¿Cómo te ha tratado el tiempo?
Como o tempo tem te tratado?
Termino e começo este texto, vou, volto, não posso mais escrever. Nos chamaram para conversar sobre a educação integral, mas a maioria dos professores diz não ter tempo. É como se estivéssemos freneticamente correndo e quando há possibilidade de parar já esgotamos por completo. Tempo, que tempo temos? Se boa parte do tempo estamos na escola, o que a gente faz com todos os atravessamentos, diversos modos de existência, conflitos, questões estruturais que bloqueiam o que poderia ser feito, mas deixa de ser, pois há necessidades básicas que não são atendidas?
Como é possível conviver normalmente com a imposição de métodos avaliativos completamente fora do contexto territorial e histórico das comunidades atendidas, onde o importante é comprovar com inovação, já que os números e resultados evidenciam? Mede-se a alfabetização e a capacidade de fazer cálculos matemáticos, mas as escolas começam o ano sem água, o direito mais básico e essencial que temos para viver. Não é possível. De verdade, não posso acreditar que as pessoas baixem a cabeça e aceitem a educação pública se afundando em padrões de controle que nos convertem em máquinas que satisfazem as necessidades do sistema.
O que faço com tudo isso? O que quero nutrir com meus alunos, com seus envolvimentos e autonomias, se o sistema segue enxergando-os e enxergando-nos todas, professoras e professores, como se fossemos números, descartáveis e substituíveis.
O que eu faço, se creio ser coerente trabalhar em coletivo, construindo um projeto de escola fundamentado no território, que possa resgatar e valorizar o conhecimento periférico exterminado pela branquitude, mas estamos de sol a sol atendendo turmas, com redução da nossa carga horária, atropelos a todo momento e se esgota o tempo de conversarmos juntos? Se todas as ações externas são pensadas para impedir nossa organização como equipe que se articula, luta e sonha?
Acabo de chegar da escola, um dia quase sem respiros, não consegui dar a aula que desejava, foram constantes apagamentos de incêndios, diversos descontroles emocionais, tudo à flor da pele, dificuldade de respeitar os colegas e trabalhar em coletivo. Cruzei com uma colega pelo corredor, 29 anos de magistério, com o rosto cheio de lágrimas. Também estava mediando conflitos. A gente se olhou, se abraçou e me perguntava por dentro: que profissão é essa que escolhemos seguir? Queria voltar no tempo e seguir conversando contigo, Maestra Lola. Sempre me lembro com carinho do teu olhar. “La maestra corrida”, onde “la corridez” se percebe na mirada, na voz, na maneira de atuar e seguir acreditando que é possível mudar e criar outros mundos que não compactuam com a homogeneização do pensamento. Certamente teria uma palavra que abraça para compartilhar com a gente. Eu não sabia que seria assim, ser professora. Certas coisas eu gostaria de saber antes de começar. Isso, de ser professora. Tu te lembra? Do primeiro dia que virou professora? E o que exatamente te fez escolher essa profissão?
Creio que ninguém escolhe e permanece na docência por acaso. Tampouco há um manual que nos passe as justas direções para que nossos caminhos sejam bem sucedidos. Também, caso existisse, seria de se duvidar um tanto. Trabalhamos com gente. De distintas idades e identidades, mudam cotidianamente os ânimos e identificações. Para acompanhar o crescimento de cada ser, quiçá saber escutar seja uma das principais exigências que aqui trago.
Como aprendemos a escutar?
O que nos ensina nosso território?
O lugar onde vivemos ou escolhemos estar, permanecer. Olhando para a escola pública, onde cada periferia tem suas especificidades, quais nossos papéis enquanto professores no fortalecimento das identidades étnico raciais de nossos alunos? Como trabalhar neste sentido, se o currículo, as disciplinas e as maneiras de aprender na sala de aula seguem reproduzindo pensamentos-ações colonialistas, completamente descontextualizadas do território no qual estão inseridas ?
Escutando o barulho do rio, juntamente com as crianças dentro da água refrescando o corpo, se aproximava toda a história do território de Valle del Cauca, que Maria Dolores Ângulo Grueso, também conhecida como Maestra Lola, ia partilhando em forma de poesia. Quando iria imaginar poder acompanhar uma aula na beira do rio… imersa em tantos engessamentos na capital porto alegrense. Obviamente, se torna impossível não criar comparações com aquilo que compõe uma escola periférica, localizada aqui no sul do mundo globalizado.
“¿Cómo te ha tratado el tiempo?” Assim me perguntavam algumas pessoas de Patía quando começávamos uma conversa. Ao traduzir, talvez possa escapar o sentido da expressão. Imagina se a gente cruzasse pela rua e eu te cumprimentasse. Ao invés de “Opa, tudo bem?” te perguntasse isso: “Como o tempo tem te tratado?” Como a gente aprende a escutar o tempo? Meu, teu, nosso. A gente, que escolheu a educação, tem tido tempo de sonhar? O que se faz com o sonho, aquele antigo, de mudar o mundo? Alguém segue sonhando em mudá-lo? Como enxergar diferente, ao contrário, ampliando as maneiras de ensinar e aprender? O que temos feito com nosso tempo em sala de aula? Tantas perguntas à espera de continuidades… Alguém terá tempo de ler estas palavras e seguir a conversa?
ALBÁN, A. (Comp.). Pedagogía de la Corridez. Popayán, Colombia: Samava Ediciones EU, Save the Children, Consejo Noruego para refugiados, 2015. Disponível em: https://archive.org/details/PedagogiaDeLaCorridez
Texto de Valéria Bender Lang, professora de arte da rede municipal de Porto Alegre, mestranda em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS.
*Este texto surgiu a partir da mobilidade acadêmica de curta duração realizada em Patía, Valle del Cauca, Colômbia, em agosto de 2025, com financiamento do Edital Alceu Ferraro – PPGEDU/UFRGS/CAPES/PROEX.