Sextante

Vozes adormecidas

O atraso no desenvolvimento da fala pode afetar a construção cognitiva, emocional e social de uma criança

REPORTAGEM
Gabriela Ferreira
gabrielabenfer@hotmail.com

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Vermelho, da Gloria Groove, é uma das músicas que Lis Vicêncio, uma criança de cinco anos, gosta de cantar. E o repertório dela não para por aí, tem Raul Seixas, Rita Lee, Michael Jackson e Lady Gaga. Natural de Porto Alegre, Lis é uma criança ativa. Gosta de dançar, brincar, desenhar e principalmente falar. “Às vezes eu canto, às vezes eu danço muita música de rock n’roll. Eu gosto daquela: viva, viva, viva a sociedade alternativa ou também viva a sociedade da gelatina”, se diverte a menina. Ela adora contar histórias, sabe muitas piadas e conversa sobre tudo com a família, mas nem sempre foi assim.

Lis nasceu em 2019. Quando a pandemia chegou ao país, em 2020, ela tinha apenas um ano e três meses e ainda não falava. Esboçava alguns sons, interagia com os irmãos, mas de palavras mesmo, não saía nada. Naquele ano, Lis estava prestes a entrar para a escola e os planos precisaram mudar. Assim como outras crianças durante o período pandêmico, ela não conviveu em ambientes sociais, escolares e familiares na fase mais importante para o seu desenvolvimento, e as consequências apareceram na fala.

Criança sentada no chão lendo livros infantis
O estímulo à leitura é crucial para o desenvolvimento infantil | Foto: Ester Bertozzi

“Cada criança tem seu tempo de desenvolvimento, entretanto, não produzir nenhuma palavra ao chegar nos 16 meses já é um alerta para buscar tratamento”,  destaca a fonoaudióloga Letícia Pacheco, sócia de uma clínica em Porto Alegre especializada em linguagem. Para fazer o diagnóstico, a prática clínica leva em consideração o ambiente social, cultural e emocional em que a criança é inserida. Os estímulos que recebe, as suas habilidades pessoais, afetivas e linguísticas também são avaliados. Letícia explica a importância de distinguir o atraso na fala, na língua e na comunicação. “São diferentes tipos de atraso. Nascemos com a habilidade de linguagem, de transformar o pensamento em um sistema simbólico complexo, que é a língua, e vinculamos esses pensamentos através da fala. E isso tudo serve para um fim: a comunicação”, afirma a especialista.

“Nunca achei natural. Mas quando ela fez dois anos e não falava nem mamãe, nem papai, fazia poucos sons, eu me assustei”

TATIANA MARQUES, mãe de Lis

No início, Rodrigo Quadros, de 44 anos, pai de Lis, achava normal o atraso por conta do histórico da família. É frequente a ideia de que a demora para falar é comum e genética, mas esse tipo de pensamento pode tardar a percepção do atraso e adiar a busca por ajuda. Já Tatiana Marques, a mãe, de 42 anos, não via a situação com tranquilidade. “Nunca achei natural. Mas quando ela fez dois anos e não falava nem mamãe, nem papai, fazia poucos sons, eu me assustei”, conta Tatiana. Os pais revelam que Lis parecia querer falar, mas não conseguia, e isso os angustiava. “Ela fazia sons, a gente não entendia nada, e ela ficava irritada porque ninguém compreendia”, compartilha a mãe.

A jornada de Lis

Um apartamento que sempre está preenchido por agito, música, livros e, principalmente, amor. Assim é a casa de Lis, no bairro Bom Fim. A família é composta por ela, quatro irmãos mais velhos, o pai e a mãe. O casal admite que, por Lis ser a mais nova, era muito protegida pela família, que achava que só o afeto já era suficiente para seu desenvolvimento. O pouco contato externo que ela tinha era com pessoas distantes e de máscara. A fonoaudióloga Letícia afirma que as crianças durante a pandemia perderam tanto o aprendizado visual, quanto o auditivo, por conta do uso das máscaras. “A criança perde algo que é muito importante durante o desenvolvimento da fala, que é a aprendizagem visual. É necessária essa aprendizagem fonoarticulatória da fala, que é a habilidade responsável pela distinção das articulações dos sons da fala”, afirma a profissional.

Em 2021, com dois anos e meio, Lis começou a consultar com uma fonoaudióloga duas vezes por semana, uma exceção para a família que manteve o isolamento rigoroso durante a pandemia e não saía de casa. A mudança durante o tratamento foi rápida. Logo ela já tinha mais de 20 palavras no vocabulário. Antes das consultas, ela só sabia falar cinco. A fonoaudióloga mantinha os pais atualizados de tudo que estava acontecendo durante o tratamento e orientava de que forma eles poderiam estimular a criança. 

Lis começou a frequentar o Centro Integrado de Desenvolvimento (CID) como aluna após um ano de tratamento. O motivo da escolha dessa escola foi o fato de ser um ambiente inclusivo, especializado em integração sensorial. Os pais observaram que Lis se sentiu muito acolhida no espaço. No primeiro dia de aula, já saiu correndo pela rua do colégio gritando “amigos, amigos”. Essa era uma novidade. Depois de passar os primeiros anos da sua vida isolada por conta da pandemia, Lis teve o seu primeiro contato com colegas. E assim, uma nova palavra surgiu no seu vocabulário. Hoje, inclusive, ela reconhece o valor de uma amizade. “A Diana é a minha colega que agora mora na França. Eu não sinto tanta falta dela, mas eu tô com muitas saudades dela”, confessa.

“Os pais também devem evitar falar pelas crianças, antecipando o que elas necessitam, é necessário que elas saibam expressar o que elas querem” 

LETÍCIA PACHECO, fonoaudióloga

O papel vital dos pais 

Segundo pesquisa do projeto Primeira Infância para Adultos Saudáveis (Pipas), desenvolvido nas capitais brasileiras pelo Ministério da Saúde e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em média, nas capitais brasileiras, um quarto dos pais disseram não ter feito atividades de desenvolvimento com as crianças, como ler livros, contar histórias, cantar, desenhar ou brincar, nos dias anteriores ao que foram questionados. Além disso, 25% das crianças não tinham nenhum livro infantil em casa.

A fonoaudióloga Letícia destaca que é muito importante a participação ativa dos pais durante o tratamento de uma criança com atraso na fala, realizando leituras, atividades sensoriais e passeios. “Os pais também devem evitar falar pelas crianças, antecipando o que elas necessitam, é necessário que elas saibam expressar o que elas querem”, explica Letícia.

O uso de telas também é um dos principais fatores de atraso no desenvolvimento. A Associação Brasileira de Pediatria recomenda que as crianças não sejam expostas às mídias digitais antes dos dois anos de idade, mas essa ainda é uma recomendação pouco seguida pelos pais. Elas estão constantemente expostas a videogames, desenhos, computadores e celulares. Para um desenvolvimento adequado, no entanto, a criança precisa ter interação com outras pessoas e não somente com máquinas. E não são só as crianças que devem ficar longe das telas, os pais também precisam se afastar das tecnologias e priorizar a interação com os filhos para construir uma experiência comunicativa de qualidade.

“O fonoaudiólogo é um profissional capacitado para detectar, diagnosticar e tratar crianças com atraso no desenvolvimento da fala, entretanto, é fundamental que profissionais de outras áreas também acompanhem o tratamento”

RENATO COELHO, pediatra especialista em desenvolvimento infantil

Caminhos para o desenvolvimento

Renato Coelho é coordenador do projeto Arena, no Ambulatório de Pediatria de Distúrbio do Desenvolvimento do Centro de Saúde IAPI, no bairro Passo d’Areia, em Porto Alegre. O projeto do Sistema Único de Saúde (SUS) está em fase inicial e foi inspirado em métodos desenvolvidos na Inglaterra, nos quais vários especialistas avaliam a criança simultaneamente. “Isso é uma maneira de otimizar o tempo e ter uma avaliação com olhares de diferentes profissionais. Para atuar na área de desenvolvimento infantil, não tem como trabalhar sozinho”, explica o pediatra.

Médicos de diferentes especialidades e de jaleco branco estão em circulo avaliando uma criança que está no meio
O projeto Arena está em fase inicial e atende crianças de 0 a 12 anos com dificuldades no desenvolvimento | Foto: Divulgação PMPA/Cristine Rochol

No projeto, a avaliação das crianças de 0 a 12 anos é feita por profissionais das áreas de psicologia, pediatria, terapia ocupacional, nutrição, enfermagem, neuropediatria, fonoaudiologia e fisioterapia. Os pequenos são incentivados a se movimentar, brincar, falar e se expressar, enquanto ocorre a avaliação. Renato afirma que um ponto sensível desse método é que a criança pode ficar retraída por ter muitas pessoas participando do tratamento, mas, de acordo com ele, isso não tem sido um problema, já que os pais presentes na sala passam confiança. 

O pediatra ressalta que, no sistema público, o encaminhamento de um fonoaudiólogo para profissionais de outras áreas pode ser demorado, o que prejudica a agilidade do tratamento da criança. A pesquisa realizada pelo Projeto Pipas demonstra que o atraso na fala é maior nas crianças cujas famílias estão em vulnerabilidade social, portanto projetos advindos de políticas públicas são importantes para que todas tenham acesso a um  atendimento de qualidade, como o de Lis. “A minha aula mais divertida é a de música. A gente canta, toca instrumentos e dança “, conta a menina. O tratamento mudou o rumo da infância dela, já que, depois que desenvolveu a fala, ela descobriu um novo mundo no qual pode se expressar.    

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