UFRGS amplia representatividade com ingresso de professor quilombola

Jorge Amaro, natural da comunidade dos Teixeiras, foi aprovado no concurso por meio de política de ação afirmativa

28 de março de 2026 às 00:18
Jorge na Biblioteca de Mostardas, local que frequentou durante a infância e adolescência. Fotos: Claudia Lisbôa/Divulgação

Ao ingressar, neste mês de março, como docente da UFRGS, Jorge Amaro de Souza Borges escreveu um novo capítulo na própria trajetória e também na história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pela primeira vez, um quilombola passa a integrar o corpo docente da melhor instituição federal de ensino superior do Brasil.

Natural da comunidade dos Teixeiras, em Mostardas, Jorge conta que essa história não cabe apenas nos registros institucionais, mas ecoa nas memórias de quem veio antes. “Minha tataravó foi escravizada, meu bisavô era analfabeto, meus avós pouco estudaram e meus pais também. Eu rompi esse ciclo de exclusão educacional quando me formei no Ensino Médio. A presença de um docente quilombola na universidade representa mais do que um dado estatístico: é um marco simbólico e político”, rememora o pesquisador, que já foi servidor público nas prefeituras de Viamão e Alvorada.

Claudia Lisbôa
Jorge na Biblioteca de Mostardas, local que frequentou durante a infância e adolescência.

Depois de cursar toda a Educação Básica em escola pública, Jorge fez o ensino técnico em Agricultura, graduação em Biologia e, posteriormente, mestrado em Educação e doutorado em Políticas Públicas. Também realizou pós-doutorado em Desenvolvimento Rural na própria UFRGS. Ao longo do percurso, acumulou especializações em áreas como educação ambiental, gestão pública e audiodescrição. “Minha caminhada profissional articula gestão pública, pesquisa e atuação social. Atuei por cerca de 20 anos na política pública de inclusão da pessoa com deficiência no Rio Grande do Sul, com passagem pela Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência do Rio Grande do Sul (Faders), além de experiências no Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Também fui vereador em Mostardas, sendo o primeiro vereador negro quilombola eleito no município, e tive a honra de presidir a Câmara no ano em que a cidade completou 60 anos”, conta, com orgulho, o novo docente da Faculdade de Ciências Econômicas, onde atuará nos cursos de Ciências Econômicas, Contábeis, Atuariais e Relações Internacionais, além do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR).

Representatividade, desafios e compromisso com a transformação

O ingresso na UFRGS ocorreu por meio de política de ação afirmativa para pessoas pretas e pardas, considerada por ele fundamental para enfrentar desigualdades históricas, embora ainda insuficiente. “Fui o único cotista negro aprovado no processo, e isso não pode ser visto apenas como uma conquista individual ou um dado a ser celebrado. Pelo contrário, revela o quanto ainda precisamos avançar para que mais pessoas negras, quilombolas e de outros grupos historicamente excluídos possam acessar, permanecer e concluir suas trajetórias acadêmicas e profissionais em espaços como a universidade”, afirma.

Para o docente, sua presença na universidade não se resume a uma vitória pessoal. Nesse sentido, Jorge ressalta que, ao longo de todo o percurso acadêmico, foram raras as aulas que teve com um professor negro ou quilombola. “Nada disso é uma conquista individual. É o resultado de muitas mãos, muitas vozes e muitas histórias que caminharam juntas. É uma trajetória coletiva, construída a partir da resistência, da solidariedade e da crença de que a educação é um instrumento potente de transformação social”, finaliza.

Em 2023, o Jornal da Universidade publicou o perfil de Jorge Amaro:

https://www.ufrgs.br/jornal/jorge-amaro-e-a-descoberta-do-mundo-por-meio-da-educacao
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