Tag: Direitos Humanos

Agathe Habyarimana (1942)

Política e primeira-dama de Ruanda. Nasceu como Agathe, em Kanzinga, no norte de Ruanda, na região do Bushiru.  Pertence a uma família hutu politicamente influente integrada por latifundiários, adversária dos tutsis durante o período colonial.   

Em 1962, casou-se com Juvénal Habyarimana, futuro presidente do país, e veio a exercer grande influência em seu governo, com atuação no Mouvement Révolutionaire National pour la Democratie et le Développement – MRND (Movimento Republicano Nacional para a Democracia e o Desenvolvimento). Por isto, ficou conhecida como “Kanjogera”, o nome da notória mãe do rei ruandense, Musinga. Não era uma referência de respeito, pois segundo as tradições aquela governanta fazia de tudo para manter o poder e status de sua família, incluindo perpetrando assassinatos.

Na década de 1980 ela se cercou de um seleto grupo de poderosos que constituíam o azaku, o grupo precursor da organização extremista Hutu Power (poder Hutu) que foi responsável por promover a ideologia genocida que formou a base para os assassinatos em massa em 1994. O akazu permitiu a ela  uma posição de poder e influência sobre a administração de seu marido, dominando o desenvolvimento de políticas por meio de sua colaboração com oficiais militares de alto escalão e influentes políticos. Muitos de seus integrantes foram identificados como líderes e perpetradores do genocídio durante os julgamentos em curso no Tribunal Criminal Internacional para Ruanda, e Agathe Habyarimana aparece citada nominalmente durante todo o processo.

Segundo alguns, a posição de Juvénal Habyarimana em um acordo de compartilhamento de poder com os tutsis entrava em choque com a posição de Agathe em relação à supremacia hutu, portanto levando-a a facilitar o assassinato do marido.  Em 6 de abril de 1994, o avião que levava o presidente foi derrubado, sendo este o evento que desencadeou os cem dias de genocídio que definiram a história recente de Ruanda. 

Escoltada do país por tropas francesas, recebeu uma quantia de 40.000 dólares do governo francês de um fundo destinado a refugiados ruandeses.  Logo depois, em um programa na televisão belga, denunciou a Frente Patriótica Ruandesa, dominada pelos tutsis, por derrubar o avião de seu marido, dirigindo a atenção para a força rebelde de Uganda que era composta por Tutsis. Foi identificada por alguns como financiadora, organizadora e legitimadora dos assassinatos de tutsis.

Ela fundou a Radio-Télévision Libre des Mille Collines – RTLM, a estação de rádio cujos comentaristas e funcionários foram responsabilizados por incitar o ódio étnico e a violência entre os hutus e os tutsis.  Foi a transmissão retórica e odiosa na RTLM que incitou o genocídio, encorajando os perpetradores durante os assassinatos de abril de 1994.

Depois de deixar Ruanda, Habyarimana estabeleceu-se no Quênia, onde permaneceu até 1996, e estabeleceu ligações com  Mobutu Sese Seko, do Zaire (hoje República Democrática do Congo), e com Daniel Arap Moi, do Quênia, líderes de regimes corruptos, em regimes de governo autoritários. Passou também alguns anos na França na primeira década do século XXI, embora tenha sido movido contra ela um mandado internacional de extradição, para que fosse julgada em seu país por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

BIBLIOGRAFIA

BUTARE, Innocent. Une jeune femme sur un bateau ivre: Agathe Uwilingiyimana du Rwanda. African Books Collective, 2019. Project MUSE muse.jhu.edu/book/67120

RECKER, Sterling. “Agathe Habyarimana”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 525-527.

Aicha Ech-Chenna (1941)

Assistente Social marroquina e ativista pelo direito das mulheres. Nasceu em Casablanca e passou sua infância em Marrakech. Retornou para Casablanca em 1953 para continuar seus estudos em francês na Escola Foch e no Lycée Joffre.

Começou a carreira como secretária  de uma clínica médica, trabalhando em um programa de assistência portadores de hanseníase e também em um laboratório especializado em tuberculose. Posteriormente estudou e se formou em Enfermagem

As dificuldades financeiras que teve durante sua infância e vida adulta influenciaram na sua atuação em serviço comunitário. Foi voluntária social por mais de cinquenta anos. Dedicou sua carreira a lidar com problemas relacionados a consciência médica, proteção de crianças abusadas e mulheres em situação de vulnerabilidade. Ficou conhecida e foi muito criticada por discutir tabus sociais, inclusive recebendo ameaças por isso.

Entre 1962 e 1980, trabalhou no Ministério da Saúde em Casablanca e foi pioneira no debate nacional de planejamento familiar, assim como desafiou as visões tradicionais sobre gravidez e papel da mulher na família, forçando tais discussões na sociedade. Em 1985 criou em Casablanca a Association Solidarité Féminine (Associação de Solidaridade Feminina),  para auxiliar mães solteiras e crianças abusadas, com sedes espalhadas em todo o Marrocos.

Também escreveu o livro intitulado Miseria: témoignages (Miséria: testemunhos) (1996), com histórias de vinte mulheres donas de casa abusadas e crianças abandonadas.

Aicha recebeu prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio de Direitos Humanos da República Francesa (2002) e o Prêmio do Clube Internacional das Mulheres em Frankfurt (2005). 

BIBLIOGRAFIA

BOUGROUM, lham. Aïcha Ech-Chenna, la voix des femmes sans voix au Maroc. In: Colloque international Pleins feux sur les femmes (in)visibles, Université de Lorraine, Nancy, 2018: https://hal.univ-lorraine.fr/hal-01915896

BOUM, Aomar. “Aicha Chenna”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 63-64.

ECH-CHENNA, Aïcha, Miseria: témoignages. Casablanca: Le Fennec,1996.

Albertina Nontsikelelo Sisulu (1918- 2011)

Ativista antiapartheid, esposa do líder do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano) Walter Sisulu, ganhou proeminência por conta própria e recebeu a denominação MaSisulu, “mãe da nação”.

Nasceu em Transkei, no Cabo Oriental, sendo a segunda de cinco crianças. Frequentou a escola primária no distrito de Tsomo, a escola secundária e depois a faculdade católica chamada Maria Zell, que lhe permitu ser professora. Ela mudou-se para Johanesburgo em 1941 e foi treinada no Hospital Geral de Não-Europeus, qualificando-se como enfermeira geral e parteira. Trabalhava no Hospital Geral de Johanesburgo quando conheceu Walter Sisulu, que era membro da ANC, e com quem se casou em 1944.

Em 1949 Albertina passou a fazer parte da Liga das Mulheres do ANC, já durante o regime do Apartheid. Ela foi uma das 20.000 mulheres que marcharam rumo a Pretória em protesto contra as leis do passe (1956). Sua maior preocupação era com o impacto da segregação racial sobre as crianças em decorrência da Bantu Education Act (Lei de Educação Bantu), criada em 1953, que restringia a formação das crianças nas línguas bantu ao Departamento de Assuntos dos Nativos, criando além disso escolas segregadas, o que motivou reações, protestos e boicotes.

Por sua liderança ela foi presa em 1958 e detida em vários outros momentos, enquanto Walter foi condenado à prisão perpétua em 1964. Seu ativismo teve continuidade, e em 1983 ela foi co-presidente da recém formada Frente Democrática Unida, que a colocou mais uma vez na mira das autoridades sul-africanas que detinham o poder. Após a libertação do marido, em 1989, Albertina voltou a participar da organização da Liga das Mulheres e em 1994 foi eleita para o parlamento, onde atuou até 1999, quando ela e o marido deixaram a vida pública.

Em 2011 ela morreu aos 92 anos de idade, e continua sendo uma fonte de inspiração. Como disse: “Embora a política tenha feito minha vida áspera, não há absolutamente nada de que me arrependa sobre o que fiz e o que aconteceu comigo e com a minha família ao longo de todos esses anos. Em vez disso, eu fui fortalecida e me sinto mais mulher do que eu teria sido se minha vida tivesse sido diferente”.

BIBLIOGRAFIA

CHETTY, Suryakanthie. “Albertina Nontsikelelo Sisulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 398-399.

SISULU, E..   Walter and Albertina Sisulu: in our lifetime. Cape Town: David Philip, 2002.

WORDEN, N. The making of modern South Africa: conquest, segregation and Apartheid. Oxford: Blackwell Publishers, 1994.

Amina Lawal (1972)

Seu nome completo é Amina Lawal Kurami. Nascida no estado de Katsina, na área cultural hauçá, norte da Nigéria,foi condenada à morte por apedrejamento no ano de 2002 sob acusação de ter cometido adultério.  A sentença foi determinada por um tribunal islâmico em Funtua, com base na xaria, a lei muçulmana, ali implantada em 2000.

Após o segundo casamento, Lawal teve um relacionamento com Yahaya Muhammad, que prometera formalizar o casamento com ela, que ficou grávida. Aprisionada por populares, foi levada perante um tribunal da xaria, sem acompanhamento jurídico. O pai da criança não foi processado, por falta de provas, sem que fosse realizado um exame de paternidade.

Uma Organização Não Governamental de direitos humanos, a Baobab for Women’s Human Rights (Baobá para os Direitos Humanos das Mulheres) indicou para a defesa de Amina a proeminente advogada Hauwa Ibrahim, conhecida por seu trabalho voluntário em casos de condenação pela xaria. Esta contestou a acusação com base no fato de o bebê ter sido concebido antes da lei muçulmana ter entrado em vigorem Katsina.

Amina foi absolvida em fevereiro de 2004, a condenação foi anulada, e ela voltou a se casar. O caso mobilizou a opinião pública internacional. Foi a segunda condenação à morte por imolação pública sob acusação de adultério na área hauçá. A primeira condenada foi Safiya Hussein.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as Cause and Cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005.

TOMETTI, Opal. “Amina Lawal”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 473-474.

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf

Aminata Diop (1968)

Pertencente ao grupo étnico bambara, de língua mandinga,  nasceu em uma família muçulmana na cidade de Sikasso, ao sul da República do Mali.

Aos oito anos foi prometida em casamento ao filho de um amigo do pai, e aos doze frequentou a escola primária em Bamako.  

Pouco antes da realização do ritual do casamento, em 1989, recusou-se a se submeter à excisão genital, e em face da repressão do pai fugiu para a capital.  Viajou para a Bélgica com a ajuda de um amigo que trabalhava em uma companhia aérea e a levou até Bruxelas.

Ela pediu asilo na França em 1990, e após um processo judicial com o apoio de instituições de defesa, teve o pedido aceito, o que lhe permitiu viver na Europa legalmente, na condição de refugiada. Seu caso foi o primeiro a estabelecer perante o direito internacional a excisão genital como uma violação aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

MADE, Patricia. Warrior marks: female genital mutilation and the sexual binding of women. Southern African Feminist Review, v. 1, n. 1, 1995.

Aminatou Haidar (1966)

Líder e ativista em defesa dos  direitos humanos. Nasceu na região do Saara Oidental, e atualmente mora em El Aaiún , uma área ocupada pelo Estado marroquino. Ela é formada em literatura moderna, divorciada e mãe de dois filhos adultos.

Aminatou é a figura mais proeminente no movimento de resistência não-violenta em andamento no Saara Ocidental em apoio aos direitos humanos e em oposição à ocupação marroquina do país. É conhecida como “a Gandhi Saraui “, e ocupa a posição de presidenta do Coletivo dos Defensores dos Direitos Humanos Sarauís (Saharauis) – CODESA.

O reino de Marrocos, que reivindica o Saara Ocidental como parte integrante do seu território, ocupa a maior parte da ex-colônia espanhola desde 1975. A Frente Polisario, o movimento nacionalista que inicialmente lutou contra as forças colonialistas espanholas, travou uma guerra de guerrilha contra a ocupação marroquina até um acordo de cessar-fogo em 1991. Uma série de resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e uma decisão histórica do Tribunal Internacional de Justiça reiterou o direito do povo do Saara Ocidental à autodeterminação, embora o Marrocos tenha recusado  permitir que o proposto referendo supervisionado pelas Nações Unidas se realize.

Cerca de metade da população do Saara Ocidental, em 1975, fugiu para campos de refugiados sob o controle da Frente Polisario, estabelecidos na Argélia.  Enquanto isso, o Marrocos trouxe dezenas de milhares de pessoas para o Saara Ocidental, que agora supera em muito a população originária que é em grande parte pró-independência. 

Em 1987, aos 21 anos, Haidar estava entre os quatrocentos ativistas de direitos humanos cercados pelas autoridades de ocupação marroquina.  Foi mantida durante quatro anos oficialmente “desaparecida”, sem acusação ou julgamento, em centros de detenção secretos. Ela e outras dezessete mulheres de seu povo foram submetidas regularmente a tortura e abuso.  Após sua libertação em 1991, ela se descreveu como “um fantasma, um morto vivo, uma jovem mulher de um tipo de inferno que não tem nome”.

Apesar desta sua experiência, deu continuidade ao seu ativismo e assumiu a liderança na defesa dos direitos humanos.  Participou em 1994 do comitê de coordenação das vítimas do desaparecimento forçado e da detenção arbitrária no Saara, bem como nas comissões subseqüentes para os sarauís detidos e desaparecidos.

As manifestações de resistência não-violentas tinham até então se baseado na reivindicação pelos direitos humanos, mas uma revolta renovada conhecida como Intifada al-Istiqlal (Revolta da Independência) ganhou forma em maio de 2005. Milhares de manifestantes sarauís tomaram as ruas de El Aaiún, protestando contra a continuidade da ocupação marroquina e pedindo a independência. Embora tenham sido reprimidos pelas tropas marroquinas e muitas pessoas tenham sido presas, prevaleceu a tendência da não-violência como meio de alcance da auto-determinação, e ela se tornou a principal porta-voz do movimento em âmbito internacional.

Seus esforços tem recebido crescente reconhecimento na Europa e nos Estados Unidos, com premiações e distinções. Em 2009, quando foi presa e expulsa do Marrocos para as Ilhas  Canárias, declarou uma greve de fome. Isto gerou forte pressão da opinião pública internacional sobre as autoridades marroquinas, que foram forçadas a permitir o seu retorno ao Saara Ocidental.

BIBLIOGRAFIA

SAN MARTIN, Pablo. Nationalism, identity and citizenship in Southern Sahara. Journal of North Africa Studies, v. 10, n. 3, p. 565-592, 2005.

SHELLEY, Toby. Endgame in the Western Sahara: what future for Africa’s last colony? Londre: Zed Books, 2004.

STEPHAN, Maria J.; MUNDY, Jacob. A battlefield transformed: from guerrilla resistance to  mass nonviolent struggle in the Western Sahara.” Journal of Military and Strategic Studies , v. 8, n. 3,  p. 1-32, 2006.

ZUNES, Stephen. “Aminatou Haidar”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 538-540.

Anne Mungai (1957)

Educadora e cineasta queniana, nasceu em Port Victoria, no distrito de Budalangi no Quênia ocidental, e seus pais são o professor Marius Namapsi Okubo e a mãe Ursula Nerima.

Anne iniciou a carreira na área de mídia e comunicações no Kenya School of Mass Communications (Escola Queniana de Comunicação de Massa) em Nairobi e produziu documentários de curta e média duração sobre temáticas relacionadas à saúde, mulheres, juventude, religião, agricultura e educação. Com a sensibilidade de alguém que compartilha as experiências de ser mulher, ela iniciou o discurso sobre as pluralidades e complexidades do Quênia pós-emancipação ao questionar os casamentos forçados, a prostituição e as contradições entre as vidas urbana e rural. Estudou ainda no American Cultural Centre (Centro Cultural Americano)  e nas universidades de Daystar, Cardiff e Kenyatta.

Sua carreira teve início em 1980, com o primeiro curta-metragem intitulado Nkomani Clinic, ao qual se seguiram outros curtas e médias-metragens, além de seu primeiro longa-metragem Saïkati, lançado em 1993. Este filme, o  primeiro longa dirigido por uma mulher queniana, como muitas das obras de Mungai, tem como protagonista uma jovem a viver em uma sociedade dividida entre  práticas culturais tradicionais africanas e aquelas introduzidas pelo Ocidente durante o período colonial. Na trama e enredo, a jovem  Saïkati vê-se dividida entre o desejo de frequentar a Universidade e estudar na cidade e a obediência aos pais, que desejavam entregá-la ao filho do chefe da comunidade em um casamento arranjado.

A jornada de Mungai, mulher empreendedora, para produzir seus filmes foi marcada por dificuldades com recursos técnicos e capitais: sua luta em conciliar obrigações familiares e profissionais resume a complexidade de viver na África pós-emancipação e em um mundo masculino. Muitos de seus filmes foram produzidos pelo Kenya Institute of Mass Communication (Instituto Queniano de Comunicação de Massa), instituto em que foi membra docente; Saikati fez parte de um projeto-treino e demonstra que africanos conseguem engajar a indústria através de inovação e criatividade.

Em 1994 foi premiada pelo governo queniano por seu filme Usilie Mtoto wa Afrika, cujo título, na língua kiswahili, quer dizer “Por favor não chore criança africana”, dedicado a crianças que vivem em situação de vulnerabilidade nas ruas. Junto com Ann Wanjugu, ela desenvolveu a fundação Shangilia Mtoto wa Afrika (Anime a criança africana), dedicada ao bem-estar daquelas crianças e com o objetivo de mudar as percepções negativas da comunidade em relação a elas.

Entre vários prêmios concedidos a ela pelo reconhecimento de sua obra estão: Prêmio de melhor direção por Saïkati (Plan International, 1999); Prêmio Especial do Juri (Zanzibar International Film Festival, 1999); Personalidade Feminina mais influente (Women in film awards, 2022).

BIBLIOGRAFIA

CHAM, M. African women and cinema: a conversation with Anne Mungai.” Research in African Literatures, v. 25, n. 3, p.  93-104.

CARACCIOLO, Diane; MUNGAI, Anne (Ed.).. In the spirit of Ubuntu: stories of teaching and research. Rotterdam: Sense Publishers, 2009.

KIRUTHU, Felix Macharia. “ Anne Mungai”. . In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 332-333.

Belinda (c. 1713 – c. 1790)

Também por vezes referida como Blinda Royall ou Belinda Sutton, com sobrenomes que refletem os laços familiares de seus proprietários. Nascida em território da antiga Costa do Ouro, atual República de Gana, foi a primeira pessoa de origem africana a narrar sua própria condição como escravizada no período de independência das colônias da Nova Inglaterra e a fundação dos Estados Unidos, e a primeira pessoa a pleitear um pedido de pensão como reparação pela sua escravização.

Alguns historiadores argumentam que ela poderia ter sido originária da atual República de Gana porque na petição que ela escreveu diz ter morado no “Rian da Valta River”, que se poderia interpretar como uma alusão ao Rio Volta. Entretanto, ela também recordava-se que quando era criança fazia orações em um bosque sagrado para “o Grande Orixá que fez todas as coisas”, o que deixa em aberto a possibilidade de que pudesse ter pertencido a uma comunidade de falantes da língua yoruba do sudoeste da atual Nigéria ou da atual República do Benin – antigo Daomé.  

Qualquer que tenha sido a sua origem étnica ou geográfica na África ocidental, em sua narrativa Belinda recorda-se de ter passado uma infância feliz, e que tudo mudou quando foi capturada, reduzida em cativeiro e transportada em um navio negreiro, realizando a terrível “Passagem do Meio” – a transferência para a América em um navio negreiro. Alguns pesquisadores levantam dúvidas sobre a consistência da descrição sobre sua captura, sugerindo que ela pudesse ter sido influenciada nessa parte de suas memórias pelo relato de Ollaudah Equiano, o mais conhecido autor de uma autobiografia de um escravizado. Porém, em sua petição ela se autodenomina “africana”, e não, como era comum na época, como “negra”.

Belinda foi comprada por Isaac Royall, um rico morador da colônia britânica de Massachusetts. Ele era professor no Harvard College e detinha a propriedade de uma plantation (fazenda) de açúcar no Caribe, onde ela foi mantida em cativeiro até o período das guerras de independência contra a Inglaterra, quando os Royall abandonaram a colônia e buscaram refúgio na metrópole por não reconhecer o regime instituído pelos rebeldes.  Então, ela foi para a cidade de Boston, onde outros(as)  cativos(as),  afro-americanos libertos e brancos simpatizantes da causa abolicionista se mobilizavam contra a continuidade da escravidão, reivindicando a abolição.

Em 1783, Belinda enviou uma petição à Assembleia Legislativa de Massachusetts exigindo que reparações fossem pagas pelo estado por conta do tempo em que seu trabalho foi explorado pelos Royalls.  Dúvidas foram levantadas quanto a redação pessoal do documento, pois ela assina a petição com um X, o que poderia sugerir ser analfabeta, e alguns supõem que o texto tivesse sido escrito pelo Príncipe Hall, um ativista afro-americano muito ativo em Boston, autor de várias petições similares.  O documento foi publicado na coletânea intitulada The american Museum, or repository of ancient and modern fugitive pieces, prose and poetical (O Museu americano: repositório de fugidias peças em poesia e prosa, antigas e modernas) (1787).

Ao final, em 1787 a Assembleia de Massachusetts concedeu a Belinda uma pensão de 15 libras e 12 xelins durante um ano, depois estendida até 1790, quando o nome dela desapareceu dos registros públicos. Seu caso tem sido desde então citado como o primeiro exemplo de um processo bem-sucedido de reparação por escravização.

BIBLIOGRAFIA

FINKENBINE, Roy. Belinda’s petition: reparations for slavery in revolutionary Massachusetts. William & Mary Quarterly, v. 64, n. 1, p. 95-104, 2007.

HARRIS, Sharon. Executing race: early american women’s narratives of race, society and law. Columbia: Ohio State University Press, 2005.

PITCHER, E. W. A complaint against “The Petition of Belinda”, an african slave. Early American Literature, v. 31, n. 2, p. 200–203, 1996.

RICH, Jeremy. “Belinda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 416-417. 

WINBUSH, Raymond. Belinda’s petition: a concise history of reparations for the transatlantic slave trade. Bloomington:  XLibris Corporation, 2009.

Caddy Adzuba Furaha (1981)

Nascida em Bukavu, República Democrática do Congo. É licenciada em Direito pela Universidade Oficial de Bukavu (2005)  e membro-fundadora da rede Un altavoz para el silencio (Um altofalante para o Silêncio)  – projeto financiado pela Fundação Euro-Árabe.

Caddy atua como jornalista na Rádio Okapi, uma emissora vinculada à ONU no Congo que é transmitida por todo o território do país.  Ela é membro da East Congo Media Women’s Association  (Associação de Mulheres de Meios de Comunicação do Leste do Congo), através da qual  denuncia perante o Tribunal de Justiça Internacional e ao Senado dos Estados Unidos a  violência sexual de que sofrem as mulheres da República Democrática do Congo e as crianças vitimadas pelo constante estado de guerra.

O seu ativismo social tem amplo reconhecimento internacional: ela ganhou o prêmio internacional de jornalismo Julio Anguita Parrado em 2009, o prêmio Principe de Asturias (2014)  e foi distinguida com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidad Autonoma de Barcelona (2019). Por outro lado, devido às denúncias sofreu dois atentados contra a sua vida e diversas ameaças de morte.

BIBLIOGRAFIA

MANGWANDA, Lusegu Mylene. A cry for justice: the lack of accountability for perpetrators of sexual violence against women in the Democratic Republic of Congo. Dissertation (Master of Philosphy), University of Pretoria, Pretoria, 2017: https://repository.up.ac.za/handle/2263/64622

PUECHGUIRBAL, Nadine. Women and war in the Democrtic Republico of the Congo. Journal of Women in Culture and Society, v. 28, n. 4, p. 1271-1281, 2003.

Delphine Kemneloum Djiraibé (1960)

Advogada e ativista de direitos humanos do Chade, nasceu em Koumra, uma cidade na província de Moyen-Chari, no sul do país. Ela tinha nove irmãos e irmãs. Seu pai Djiraibé era um soldado e um dos melhores alunos de François Tombalbaye, que veio a ser o primeiro governante do Chade (1960-1975). Ela frequentou escolas de freiras católicas em Koumra.

Como muitos chadianos, Kemneloum estava entusiasmada com as possibilidades de direitos humanos e democracia no Chade depois da queda do odiado governo de Hissene Habré (1982-1990). Ela ajudou a criar em 1991, e passou a presidir, a Associação Chadiana para a Promoção e Defesa dos Direitos do Homem – ATPDH, que se tornou uma das principais organizações de direitos humanos do país.

Em janeiro de 2006, Kemneloum falou em uma conferência internacional sobre abusos dos direitos humanos na África Central, realizada na Universidade da Cidade de Nova York. Ela convocou em vão uma conferência nacional de rebeldes, autoridades governamentais e Organizações Não-Governamentais para estabelecer uma democracia pacífica e depois, em outra conferência, defendeu o direito à objeção consciente.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Delphine Kemneloum Djiraibé”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles elites: entretiens, 1997-2003. Saint Maur: Sépia, 2004.

Djamila Boupacha (1938)

Militante na luta de libertação da Argélia. Nasceu na área antiga (Casbah) de Argel, em uma família de classe média.

Durante a guerra de independência argelina contra o colonialismo francês (1954-1962), atuou como agente de ligação para a Front de Libération Nationale – FLN (Frente de Libertação Nacional) com a missão de intermediar os contatos entre os rebeldes e a população civil em cidades e povoados. 

Djamila foi aprisionada por forças coloniais em 10/02/1960, quando tinha vinte e dois anos, e detida ilegalmente sob a acusação de ter plantado uma bomba no restaurante universitário da Universidade de Argel. Na prisão de El-Biar, foi torturada durante 33 dias por militares paraquedistas franceses, conhecidos pelo uso extremo de violência em seus interrogatórios, sendo espancada, chutada e pisoteada, tendo as costelas quebradas, os seios e as pernas submetidos a eletrochoques, a cabeça imersa em água salgada, além de abusada sexualmente com uma garrafa quebrada – prática conhecida como “o tratamento da garrafa”.

Apesar dela não ter sido a primeira vítima de ações como essa, seu caso ganhou repercussão através da feminista francesa Simone de Beauvoir, que criou um comitê em sua defesa, e da advogada tunisiana Gisèle Halimi, que a representou perante uma corte penal. Com a pressão pública ela foi transferida para uma prisão em Caen, na França, pois havia o temor que fosse assassinada antes do julgamento. Lá, foi submetida a um segundo exame médico cujo resultado confirmou a tortura, contrariando o exame anterior emitido por um médico em Argel que a negava. Uma petição foi então apresentada na corte de apelação em Caen e o caso ganhou dimensão internacional.

No julgamento, realizado nos dias 26-28/06/1961 no tribunal de Caen, Djamila identificou seus torturadores, mas a corte francesa a declarou culpada por plantar a bomba e ela foi sentenciada à morte. O veredito desencadeou um amplo movimento de solidariedade, Simone de Beauvoir e Gisèle Halimi publicaram um livro em 1962 com entrevistas fornecidas por ela, e o retrato de capa do livro foi feito por Pablo Picasso.

Ao fim da revolução argelina, as negociações levaram a que fosse anistiada, nos termos do que ficou conhecido como os Acordos de Evian.  No período posterior à independência ela trabalhou em programas de formação de mulheres, sua imagem foi usada pela FLN como símbolo nacional e ela foi considerada heroína de guerra. Retratos dela são mostrados no Museu do Exército em Argel, e seu exemplo de resistência inspirou a criação de canções e de um filme dirigido por Caroline Huppert em 2011. 

Pesquisadoras recentes argumentam que o componente da violência sexual e de gênero, inerente aos acontecimentos que envolvem a prisão e tortura de Djamila Boupacha, tenha sido minimizado em nome da ideologia nacional.

BIBLIOGRAFIA

BEAUVOIR, Simone de; HALIMI, Gisèle. Djamila Boupacha. Paris: Gallimard, 1962.

CODACCIONE, Vanessa. (Dé)politisation du genre et des questions sexuelles dans um procès politique en contexte colonial: le viol, le procès et l’affaire Djamila Boupacha (1960-1962), Nouvelles Questions Feministes, v. 29, n. 1, p. 32-45, 2010.

LAZREG, Marnia. The eloquence of silence: algerian women in question. Nova Iorque; Londres: Routledge, 1994. 

SALHI, Zahia Smail. “Djamila Boubacha”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 498-500.

Dorothy Nyembe (1931-1998)

Ativista e líder política sul-africana durante o período do Apartheid, seu nome completo era Dorothy Nomzansi Nyembe.  Nascida em na área rural próxima a Dundee, na região de KwaZulu Natal, pertencia à linhagem governante de Ngedee Shezi.  Estudou em escola missionária até aos 15 anos, quando teve seu único filho.

Em 1953, em pleno regime segregacionista, entrou para o African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), e no ano seguinte passou a liderar a Liga de Mulheres do partido na região de Natal. Era também membro da Federation of South African Women – FSAW (Federação das Mulheres Sul-Africanas). Nesta condição, atuou na liderança contra as medidas restritivas impostas à população negra, insurgindo-se contra a lei do passe livre nos anos de 1955-1956, que impunha o porte obrigatório de passes às pessoas negras em seu trânsito pelo país. 

Nesta fase de sua vida no qual ela se orientava pelo protesto pacífico, liderou a Revolta das Mulheres de Natal, movimento pacífico, baseado nos boicotes às cervejarias Beer Halls, que demitiam muitas mulheres, e também contra a Durban Corporation.  Além disso, foi uma das organizadoras da histórica marcha das mulheres até a sede do Governo em Pretória, em 1956, o que a levou a prisão naquele mesmo ano.

Na década de 1960, com o banimento da ANC após o Massacre de Shapperville, ela se juntou ao movimento de resistência armada, sendo recrutada pelo Umkhonto We Sizwe, o braço militar do partido, onde atuou junto com Albert Luthuli, Moses Mabhida, Nelson Mandela, Walter Sisulu e Oliver Tambo. Por suas atividades subsersivas, foi perseguida e aprisionada no período de 1963 a 1966, e depois de 1968 a 1983, nas prisões femininas de Barbeton, no Transvaal, e em Kroonstad, no Estado Livre de Orange.

Após sua libertação, passou em 1984 a atuar na Natal Organization of Woman – NOW (Organização das Mulheres de Natal), dirigindo o foco de suas ações na luta contra os aumentos de aluguel, custos de transporte, melhorias educacionais e melhorias nas instalações reservadas aos filhos de mulheres das camadas populares.  Com o fim do Apartheid, em 1994, foi eleita para a Assembleia Nacional, tendo recebido prêmios e homenagens pelo seu papel de destaque na luta pela libertação.

BIBLIOGRAFIA

BERNSTEIN, Hilda. For their triumphs and for their tears:  women in Appartheid South Afria. London: International Defense and Aid Fund For Southern Africa, 1985.

MILLER, Kim. “Dorothy Nyembe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 520-521.

RUSSELL, Diana E. H.. Lives of courage: women for a New South Africa. New York: basic Books, 1989.

Efua Theodora Sutherland (1924-1996)

Nascida como Efua Theodora Morgue, em Cape Coast, na então Costa do Ouro, que depois da independência passou a se chamar República de Gana, foi uma influente escritora, dramaturga, diretora de teatro, autora para crianças, educadora, pesquisadora, advogada de crianças e ativista cultural em defesa do pan-africanismo. Realizou sua formação na Inglaterra, e na década de 1950 participou intensivamente do processo de libertação colonial de seu país, sendo uma das mais influentes formadoras do teatro ganês moderno, e uma promotora cultural dos valores africanos.

No campo do teatro, é autora de diversas peças, entre as quais Foriwa (1962),  Edufa (1967),  e The Marriage of Anansewa (O casamento de Anansewa) (1975). Ela fundou o Ghana Drama Studio, a Sociedade de Escritores de Gana,  o Teatro Experimental de Gana. Foi também uma editora pioneira, fundando a empresa Afram Publications na década de 1970.Em suas peças, ela recuperou temas das histórias tradicionais veiculadas pela oralidade, transformando-as de acordo com as modernas técnicas do teatro ocidental.

Em 1963, quando assumiu o papel de pesquisadora associada no Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Gana, levou para o campus o Ghana Drama Studio, que se tornou um espaço de treinamento fora do campus, e logo depois conceituou e estabeleceu a Escola de Artes Cênicas. Também preocupada com a narrativa tradicional e o desenvolvimento do teatro comunitário, fundou a Kodzidian (Casa das Histórias), reconhecida mundialmente como modelo pioneiro no teatro popular voltado para o desenvolvimento.  Em meados da década de 1980, escreveu uma proposta original para um festival de teatro histórico pan-africano em Gana que pudesse servir de veículo cultural para  reunião de africanos em todo o mundo, ressaltando o significado das conexões entre a África e sua diáspora. Isso foi concretizado no Pan-African Historical Theatre Festival – PANAFEST (Festival Pan-Africano de Teatro), realizado pela primeira vez em 1992.

Sutherland liderou como representante de Gana a ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da criança, e presidiu a Comissão Nacional da Criança de 1983 a 1990, período em que assumiu como prioritária a criação de uma advocacia infantil e a promoção da infância em todo o país.  Com esse intento, dirigiu uma série de programas inovadores, incluindo um Fundo de Educação Infantil para apoiar comunidades carentes, uma oficina estendendo o aprendizado de ciências às crianças pobres ou do campo, e a garantia de terras para criar parques e bibliotecas-modelo para crianças. Ela lançou as bases para a Fundação Mmofra, ativa desde 1997 como uma organização cívica dedicada a enriquecer a vida cultural e intelectual de todas as crianças de Gana.

Seu trabalho mais significativo no Instituto de Estudos Africanos, chamado Legon, foi o Projeto de Desenvolvimento do Drama Infantil, que teve como objetivo o desenvolvimento de materiais, métodos e pessoal treinado para o desenvolvimento de programas de teatro criativo dentro e fora da escola. Sutherland foi convidada pela UNICEF para participar de uma rede mundial de estudiosos para elaborar um código de direitos humanos para a proteção das crianças.  Escreveu diversas peças para crianças, como Playtime in Africa (Hora de brincar na África) (1960),  Vulture!Vulture! (1968), Tahinta (1968) e The voice in the forest (A voz na floresta) (1983).

BIBLIOGRAFIA

ADAMS, Anne V.; Sutherland-Addy, Esi. The Legacy of Efua Sutherland: Pan-African Cultural Activism.  Banbury: Ayebia Clarke Publishing, 2007.

GIBBS, James. Efua Sutherland: The ‘Mother’ of the Ghanaian Theatre. In:  Nkyin-kyin: Essays on the Ghanaian Theatre.  Cross/Cultures, n. 98, p. 91-12, 2009.

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SALM, Stephen; FALOLA,Toyn.  Culture and Customs of Ghana. Cona: Greenwood Press, 2002.

SUTHERLAND-ADDY, Esi. Creating For and With Children in Ghana – Efua Sutherland: a retrospective.  In: Etherton, Michael (ed.). African Theatre. Youth, James Currey Ltd, 2006, pp. 1–15.

Elizabeth Nyabongo (1936)

Também conhecida como Princesa Elisabeth de Toro, seu nome completo é  Elizabeth Bagaaya. É a Batebe, título de princesa real, por ser filha de David Mathew kamurasi Rukidii III, o décimo primeiro omukama (rei) do reino de Toro, em Uganda, e tia paterna do rei de Toro, Rudiki IV.Recebeu esmerada formação em seu país e na Inglaterra, onde obteve a graduação na Cambridge University em 1962.  Ela é advogada, modelo, diplomata e política. Foi a primeira mulher do leste africano a ser admitida na ordem dos advogados em 1965.

Quando o presidente Milton Obote aboliu a autoridade dos reinos tradicionais de Uganda, em 1967, ela deixou o país e, a convite da princesa inglesa Margaret, participou de um desfile de moda beneficiente. Devido a sua beleza e elegância, passou a atuar profissionalmente como modelo, representqando diversas agências de moda e recebendo destaque em revistas especializadas, como a Queen Magazine. Em 1968 foi para Nova Iorque, onde foi fotografada pela Vogue, Look, Life e Ebony, sendo a primeira modelo negra a aparecer na capa da revista Harper’s Bazaar. Também teve pequenas participações em filmes, como Bulfrog in the Sun (1972), obra baseada no livro “O mundo se despedaça”, de Chinua Achebe; e no filme Sheena: Queen of the jungle (1984).

Após  a derrubada de Milton Obote pelo general Idi Amin Dada, ela retornou ao seu país, e foi nomeada como embaixatriz (1971) e como Ministra das Relações Exteriores (1974), o que teve grande repercussão na mídia internacional. Em meio  a uma série de atos repressivos, execuções e aprisionamento de opositores, conforme ela conta em sua autobiografia, sua situação se tornou insustentável quando ela negou casar-se com Idi Amin, que passou a atacá-la com falsas acusações, a destituiu do cargo e a manteve em prisão domiciliar, o que a levou mais uma vez ao exílio.

Ela retornou ao país em 1980, após a deposição de Idi Amin, casou-se com o engenheiro Wilbur Nyabongo, com quem viveu durante seis anos. Em 1986, participou do National Resistance Movement (NRM) e atuou temporariamente como embaixatriz de Uganda nos Estados Unidos, e m mais recentemente na Alemanha e na Itália,  além de participar de organizações pela promoção das causas africanas.

BIBLIOGRAFIA

MUSOKE-NTEYAFASusoke, JANE. Elizabeth of Toro: chronicles of African Princess. North-Star E-Journal, p. 2-4, 2006.

HASSEN, Joyce. African Princess. New York: Hyperion, 2004

Elizabeth of Toro. Elizabeth of Toro: The Odyssey of an African Princess. New York: Simon and Schuster, 1989.

OCHWADA, Hannigton. “Elizabeth Nyabongo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 512-513.

Everjoice Win (1965)

Nascida em Shurugwi na República do Zimbabwe, é uma destacada ativista em defesa dos direitos civis das mulheres de seu país. Concluiu o ensino superior na Universidade de Zimbabwe em 1988, com especialização em História Econômica. Quatro anos depois, em parceria com Terri Barnes, publicou o livro intitulado To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970 (Para viver uma vida melhor: uma história oral das mulheres na cidade de Harare, 1930-1970), que ofereceu substantiva contribuição para o reconhecimento do papel das mulheres para o desenvolvimento urbano do país.

Sua militância feminista foi intensa nos anos 1990, quando atuou como deputada e coordenadora de comissões vinculadas a ação de grupos de educação popular para mulheres. De 1993 a 1997 dirigiu em âmbito nacional o capítulo do programa pan-africano Woman in Law and Development in Africa – WILDAF (Mulheres no Direito e Desenvolvimento na África), e atuou em mais de vinte associações pela garantia dos direitos das mulheres e por reformas políticas e sociais, o que a levou, em 1997, a ser uma das(os) fundadoras(es) da Assembléia Nacional do Zimbabwe. Seu prestígio lhe permitiu desempenhar papel de destaque na crise da coalizão do Zimbabwe.

Nas últimas décadas, tem ocupado cargos em diversas comissões internacionais na África do Sul, Inglaterra e Canadá, e participado de Organizações Não-Governamentais, onde defende iniciativas direcionadas a igualdade de gênero, para as populações pobres do mundo, em especial as mulheres, bem como iniciativas para o combate ao HIV/AIDS.

BIBLIOGRAFIA

GRANT, Miriam. “Everjoice Win”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 75-176.

WIN, Everjoice; BARNES, Terri. To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970. Harare: Baobab Books, 1992.

WIN, Everjoice, Not very poor, powerless or pregnant: the african woman forgotten by development.  IDS Bulletin, v. 35, n. 4, p. 61-64, 2004.

Fatou Diome (1968)

Nascida na ilha de Niodior, Senegal,  foi criada pela sua avó e aí frequentou a escola, tendo aprendido francês e despertado a sua paixão pela literatura francesa. Licenciou-se em Literatura Moderna na Universidade de Marc Bloch de Estrasburgo, onde defendeu a tese de doutoramento  Viagens, intercâmbios e formação, na obra literária e cinematográfica de Ousmane Sembene (1994).

Em 2001 a escritora publicou uma colecção de histórias curtas, intitulada La Préférence nationale (A preferência nacional).  O seu primeiro romance – Le Ventre de l’Atlantique (O ventre do Atlantico) (2003) – transformou-se num êxito de vendas em França e foi traduzido para inglês, espanhol, alemão e em lingua portuguesa. Também escreveu os romances  intitulado Kétala (2006) Inassouvies, nos vies (2008).

Entre 2004 e 2005 realizou a redacção e apresentação da emissão cultural mensal na televisão France 3 Nuit blanche. Também deu cursos de escrita de direção de cinema na Universidade Marc Bloch, UFR Arts/Cinéma et Audiovisuel; e  de literatura francesa do século XIX e literatura africana francófona no Instituto Superior de Pedagogia de Karlsruhe, na Alemanha.

Sua participação em programa no canal de televisão France 2, em 2015, teve ampla repercussão nas redes sociais por ter abordado de forma crítica a questão da imigração dos africanos na Europa e a postura “desumana” de determinados Estados europeus frente ao problema, chamando a atenção para o respeito aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CHEVRIER, Jacques. Fatou Diome, une écriture entre deux rives.  Revue des littératures d’Afrique, des Caraïbes et de l’océan Indien, n. 166, p. 35-38, 2007.

Fatou Diome sobre migração: “Chega de hipocrisia: ou seremos ricos juntos,ou afundaremos juntos”. In: Por dentro da África (Portal Geledés):  http://www.pordentrodaafrica.com/cultura/fatou-diome-sobre-migracao-chega-de-hipocrisia-ou-seremos-ricos-juntos-ou-afundaremos-juntos

FOUCHET, Eugénie.  La représentation romanesque de la femme africaine chez Fatou Diome et Fatou Keïta. Mémoire de Master (Litterature),   Université de Metz, 2009.

Fatoumata Diarra (1949)

Fatoumata Dembélé Diarra é juíza da Corte Penal Internacional nascida no Mali. Frequentou as escolas primária e secundária no Mali e recebeu seu diploma universitário em Direitos Humanos da Universidade de Dakar (1971). Além disso, cursou o programa de graduação em Direito na Escola Nacional de Administração em Bamako e recebeu o diploma de Direito da Escola Nacional de Magistratura em Paris.

Sob o regime de Moussa Traoré, trabalhou na defesa de vítimas da violência política. Foi uma das principais membros do movimento de base que desafiou a ditadura militar no Mali. Atuou como conselheira legal na Convenção de Soberania Nacional em 1991, quando ajudou a elaborar a nova constituição. Também foi vice-presidenta do Groupe Féminin Droit de Suffrage – GFDS (Grupo pelo Direito do Sufrágio Feminino), e líder do Observatório dos Direitos da Mulher e da Criança. Presidiu uma organização de combate à fraude eleitoral, a Rede de Trabalhos APEM, a Associação das Juristas Malinesas, foi vice-presidenta da Federação de Advogadas Africanas e da Federação Internacional de Mulheres em Carreiras Legais.

Fatoumata Dembelé lutou pelo estabelecimento de dispositivos legais de proteção para mulheres, como o fim dos casamentos forçados e o casamento de meninas pré-adolescentes. Foi a representante das mulheres malinesas na Conferência Internacional da Mulher  das Nações Unidas em Pequim ( 1995).

Em 2003, foi eleita para a Corte Penal Internacional, quando comandou tribunais de acusados de genocídio e crimes contra a humanidade, como as atrocidades nos conflitos entre Bósnia, Sérvia e Croácia nos anos 1990, além de presidir, em 2008, parte dos procedimentos legais contra Jean-Pierre Bemba, ex-líder rebelde e candidato presidencial congolês, e de ser juíza no tribunal de Germain Katanga e Mathieu Ngujolo, líderes de movimentos rebeldes no Congo, em 2009  e 2010.

BBLIOGRAFIA

CIAMPI, Annalisa. The International Criminal Court. Law and Practice of International Courts and Tribunals, v. 5, p. 325-353, 2006.

RICH, Jeremy. “Fatoumaa Dembélé Diarra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 193-194.

WING, Susanna. Constructing Democracy in Transitioning Societies of Africa: constitutionalism and deliberation in Mali. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2008.

Gladys Adda (1921-1995)

Ativista dos direitos das mulheres tunisiana e jornalista. Nasceu na cidade de Gabes, de uma família de judeus norte-africanos originalmente da comunidade de Batna, na Argélia. Desde cedo a mãe a incentivou aos estudos, embora tenha enfrentado muitos problemas devido ao anti-semitismo e ao colonialismo que vigorava nas escolas de formação primária e secundária, o que despertou nela desde cedo o repúdio ao regime colonial.

Ela foi forçada pela sua família a desistir dos estudos quando tinha quinze anos (1936) e a casar com um homem da comunidade judaica que era doze anos mais velho do que ela. Dois anos mais tarde, muitos judeus foram vitimados por ataques fomentados por fascistas italianos residentes na Tunísia. No início da década de 1940, após o divórcio, estabeleceu-se em Túnis, passando a morar com Bice Slama, outra judia tunisiana, que era politicamente engajada. Ela passou a militar na luta anticolonial, antinazista e em 1944 ingressou no Partido Comunista tunisiano, ampliando a sua luta em prol dos direitos dos trabalhadores. Ambas panfletavam jornais comunistas em fábrica, procurando incentivar a conscientização dos operários sobre a exploração do trabalho.

Em 1944, Adda também participou da fundação da Union des Femmes Tunisiennes – UFT (União de Mulheres da Tunísia), liderada pela Nabiha Ben Miled, uma muçulmana tunisiana. No mesmo período, casou-se e teve dois filhos, em um período de dificuldade material, quando contou com a ajuda de companheiros de militância. A partir de uma dupla perspectiva de mãe e militante, ela logo percebeu a urgência de educar as mulheres, muitas das quais eram analfabetas. Outra área de seu ativismo era a saúde das mulheres, que tinham sido deliberadamente negligenciadas pelo regime colonial. Ela e outras militantes organizaram clínicas gratuitas para as mulheres bem como escolas de alfabetização para mulheres adultas.

Após a emancipação da Tunísia (1956), a UFT passou a apoiar a guerra e libertação da Argélia, que transcorreu até 1962 e teve terríveis consequências para as mulheres argelinas, crianças e civis.  Adda e as mulheres da UFT organizaram serviços de apoio médico e financeiro para os combatentes argelinos, muitos dos quais viajaram clandestinamente para Tunísia para receber assistência.

Com a independência tunisiana, a Adda rompeu com o partido completamente. Aceitou um posto no Banco Nacional Tunisiano, onde trabalhou até se aposentar em 1981. Em 1956, a Tunísia perdeu seus gerentes financeiros e bancários, assim Adda considerou como importante para justiça social e equidade que o país desfrutasse de um setor bancário sólido; ela continuou a trabalhar pelos direitos das mulheres tanto no Norte da África como globalmente.

Já aposentada, deu cursos em gestão de negócios na universidade e participou da Ligue des Droits de l’Homme (Liga dos Direitos dos Homens), uma organização internacional de direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CLANCY-SSMITH, Julia A.. “Gladys Adda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 88-90.

KAZDAGHLI, Habib. Mémoire de femmes: tunisiennes dans l avie publique, 1920-1960. Tunis: Éditions Média Com, 1993.

LARGUÈCHE, Dalenda (Ed.). Femmes en villes. Tunis: Centre de Publications Universitaires, 2006. 

Graça Simbini Machel (1945)

Nascida como Graça Simbini, é destacada líder política e ativista dos direitos humanos. Originária de uma comunidade nas proximidades da atual capital de Moçambique, em uma família metodista, filha de um operário das minas da África do Sul. Em 1968 atuou na Casa dos Estudantes do Império e em 1973, na luta anti-colonial, quando conheceu Samora Machel, com quem viria a se casar em 1975, e do qual tem dois filhos. Obteve bacharelado em filologia, com especialização em língua alemã pela Universidade de Lisboa.

Foi Ministra da Educação de seu país durante cerca de quatorze anos, e após a morte do marido (1986) continuou sua atividade política na Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo,  criou a organização sem fins lucrativos Fundação para o Desenvolvimento Comunitário – FDC, que trabalha para facilitar o acesso da comunidade a conhecimentos e tecnologia para fomentar o desenvolvimento sustentável. 

Em 1988 foi indicada como presidenta da UNESCO em Moçambique, e delegada da UNICF, o que a levou a realizar uma avaliação do impacto dos conflitos armados sobre a infância e uma série de trabalhos voltados para o desenvolvimento social, que lhe renderam em 1998 a atribuição do prêmio Norte-Sul. Além disso ela também protestou contra práticas tradicionais africanas que subjugam mulheres e atrapalham seu desenvolvimento enquanto comunidade.

Graça e Nelson Mandela revelaram publicamente seu relacionamento em 1996 e se casaram em 1998. Ela manteve seu nome e sua residência em Maputo, dividindo seus tempo entre os dois países. Na primeira década do século XXI, ela passou bastante tempo com seu marido na África do Sul, até a morte dele.

BIBLIOGRAFIA

HENDERSON, Frances. “Graça Machel”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 13-15.

MACHEL, Graça. The Impact of war on children: a review of progress since the 1996 United Nations report on the impact of armed conflict on children. New York: UNICEF, 2001.

OKORODUDU, Coraan. A children’s rights perspective on the Graça Machel study. Peace and conflict: Journal of peace psychology, v. 4, n. 4, 1998.

Hadjé Halimé (1930-2001)

Ativista política chadiana. Nasceu na cidade de Salamat, onde recebeu formação na doutrina islâmica e se tornou instrutora dos preceitos do Alcorão quando tinha cerca de vinte anos de idade.

Fluente em árabe, chamou a atenção de Gabriel Lisette, o fundador do Partido Progressista de Chade – PPT, tendo sido então recrutada em 1950 e passou a fazer parte dos seus quadros. Como outras pioneiras na luta pela independência, Halimé traduziu o programa do seu partido para que outras mulheres aprendessem as línguas europeias e visitou a França, fazendo parte da delegação do PPT em um encontro com o político René Coty.

Quando Gabriel Lisette perdeu a liderança do PPT para François Tombalbaye, seus apoiadores e aliados começaram a ser perseguidos. Hadjé Halimé se tornou um alvo da repressão após a independência. Ela foi presa durante a onda repressiva de 1963, sendo que três dias antes seu filho foi morto pelas forças de segurança do Chade. Ela então passou por algumas prisões, uma delas, a prisão de Kela, onde foi brutalmente torturada. Sua libertação ocorreu em 1975, após a morte de Tombalbaye, quando passou um tempo na França para se recuperar dos ferimentos sofridos.

Já recuperada Hadjé Halimé se juntou à Frente de Libertação Nacional de Chade- FROLINAT-, e se estabeleceu em Tripoli, na Líbia, em 1978, e na década de 1980 lutou contra Félix Malloum, sucessor de Tombalbaye, e contra o regime ditatorial de Hissene Habré que governou o país no período de 1982-1990. Paralelamente, criou a Escola Corânica Nova Geração do Crescente, onde ensinou religião para crianças carentes.

Em 1991, com a queda de Hissene Habré, retornou ao Chade e participou do Parlamento até 1996. Nos seus últimos anos de vida, passou a cuidar de diversos órfãos que perderam os pais durante a era Habré.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Mario Joaquim. Roots of violence: a history of war in Chad. Sidney: Gordon e Breach, 1998.

BANGOURA, Mohamed Tétémadi. Violence politique et conflits en Afrique: le cas du Tchad. Paris: L’Harmattan, 2005.

RICH, Jeremy. “Hadjé Halimé”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 04-05.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles élites, entretiens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.

Halima Embarek Warzazi (1933)

Diplomata marroquina e ativista dos direitos civis, nascida na cidade de Casablanca, durante o período de ocupação francesa. Filha de um negociante, foi enviada aos quatorze anos para estudar em uma escola francesa no Cairo, Egito. Dez anos mais tarde foi graduada em literatura na Universidade do Cairo.

Em virtude de suas relações pessoais com Abdelkhaled Torres, embaixador marroquino no Egito, deu início a sua carreira como diplomata, primeiro como secretária no Ministério das Relações Exteriores, junto com apenas mais duas mulheres.

Em 1959, após uma solicitação direta ao rei Mohammed V, foi indicada para a embaixada em Washington. Tornou-se a primeira mulher a ocupar este cargo, no qual permaneceu até 1961. Nos anos seguintes representou seu país em comissões da Organização das Nações Unidas. Neste órgão internacional, participou de comissões de proteção contra a discriminação de minorias, o racismo e o Apartheid na África do Sul, a exploração do trabalho clandestino de imigrantes e o tráfico de pessoas, e as restrições dos direitos das mulheres durante o regime do Talibã, no Afeganistão.

Envolveu-se diretamente na vida política marroquina, como membro do Comitê Central do Partido do Movimento Popular (Le Mouvement populaire), sendo eleita para representar Casablanca.  Devido aos obstáculos impostos a ela durante sua carreira diplomática, por ser mulher, percebeu a necessidade de lutar pela democratização e pela igualdade de gênero. Por sua sugestão foi implantado no Marrocos o sistema de cotas para mulheres na política, de modo que em 2010, dos(as) 325 membros do parlamento 34 eram mulheres, 30 delas pela reserva de vagas.

BIBLIOGRAFIA

AKHARBACH, Latifa; RERHAYE, Narjis. Femmes et politique. Casablanca: Le Fennec, 1992.

GLACIER, Osire. “Halima Embarek Warzarzi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 155-156.

KINGDOM Of Morocco. National Human Rights Council.  Tribute to Halima Warzazi: 50  years in the service of human rights: https://www.cndh.ma/an/tribute-halima-warzazi-50-years-service-human-rights

Helen Gravonsky Suzman (1917-2009)

Nascida em Germiston, nas proximidades de Johannesburgo com o nome de Helen Gravonsky, era filha de imigrantes europeus de origem judaica. Realizou os estudos superiores na Universidade de Witwatersrand, onde obteve bacharelado em Comércio. Casou-se com o físico Moses Suzman, com quem teve um filho e uma filha, Frances e Patricia.

Na década de 1940 atuou como leitora de história econômica na Universidade de Witwatersrand, e no final daquela década, após a instalação do regime do Apartheid passou gradualmente a adotar uma posição de oposição, o que a levou a romper com o partido do governo, o United Party (UP) e a em 1960 participar da fundação do Progressive Party (PP). Durante quinze anos ela foi a única representação eleita deste partido a tomar assento no congresso em posição contrária às determinações do regime, e a única mulher a tomar parte do parlamento sul-africano.

Pressionada por anti-semitas e por misóginos, Helen Suzman usou o canal oficial para, tanto quanto possível, denunciar os excessos do Apartheid e as precárias condições impostas às populações negras na townships, como o bairro de Soweto. Valendo-se do privilégio político, ela teve acesso às prisões, como a de Robben Island, onde conheceu Nelson Mandela, tornando-se sua amiga pessoal, amizade que perduraria até o fim da vida. Ela também interferiu junto às autoridades, apelando pela libertação de Robert Sobukwe, o fundador do Pan-African Congress (PAC), aprisionado desde a revolta anti-passe que levou ao Massacre de Shaperville, e pela libertação de Steve Biko, assassinado pelo regime em 1977. Ela foi uma das pouquíssimas pessoas brancas a participar dos seus respectivos funerais. 

BIBLIOGRAFIA

KROS, Cynthia. “Helen Gavronsky Suzman”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 473-474.

LEE, Robin. Values alive: a tribute to Helen Suzman. Johannesburg: Jonathan Ball, 1990.

SHAIN, Milton. Opposing voices: liberalism and opposition in South Africa today. Johannesburg: Jonathan Ball, 2006.

SUZMAN, Helen. In no uncertain terms: memoirs. London: Sinclair Stevenson, 1993.   

Ifi Amadiume (1947)

Nascida em Kaduna, na área cultural Igbo, na Nigéria, realizou os estudo primário e secundário em se país antes de se mudar para a Inglaterra em 1971. Estudou na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, onde obteve mestrado (1978) e doutorado (1983) em Antropologia Social. 

Como docente e pesquisadora, atuou durante um ano na Universidade da Nigéria, em Enugu, e depois foi convidada para lecionar na Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e Senegal. Suas pesquisas empíricas inovaram o campo das relações de gênero na África em termos teóricos, a partir dos referenciais da cultura igbo, e resultaram nos livros  African Matriarchal Foundations: the igbo case (Estruturas matriarcais africanas: o caso igbo) (1987) e a premiada Male Daughters, Female Husbands: Gender and Sex in an African Society (Filhas machos, maridos fêmeas: gênero e sexualidade em uma sociedade africana ) (1987), em que antecipou o argumento depois muito difundido de que o gênero resulta de uma construção ocidental, e que a dicotomia de gênero não existia  na África antes do domínio colonial.  Escreveu ainda a coleção de ensaios Re-inventing Africa: Matriarchy, Religion and Culture (Reinventando a África: Matriarcado, Religião e Cultura) (1998).

Ifi Amadiume é também poetisa, e já em 1977 participou do II Festival de Artes e Culturas Negras em Lagos – FESTAC. Uma antologia de sua obra poética encontra-se em Passion Waves (Ondas da paixão) (1985), e em 2006 ela ganhou o Prêmio Flora Nwapa por seu livro Circles of love (Círculos do amor).  

Atualmente, faz parte do conselho consultivo do Center for Democracy and Development (Centro para a Democracia e o Desenvolvimento), uma ONG que visa promover os valores da democracia, paz e direitos humanos na África, particularmente na África Ocidental.

BIBLIOGRAFIA

ADESINA, Jimi. Práticas da Sociologia Africana: Lições de endogeneidade e género na academia. In: SILVA, Tereza Cruz e; COELHO, João Paulo Borges; SOUTO, Amélia Neves de (Orgs.). Como Fazer Ciências Sociais e Humanas em África: questões epistemológicas, metodológicas, teóricas e políticas (Textos do Colóquio em Homenagem a Aquino de Bragança). Dakar: CODESRIA, 2012, p. 195-210.

ADESINA, Jimi. “Re-appropriating Matrifocality: Endogeneity and African Gender Scholarship. African Sociological Review,  v. 14, nm. 1,  2010.

Iman Abdulmajid (1955)

Filha de um diplomata somali, Iman estudou em Mogadíscio (Somália) e no Cairo (Egito), e cursou ciências políticas na Universidade de Nairobi, no Quênia, onde em 1975 chamou a atenção de Peter Beard, um famoso fotógrafo de moda que a incentivou a se mudar para Nova York.

Em 1979, Iman apareceu na conhecida revista de moda Vogue,  e a Revlon a contratou para representar a empresa em uma campanha publicitária. Na década de 1980, ela se tornou um dos primeiros modelos afro-americanos a alcançar o status de top-model e atriz. Na década de 1990 fundou sua própria empresa de cosméticos, chamada Iman, que produzia artigos exclusivamente dirigidos para mulheres de pele mais escura, não apenas afro-americanas, mas também hispânicas, asiáticas e indígenas.

Em 1992, durante a fome que devastou a Somália, Iman procurou apoio junto à British Broadcasting Corporation (BBC) para fazer um documentário em sua terra natal. Desde então, tem se envolvido muito em atividades humanitárias, como a Action Française Contre le Faim (Ação Francesa Contra a Contra a Fome) e o British Break the Cycle (Quebre o ciclo)  contra a violência doméstica. Em 1997, recebeu um benefício para o American Child’s Defense Found (Fundo Americano de Defesa das Crianças). Iman apoia o Batoto Yeku Kiswahili (Para Nossas Crianças), um grupo sem fins lucrativos do Harlem que usa a dança, música e histórias africanas para ensinar as crianças afro-americanas sobre sua herança.

Iman foi casada com a estrela do rock David Bowie e sua filha, Alexandria Zahra Jones, nasceu em 15 de agosto de 2000. Ela também tem uma filha adulta, Zulekha, de seu casamento anterior com o jogador de basquete Spencer Heywood.

BIBLIOGRAFIA

JENNING, Helen. New African Fashion. Munich; London; New York: Prestel, 2011.

Kaltouma Nguembang (século XX)

Ativista política do Chade. Existem poucos relatos acerca de sua vida, devido à ínfima participação das mulheres na política do Chade, de forma que detalhes de sua vida pessoal são muito escassos. Sabe-se que ela nasceu no início do séc. XX, e que era prima do oficial militar Félix Malloum, futuro presidente do Chade entre 1975 e 1978.

Os poucos relatos de sua vida são fruto dos relatórios oficiais do colonialismo francês. Segundo estes relatórios, ela foi uma ativista política ligada ao Partido Progressista Chadiano – PPT. O propósito principal deste partido era promover os direitos de todos os cidadãos do Chade, buscando colocá-los em nível de igualdade com os cidadãos franceses.

Nguembang lutou junto ao PPT para disseminar as idéias de liberdade e igualdade para os cidadãos do Chade e da África, além de defender os direitos do povo Sara (do sul do país) contra a discriminação dos Muçulmanos no norte do país, e trabalhou ardentemente contra as campanhas do plantio compulsório do algodão.  Por seu trabalho, Nguembang tornou-se a líder da seção feminina do partido no sul da colônia. Nesta condição ela visitou a França e os Estados Unidos.  Em 1968, ela era a única mulher com assento na Assembléia Nacional. Casou-se com o deputado do PPT Tahir Abdeldjelil, membro da família real do sultanato do Wadai.

Foi acusada pelo ditador Tombalbaye de traição; a acusação envolvia supostas práticas de bruxaria contra a pessoa do ditador, o que causou sua demissão de todas as funções no PPT, além de ser levada a julgamento. Na realidade, a campanha em defesa dos direitos dos estudantes, defendida por Nguembang parece ter sido a razão da fúria do ditador. Em 1973, ela foi condenada a sete anos de trabalhos forçados; ela permaneceria na prisão até a deposição de Tombalbaye em 1975. Possivelmente devido às torturas que sofreu no cárcere, ela abandonou a política assim que foi libertada, tendo se exilado na Nigéria, onde faleceu.

BIBLIOGRAFIA

LANNE, Bernard. Histoire Politique du Tchad de 1945 à 1958: administration, partis, elections. Paris: Karthala, 1998.

RICH, Jeremy. “ Kaltouma Nguembang”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 460-461.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: Les nouvelles elites. Entretiens 1997-2003.Paris: Éditions Sepia, 2004.

Mamphela Ramphele (1947)

Nasceu no Distrito de Bochum, Província de Transvaal, atual Limpopo, na África do Sul.  Pertence a uma família de formação cristã protestante, sendo neta de pastor e filha de pai e mãe educadores(as).   Com excelente formação primária e secundária deu início em 1967 ao curso de medicina, algo incomum para mulheres negras na época, formando-se na Universidade de Natal.

Pela mesma época teve contato com Steve Biko e Barney Pityana, fundadoresda African Student’s Organization – SASO (Organização Estudantil Africa) (1969), que viriam a liderar  o Movimento da Consciência Negra durante a década de 1970. Ramphele tornou-se oradora da SASO e fazia trabalho comunitário e voluntário em clínicas locais. Durante esse tempo, manteve um relacionamento amoroso com Biko, com quem teve um filho.  

Na década de 1980 ela passou por um segundo casamento, mudou-se para a Cidade do Cabo e passou a estudar os fundamentos sociais e econômicos da pobreza e da desigualdade, o que a tornou academicamente reconhecida. Realizou o curso de mestrado em Boston, Estados Unidos (1988) e completou o doutorado na Universidade do Cabo (1991), com pesquisas sobre relações sociais e relações de gênero junto ao African Gender Institute (Instituto Africano de Estudos de Gênero) que ela própria criara.

Ela viria a ocupar o cargo de vice-reitora da Universidade do Cabo, e continuou o ativismo no período de transição pós apartheid. Suas pesquisas renderam publicações de diversos livros, como Across boundaries: the journey of a south african woman Leader (Além das fronteiras: a jornada de uma mulher da África do Sul) (1996). Também estendeu sua influência ao mundo empresarial e às organizações sociais, prestando assessoria a corporações, ao Banco Mundial e a Organizações Não Governamentais, com projetos voltados para a promoção da educação, igualdade social e afirmação dos direitos das mulheres.  Ela fundou o Circle Capital Ventures, uma corporação de investimento para impulsionar o empreendedorismo negro.

BIBLIOGRAFIA

HADFIELD, Leslie. “Mamphela Ramphele”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 171-172.  

MAMPHELA, Ramphele . Political widowhood in South Africa: the embodiment of Ambiguity. Daedelus, v. 125, n. 1, p. 99–117, 1996.

PITYANA, N. Barney et alii. Bounds of possibility: Steve Biko and the legacy of Black Consciousness. Cape Town: David Philip, 1991.

Marguerite Barankitse (1957)

Nascida entre o povo de Nyamutobo, na Província de Ruygi, no leste da República do Burundi, na África central, ela tem ascendência étnica tutsi. Formou-se como educadora e dedicou-se ao ensino nos anos 1979-1981. Em viagem à cidade de Lourdes, França, obteve formação em cursos da Igreja católica, e ao voltar ao país tornou-se secretária do Bispo de Ruyigi.  

No início da década de 1990, por se recusar a adotar a política de segregação determinada pelo governo, foi demitida.  Com a eclosão da crise humanitária que envolveu a guerra entre hutus e tutsis, passou a atuar, inicialmente junto com autoridades católicas locais, em atividades contra a discriminação e pela pacificação étnico-racial, e desde então adotou como foco preferencial de ação política a luta em defesa das crianças vítimas de ataques, perseguição e abandono.

Em 1993, no auge da guerra interétnica que eclodiu no Burundi e em Ruanda, ela liderou a criação de uma Organização Não Governamental de alcance internacional chamada Maison Shalom (A Casa da Paz), aberta ao abrigo  de crianças de quaisquer grupos étnicos e que além de proteção promove iniciativas educativas para que as crianças hutus, tutsis e twa possam conviver em harmonia. Durante os 26 anos em que operou no Burundi a Maison Shalom se transformou em uma grande rede de escolas, hospitais e serviços de saúde em todo o país. 

Em 2015, devido aos protestos públicos contra as infrações do governo do presidente Nkurunziza aos direitos humanos, Marguerite Barankitse foi ameaçada em sua integridade física, sendo forçada a abandonar o país, passando a viver no exílio. Abriu uma filial da Maison Shalom em Ruanda, e deu continuidade ao trabalho com crianças refugiadas. O foco assistencial se alargou, e embora atenda preferencialmente as “crianças soldados”, crianças órfãs e mutiladas de guerra, os serviços passaram a estar disponíveis para pessoas de toda a comunidade.

Por seu trabalho incansável e determinante em defesa dos direitos humanos Maggie Barankitse tornou-se internacionalmente reconhecida, sendo agraciada com diversos prêmios na Europa e nos Estados Unidos, inclusive na UNESCO (2008).

BIBLIOGRAFIA

IULM, Fondazione. Diritti umani e dei bambini – Un progetto di comunicazione sociale e di solidarietà. Rivista italiana di Comunicazione Pubblica, n. 27, 2006.

BUSCAGLIA, Ilaria. Randell, Shirley. Legacy of colonialism in the empowerment of women in Rwanda. Cosmopolitan Civil Societies: an interdisciplinary journal, v. 4,n. 1, p. 69-85, 2012: . https://search.informit.com.au/documentSummary;dn=988607999806253;res=IELHSS

Marie Béatrice Umutesi (1959)

Escritora e socióloga de origem étnica hutu, nascida em Byumba, em Ruanda. Estudou economia em Kigali e ganhou o diploma pela Universidade Nacional de Ruanda. Tornou-se socióloga pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Ela trabalhou como funcionária pública e atuou no Ministério do Interior, no Banco Continental Africano e no Centro de Serviço para Cooperativas.

Em Ruanda, Umutesi presenciou muitos casos de violência entre hutus e tutsis e viu a sua família materna ser vítima de um grupo rebelde de Tutsis, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF).  Ela se mudou com a mãe para Kigali e estava lá no início do genocídio de 1994, quando desenvolvia programas para uma associação de mulheres em Byumba.

Quando a Frente Patriótica Ruandesa assumiu o controle do país após o genocídio, Umutesi se juntou aos hutus que fugiram para a atual República Democrática do Congo, e lá morou em um campo de refugiados. Uma vez em Bukavu, na fronteira entre o Congo e Ruanda, ela aproveitou suas experiências trabalhando em Organizações Não Governamentais para dar assistência aos refugiados, até que a cidade foi tomada pelos rebeldes Banyamulenge em 1996 e todos foram forçados a fugir. Umutesi guiou um grupo de pessoas a pé durante um ano, até Kinshasa: neste meio tempo, foram atacados(as) por grupos armados das forças congolesas e do exército da RPF, e muitos não sobreviveram.

Já na Bélgica, publicou Fuir ou Mourir au Zaire (Fugir ou morrer no Zaire), com o registro de suas memórias sobre sua fuga. O livro a tornou conhecida no Ocidente nos anos 2000; a versão em inglês Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire (2004), chamou atenção para a condição dos milhares de hutus inocentes que precisaram fugir de seu país por serem perseguidos pela RPF e para o sofrimento que se seguiu devido ao fracasso da comunidade mundial ao intervir no genocídio e suas consequências.

BIBLIOGRAFIA

CANTRELL, Philip. “Marie Beatrice Umutesi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 101.

ELTRINGHAM, Nigel. Accounting for horror: Post-genocide debates in Rwanda. Londres: Pluto Press, 2004.

UMUTESI, Marie Béatrice. Surviving the slaughter: the ordeal of a rwandan refugee in Zaire.  Madison: University of Wisconsin Press, 2004.

Marie-Louise Sibazuri (1960)

Escritora, dramaturga e ativista nascida na província de Kayanza, no Norte do Burundi, de uma família de etnia hutu. Durante os estudos secundários em uma escola católica participou da encenação de uma comédia de Molière, o que a inspirou a escrever sua primeira peça teatral quando tinha quatorze anos. Começou a vida pública como professora e bibliotecária em seu país de origem. 

Na década de 1980, atuou em defesa das mulheres, tornando-se vice-secretária geral da Union des Femmes Burundaises (União das Mulheres do Burundi). Isso a aproximou do governo de Pierre Buyoya, que a nomeou para integrar a comissão de unidade nacional em 1988. Na década de 1990 era dramaturga reconhecida por mais de setenta peças teatrais escritas e encenadas em seu país, França e Bélgica, onde tratava de temas importantes e difíceis, como guerra civil que devastou o Burundi no início daquela década, a disseminação da epidemia de HIV/AIDS e a violência contra as mulheres.

 Decidida a ajudar na promoção da paz entre hutus e tutsis, participou da Organização Não-Governamental  Search for Common Ground,  quando escreveu a novela Umumbanyi Niwe Muryango (Onde os vizinhos são nossa família), transmitida pela rádio nacional, que atraiu uma audiência de milhões de pessoas em todo o país. Contava a história das relações entre duas famílias vizinhas cujos laços de amizade e respeito eram mais fortes do que as diferenças culturais e tornava impossível sua identificação étnica.

Entretanto, ela e sua família passaram a ser hostilizadas por opositores políticos, o que a forçou a se mudar para a Bélgica em 1998, onde aprofundou os estudos na Université Catolique de Louvain.  A pedido do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Marie-Louise Sibaruzi escreveu uma outra novela de rádio, desta vez sobre as relações entre ruandeses e burundianos nos campos de refugiados da Tanzânia. 

Em 2013 escreveu o seu primeiro romance, Les seins nus (Os seios nus), e no ano seguinte foi eleita embaixatriz da francofonia. Nos últimos anos vive na Austrália com o seu segundo marido, Hilaire Bucumi, e publicou em 2019 a coleção de contos folclóricos do Burundi chamada La femme sur le sentier des interdits (A mulher no canteiro dos interditos).

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. Marie-Louise Sibazuri”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 370-371.

ZACHARY, G. Pascal. The diversity advantage: multicultural identity in the New World Economy. Boulder: Westview, 2003. 

Navanethem Pillay (1941)

Juíza e advogada especializada em Direitos Humanos, nasceu em Clairwood, Durban, na África do Sul, de uma família tâmil, isto é, de origem indiana. Seu pai era motorista de ônibus e sua mãe nunca frequentou escola. Com a ajuda da família e amigos estudou na Universidade de Natal, onde se formou em artes (1963) e em direito (1965).  Em 1982 obteve o título de Mestra em Direito e em 1988 obteve o Doutorado em Direitos Humanos e Direito Internacional, ambos pela Universidade de Harvard.

Começou a carreira trabalhando como advogada no escritório do conhecido ativista N. T. Naicker e em 1967 fundou o seu próprio escritório junto com o marido. Atendeu diversos casos de violação dos direitos humanos, sobretudo os abusos cometidos em prisões e pela polícia, o que a colocou na mira das autoridades do regime do Apartheid. Ao longo dos anos 1970 representou ativistas do African National Congress (Congresso Nacional Africano) e em 1973 sua atuação possibilitou que os prisioneiros de Robben Island recebessem apoio jurídico de advogado.

Idealizadora e organizadora de grupos de apoio e acompanhamento pela garantia de direito das mulheres, fundou o grupo internacional de advocacia Equality Now (Igualdade Já). Em 1995, um ano após o início do processo de democratização da África do Sul, Pillay foi indicada para ser Juíza da Suprema Corte do seu país. Também foi indicada para o tribunal penal internacional da ONU após o genocídio de Ruanda, localizado em Arusha, na Tanzânia, do qual ela participou por oito anos e presidiu por quatro (1999-2003).  Ela inseriu a violência sexual como crime contra a humanidade e ato de genocídio, em sentença proferida no julgamento do líder político ruandês Jean-Paul Akayesu, primeira pessoa a ser condenada à prisão perpétua por genocídio em 1995.

Em 2003 Pillay esteve entre os dezoito nomes de juízes(as) escolhidos(as) para compor a Corte Internacional Criminal – ICC e em 2008 iniciou seu mandato de quatro anos como Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

BIBLIOGRAFIA

BOUVARD, Marguerite Guzman. Women reshaping human rights: how extraordinary activists are changing the world. Wilmington: Scholarly Resources, 1996.

HEALY, megan “Navanethem Pillay”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 106-108.

TERRIS, Daniel; Romano, Cesare P. R.; Swigart, Leigh. The international judge: an introduction to the men and women who decide the world’s cases. Waltham: Brandeis, 2007.

Paula Fortes (1945–2011)

Nascida em Mindelo, na Ilha de São Vicente, Arquipélago de Cabo-Verde, destacou-se na luta armada contra o colonialismo português.

            No início da década de 1970 era aluna no Liceu Gil Eanes, e dos debates políticos sobre abusos coloniais decidiu entrar para a clandestinidade e assumir a luta armada. Estudou enfermagem no Hospital Santa Maria, em Lisboa, quando entrou formalmente no campo da saúde, e redirecionou os seus conhecimentos para a Escola Piloto de Conakry, onde também atuou nos cuidados com crianças. Serviu no hospital militar e civil de Boké (Guiné-Conacri) e trabalhou como formadora de enfermeiras militares. Nesta época, foi representante do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC,  na 10ª Juventude de Berlim (Leste), Festival focado na Paz Mundial e Libertação Nacional.

Após a independência, em 1975, ela e outras “mulheres armadas” criaram a Organização de Mulheres de Cabo Verde – OMCV para continuar a luta pelos direitos das mulheres e melhorar sua condição social, política e econômica em Cabo Verde. Foi eleita delegada na Assembléia Nacional Popular – ANP da Ilha do Sal. Ficou conhecida por seu trabalho que vincula questões de juventude, sociais e de saúde, como planejamento familiar e divórcio relacionados ao desenvolvimento e reconstrução nacional. Em 2013, dois anos após sua morte, ocorrida em Portugal, foram publicadas suas memórias pessoais em volume autobiográfico, com o título Minha Passagem (2013). 

  
BIBLIOGRAFIA

FORTES, Paula. Minha passagem. Praia: Fundação Amílcar Cabral, 2013.

Pregs Govender (1960)

Feminista da África do Sul de origem indiana, ativista, educadora e política. Nasceu em Durban, filha de mãe professora e pai dramaturgo. Quando, em 1974, frequentou uma escola em Durban  para meninas indianas, começou a se envolver em atividades subversivas. Foi quando conheceu Jayendra Naidoo, seu primeiro marido e pai dos seus dois filhos mais velhos, Parusha e Yashodan.

Nos anos 1980, Govender lecionou durante algum tempo na Universidade de Durban-Westville, enquanto atuava numa base voluntária de organizações, como a Organização da Mulher de Natal, a qual ela se tornou membro junto com o movimento antiapartheid; e da Frente Democrática Unida.

Em 1990, mudou-se de Durban para Cidade do Cabo e em 1992 se estabeleceu em Johanesburgo com os filhos para dirigir a Coligação Nacional da Mulher – WNC, constituída por mulheres vinculadas ao African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano).  Foi indicada por esta coligação ao parlamento em  1994 e participou de uma ampla mobilização de associações e movimentos de mulheres que teve papel decisivo na elaboração da Carta de Mulher Sul-africana – documento que permitiu inserir as questões e interesses femininos na Constituição da África do Sul de 1996. Neste mesmo período conheceu Paul Benjamin, seu companheiro de vida e pai do seu terceiro filho, Saien.

Pregs Govender participou da elaboração do relatório do país que foi encaminhado para a Conferência Internacional das Mulheres em Pequim (1995), estabeleceu medidas contra a violência doméstica, os casamentos forçados ou arranjados e reivindicou melhorias concernentes à maternidade. Em 1996 se posicionou criticamente em relação à política neoliberal em curso na África do Sul,  defendeu o aborto e  forçou o governo de Thabo Mbecki a quebrar o silêncio oficial sobre os efeitos sociais do HIV-AIDS.

Por seu ativismo e seu espírito insubmisso, foi honrada  em 1999 com o prêmio de Associação Internacional dos Direitos das Mulheres em Inspiração do Desenvolvimento, que distinguia aquelas que contribuíram para a luta de igualdade de gênero. Em 2003 recebeu um doutorado honorário da Universidade de Durban-Westville. Crítica da marginalização das mulheres, Govender foi nomeada vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da África do Sul em 2009.

BIBLIOGRAFIA

GOVENDER, Pregs. Love and courage: a story of insubordination. Auckland Park: Jacana, 2007.

STRAUSS, Helene. “Pregs Govender”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 497-498.

Promise Mthembu (1975)

Ativista sobre gênero, AIDS e direitos humanos, nasceu no distrito de Umlazi, de Durban, na África do Sul. Ela foi a primeira sul-africana a falar publicamente que vivia com AIDS. Durante o ensino médio, participou de um projeto de conscientização sobre AIDS. Ela descobriu que vivia com AIDS durante a gravidez, em seu primeiro ano como aluna universitária.

Aos dezesseis engravidou da sua primeira filha, uma menina chamada Mbali, que nasceu com paralisia cerebral. Sua segunda gravidez resultou em um natimorto. Mthembu tem bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de ZwaZulu-Natal.

Em 1996 se tornou ativista na National Association of People Living With HIV-AIDS– NAPWA  (Associação Nacional de Pessoas Vivendo com HIV-AIDS) e na National AIDS Convention of South Africa –NACOSA  (Convenção Nacional de AIDS da África do Sul) em Durban. O seu interesse na intersecção entre problemas de gênero e AIDS começou nesse período.

O seu marido na época a agrediu por atender às reuniões sobre AIDS e falar abertamente sobre seu diagnóstico, o que a levou a se separar dele. Na sequência, em 1997, Mthembu descobriu que estava grávida de novo. Ela solicitou um aborto, e os médicos apenas consentiram com a condição de que ela concordasse em ser esterilizada, o que acabou acontecendo à sua revelia.

Em 2003 Promise se tornou advogada global por direitos sexuais e reprodutivos na International Comunity of Women Living with HIV-AIDS – ICW (Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV-AIDS), em Londres e logo depois passou a participar da Womandla AIDS Network – WIN,  em que ativistas sul-africanas produziram uma declaração de direitos das mulheres em contexto de epidemia.

Em 2010 ela se tornou líder do Her Rights Initiative (Iniciativa pelos seus Direitos), uma organização de mulheres vivendo com AIDS na África do Sul, que promoveu o acesso a serviços de saúde para prevenção e tratamento de câncer de útero.

BIBLIOGRAFIA

BELL, Emma; Mthembu, Promise.  Sexual and reproductive health services and HIV testing: perspectives and experiences of women and men living with HIV and AIDS.  Reproductive Health Matters, v. 15, p. 113-135, 2007: https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1016/S0968-8080%2807%2929029-9

MBALLI, Mandisa. “Promise Mthembu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 278-279.

MTHEMBU, Promise.  A positive view. Agenda, v.14, n. 39,p.  26-29, 1998: https://doi.org/10.1080/10130950.1998.9674428

Radha Poonoosamy (1924–2008)

Ativista política e feminista nascida em Durban, na África do Sul, com nome Radha Padayachee. Cresceu em uma família católica de origem indiana. Completou os estudos primários e secundários em Durban e ingressou na Universidade de Natal, onde tornou-se uma ferrenha oponente do regime do Apartheid.

Assumiu a liderança feminina do Student Council of the Indian National Congress (Conselho Estudantil do Congresso Nacional da Índia), organização estudantil que combatia a discriminação contra a comunidade indiana da África do Sul, assim como fez parte do comitê executivo do African National Congress (Congresso Nacional Africano).

Casou-se com Valaydon Poonoosamy e juntos foram morar nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico. A barreira linguística, já que as línguas oficiais são francês e criolo e Radha falava inglês, e o fato de ela não ser do país não a impediram de ser uma ativista. Fundou com John Thivy a Indo Mauritian Catholic Association (Associação Católica dos Indo-Maurícios) no início dos anos 1960 e foi secretária da instituição. Ela também passou a integrar os quadros do Labor Party (Partido Trabalhista) e em 1975 era a responsável pela seção feminina.

Nos anos 1970 intensificou sua atuação em várias frentes políticas, assumindo inclusive o cargo de Ministra dos interesses femininos, do Controle de Preços e Proteção do consumidor. Mesmo com a diferença de idioma, o que dificultou a interação dela com a maior parte da população, Radha sempre lutou pelos mais pobres do seu país adotivo.

BIBLIOGRAFIA

DEDANS, Jean-Claude. Militante féministe avant d’etre travailliste. 5-Plus Dimanche, 2002: Disponível em: http://www.splusltd.com/archive/2002/juillet/07_07_2002/annees.htm

RICH, Jeremy. “Radha Poonoosamy”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 118-119.

Roberta Leymah Gbowee (1972)

Destacada ativista social na Libéria,  foi uma das três pessoas agraciadas com o Prêmio Nobel da Paz em 2011, junto com sua compatriota Ellen-Johnson  Sirleaf e com a iemenita Tawakkol Karman – destacada defensora dos direitos das mulheres em seu país.

Nasceu na região central da Libéria e aos dezessete anos mudou-se para a cidade de Monróvia, quando eclodiu no país a Segunda Guerra Civil. Recebeu formação como terapeuta e durante o período do conflito trabalhou com acompanhamento  e recuperação de crianças antes recrutadas como meninos-soldados.

Ela organizou o movimento de mulheres que passou a pressionar a sociedade para o fim da guerra, unificando mulheres de fé cristã e de fé muçulmana em um amplo movimento pela paz.  O movimento ganhou grande notoriedade na mídia internacional, por conter, entre suas formas de ação, a indicação de uma greve de sexo como meio para conscientizar os homens a abandonar a violência que assolava a Libéria. O sucesso do movimento contribuiu para as negociações de paz que levaram à eleição da presidenta Ellen Johnson-Sirleaf em 2006. 

A seguir, ela criou Fundação Gbowee, cujo foco de ação é a promoção educacional dos jovens liberianos, em particular as meninas.  Participa em fóruns mundiais para tratar de assuntos de governança global com base na segurança e desenvolvimento em bases solidárias, com ênfase no empoderamento feminino. 

BIBLIOGRAFIA

AFRICAN Women and Peace Support Group. Liberian Women Peacemakers: fighting for the right to be seen, head, and counted. Trenton: Africa World Press, 2004.

GBOWEE, Leymah; MYTHERS, Carol. Guerreiras da paz: Como a solidariedade, a fé e o sexo mudaram uma nação em guerra. São Paulo: Companhia das letras, 2014.

PRASCH, Allison M.. Maternal bodies in militant protest: Leymah Gbowee and the rhetorical agency of african motherhood. Women’s Studies in Communication, v. 38, n. 2, p. 187-205, 2015.

Ruth Sando Perry (1939–2017)

Nascida com o nome de Ruth Sando Fahnbullah, em Dia Town, área rural da Grand Cape Mount County, região noroeste da Libéria. Filha de Marjon e de A Haji Semila Fahnbullah, muçulmanos e membros do grupo étnico Vai, foi ainda na infância iniciada na sociedade secreta Sande, porém seus pais eram progressistas o suficiente para colocá-la em escolas católicas missionárias. Ela completou o ensino secundário na St. Theresa Convert High School.  Mais tarde estudou na Universidade da Libéria onde graduou-se em pedagogia na Teachers College (Colégio para Professores).

Ruth lecionou em seu condado por um tempo e casou-se com McDonald Perry, um político que estava construindo sua carreira como juiz e como integrante da legislatura. Ela ficou viúva e para sustentar os sete filhos começou uma carreira bancária, chegando a supervisora do Chase Manhattan Bank, em Monrovia no início dos anos 1970.

O momento político do país estava complicado: os grupos autóctones eram oposição à elite política que descendia de retornados afro-americanos. Em 1980 um grupo militar tomou o controle, com Samuel K. Doe como governante, quando a Constituição foi reescrita. Nas eleições de 1985, Ruth se elegeu para o senado representando Grand Cape Town County pelo Unity Party (Partido da Unidade), sendo durante muito tempo a única senadora de oposição ao governo. Seus projetos eram voltados aos direitos da mulher e da criança.

No início da década de 1990, durante os quatorze anos de guerra civil em seu país, onde morreram cerca de 200 mil pessoas e cerca de 1,5 milhão ficaram desabrigadas, Ruth Perry assumiu a liderança pelo restabelecimento da paz e organizou a mobilização de mulheres através da Liberian Women’s Initiative (Iniciativa das Mulheres Liberianas), além de ser membro do um grupo da elite feminina da Libéria, Serra Leoa e Guiné, a  Mano River Union Women for Peace Network  – MARWOPNET (União das Mulheres de Mano River pela Negociação da Paz). Sua influência a fez ser conselheira do Conselho de Estado que assumiu o controle do país no momento conturbado em que duas facções rivais estavam se enfrentando em Monrovia, chegando a governar interinamente o país no período de 1996-1997.

O MARWOPNET, junto com a ONU e a Organização da União Africana, em seus esforços diplomáticos para amenizar os efeitos das guerras civis, encontraram em Ruth Perry uma liderança capaz de servir de mediadora entre os senhores da guerra, sobretudo no período entre 1999 e 2003. Ela fundou o Perry Center, uma Organização Não Governamental que trabalhou para dar suporte e assistência às mulheres e crianças nas áreas afetadas de seu país e de outros países da África Ocidental. 

BIBLIOGRAFIA

AFRICAN Women and Peace Suport Group. Liberian women peacemakers: fighting the righ to be seen, heard and counted. Trenton: Africa World Press, 2004.

ANDERLINE, Samam Naragbi. Woman at the Peace table: making a difference. Nova Iorque:  United Nations Development Fund for Women, 2000.

MORAN, Mary H.. “Ruth Sando Perry”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 95-96.

Sue Williamson (1941)

Artista plástica, escritora e ativista de direitos humanos, nasceu em Lichfield, Inglaterra, em 1941. Sua família emigrou para a África do Sul em 1948, poucos meses antes de o Partido Nacionalista chegar ao poder. Criada no que era então o Transvaal Ocidental, ela estudou jornalismo na Universidade de Natal (1969), obteve um diploma de Belas Artes na Art Students League de Nova York e um diploma de estudos avançados em Belas Artes pela Escola de Belas Artes Michaelis na Cidade do Cabo (1984). Sue Williamson adquiriu cidadania sul-africana em 1990, quando o regime do Apartheid chegou ao fim.

Como artista e ativista, ela se envolveu em organizações de direitos humanos associadas ao movimento antiapartheid, e desenvolveu projetos que tinham por objetivo tornar visíveis as experiências de pessoas e comunidades marginalizadas e racialmente discriminadas. Foi membro fundadora e presidenta do Movimento das Mulheres pela Paz, uma organização de direitos humanos da Frente Democrática Unida), e se envolveu diretamente na luta para impedir a demolição de Crossroads, uma comunidade de posseiros das vizinhanças da Cidade do Cabo. Paralelamente, no período de 1982-1987 criou uma série de retratos que celebravam mulheres sul-africanas que contribuíam para a luta contra o apartheid, em geral mantidas no anonimato Albertina Sisulu, Lilian Ngói, Amina Cachalia, Mamphela Ramphele.

Em outras obras, Sue Williamson deu visibilidade e conferiu valor estético à vida de indivíduos e comunidades deslocadas e destruídas pelo Apartheid.  Na obra A Última Ceia (1981), ela retratou a destruição do Distrito Seis, uma comunidade histórica ocupada por grupos inter-raciais e inter-religiosos na Cidade do Cabo que foi demolida pelo estado. Ela reuniu escombros e objetos quebrados que foram deixados para trás e os apresentou em uma pilha no centro de uma galeria da Cidade do Cabo. A peça de instalação foi acompanhada por uma gravação de som que incluía declarações e memórias de antigos residentes, sons de escavadeiras destruindo casas e chamadas para a oração da mesquita local.

Depois de 1994, seu trabalho tratou dos dilemas e impasses no pós-Apartheid, como o trauma revelado durante a Comissão da Verdade e Reconciliação, na série denominada Truth Games (Jogos da verdade) (1998), e a devastação provocada pela AIDS, na série From the Inside (De dentro) (2000-2002), e a escalada da xenofobia e restrições impostas aos imigrantes na série Better Lives (Vidas melhores) (2003).

Além do trabalho como artista, Sue Williamson atua como crítica de arte. Seu primeiro livro, Resistance art in South Africa (Arte da resistência na África do Sul) (1989, reeditada em 2004), apresenta o perfil da obra de  mais de 100 artistas que dedicaram seu trabalho ao campo de batalha política durante do  Apartheid, tanto alguns aclamados como muitos outros que até então permaneciam no anonimato. O livro fornece um diagnóstico do quanto o regime segregacionista moldou o curso da arte contemporânea na África do Sul. Por seu papel seminal na crítica e consciência artística, seu nome passou a estar vinculado a importantes centros de debate, na fundação que leva o seu nome e na organização de artes da Cidade do Cabo Public Eye (1999).

BIBLIOGRAFIA

ENWEZOR, Okwui;  Chika, Okeke-Agulu. Contemporary african art since 1980.Bolonha: Damiani, 2009.

MILLER, Kim. Trauma, testimony, and truth: contemporary south african artists speak. African Arts, v. 38, n.3, p. 40-51, 2005.

MILLER, Kim. “Sue Williamson”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 173-174.

WILLIAMSON, Sue. Resistance art in South Africa. Cape  Town: Double Storey Books, 1990.

Sy Koumbo Singa Gali (1961)

Jornalista e ativista de direitos humanos. Nasceu em N’Djamena, no Chade. Foi a segunda de dezesseis crianças nascidas em sua família que pertence aos povos falantes de língua Sara e cresceu em Ridina, um bairro pobre da capital.

Estudou no liceu feminino e ao completar o estudo secundário ingressou no Ministério da Informação sob o novo presidente do país, Hisséne Habré (1982), sendo a seguir enviada para formação em Paris, Canadá e Estados Unidos (1984). Formou-se em jornalismo em Dakar e retornou ao país em 1988. Continuou a trabalhar no serviço público até  ascensão do governo de Idriss Déby (1990), quando foi afastada do governo (1993). 

Ingressando no jornalismo, juntou-se  à equipe do jornal Contact, editado por Abderaman Koulamallah, e depois criou o seu próprio jornal, L’Observateur (1997), e passou a divulgar também através da internet. Devido ao perfil crítico, passou a ter problemas com os ocupantes do poder, tendo sido presa em 1998 a mando do poderoso político chadiano Wadel Abdelkader Kamougue sob acusação de difamação. Ela passou um ano na prisão em 2005 após condenação por incitação ao ódio movido pelo governo de Déby, o que despertou protesto da Anistia Internacional.

Sy Coumbo deixou o país em 2006 para atuar como voluntária das Nações Unidas na República Democrática do Congo.

BIBLIOGRAFIA

RICH, Jeremy. “Sy Koumbo Singa Gali”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 412-413.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: Les nouvelles élites, entretriens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.

Sylvia Tamale (1962)

Sylvia Rosila Tamale é destacada intelectual, acadêmica, feminista, e ativista dos direitos humanos ugandense, em particular dos direitos das mulheres e das minorias sexuais. Formada em direito pela Universidade de Makerere, obteve mestrado na Harvard Law School e doutorado em Sociologia e Estudos Feministas pela Universidade de Minnesota em 1997. Atuou como professora visitante na Universidade do Cabo, África do Sul, e na Universidade de Wisconsin. Foi a primeira reitora da Faculdade de Direito e Jurisprudência da Universidade de Makerere, de 2004 a 2008.

Em 2003 ela tomou parte de uma Comissão pela Igualdade de Oportunidades, e propôs que gays e lésbicas fossem incluídos(as) na definição de minorias. Por causa disso, foi objeto de uma campanha de difamação durante semanas pelos conservadores, que a elegeram a “Pior mulher do ano”. Em um dos jornais diários de Kampala, a New Vision, ela foi responsabilizada pela “degeneração moral da nação” e até pelo risco de os(as) adolescentes ugandenses irem para o inferno. 

Como membro do grupo de trabalho no Fórum Feminista Africano – AFF, participa da discussão de estratégias, abordagens e desenvolvimento de redes mais fortes para promover os direitos das mulheres na África. Ela é membro do Conselho Consultivo da Open Society Fondations, uma organização ativa em mais de 120 países que fornece subsídios a indivíduos e grupos para a construção de democracias inclusivas e dinâmicas.

Pioneira nos estudos de gênero e sexualidade em seu país, é autora, entre outras, das obras When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda (Quando as galinhas começam a cantar: gênero e política parlamentar em Uganda) (1999) e Homossexuality: perspectives from Uganda (Homossexualidade: perspectivas para Uganda) (2007).

BIBLIOGRAFIA

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.

TAMALE, Sylvia. Homossexuality: perspectives from Uganda. Kampala: Sexual Minorities Uganda, 2007.

TAMALE, Sylvia. Gender trauma in Africa: nehancing women’s links to resources. Journal of African Law, v. 48, n. 1, p. 50-61, 2004.

TRIPP, Aili. “Sylvia Tamale”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 499-501.

Unity Dow (1959)

Jurista, ativista dos direitos das mulheres e dos direitos humanos e escritora. Nasceu em Mochudi, no distrito de Kgatleng, em Botsuana. Recebeu educação fundamental e secundário em Mochudi e cursou Direito na Universidade de Botsuana e depois na Universidade de Edimburgo (1983). Casou-se  em 1984 com Peter Nathan Dow, um cidadão americano, com quem criou três filhos(as).

Começou a atuar como advogada e logo depois assumiu o cargo de Promotora Criminal nas Câmaras Gerais de Attoney, em Gaborone. Depois voltou a advogar em prática privada, com foco nos direitos humanos e direitos das mulheres, fundando o programa Mulheres e Direito na África Austral  – WLSA, um grupo de pesquisa que se concentrou nos direitos das mulheres, além de participar de outras associações voltadas para os direitos de mulheres e crianças, como o Metlhaetsile Women’s Information Centre.

Unity Down ganhou renome nacional ao mover um processo contra o Estado de Botsuana que ficou conhecido como “Caso da Cidadania”, em que contestou com sucesso a constitucionalidade de certos dispositivos do Ato de Cidadania (1982) que a impedia, por ser mulher, de transferir sua cidadania para seus filhos. A lei botsuana até então estipulava que os filhos herdavam a cidadania apenas pelo lado paterno, em evidente discriminação contra as mulheres e fortalecimento de uma visão patriarcal da sociedade.

Durante o processo, ela contou com o apoio do grupo  Emang Basadi (Levantem-se Mulheres), organização fundada para pressionar pela reforma de leis discriminatórias como essa. O caso foi parar na Corte Suprema. Em duas decisões marcantes, a Suprema Corte e, posteriormente, a Corte de Apelação declararam as disposições da “Lei da Cidadania” inconstitucionais, e o direito das mulheres foi constitucionalmente reconhecido.

Em 1998, Dow quebrou outra barreira de gênero ao se tornar a primeira juíza do Supremo Tribunal de Botswana, e mais tarde foi nomeada para o Tribunal de Recurso como juíza interina. Por tudo isso, ela é vista na África e no mundo como uma personalidade marcante e influente em defesa da afirmação dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.

No século XXI Unity Down deu início a uma carreira paralela como autora de diversos romances, entre os quais Far and beyon (2000), The screaming  of the innocent (o grito do inocente) (2001), Jugling truths (2003) e The heavens may fall (O céu pode cair) (2006), cujas protagonistas em geral são mulheres em busca de afirmação e reconhecimento.

BIBLIOGRAFIA

DOW, Unity (Ed).  The Citizenship Case: the Attorney General of the Republico f Botswana v. Unity Down. Gaborone: Lentswe la Lesedi, 1995.

GAGIANO, Annie. Entering the oppressor’s mind: a strategy of writing in Bessie Head’s A question of poweer, Yvonne Vera’s The stone virgins  nd Unity Down’s  The screaming  of the innocent. Journal of Commonwealth Literature, v. 41 n. 2, p. 43-60, 2006.

LEDERER, Mary; MACHARIA-MOKOBI, Elizabeth. “Unity Dow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 248-249.

Vera Mlangazuwa Chirwa (1932)

Política, advogada, professora e ativista dos direitos humanos de Malawi, nascida no distrito de Mzimba, em Niassalândia. Ambos os lados de sua família eram associados ao trabalho missionário cristão, à educação e à política na colônia britânica. Ela morava com seu avós paternos,  frequentou a escola primária e secundária em escola missionária, e cresceu junto à família materna.

Em 1950 recebeu treinamento para ser professora, casando-se no ano seguinte com  Orton Chirwa, que tinha envolvimento com o Congresso Africano de Niasaalândia – NAC, e ambos ingressaram no movimento nacionalista e anti-colonial.

Em 1956, Orton Chirwa foi para Londres terminar os seus estudos, enquando Vera e seus filhos permaneceram em Domasi, em uma área não muito longe de Zomba, onde ela trabalhava na sede do Departamento de Terras. Assim que seu marido retornou, a família se estabeleceu em Blantyre (1958), e  Orton passou a atuar juridicamente em defesa do NAC, reconectando os Chirwa à campanha de descolonização. Algum tempo depois, participariam da criação de uma nova organização política, o Malawi Congress Party – MCP (Partido do Congresso do Malawi), que substituiu o NAC. Ambos assumiram a liderança da nova agremiação, ficando ela com a responsabilidade de criar e dirigir a Liga da Mulheres. Ao mesmo tempo, completou os estudos na Europa, formando-se em Direito em Londres no ano de 1966 e obtendo o título de Mestre pela University College (1967).

Após a independência do Malawi o casal teve dificuldades políticas com o governo do Primeiro Ministro Hastings Banda, tendo que se exilar em diversos momentos na Tanzânia e na Zâmbia, onde ela lecionou na Universidade da Zâmbia (1977). Quando visitaram o Malawi em 1981, foram sequestrados por agentes do governo, levados para o quartel general da polícia, acusados de traição, condenados e sentenciados à morte (1982).  Uma comoção internacional forçou o presidente Banda a comutar a pena para prisão perpétua: ele morreu durante o encarceramento e ela foi libertada apenas em 1993.

Daí em diante, Vera Chirwa passou a se dedicar aos direitos humanos, criando o Centro de Conselho, Pesquisa e Educação em Direitos Humanos, e em 1999 passou a integrar a comissão de direitos humanos da União Africana.

BIBLIOGRAFIA

BAKER, Colin.  Revolt of the ministers: the Malawi “Cabinet Crisis”, 1964-1965. Londres; Nova Iorque: IB Tauris, 2001.

CHIRWA, Vera M. Fearless fighter: an autobiography. Londres: Zed Books, 2007.

KALINGA, Owen. “Vera Mlangazuwa Chirwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 80-81.

POWER, Joey. Political culture and nationalism in Malawi: building  Kwacha. Rochester: University of Rochester Press, 2010.

Victoria Mxenge (1942–1985)

Nascida na comunidade de Tamara, na cidade de King Williams, Província Oriental, África do Sul. Estudou na Escola Secundária de Forbes Grant e foi treinada no Hospital Vitoria para ser enfermeira (1964).

Em 1960 ela se casou com Griffiths Mxenge, um advogado e militante do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), com quem teve dois filhos e uma filha.  A família se mudou para Natal, onde trabalhou alguns anos no Hospital King Edward, e como enfermeira comunitária em Umlazi.

Em 1965 Griffiths foi condenado e ficou preso durante dois anos na Ilha de Robben, e após a libertação voltou a sofrer uma série de restrições, proibições e detenções sancionadas pelo regime do Apartheid. Enquanto isso, ela buscou obter formação jurídica e obteve licença para advogar em 1981. No mesmo ano, seu marido foi assassinado supostamente por membros do ANC, algo que Victoria refutou vigorosamente mediante processo judicial.

Na sequência, Victoria manteve a prática da advocacia, defendendo com sucesso estudantes e pessoas perseguidas pelo regime. Participou do comitê pela libertação de Nelson Mandela e passou a integrar a NOW (Organização Nacional das Mulheres).  Ela fez parte da equipe de defesa no inquérito que examinava as circunstâncias da morte de Mathew Goniwe, Fort Calata, Sparrow Mkhonto e Sicelo Mhlauli, assassinados por policiais em 1985, quando se referiu ao assassinato como um “ato de covardia”.

Pouco depois ela foi assassinada a tiros por quatro homens negros quando retornava de uma reunião política, integrantes de um “esquadrão da morte” a serviço do governo.  Sua morte desencadeou amplas manifestações e protestos em Durban, teve ampla repercussão nacional e internacional. Os confrontos nas ruas produziram a morte de nove pessoas e 138 pessoas feridas.

O esclarecimento do caso ocorreu em 1997, no Relatório da comissão da Verdade e Reconcialiação, quando Marvin Sefako (também conhecido por Bongi Raymond Malinga), admitiu ter sido recrutado pelo departamento de segurança, e que, a serviço do Brigadeiro Peter Swanepoel, confessou ter matado Victoria Mxenge.

Em 2006, o casal Mxenge foi condecorado postumamente com a Ordem de Luthuli em Prata, pela sua contribuição e seu sacrifício em nome dos direitos humanos. Em 2017 estátuas foram edificadas em homenagem a ela e ao marido na cidade de Durban.

BIBLIOGRAFIA

MCGEE, Holly. “Victoria Mxenge”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 376-377.

NEWTON, C. Victoria Mxenge: a story about more than women building their community. Urban Forum , v. 23, p.197–207, 2012: https://doi.org/10.1007/s12132-012-9150-4

Wangari Muta Maathai (1940–2011)

Líder ambiental e primeira mulher africana a vencer o Prêmio Nobel em 2004. Nasceu e cresceu numa vila rural em Nyieri, no centro da atual República do Quênia, na época sob o domínio britânico. Sua mãe era uma agricultura e o pai trabalhava como mecânico e motorista. Até o ensino médio sua educação dependeu de missionários católicos. Incentivada por seu professor de Ciências, e por seu gosto por química e biologia, decidiu que não seria professora ou enfermeira, únicas opções para garotas africanas em 1950, mas que entraria na  Universidade.

Ela estudou na Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos. Em 1966 retornou ao Quênia, passando a lecionar no Departamento de Veterinária e Anatomia da Universidade de Nairóbi. Nesse ano ela também conseguiu abrir uma loja com suas irmãs e conheceu o futuro marido, Mwangi Mathai.  Realizou estudos de doutorado na área de medicina veterinária em Nairóbi (1971), sendo a primeira mulher da África Oriental a obter esse título.

Deu à luz ao primeiro dos três filhos com Mwangi em 1969, que a deixou em 1970, tendo-se divorciado em 1979, de forma litigiosa. Nos anos 1970 Maathai se envolveu com a Cruz Vermelha e com a Associação Queniana das Mulheres Universitárias. Também se juntou ao Centro Liaison de Meio-ambiente, que trabalhava juntamente com o programa de meio-ambiente das Nações Unidas.

Seu trabalho com o Conselho Nacional das Mulheres do Quênia (NCWK) foi a maior fonte de inspiração para o trabalho que seguiria depois. Como ela descreve, aprendeu que as mulheres nos meios rurais têm uma enorme conexão com a degradação ambiental, o que a levou um dia a pensar: “por que não plantar árvores?”. Foi esta a origem do Green Belt Movement, organização que ela fundou em 1977 com o apoio do NCWK. O trabalho baseava-se no plantio de árvores por mulheres nos arredores de Nairobi, como forma de proteger o solo contra a erosão. Em 1992 mais de dez milhões de árvores tinham sido plantadas, com trabalho assegurado a 80.000 mulheres, e foi então criado o Uhuru Park.

Paralelamente, ela entrou na vida política, tendo tido papel decisivo na afirmação de democracia no país, o que a levou a ser indicada em 2003 para o cargo de Ministra do Meio Ambiente. Por sua carreira e ativismo em defesa do meio ambiente, justiça e direitos humanos ela ganhou o Prêmio Nobel em 2004.

BIBLIOGRAFIA

CHILKWENDU, Eudora. Wangari Maathai: Nobel laureate, envoronmentalist, and engagement with Kenya state. In: KORIEH, Chima; OKEKE-IHEJIRIKA, Philomina (Ed.).. Gendering global transfomations: gender, culture, race and identity. Nova Iorque: Rotledge, 2009.

MAATHAI, Wangari. The Green Bolt Movement: sharing the approach and the experience. Nova Iorque: Lanten Books, 2003.

SHELDON, Katleen. “Wangari Muta Maathai”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 03-05.

Waris Dirie (1963)

Nascida em uma família nômade na área de Galkayo, na Somália, fugiu aos treze anos para a cidade de Mogadíscio para escapar de um casamento arranjado com um homem de sessenta anos.  Levada para Londres, trabalhou na Embaixada da Somália sem remuneração, e depois em atividades de baixa remuneração. 

Aos dezoito anos, descoberta pelo fotógrafo Terence Donovan, que a fotografou em 1987 junto com a então ainda desconhecida Naomi Campbell, teve sua imagem associada ao calendário da Pirelli, o que marcou o início de uma carreira de grande sucesso como top model mundialmente famosa. Sua imagem apareceu em anúncios de marcas como a Channel, Levi’s, l’Oreal e Revlon, e em revistas especializadas de moda, além de participar eventualmente de filmes e documentários.

Em 1997, no auge da carreira, revelou à jornalista Laura Ziv, da revista Marie Claire, sobre a mutilação genital que ela tinha sofrido aos cinco anos de idade, junto com suas irmãs, e passou a atuar junto à ONU em campanhas pela abolição da prática. No ano seguinte, junto com Cathleen Miller, escreveu a autobiografia Desert Flower (Flor do Deserto) que se tornou best-seller em todo o mundo, sendo adaptado para o cinema em 2008. Além dele, lançou outros livros, Desert dawn (Alvorecer no deserto), Letter tom my mother (Carta para minha mãe) e Desert children (Criança do deserto), o último dos quais lançado em uma campanha contra a mutilação genital.

Líder de uma campanha internacional contra a mutilação genital, fundou a Desert Flower Foundation (Fundação Flor do Deserto) (2002) em Viena, Áustria, e organizou diversas campanhas na União Européia para erradicar a prática entre os(as) imigrantes(as). Também fundou a Desert Dawn Foundation, que arrecada dinheiro para escolas e clínicas na Somália. Em 2010 foi nomeada pela União Africana como Embaixadora da Paz e Segurança no continente.

BIBLIOGRAFIA

ZABUS, Chantal. Acquiring Body: Waris Dirie, Infibulation, and New African Female Self-Writing.  In: African and its significant others. Londres: Brill, 2003,  p. 61-76.

SHELDON, Kathleen. Historical Dictionary of Women in Sub-Saharan Africa, Lanham: Scarecrow Press, 2005.

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