.pdf>. Acesso em: 25 fev. 2019.
- WAGNER, R. A invenção da cultura. São Paulo: Editora Cosac & Naify, 2012.
Palavras-chave: teatro experimental do negro; entre-lugar; negritude; perspectiva decolonial; racismo.
21 Unindo nações, desfazendo fronteiras: migração, memória e pertencimento em A imensidão íntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf
Mirvana Luz Teixeira
Segundo Benedict Anderson, a ideia de nação esteve associada, por muito tempo, ao conceito de soberania, fazendo com que os sujeitos pertencentes à determinada nação não somente morressem por ela, mas também matassem para manter sua supremacia. Ainda segundo o autor, esse conceito enraizou-se tão fortemente à vida humana que diversas fatalidades históricas se tornaram por ele justificado, e, nesse contexto, a hegemonia de um território moveu as ações dos homens ao longo do tempo. Hodiernamente, todavia, a “comunidade imaginada” conceituada por Anderson torna-se, indo ao encontro da teoria do autor, cada vez mais ilusória, posto que os diversos trânsitos que movimentam os povos – migrações, exílios, diásporas – estão, nos séculos XX e XXI, cada vez mais recorrentes. A migração de uma família libanesa para o Brasil, no início do século XX, foi o que deu início à história do romance aqui selecionado. Em A imensidão íntima dos carneiros, do autor Marcelo Maluf, vemos um sujeito exilar-se de sua terra natal em decorrência do assassinato dos irmãos, no período da Guerra Civil Libanesa. A perseguição religiosa que tomou a vida de Adib e Rafiq trouxe o personagem Assaad Simão Maluf ao Brasil, e o afastou não somente de sua terra, mas também de sua origem, de sua língua, de sua identificação com o Líbano. A construção identitária do personagem, nesse âmbito, passou pela negação da nação de origem, da exclusão de todas as referências do passado, para uma tentativa – por muitos anos falha – de pertencimento em terras brasileiras. Esse pertencimento só ocorreu, no romance, quando o personagem, por meio da escrita em um caderno de memórias, elaborou seu passado e compreendeu o trauma familiar. Assim, o objetivo desse trabalho, é perceber como a ideia de nação, conceituada por Anderson, existe no romance selecionado. Líbano e Brasil estão em Assaad, porém o personagem precisou percorrer uma longa trajetória para que ambas nações coubessem em si e integrassem sua identidade. Para depreender esse percurso, utilizarei, em um primeiro momento, o trabalho de Sigmund Freud, com a intenção de conceituar trauma e perceber as implicações que esse tem na vida de Assaad. A escrita da memória parece ser essencial para que o personagem encontre o elo entre os dois países em que viveu e, para estudar essa relação, utilizarei os estudos de Aleida Assmann, Jan Assmann, Eric Santner e Michel Pollak. Por fim, em vista de analisar os conceitos de migrância, identidade e pertencimento, Julia Kristeva, Pierre Ouellet, Walter Mignolo, Stuart Hall e Marcio Seligmann-Silva complementarão a base teórica do trabalho aqui proposto.
Referências
- ANDERSON, B. Comunidades imaginadas: Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 26-34.
- ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Tradução de Paulo Soethe. Campinas: Editora da UNICAMP, 2011.
- ASSMANN, Jan. Religión y memoria cultural. Diez estudios. Trad. de Marcelo G. Burello e Karen Saban. Buenos Ayres: Lilmod, Libros de la Araucaria, 2008.
- FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. Disponível em: http://conexoesclinicas.com.br/wp-content/uploads/2015/01/freud-sigmund-obras-completas-imago-vol-18-1920-1922.pdf
- FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. Disponível em: https://carlosbarros666.files.wordpress.com/2010/10/lutoemelancolia1.pdf. Acessado em 20 de Setembro de 2018.
- HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu (org. e trad.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais.. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133.
- KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Trad. Maria Carlota Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
- MALUF, Marcelo. A imensidão Íntima dos Carneiros. São Paulo: Reformatório, 2015.
- MIGNOLO, Walter. Uma outra língua. Mapas da linguística, geografias literárias, paisagens culturais. Histórias locais. Projetos globais. Colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: UFMG, 2003. p. 297-339.
- OUELLET, Pierre. Palavras Migratórias. As identidades migrantes: a paixão pelo outro. In:
- QUEIROZ, Maria José de. Os Males da Ausência, ou a literatura do Exílio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998.
- POLLAK, Michael. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos. vol. 5, no. 10. Rio de Janeiro, 1992, p. 200-212.
- SANTNER, Eric. En torno a los límites de la representación. In: FRIEDLANDER, Saul (Org.). En torno a los límites de la representación. Bernal: Universidad Nacional de Quilmes Editorial, 2007.
- SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, Memória, Literatura: o testemunho na Era das Catástrofes. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003.
Palavras-chave: Escrita; Identidade; Migração; Nação; Pertencimento.
22 No escuro do porão: o conflito identitário em The Opposite House, de Helen Oyeyemi
Diego Bonatti, Ana Lúcia Tettamanzy
Este trabalho tem por objetivo investigar o conflito identitário representado na obra The Opposite House (2007), da escritora Helen Oyeyemi. Nesta obra, é narrada a tensão vivida por Yemaja Saramagua, uma jovem negra cubana que migra com a família para Londres, fato que, somado à descoberta de uma gravidez, a leva a experienciar uma crise identitária. Na narrativa, a protagonista não consegue lidar com o embate causado por se sentir dividida entre espaços, culturas, modos de ser e agir aparentemente antagônicos. Enquanto sujeito marcado pela herança colonial, Yemaja representa a oposição existente entre colonizador e colonizado à medida que é vítima do racismo, da mesma forma como se percebe deslocada geográfica e culturalmente em relação à Europa. A crise identitária leva a protagonista a buscar nas memórias de Cuba o espaço que considera original, o lugar aonde pertence, seu lar. A figura da casa, nessa perspectiva, surge como elemento fundamental para expressar o desejo de pertencer e encontrar uma resposta para seu problema de identidade. A tentativa de habitar a casa imaginária faz com que a personagem transite por vários cômodos, mas acabe encontrando no porão um lugar que traduz metaforicamente os sentimentos por ela vividos. O porão, conforme Bachelard (1993), possui uma significação ambígua, por vezes irracional, o que pode ser aproximado dos diversos momentos críticos em que a personagem tem surtos ao questionar sua identidade. A identidade do sujeito pós-colonial, para Hall (2003), é relacionada com a posição que o sujeito assume em determinados contextos, nunca essencializada ou original, sendo construída e reconstruída ao passo que o sujeito encontra seus “outros”, isto é, vive o sentimento de diferença. Experienciar outra cultura, ver-se a partir da outridade, ou desprender os laços físicos com um determinado espaço podem ser fatos que causem traumas no indivíduo. O trauma, conforme Freud (1996), Caruth (2000) e Selligman-Silva (2008) é a repetição de um evento que causou impacto sobre o sujeito e que passa a ser repetido inconscientemente na tentativa de superá-lo. Segundo Bhabha (2001), o processo de deslocamento, por conseguinte, coloca o sujeito pós-colonial numa posição intermediária, de orientação a partir do terceiro espaço, o entre-lugar, um local que permite pensar a cultura não a partir de binarismos, mas sim enquanto uma nova possibilidade, que considere o múltiplo e o diverso. A indecisão entre adotar uma ou outra identidade, ou seja, a divisão entre o seu lugar, e o lugar ocupado pelo Outro é, de acordo com Ouellet (2012), uma situação comum na pós-colonialidade.
Referências
- BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001.
- BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
- CARUTH, Cathy. Modalidades do despertar traumático – Freud, Lacan e a ética da memória. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio; NESTROVISKI, Nelson. (orgs.). Catástrofe e representação: ensaios. São Paulo: Escuta, 2000. p.111-136.
- FREUD, Sigmund. (1920) Além do princípio de prazer. In: FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 11-75. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18).
- HALL, Stuart. Da diáspora: Identidades e mediações culturais. Trad. Adelaine La Guardia Resende et al.Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. 1ª reimpressão.
- OUELLET, Pierre. As palavras migratórias [L’éspirit migrateur]. Tradução de Luciano P. Moraes. Cadernos PPGL/Furg, Rio Grande, n. 7, jun. 2012. (Série Traduções).
- OYEYEMI, Helen. The Opposite House. Bloomsbury: Londres, 2007.
- SELIGMANN-SILVA, Márcio. Narrar o trauma – A questão dos testemunhos de catástrofes históricas. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 20, n. 1, p. 65-82, 2008. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/pc/v20n1/05> Acesso em 15 jul. 2019.
Palavras-chave: Conflito identitário; Deslocamento; Literatura pós-colonial; The Opposite House; Helen Oyeyemi.
23 Alteridade em Adriana Lisboa: o conto “Feelings”
Felipe Maropo, Rauer Ribeiro Rodrigues
A presente comunicação se debruça sobre o conto “Feelings”, de Adriana Lisboa. Essa escolha se justifica na medida em que temos estudado, há um tempo, autores brasileiros que têm produzido literatura ficcional e que tenham sua produção enquadrada na chamada “literatura migrante” (PORTO; TORRES, 2010), e mais especificamente na chamada “literatura da diáspora brasileira” (VIEIRA, 2015). Preocupados com as questões relacionadas à migrância, estudamos como ela é representada, em múltiplos aspectos (alteridade, saudade, estranhamento, etc.), em textos literários de autores que tenham vivência migrante. Este é o caso de Adriana Lisboa, autora brasileira que vem se destacando no cenário nacional e internacional pela sua produção, com boa recepção tanto pelo público leitor como pela crítica especializada, o que tem resultado em prêmios a seus livros e em traduções de suas obras. Lisboa, pelo que constatamos em seus textos, trata, direta ou indiretamente, de aspectos relacionados ao ato de migrar. O conceito de “literatura migrante” enfatiza o conceito de “transculturação”, de contato entre culturas, especialmente vivenciada pelos autores, que se modificam no processo e que geram uma produção nova, híbrida. Vieira (2015) adota a mesma perspectiva ao compulsar a obra de autores brasileiros que migraram e produziram no exterior. Esses estudiosos partem do pressuposto de que essa produção é distinta muito em função das vivências e experiências migrantes dos autores. Utilizamos referencial da Teoria Literária, mais especificamente das Teorias do Conto e das Teorias da Narrativa, para, através da análise dos elementos constituintes do texto, sugerir uma interpretação, sem deixar de vincular aos aspectos sociológicos das mobilidades culturais (BERND, 2010). No conto sob análise, Adriana Lisboa, além de tratar da migrância de forma em geral, enfatiza o aspecto da alteridade.
Referências
- BERND, Zilá (org.). Dicionário das mobilidades culturais: percursos americanos. Porto Alegre: Literalis, 2010.
- LISBOA, Adriana. Feelings. In: LISBOA, Adriana. O sucesso. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016.
- PORTO, Maria Bernadette; TORRES, Sonia. Literaturas migrantes. In: FIGUEIREDO, Eurídice (org.). Conceitos de Literatura e Cultura. 2. ed. Niterói, EdUFF; Juiz de Fora: EdUFJF, 2010.
- VIEIRA, Else R. P. (org.). Escritores da diáspora brasileira: ações editoriais e processos de alteridade. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2015.
Palavras-chave: Adriana Lisboa; diáspora brasileira; literatura migrante; migração; mobilidades culturais.
24 “E as ervas de Ossanha no chimarrão”: rumo a um negro imaginário rural dos Pampas
Ryan Benjamin Morrison
Com a publicação de Poemas Regionais de Oliveira Silveira em 1968, a negritude se reinsere no imaginário rural dos Pampas sul-rio-grandenses, uma zona historicamente tipificada pelo personagem do gaúcho e pela sócio-economia pecuária. Os processos de branqueamento e o legado deles no movimento folclórico brasileiro (1947-1964) deslocam temporal e espacialmente o corpo negro nesse território. A onipresente lenda do Negrinho do Pastoreio virá a ocupar, por parte do Estado, o lugar da negritude nos Pampas. Significa uma presença espectral e folclorizada que reproduz a violência sobre o corpo negro e remete a escravocracia brasileira espalhada, até hoje, em iconografia e literatura ao longo do Estado. A noção do “Afro-gaúcho”, contextualizada por Silveira, sincretiza a diáspora africana com o ser pampeano. Os poemas do militante negro encarnam a cosmovisão e subjetividade do negro oriundo dos Pampas subestimada tanto pela hegemonia cultural branca da região quanto, muitas vezes, pelo Movimento Negro de matriz urbana. Este trabalho ressalta os elementos centrais dessa subjetividade rural e os traçam na poesia negra sul-rio-grandense da contemporaneidade. Além de seleções de Obra Reunida (2012) de Silveira, analiso poemas de três coletâneas contemporâneas: Pretessência (2016) do sarau porto-alegrense Sopapo Poético, e Negras Palavras Gaúchas (2013) e Negras Palavras Gaúchas 2 (2018) organizadas por Oscar Henrique Marques Cardoso. A base teórica desta análise parte dos estudos negros ao longo da Diáspora Africana nas Américas. O trabalho das negras norte-americanas Carolyn Finney (2014) e Katherine McKittrick (2006) desconstrói a relação entre a negritude e o mato, os espaços rurais e outras geografias historicamente representadas apenas por brancos. A noção de Amefricanidade de Lélia González (1988) exige a subjetividade negra na formação do continente americano, abordado aqui no microcosmo dos Pampas, enquanto as contribuições de Djamila Ribeiro (2018) necessitam uma leitura interseccional das poetisas e os poetas analisados nessa apresentação. Esse estudo forma parte de um projeto maior que utiliza literatura, iconografia e oralidade em uma releitura racializada dos pampas fronteiriços entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina. Enquanto a hegemonia cultural da região é afirmada através do apagamento do corpo negro, meu trabalho refuta essa afirmação precisamente ao localizar a negritude em uma região real e imaginária: o que eu chamo de “Afro-pampas.”
Referências
- FINNEY, Carolyn. Black Faces, White Spaces: Reimagining the Relationship of African Americans to the Great Outdoors. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2014.
- GONZÁLEZ, Lélia. “A categoria político-cultural de amefricanidade”. In: Tempo Brasileiro, núm. 92/93, 1988, 69-82.
- McKITTRICK, Katherine. Demonic Grounds: Black Women and the Cartographies of Struggle. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2006.
- Negras Palavras Gaúchas. Org. Oscar Henrique Marques Cardoso. Porto Alegre: Evangraf, 2013.
- Negras Palavras Gaúchas 2. Org. Oscar Henrique Marques Cardoso. Porto Alegre: Evangraf, 2018.
- RIBEIRO, Djamila. Quem tem medo do feminismo negro? São Paulo: Companhia das letras, 2018.
- SILVEIRA, Oliveira. Obra reunida. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 2012.
- Pretessência. Org. Lilian Marques. Porto Alegre: Libretos, 2016.
Palavras-chave: Afro-pampas, Afro-gaúcho, Oliveira Silveira, Sopapo Poético, territórios negros
25 Juana Manso: uma autora latino-americana
Adriele Albuquerque de Souza
Este trabalho tem como objetivo identificar o papel de Juana Manso (Buenos Aires, 1819 – 1875), autora argentina, na literatura latino-americana. Justifica-se pela necessidade de dar visibilidade e de aprofundar os estudos críticos sobre as obras das romancistas latino-americanas do século XIX, a fim de contribuir para uma reescrita da literatura latino-americana em que as vozes femininas (passadas e presentes) também sejam ouvidas. A partir do livro Ficções de Fundação: os romances nacionais da América Latina (1991), da crítica estadunidense Doris Sommer, discuto a relação entre a escrita de romances e a fundação das nações em nossa América, de modo que investigo a produção feminina em meio a esse processo histórico. Tendo como referência complementar à Sommer a Antología de escritoras hispanoamericanas del siglo XIX (2012), da professora argentina Susana Regazzoni, contextualizo a realidade relacionada às romancistas do século XIX e as redes literárias (transacionais) estabelecidas por elas na América Latina. Apresento, ainda, alguns dados biográficos de Juana Manso, contemporânea dos grandes intelectuais do século XIX, de modo que dou destaque ao Jornal das Senhoras (1852), obra que publica no Brasil, quando do seu exílio, devido à ditadura do caudilho Juan Manuel de Rosas (1793 – 1877) na Argentina. Por fim, analiso seu primeiro romance, Misterios del Plata (1852), publicado n’O Jornal… e La família del Comendador (1854), romance publicado em Album de Señoritas (1854), periódico argentino. Como resultados parciais, concluo que o papel de Juana Manso na literatura latino-americana se dá pelas diversas produções literárias que publica em alguns países pelos quais passa, quais sejam Argentina, Brasil e Uruguai, tendo seus jornais e romances como articuladores de uma conexão literária transnacional. Isto é, entendo que Manso, devido à situação de exílio e migração, ainda que talvez não conscientemente, une países latino-americanos, com produções em línguas diferentes (espanhol e português), justamente a partir de sua produção literária, sendo uma figura interessante para a reflexão sobre os limites do nacional para a literatura. Além disso, a partir de Misterios… apresenta outro olhar e representação sobre a figura do gaucho argentino, divergente em comparação às obras dos canônicos Domingo Faustino Sarmiento (1848 – 1857), José Mármol (1817 – 1871) e José Hernández (1834 – 1886), e, através de La família…, denuncia a escravidão no Brasil, também representando a população negra brasileira desde a perspectiva de imigrante branca refugiada em terras cariocas.
Referências
- MANSO, Juana. O Jornal das Senhoras: Modas, Litteratura, Bellas-Artes, Theatros e Critica. Rio de Janeiro: Typhografia PARISIENSE, 1852.
- MANSO, Juana. La familia del Comendador. Buenos Aires: Colihue: Biblioteca Nacional de la República de Argentina, 2006.
- REGAZZONI, Susanna. Antología de las escritoras hispanoamericanas. Madrid: Cátedra, 2012.
- SOMMER, Doris. Ficções de Fundação: os romances nacionais da América Latina. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.
Palavras-chave: Juana Manso; Literatura latino-americana; Misterios del Plata; Mulheres; gaucho/gaúcho; representação negra
26 A voz da mulher-mãe na escrita de Conceição Evaristo
Elen Karla Sousa da Silva, Daniel Conte
Este trabalho analisa a representação da mulher-mãe em narrativas de Conceição Evaristo. Há um novo prisma para as relações entre a mulher e a maternidade em narrativas construídas na literatura contemporânea brasileira de autoria feminina. Por bastante tempo, o olhar para a maternidade foi constituído por uma cultura patriarcal, como algo “divino, perfeito”, contudo, a partir da atual perspectiva da mulher/mãe, esta deixa de ser retratada como coadjuvante e passa a atuar como protagonista da sua história. O conceito de maternidade ajustada aos moldes patriarcais reconhece a “mãe perfeita” como sendo a que protege, cuida, ama e se sacrifica pelos filhos. Entretanto, é importante apontarmos para o conhecimento de uma visão sobre a mulher-mãe que busca romper os padrões patriarcais a partir da literatura e que diariamente é fortalecida em nossa sociedade. A temática sobre a maternidade surge na escrita de Conceição Evaristo por influência de sua mãe: Joana, que apesar de não possuir estudo, escrevia poemas e pensamentos em cadernos. A representação materna como criadora e a cultura da oralidade exercida dentro de casa fizeram com que Evaristo crescesse rodeada por palavras, mesmo que distante dos livros. Entre os referenciais teóricos e ficcionais temos: hooks (2018), Spivak (2010), Davis (2016), Akotirene (2018), Evaristo (2003; 2008; 2011; 2014) entre outros (as).
Referências
- AKOTIRENE, Carla. O que é interseccionalidade? Belo Horizonte – MG. Letramento: Justificando, 2018.
- bell hooks. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 2018.
- DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
- EVARISTO, Conceição. “Eu-mulher”. In.: BERND, Zilá (org). Antologia de poesia afro-brasileira: 150 anos de consciência negra no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2011.
- EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
- EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza, 2003.
- EVARISTO, Conceição. Olhos D’água. 1. Ed. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2014.
- EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
- EVARISTO, Conceição. Insubmissas lágrimas de mulheres. Belo Horizonte: Nandyala, 2011.
- SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Palavras-chave: Feminino; Representação; Conceição Evaristo; Maternidade
27 Letra, voz e imagem femininas retomando o sagrado: o artivismo indígena de Eliane Potiguara, Katu Mirim e Moara Brasil
Paloma de Melo Henrique
A invasão e ocupação ontológica ocidental (ESCOBAR, 2016) das terras hoje brasileiras pelos europeus trouxeram consigo a normatividade binária que conecta gênero e civilização, concentrando-se no apagamento de práticas comunitárias ecológicas, conhecimentos de cultivo, de tecelagem, do cosmos, além da mudança e do controle das práticas reprodutivas e sexuais. Para Lugones (2014), podemos observar, a partir disso, o vínculo entre a introdução colonial do conceito moderno instrumental da natureza como central para o capitalismo e a introdução colonial do conceito moderno de gênero. A dicotomia básica ocidental humano/não humano é, então, condutora de diversas opressões relacionadas aos corpos indígenas feminilizados, à terra e a outros seres do cosmos. Nesse cenário de apagamento e violência, as mulheres originárias, no Brasil, têm se inserido cada vez mais em práticas artísticas e literárias, o que se relaciona com o crescente protagonismo das mesmas nos movimentos de resistência indígena. Neste trabalho, apresento as produções artísticas de três mulheres indígenas como parte de um processo de retomada do sagrado e de reexistência em um mundo globalizado, urbanizado, que tende à homogeneização. Os percursos da escritora Eliane Potiguara, da rapper Katu Mirim e da artista visual Moara Brasil evidenciam os deslocamentos de existências, nomeadamente das mulheres indígenas em diferentes contextos, silenciadas pelo poder colonial, e denunciam como a colonialidade (QUIJANO, 1992) afeta a materialidade dos corpos, provocando conflitos de múltiplas resistências. Salientamos aqui, não o caráter híbrido das suas produções, mas o caráter conflituoso, ch’ixi nos termos de Cusicanqui (2010), em que as artistas se utilizam de formas ocidentalizadas para justamente contestar a cultura ocidental. As obras das autoras manifestam, assim, um tensionamento do lócus fraturado pela evidente intensificação das relações hierárquicas generificadas e racializadas coloniais, em prol de epistemes e ontologias indígenas relacionais.
Referências
- CUSICANQUI, S. R. Ch’xinakax utxiwa: una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón, 2010.
- ESCOBAR, Arturo. Sentipensar con la Tierra: Las Luchas Territoriales y la Dimensión Ontológica de las Epistemologías del Sur. Revista de Antropologia Iberoamericana, volume 11, número 1, jan-abr 2016, p. 11-32.
- LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, v. 22, n. 3, p. 935-952, 2015.
- QUIJANO, A. Colonialidad y Modernidad/Racionalidad. In: H. Bonilla (Orgs) Los Conquistados: 1492 y la población indígena de las Américas. FLACSO / Ediciones Libri Mundi, Quito, 1992 (págs. 437-449).
Palavras-chave: literatura indígena; rap indígena; arte indígena; mulheres indígenas; colonialidade.
28 O corpo-guerrilheiro no corpo-nação: contaminação, abjeção e ressignificação no corpo-romance de Herbert Daniel
Anselmo Peres Alós
Este trabalho pretende discutir e analisar o romance brasileiro Meu corpo daria um romance, escrito por Herbert Daniel (cuja extensa produção literária vem sendo solene e sistematicamente ignorada pelos estudos no campo da literatura brasileira) e publicado pela primeira vez em 1984. O foco da discussão é compreender como Daniel promove a articulação retórica entre corpo, desejo e revolução como conceitos fundamentais para uma visão emancipatória da sexualidade (em especial da homossexualidade masculina) no contexto de luta e resistência à ditadura brasileira ao longo do final do século XX. Há uma inegável dimensão cultural, discursiva, mesmo linguística na composição da materialidade do corpo, e Herbert Daniel não está alheio a esse dado. Entretanto, cumpre ressaltar que dizer que a realidade humana só pode ser compreendida pela mediação da linguagem não implica negar, suspender ou não reconhecer a materialidade e a concretude do corpo como realidade vivida, como carnalidade. Seguindo aqui os argumentos de Elizabeth Grosz em Volatile bodies (1994), podemos pensar que, para Herbert Daniel, a compreensão do corpo se dá como algo concomitantemente imanente e transcendente. As representações do corpo através do discurso literário (bem como em outras modalidades artísticas) podem ser vistas como índice dos processos de transformação histórica, na medida em que inscrevem de maneira dialética as relações de subjetividade/objetividade e os processos de opressão, subordinação e subversão cultural. A literatura, particularmente, configurou-se ao longo da história ocidental como campo simbólico assombrado pela presença do corpo, tanto em termos de reiteração (mímesis) quanto em termos de subversão (rupturas de viés performativo).
Referências
- DANIEL, Herbert. Meu corpo daria um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1984.
- GROSZ, Elizabeth. Volatile bodies: toward a corporeal feminism. Bloomington: Indiana University Press, 1994.
Palavras-chave: Herbert Daniel; Meu corpo daria um romance; corpo; exílio; nação.
29 Em busca de uma literatura yanomami
Pedro Mandagará
Até o presente momento e na maior parte dos estudos, a literatura indígena produzida no Brasil vem sendo tratada em bloco, ao menos na área de Letras. As poucas exceções dizem respeito a trabalhos sobre a oralidade de diversos povos, trabalhos que, desde o ponto de vista de diversas disciplinas (estudos literários, linguística, antropologia, musicologia) vêm se debruçando sobre poéticas orais próprias e específicas dos povos, incluindo a análise e descrição de gêneros orais. No caso da produção escrita, textos de autores indígenas vindos de diversos povos são tratados em conjunto, muitas vezes sem atenção a suas especificidades. Neste trabalho, proponho o exercício de buscar o que seria uma “literatura yanomami”, incluindo tanto sua produção oral quanto escrita. Para tanto, foi feito um levantamento de publicações de textualidade yanomami. Após apresentar o levantamento, concentrou-se a leitura em três obras características: Folk Literature of the Yanomami Indians (Wilbert), os quatro livros dos pajés Parahiteri publicados na Coleção Mundo Indígena, da Editora Hedra, e A queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Por fim, especula-se sobre como a possibilidade de uma literatura yanomami põe em questão o paradigma nacionalista da História Literária.
Palavras-chave: História da Literatura, Literatura Indígena, Yanomami.
