Imagem do acervo da dissertação de Carini Delavald
Educação em diferentes tempos: antes, durante e depois da pandemia… [1]
O que esperamos da Educação? Não deveria a Educação ser a mola propulsora de mudanças no mundo? A força de transformação? O impulso pelo novo? O desafio constante ao estabelecido? O fomento permanente à curiosidade e aos diferentes olhares? Um campo que acolhe as diferenças e as coloca em diálogo? Uma área em permanente ebulição, ciente da impermanência da vida e de suas verdades? Uma área de ação política (nunca reduzida à partidária), porque sempre em prol de um modelo de sociedade?
(…) Aquela que não tem medo de criar novos caminhos, de recomeçar. Aquela que tem coragem de ser feliz, de brilhar, chamar atenção, dançar e gargalhar. (…) É aquela cujo movimento é tão verdadeiro e profundo que é capaz de sentir em todos os poros a volúpia dos estados impermanentes da vida (…)[2]
Mais do que nunca, entendo que na Educação não há espaço ou tempo para a dualidade “eles e nós”: somos todas e todos sujeitos do mesmo barco, navegando em direção à Ilha Desconhecida, de Saramago. Todas e todos aprendendo na carne a vaticinação de Fernando Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso! Quem somos nós, educadoras e educadores, sujeitos pensantes e atuantes nessa/dessa Educação?
(…) Existem momentos em que simplesmente você entra num ponto de bifurcação, num ponto de mudança, que como num passe de mágica lhe transformam. E foi um momento importante que me despertou para novas perguntas e, portanto, novas possibilidades. Foi o pontapé inicial para encontrar minha autenticidade, para reencontrar-me. Na época, me perguntei: quem sou? Quem sou em essência? Escrevi: ‘Sou múltipla, sou dinâmica, sou conexão, sou movimento, sou dança, sou sangue, sou ar, sou intensa, sou leve, sou um pouco de você, das árvores e das estrelas; sou árida, sou fértil, sou a imensidão do mar’ (…)[3]
É nessa imprecisão do viver – ainda mais acirrada nos dias de hoje – que mora a grande oportunidade de fazer a fogueira das caixas! Por que tentar reproduzir o “velho normal”? Rompamos barreiras e construamos, todas e todos, um “novo normal”! Não seria essa uma oportunidade ímpar de exercitarmos o “olhar estrangeiro” e nos aproximarmos com outros óculos, por outros ângulos, e sob nova ótica para a Educação de maneira geral, e para as escolas e instituições de educação infantil de forma particular? Por que isso se mostra tão difícil para nós? Medo de abrir mão do estabelecido, mesmo quando sabemos que o estabelecido não se sustenta mais em pé?
O que há nessa mala pesada?
– Apenas minha identidade.
Por que tantas coisas?
– Medo de não me encontrar, de não encontrar o que me infinita, trago meu pequeno infinito (…).[4]
“Períodos sabáticos” são espaços de tempo comumente destinados a execução de um projeto – uma quebra com o transcurso da vida e a busca de novos caminhos, outras paragens. Assim sendo, que tal assumir que estamos num “período sabático” com as crianças em casa, justamente gestando uma nova escola? Gestando uma nova relação família-escola? Gestando uma nova perspectiva do que seja a Educação a partir da reflexão crítica sobre que sociedade podemos ajudar a formar? Imaginem a fogueira das caixas!
Deixe que as ideias escapem. Há tempos elas tentam. Fazem motim, protestam, mas você as mantêm num padrão.
Liberte as ideias. Deixe-as mudarem. Deixe- as mutarem. Metamorfosearem você.
(…) Não reaja, não emita resposta, não tenha pressa. Nem tudo precisa ser imediato.
…(suspiro)
Calma, aprenda a relaxar, esvaziar a mente (…) [5]
Sob esse prisma, o que podemos fazer já?
(…) Aceitar minha pequenez talvez signifique desistir de que eu possa ser o motivo da mudança do outro.
(…) Aceitar minha pequenez talvez signifique perceber que não posso prender ninguém.
(…) Lidar com a minha pequenez talvez seja necessário para alcançar a tal grandeza que dizem que carrego e nunca enxerguei. [6]
Que tal, como educadoras e educadores, nos unirmos às mães e pais em seu cotidiano educativo familiar e buscarmos ajudá-lxs – não a torná-lxs professoras ou professores, tampouco instigando que desenvolvam grandes habilidades manuais e criem milhões de “brinquedos criativos” (leia-se: iguais aos modelos). Falo de ajudar famílias a terem mais presença e inteireza, mais tranquilidade, mais paciência… mais calma e sabedoria para enfrentar o novo e o desconhecido!
Estava presa, enclausurada há tempos. (…)
O longo tempo virou esse instante. (…)
Sinto a liberdade urgir e um deslumbre in des cri tí vel.
Sim, sou uma borboleta saindo do casulo. Sentindo cada lepis da minha asa pela
primeira vez, de uma vez só. O que trará de novo? A nova realidade que se molda, um novo mundo que surge. [7]
Podemos ajudar às mães e aos pais a perceberem o quanto são importantes para seus filhos e filhas do jeito que são, que certamente estão se esforçando para fazer sua melhor versão de mãe e de pai, e que esse momento junto com as crianças pode ser pleno de afeto e cooperação mútua. Devemos dizer a elas e eles que estamos juntxs, e que as crianças são muito potentes! Que as crianças se sairão bem. Que elas precisam ter a oportunidade de desenvolver mais e mais sua autonomia, e assim poderão assumir mais tarefas em casa e auxiliar no cuidar de si, do outro, da casa, das plantas, dos pets, da comunidade circunvizinha, do planeta.
Podemos ajudar às mães e aos pais a sentirem que também serão capazes de ensinar, por meio de suas próprias ações como exemplo, que podemos ter mais paciência, escuta e olhar atentos, empatia, acolhimento e respeito às diferenças, cooperação, e amor uns pelos outros… e assim, infinitaremos!!
(…) Escrevi os cheiros. Senti os sons. Ouvi o chão. Falei com as árvores. E entrei.
Senti nitidamente a transição. Minha entrada em outra dimensão. (…)
Me infinitei… [8]
Podemos ajudar às mães e aos pais a oportunizarem às crianças um mais amplo acesso à cultura – múltipla e plural –, criando uma espécie de curadoria, e disponibilizando essa seleção feita por nós para as crianças, em meio a tantas coisas sem qualidade que lhes chegam virtualmente…
Podemos ajudar às mães e aos pais a perceberem encantamento nos detalhes, no miúdo, em como as crianças aprendem com mínimas experiências, que passam desde os cinco sentidos, à simples observações de flores em vasinhos, de suas próprias sombras, ou de nuvens pela janela – como apreciam o muitas vezes não visto por nós…
(…) Demorei a ver que as armaduras são meu escudo e minha prisão. São como um gesso colocado em um braço quebrado que, no início, tem o papel protetor, reparador, mas que quando mantido em um braço já saudável o limita. (…) 16
Podemos ajudar às mães e aos pais a não se sentirem sós nessa tarefa de educar, e entenderem que, mesmo distantes fisicamente, estamos juntxs – pois estamos no mesmo barco, lutando por uma sociedade mais justa, inclusiva, igualitária e humana. Podemos dizer- lhes o quanto nos importamos com elas e eles, podemos falar/escrever/ouvir sobre assuntos pertinentes, temas que emergem delxs, que a(o)s aflijam…
Podemos ajudar às mães e aos pais a manter vínculos de afetos entre as crianças do grupo, e delas com a escola. Assim, podemos centralizar o recebimento de vídeos e fotos das crianças do grupo, e socializar. Podemos cantar para as crianças. Podemos contar histórias para elas. Podemos apenas sorrir-lhes. Podemos enviar vídeos de toda a comunidade escolar dando conta de que estamos bem, e com saudades! Mantermos, juntxs, aceso o brilho nos olhos!
(…) Tenho convicção de que busquei o tempo todo o brilho nos olhos e por essa busca seguirei uma nova estrada. Levo comigo muito do que aprendi até aqui. Sou a curiosidade, a racionalidade, o controle, a exigência, o estudo, a excelência, o foco, a criatividade, a conexão, a observação, a loucura, a dedicação, a sensibilidade, a interferência, a emoção, o desapego, o empreendedorismo, a vaidade, as sinapses (e tantas outras coisas) que todas essas experiências me trouxeram.
Mas quis outras coisas…
Me aventurei por novos horizontes, outros paradigmas. Vi o mundo com outras lentes, me fiz novas perguntas, e hoje quero responde-las de outras maneiras. Depois de tantos questionamentos externos, me permiti me questionar… (…)[9]
Quem sabe essas ajudas não sejam melhores do que nos preocuparmos com os “conteúdos escolares”?
Quando teremos outra chance de reinventar a escola/instituição de educação infantil e revisitar o porquê de existir a Educação?
Creio que assim teríamos mais chances de chegarmos ao final desse “sabático” mais sábia(o)s e irmanada(o)s. Será?
NOTAS:
[1] Todos os textos em itálico, pertencem ao livro “Mulheres que Soul” (SC: O Livreiro das Rosas, 2019). A autora, Dani Leite, é Doutora em Fisiologia, com Pós-Doutorado em Farmacologia, e há alguns anos atrás trocou esta faceta da cura, por outra, buscando integrar as energias feminina e masculina, ajudando mulheres a se reconectarem consigo mesmas e a se expressarem de forma autêntica na vida pessoal e profissional – contato: leitedani@gmail.com
[2] Quem é ela? – p. 59
[3] O mundo das possibilidades – p.78
[4] Minha bagagem – p.21
[5] Conversa mental – p.44
[6] Minha pequenez: reflexões sobre a minha arrogância – p.27
[7] Metamorfose – p.79
[8] Trilhas a mim – p.92-93
[9] Sobre escolhas – p.85-86
Por Maria Isabel Leite, doutora em Educação, pesquisadora e consultora autônoma na área de infância, educação, cultura e formação, em espaços/propostas formais e não formais de educação. Contatos: relicariosdeideias@gmail.com – instagram: @relicariosdeideias – wpp: 21-98850-7296
