Sextante

O bom e velho rock and roll na veia

Sérgio Dias sofre com um problema na coluna. King Jim, após transplante de fígado, criou a banda Los 3 Plantados. Lilian Knapp experimenta o cenário underground. Como é ser roqueiro depois dos 60

REPORTAGEM
Susi Tesch
susisusi4@gmail.com

Arte: Gabriela Dadda Bittencourt e Mateus Machado Martins

A banda Rolling Stones surgiu em 1962 e continua fazendo turnês, com 60 anos de estrada. Se o rock, criado na década de 1950, já é um velhinho, o que dizer daqueles que, como Mick Jagger e seus parceiros, continuam nos palcos depois dos 60 anos? São vários shows, ensaios, gravações, que exigem preparo físico e vocal. Mas os artistas que são apaixonados pelo rock parecem não querer largar esse vício, mesmo com todas as dificuldades que a idade impõe. Exemplos não faltam. Inclusive, no Brasil.

No artigo Idosos “roqueiros” e juventude eterna: pistas para reflexão, publicado na revista científica Kairòs-Gerontologia, os autores explicam que tanto o rock quanto a velhice são objetos de estereótipos negativos. Isso faz com que a ideia de ser roqueiro pareça inconciliável com a de ser idoso. “Apesar de nascer como um movimento de e para jovens, o rock é hoje menos vinculado a esse critério”, diz o texto, ressaltando que o gênero musical é vivenciado por pessoas de todas as idades.

O mutante

Para Sérgio Dias, 70 anos, guitarrista e vocalista da banda Os Mutantes, administrar uma carreira entre Estados Unidos, Europa e Brasil é uma recompensa que a vida lhe deu. São 56 anos na estrada. “Sempre falei e compus o que eu acreditava e sentia”, define. Mas hoje Sérgio enfrenta algumas dificuldades que a idade e a pandemia lhe impuseram. Como passou dois anos sentado vendo televisão, está difícil de voltar a fazer caminhadas e exercícios. O artista sofre de um problema em uma vértebra da coluna. “Isso dói demais, principalmente ao me abaixar ou ficar de pé por muito tempo. Mas isso nunca me impediu de fazer algum show”, garante.

“Ser um indivíduo íntegro talvez seja a maior rebeldia que você possa ter, ainda mais nos dias de hoje”

SÉRGIO DIAS, guitarrista dos Mutantes

Arte: Betina Pegorini

Realmente, Sérgio não se entrega. Chegou a ter uma infecção generalizada quando fez uma biópsia da próstata. Quase morreu, mas 15 dias depois tocava em Nova York com um cateter de aproximadamente 60 centímetros introduzido numa veia do braço para injetar antibiótico até o coração. Literalmente, Sérgio deve ter rock na veia. Somente uma vez cancelou um show, em 2015, no Brasil, mas só porque os médicos o prenderam dentro do hospital. Para ele, o mais difícil tem sido fazer viagens.“Muito cansativas.” Na primeira turnê do retorno dos Mutantes, foram 27 mil quilômetros em uma van, com 30 shows em 32 dias.       

Sérgio tem orgulho da trajetória que construiu, mesmo que tenha passado por momentos delicados. “Sempre fomos muito criticados. Principalmente quando houve a volta dos Mutantes, com a Zélia Duncan no vocal, em 2006. Inclusive a Rita Lee falou um monte de bobagem”, desabafa. A banda já passou por diversas formações desde seu retorno. 

Sérgio atende o máximo de fãs que consegue e fica impressionado quando recebe vídeos de crianças de dois anos cantando Ando meio desligado. Mas o que ele acha mais “louco” é que em seus shows a maioria do público é jovem. “O mínimo a se fazer é manter uma banda que seja viva, que lance discos, que dê a cara a tapa. Não adianta voltar para ser uma banda cover de Mutantes.”

Mas alguns hábitos de jovens de hoje não são aprovados pelo músico. Um pouco antes da pandemia, Sérgio tinha acabado de tocar em Onsemi, na Califórnia, quando uma menina insistiu que ele fumasse um baseado. “Dei um tapa para ser gentil com ela, eu não tava a fim”, conta. Mesmo que as drogas sempre tenham feito parte de sua vida, ele se surpreendeu: “Porra, meu! Eles pingam ácido no baseado”.

Sérgio Dias, em turnê, não abre mão de subir ao palco | Foto: Beta Klein/Divulgação

Celebrando a vida

Ao longo de 39 anos de estrada com a banda Garotos da Rua, o saxofonista e vocalista gaúcho King Jim, de 65 anos, relata as dificuldades de administrar sua carreira hoje. “Não é fácil”, desabafa. Ele e a banda vivenciaram o ápice da carreira no Rio de Janeiro nos anos 1980, quando o rock explodia no Brasil.  Mas o direcionamento da indústria fonográfica para outros gêneros musicais fez com que grupos como os Garotos da Rua deixassem de fazer sucesso. King Jim diz que é comum ouvir falar que o rock acabou, que é música de “velho”. “Se o mambo, o tango, o tchá tchá tchá e o jazz não acabaram, o rock também não vai acabar”, acredita. Ele lembra que o rock provocou mudanças na história da humanidade. “Não é só a música, mas também a postura.”

Arte: Mateus Machado Martins

“Mudei de vida para poder estar vivo”

KING JIM, saxofonista dos Garotos da Rua

Mas se já é difícil manter essa postura na juventude, para quem já passou dos 60 anos é ainda mais complicado. Principalmente se a saúde não ajuda.  King Jim passou por um transplante de fígado em 2013 por conta de uma hepatite C, que demorou a ser descoberta e acabou provocando uma cirrose. Enquanto aguardava um doador de fígado, ficou em estado grave. Chegou a ter encefalopatia, que é a deterioração da função cerebral. “Eu não sabia quem eu era”, conta. Com a ajuda de familiares e da equipe da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, conseguiu suportar a espera mudando de hábitos. “Mudei de vida para poder estar vivo”, resume.

Após a cirurgia, o músico, com 56 anos na época, não pôde voltar em seguida para os palcos. Precisou reaprender a andar, falar, cantar e tocar. Com o amadurecimento, largou a bebida e as drogas. “Quando tu tem o fígado de uma outra pessoa dentro de ti, ajuda a pensar diferente, parece que tem alguém sussurrando algumas coisas”, explica. Ele sabe que a doadora foi uma mulher e diz ter o máximo respeito por isso. “É uma chance que eu tenho de ficar mais um tempo aqui, ser uma pessoa melhor e poder fazer alguma coisa na minha área.”

King Jim viveu o auge da fama com a banda Garotos da Rua nos anos 1980 | Foto: Fernanda Chemale/Divulgação

 E King Jim realmente não perdeu essa chance. Junto com os amigos e músicos Jimmy Joe e Bebeto Alves, que também passaram por transplantes quase na mesma época, ele formou a banda Los 3 Plantados. O nome teria sido sugestão da namorada de Jimmy, quando ele estava desanimado no hospital. Ela teria dito: “Agora tu vai ficar bem Jimmy. O Bebeto já está bom, e o King Jim fez o transplante, quem sabe vocês não fazem uma banda?”, conta King. Foi assim que surgiu o trio que hoje faz músicas incentivando a doação de órgãos. São transplantados, sexagenários que tocam rock com milonga. Mas King Jim diz que, independente da idade, não é fácil ser roqueiro no Rio Grande do Sul, principalmente por falta de profissionais que agenciem shows.

Da Jovem Guarda ao underground

Lilian Knapp iniciou sua carreira de cantora aos 16 anos, formando dupla com Leno. Ela era uma das estrelas da Jovem Guarda,  movimento cultural de enorme sucesso nos anos 1960, do qual faziam parte Erasmo e Roberto Carlos. Nos anos 1980, Lilian seguiu carreira solo e, com essa trajetória, passou a ter dois grupos de fãs: um da primeira fase e outro, da segunda, quando gravou o sucesso Sou Rebelde, de Paulo Coelho.

Mas hoje, aos 74 anos, é que sua “rebeldia” está mais evidente. Paralelamente à carreira solo, ela faz parte da banda de rock independente Kynna Underground, criada em 2008, ao lado de Luís Carlini, na guitarra, e Kdu Nolla, na bateria.

Arte: Gabriela Dadda Bittencourt

A banda é totalmente diferente de tudo que Lilian já havia feito. Eles gravaram, por exemplo, Um Lugar do Caralho, do músico gaúcho Júpiter Maçã. “O público da Jovem Guarda se chocaria com os palavrões”, diz ela. O álbum da banda, Underground, tem duas faixas autorais e 10 de releituras de bandas do rock gaúcho, entre elas, Miss Lexotan 6mg, também de Júpiter Maçã.  “Eu sou Miss Lexotan, me identifiquei perfeitamente com a música em vários momentos.”

Em um dos shows da banda em São Paulo, quando divulgavam o disco, Lilian foi surpreendida pelo interesse de fãs bem jovens. “A casa era de dois andares, as pessoas passavam pelo nosso andar para comprar cerveja e ficavam ouvindo a gente.” Foi uma experiência nova para a cantora, pois, quando estreou nos palcos na época da Jovem Guarda, ela já era famosa. “Eu não tinha receio de entrar no palco, pois sabia que estavam me esperando”, conta. Com a Kynna, ela se apresenta sem ser conhecida. “Ser aceita nesse meio underground é mais legal ainda”, diz Lilian. A única música antiga de sucesso que tocaram naquela noite foi Pobre Menina, que já virou cult. “Tenho muitos fãs jovens que vieram por causa dos pais”, diz ela.

“O complicado de ficar jovem por muito tempo é que você vai envelhecendo e o corpo não acompanha a sua cabeça”

LILIAN KNAPP, cantora

Mesmo com o entusiasmo por ter novos fãs, Lilian conta que foi o público da Jovem Guarda, que envelheceu com ela, que não a abandonou durante os piores momentos da pandemia. “Se não fosse por eles, não sei o que teria sido da minha vida.” Foram praticamente três anos participando só de alguns shows virtuais. Mas ela aproveitou para escrever dois livros e vender CDs e camisetas para seus admiradores. “Passei muito bem esse período graças aos fãs”, reconhece. Lilian diz que o rock  mantém seu espírito jovem. “O complicado de ficar jovem por muito tempo é que você vai envelhecendo e o corpo não acompanha a sua cabeça.”

Lilian Knapp formou a Banda Kynna com Luis Carlini e Kdu Nolla e ganhou novos fãs | Foto: Fernando Flambart/Divulgação

Sérgio, King Jim e Lilian mostram que o segredo de fazer rock depois dos 60 é manter a atitude rebelde, mesmo que a definição de rebeldia vá mudando. “Ser um indivíduo íntegro talvez seja a maior rebeldia que você possa ter, ainda mais nos dias de hoje”, define Sérgio.

2 comentários em “O bom e velho rock and roll na veia”

  1. Excelente matéria!! Bem escrita, fluida, texto agradável e cheio de conteúdo nas informações super importantes para quem curte Rock e a sua História!! PARABÉNS à Jornalista Susi Tesch pela matéria e também aos ilustradores e responsáveis pela arte!! ADOREI!!

  2. O King Jim é um batalhador, um cara que AMA o que faz e nunca telegrafa o trabalho nos shows (é comos e cada vez estivesse debutando).
    A Lilian é competente e gata e deve estar batendo o recorde de permanência -se não bateu-, em termos de Mulher no Rock em termos mundiais.
    É como eu sempre digo, ´Só não envelhece quem morre prematuramente.´

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