Em tempos de #FiqueEmCasa, ONDE AS CRIANÇAS DORMEM?


No início do isolamento em quarentena, como forma de não propagação durante a pandemia do vírus Covid-19, ficar em casa foi um privilégio para alguns. A medida de precaução ampliada para mais pessoas até a compreensão de ser esse dever coletivo de proteção à saúde de todos, cessou todas as atividades consideradas não essenciais promovendo também uma pausa nas atividades das escolas. Em 17 de março de 2020, a estimativa era a de que mais de 776 milhões de crianças estejam sem escola por causa da COVID-19.

Com isso, a rotina das famílias teve que se ajustar às necessidades de as crianças permanecerem em período integral em casa. O apelo #FiqueEmCasa certamente tem sentidos muito distintos e é vivido de diferentes maneiras para cada pessoa, de acordo com seus espaços.

Onde as crianças dormem”, série do fotógrafo britânico James Mollison, apresenta crianças de diferentes lugares do mundo ao lado da imagem dos espaços de seus quartos. Junto às fotografias, ele conta brevemente um pouco sobre essas crianças. A série completa foi publicada no livro “Where children sleep”, pela editora Chris Boot em 2010, disponível completo aqui.

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Nantio, 15 anos, Lisamis, Norte do Quênia

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Jivan, 4 anos, Nova York, Estados Unidos

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Kaya, 4 anos, Tóquio, Japão

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Bilal, 6 anos, Wadi Abu Hindi, Margem Ocidental

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Lehlohonolo, 6 anos, Lesoto, Africa do Sul

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Indira, 7 anos, Catmandu, Nepal

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Alyssa, 8, Kentucky, Estados Unidos

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Ahkôhxet, 8 anos, Amazônia, Brasil

Mais do que falar da personalidade de uma criança a partir de seu quarto, ressaltando a importância dessa individualidade, ao contar um pouco da história de cada uma, Mollison nos propicia olhar para as diferentes infâncias. As crianças como seres humanos providos de histórias, o que muitas vezes lhes é negado. Seus gostos, modos particulares de organização, seus espaços de pertencimento nas casas, e até acontecimentos que marcaram suas vidas desde cedo.

Lamine, 12 anos, Bounkiling Village, Senegal

Lamine, 12 anos, Bounkiling Village, Senegal

“Lamine vive no Senegal. As camas são básicas, apoiadas por alguns tijolos. Aos seis anos, todas as manhãs, os meninos começam a trabalhar na fazenda-escola onde aprendem a escavação, a colheita do milho e lavrar os campos com burros. Na parte da tarde, eles estudam o Alcorão. Em seu tempo livre, Lamine gosta de jogar futebol com seus amigos.”

“Mora com os pais e onze irmãos em um campo de refugiados palestinos em Hebron, na Cisjordânia. Ela divide um quarto com outras cinco irmãs. Douha frequenta uma escola, a 10 minutos a pé, e quer ser pediatra. Seu irmão, Mohammed, matou 23 civis em um ataque suicida contra os israelenses em 1996. Posteriormente, os militares israelenses destruíram a casa da família. Douha tem um cartaz de Maomé em sua parede.”

Douha, 10 anos, Hebron, Cisjordânia

“Douha mora com os pais e onze irmãos em um campo de refugiados palestinos em Hebron, na Cisjordânia. Ela divide um quarto com outras cinco irmãs. Douha frequenta uma escola, a 10 minutos a pé, e quer ser pediatra. Seu irmão, Mohammed, matou 23 civis em um ataque suicida contra os israelenses em 1996. Posteriormente, os militares israelenses destruíram a casa da família. Douha tem um cartaz de Maomé em sua parede.”

Jazzy, 4 anos, Kentucky, Estados Unidos

Jazzy, 4 anos, Kentucky, Estados Unidos

“Vive em uma grande casa no Kentucky, EUA, com seus pais e três irmãos. Sua casa é na zona rural, rodeada por campos agrícolas. Seu quarto é cheio de coroas e faixas que ela ganhou em concursos de beleza. A garota já participou de mais de 100 competições. Seu tempo é todo ocupado com os ensaios. Jazzy gostaria de ser uma estrela do rock quando crescer.”

Essas imagens deixam evidentes as diferenças culturais e o artista nos convoca a observar a partir dessas fotografias, a classe e condição social e cultural expressa pelos objetos e espaços, assim como pelas ausências e precariedades. Tanto as precariedades da falta, como também do excesso. Nos relembra a problemática dos direitos humanos fundamentais e de quais condições básicas de proteção esse “ficar em casa” deveria oferecer. Atenta o olhar para uma realidade presente em todo mundo, de que para muitos não há um lugar possível de chamar de casa.

Toda vez que um professor propõe um “tema de casa”, o “ir para casa”, ” ficar seguro em casa”: afinal, de que casa estamos falando?

O uniforme escolar funciona como elemento de padronização da classe social nas escolas, uma tentativa de amenizar diferenças e mostrar que todas as crianças, enquanto estudantes, possuem as mesmas condições. O projeto Classroom Portraits (2004-2012),  do artista Julian Germain, publicado em nosso site neste link, mostra salas de aulas de diversos lugares do mundo.

Mas será que é possível ocultar na escola as classes sociais e diferenças culturais?

Até que ponto as crianças podem compreender as diferenças sociais, econômicas e culturais e como e quando isso pode começar a ser trabalhado?

 

Nesses quartos, há uma série de questões que se pode analisar: a presença ou ausência de livros, imagens da cultura visual e tipos de subjetividades que essas imagens ajudam a construir, tipos de brinquedos ou ausência deles, quais as atividades possíveis dentro desse espaço do quarto, se ele é exclusivo da criança ou compartilhado, qual é o espaço de intimidade de uma criança, o que se pode ver do espaço externo desde dentro. As imagens dos quatros propiciam perguntar, em que condições descansam, se essas crianças podem realmente descansar e se as crianças vivem momentos sozinhas.

Ivone Richter, em seu livro “Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais”, relata uma tarefa solicitada a uma turma de quinta série de uma escola pública, no âmbito de sua pesquisa de doutorado: os alunos receberam câmeras fotográficas para registrar seu ambiente familiar (RICHTER, 2003). Um aspecto curioso revelado por esta tarefa, uma estratégia de aproximação que fazia parte de uma pesquisa maior, foi a preferência das crianças em fotografar as suas próprias camas e sobre elas, seus objetos preferidos: bonecas, aparelhos de som, carrinhos, revistas e pôsteres e às vezes, seus irmãos menores ou eles mesmos sobre a cama. O quarto ou especificamente, a cama, aparece como “seu espaço preferido” (RICHTER: 2003, p. 145).

Importante destacar que o grupo participante da pesquisa teve o cuidado de não salientar possíveis discriminações, procurando estabelecer situações de valorização das culturas e etnias mais discriminadas, o que era um dos objetivos do estudo sobre interculturalidade e estética do cotidiano.

Que tal sugerir às crianças que fotografem o lugar onde dormem ou seus “espaços favoritos” da casa?

O que um professor/professora/pai/mãe pode conhecer de seus alunos/alunos/filhos/filhas a partir de seus registros e, principalmente, de como eles retratam seus quartos ou seus espaços favoritos?

É possível criar roteiros para que as crianças investiguem seu próprio espaço de casa. O lugar onde guarda os materiais da escola, se há um canto de estudos, o lugar mais especial, os espaços onde costuma brincar, onde se sente mais acolhido.

Que infâncias podem surgir em cada casa?

O que os espaços de uma casa dizem sobre as infâncias que a habitam?

 

Referências:

RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003.

https://www.jamesmollison.com/where-children-sleep

https://hypescience.com/fotos-onde-as-criancas-dormem-ao-redor-do-mundo/

https://medium.com/espacof508/onde-as-crian%C3%A7as-dormem-james-mollison-82b8030ca045

Texto e pesquisa: Diane Sbardelotto e Luciana Gruppelli Loponte

Edição e revisão: Diane Sbardelotto e Luciana Gruppelli Loponte

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