A ruína como possibilidade poética

Artigo | Lourenço Demarco e Lilian Maus, das Artes Visuais, observam o que há de beleza e melancolia em paisagens decadentes

*Por: Lourenço Demarco e Lilian Maus
*Ilustração: Lourenço Demarco/Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas/DAV-IA/UFRGS

A observação de paisagens da minha região de origem, no norte do Rio Grande do Sul, instigou-me a desenvolver minha pesquisa em desenho. Seu foco foi a paisagem de pequenas cidades que eram ligadas pela Ferrovia do Contestado, que conectava o Sul ao Sudeste do Brasil. Em processo de deterioração desde a década de 1970, essa ferrovia teve o inevitável encerramento de suas atividades nos anos 80, o que ocasionou a perda de importância desses municípios, gerando declínio populacional e econômico, criando, assim, cenários de abandono. 

Essas ruínas, ao evocarem um sentimento de nostalgia, podem ser vistas não só como lembrança de fatos passados, estanques na história, mas também como possibilidade de produção gráfica no presente. A representação de ruínas foi um tema comum na história da arte, despertando a curiosidade e indagações sobre a existência humana.

Ver a decadência da arquitetura e o efeito do tempo evidenciado no estado atual dessas construções me fez refletir sobre a impermanência, uma vez que, até mesmo essas construções imponentes fatalmente serão retomadas pela natureza, sendo sua aparência atual fruto de um passado sucateado. 

A série “Paisagem em Ruínas”, que venho desenvolvendo, reúne um conjunto de trabalhos que investigam a potência gráfica das ruínas na paisagem contemporânea. Partindo de referências fotográficas, os trabalhos transformam-se pela experimentação de técnicas e procedimentos, essenciais para exprimir a densidade de memórias e histórias que esses locais carregam. Ao realizar os desenhos com pontos de perspectiva múltiplos e espalhados por toda a extremidade do suporte, procuro criar a ausência de um único olhar, podendo, assim, reunir um conjunto de cenas: uma variedade de pontos de vista que convidam a flutuar pela imagem do desenho.

O poeta francês Michel Collot escreve sobre essas possíveis interpretações de paisagem na arte em seu artigo “Poesia, Paisagem e Sensação”: “[…] fica evidente que a paisagem não é o ‘país’ real, mas o país tal como é posto em forma pelo artista, ou pelo ponto de vista de um sujeito. É um fenômeno que muda, segundo o ponto de vista que se adota, e que cada sujeito o reinterpreta em função não somente do que ele vê, mas do que ele sente, experimenta e imagina”.

Ao desenhar essas paisagens, tenho um sentimento ambíguo: representar por meio da linguagem visual o sucateamento dessa ferrovia e o apagamento dessas memórias é uma expressão de luto; porém, há certa beleza nesse cenário um tanto melancólico. Visualizando esses cenários, tenho a sensação de calma e inércia, como se fosse uma paisagem perdida no tempo. 


Lourenço Demarco é bacharel em Arte Visuais pela UFRGS.
Lilian Maus é professora do Departamento de Artes Visuais da UFRGS.