Por que falar das formas expressivas indígenas nas escolas?


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Roda de teto wayana. 

Fonte: VAN VELTHEM (org.). Livro da arte gráfica wayana e aparaí. Museu do Índio/Iepé, 2010.

A questão acima me foi proposta como mote pelo interessantíssimo grupo Arteversa, que tem, como um de seus méritos, propor discussões públicas e interdisciplinares sobre arte e educação. Ela permitiria várias respostas. Vou compartilhar três delas com vocês, na esperança de que deem início a boas conversas. Pediram-me que produzisse um texto curto e espontâneo. Pois bem, vou “pensar em voz alta” por meio do teclado.

Em primeiro lugar, falar de formas expressivas indígenas nas escolas me parece premente porque, embora a diversidade étnico-cultural seja imensa em nosso país, a maioria das pessoas sabe pouco sobre ela. Não sabe, por exemplo, que temos cerca de 300 povos indígenas vivendo hoje no Brasil, ou seja, que índios não são seres do passado, mas nossos contemporâneos. Muitos não conhecem a sofisticação de seus saberes e práticas, suas técnicas de cultivo, suas formas de curar doenças, suas maneiras de classificar a natureza e suas ricas cosmologias. Crianças, jovens e adultos brasileiros tampouco têm clareza do sofrimento que a sociedade nacional continua a infligir aos povos indígenas, ao permitir que fazendeiros, madeireiros e garimpeiros invadam suas terras, ao não punir os responsáveis por verdadeiros massacres e ao autorizar a construção de empreendimentos como a usina de Belo Monte, que, antes mesmo de funcionar a pleno vapor, já gerou a morte de toneladas de peixes e a baixa de vazão no Rio Xingu.

Colocar o aluno em contato com formas expressivas indígenas tradicionais como música, dança, grafismos corporais e máscaras rituais, e também com produções de surgimento mais recente, como o cinema e a literatura indígenas, é um caminho promissor para despertar seu interesse pelos povos ameríndios. A experiência estética e a emoção podem ser tão ou mais mobilizadoras que textos didáticos, mapas e gráficos. Trabalhar com artes indígenas em sala de aula ou em projetos extracurriculares é um modo de convidar o aluno a penetrar no pensamento, na imaginação e na corporalidade ameríndios, de estimulá-lo a pensar a partir da diferença.

Um segundo argumento para trabalhar com formas expressivas indígenas nas escolas reside na urgência de se alargar os contornos do que entendemos por arte. Nas últimas décadas, a história da arte tem recebido críticas de dentro e de fora da disciplina, pelo seu caráter excludente. Na década de 1970, passou-se a questionar o baixíssimo número de mulheres artistas nos livros, nos ateliês e nos salões. O interesse por criadores autodidatas/populares também se fortaleceu na segunda metade do século XX. A ausência de negros nas coleções de museus e nas publicações sobre artes visuais começou a ser discutida mais recentemente – resultando, aliás, em exposições de fôlego como “Histórias Afro-Atlânticas”, em cartaz no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, no momento em que estas linhas estão sendo digitadas. Quanto aos artistas indígenas, eles conseguiram algum espaço no sistema das artes Ocidental apenas na Austrália, no Canadá e nos Estados Unidos, a partir da década de 1980.

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Trailer de vídeo que integra o projeto “Kukradjá Nypênh: Guardando a cultura Mebengôkre Kayapó“. Realizado em 2014, pelos Mebêngôkre-Kayapó do sul do Pará, com apoio da FUNAI, do Museu do Índio e da UNESCO (https://www.youtube.com/watch?v=heX8IvyqWrk)

No Brasil, costuma-se chamar o que é feito por indígenas de artesanato, termo que assume conotação inferiorizante em relação à suposta grande arte – esta sim, única, feita supostamente para a pura contemplação, assinada por um artista reconhecido pelas instâncias de legitimação. Os museus brasileiros, públicos e privados, não costumam expor nem comprar trabalhos de artistas indígenas. Sim, ocorrem exceções. Como no caso da mostra de arte aborígene da Austrália com a qual estou envolvida, que vem itinerando desde 2016 nas unidades da Caixa Cultural. Mas seu orçamento foi baixo, não se investiu em ações educativas e houve pouca repercussão na crítica especializada, ainda que a resposta do público tenha sido muito positiva. O fato é que inserir as artes indígenas nas escolas brasileiras significa levar a sério um movimento mais amplo de problematização do viés elitista e restritivo que predomina no sistema das artes e nos estudos acadêmicos sobre arte. É uma maneira de contribuir para romper com os silêncios perpetuados por cânones eurocêntricos e empobrecedores.

Por fim, uma terceira resposta possível diz respeito ao deleite estético e intelectual que as artes indígenas podem proporcionar. Elas conjugam forma e eficácia, associam a dimensão artística a outras que, em nosso mundo, designamos como religião, medicina,  organização social e assim por diante. As máscaras gigantes e decoradas do povo xinguano Wauja, por exemplo, têm a capacidade de curar, seduzindo os espíritos apapaatai que roubaram a alma do doente. De acordo com as pesquisas de Aristóteles Barcelos Neto, a imponência, a criatividade e a perfeição formal das máscaras fazem com que os apapaatai entrem na festa e deixem a alma do doente voltar para seu corpo. Já os grafismos Kayapó-Xikrin, aplicados sobre a pele com tintura de jenipapo, comunicam o status de cada pessoa, como mostram Lux Vidal e Clarice Cohn: se é recém-nascida, se foi iniciada, se é pai ou mãe recente, se vai para uma luta, se perdeu um parente querido e assim por diante. As rodas de teto dos Wayana do Amapá, por sua vez, são afrescos de madeira colocados no centro das casas, que ajudam a conhecer e controlar entidades  perigosas. Segundo Lúcia Van Velthem, os Wayana pintam na roda de teto seres sobrenaturais serpentiformes que temem e, assim, eles ficam sempre ao alcance dos olhos. Arte e vida definitivamente não se separam no reino das formas expressivas indígenas. Daí vem grande parte de seu fascínio.

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Máscaras apapaatai em ritual de cura Wauja.

Foto de Aristóteles Barcelos Neto.

Por Ilana Seltzer Goldstein

ilagolds@yahoo.com

Mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e Doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas. Docente no Departamento de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, sendo responsável pelas disciplinas História da Arte Ameríndia e Antropologia e Arte. Membro do Programa de Pós-Graduação em História da Arte e integrante do grupo do CNPq Todas as Artes Todos os Nomes: Pesquisas sobre Arte na Contemporaneidade. Desde 2016, é co-coordenadora da Cátedra Kaapora, voltada à valorização de conhecimentos e formas expressivas tradicionais e não-hegemônicos.

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