QUE TIPO DE AULA DE ARTE PRODUZIMOS QUANDO SAÍMOS DA SALA DE AULA?


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Paulo Nazareth – Projeto Notícias da América ( )

Imagem cedida pelo artista*

A sala de aula e sua disposição nos diz muito sobre as concepções de educação e os processos de ensino e aprendizagem. Manter os alunos alinhados com professor em frente é mais que uma forma de organização, é uma forma efetiva de produzir corpos dóceis, muitas vezes corpos-pedras, silenciados. Uma aula de arte que sempre se faz a partir desta espacialidade fixa possivelmente não será uma aula que vai até as entranhas: extirpará o resto do corpo para se contentar com os olhos e ouvidos. Provavelmente será a aula do professor explicador, na qual a arte não é vivida, sentida ou experienciada.

Proponho uma rápida conversa acerca do sair da sala de aula e do caminhar como processo artístico e educativo. Que tipo de escola podemos produzir se saímos da sala de aula? Se caminhamos pela escola? Pela cidade? Se vazamos um território, escapamos, criamos pequenas fendas nas fronteiras para escapulir? O que uma caminhada do tipo artística/estética pode produzir nos alunos?

Sair de um ambiente fechado e caminhar ao ar livre pode mudar muita coisa. A arte se torna potente no encontro: outras pessoas, outros lugares, outras paisagens. Podemos lembrar dos artistas realistas e o que se produziu quando saíram dos ateliês – dos encontros com a vida dos trabalhadores e dos camponeses; ou dos artistas impressionistas e do encontro com a luz. Mais tarde, na passagem do Dadaísmo para o Surrealismo, podemos pensar nas visitas propostas pelo grupo dadá a lugares sem qualquer razão de existir ou ainda nas deambulações dos surrealistas que propunham caminhar e conversar transformando o caminho percorrido em um espaço de afetos e relações[i].

Caminhar, andar sem qualquer propósito. Tonar-se nômade, ser errante. Se a escola é o lugar do aprender e a sala de aula o espaço do conhecimento, qual o propósito de sair?

Nossa escola é voltada aos projetos de formação, enquanto um vir a ser que nunca se finda e nem cessa de intenções. Olhamos para o futuro: futuros profissionais, futuros cidadãos e principalmente futuros consumidores e, enquanto olhamos para a frente, nunca damos importância para a educação do presente e da presença. O filósofo da educação, Jean Masschelein[ii], nos recorda que, para além da ideia de educação enquanto cultivo, ou seja, enquanto algo que plantamos aqui e esperamos dar frutos no futuro, existe uma outra variante etimológica da palavra que associa ex (fora) + ducere (levar). Neste sentido, educar, ao invés de indicar um movimento de colocar conhecimento para dentro das cabeças, passa a ter o sentido de conduzir ao exterior, levar para fora. Expor-se ao mundo e lidar com as forças que o próprio caminhar impõe.

Sair, estar exposto, provoca em nós um deslocamento de si que julgo ser próximo ao que nos acontece diante da arte, principalmente da arte mais contemporânea. Somos inseridos num jogo sem regras pré-estabelecidas e, por não sabermos o que se apresentará, nos resta jogar com menos intenção e mais atenção. Atenção esta que não tem a ver com premeditar ações para prever jogadas: não é estratégia! Atenção é, como coloca Masschelein, abrir-se para o mundo e expor-se de tal forma que possa ser por ele atravessado, afetado, tocado.

Este caminhar atento e errático é do tipo vivenciado por Paulo Nazareth quando sai de Minas Gerais e anda a pé até os Estados Unidos. Paulo, um artista errante, caminha procurando responder a cada situação que se dá no percurso e, muitas vezes, o instante de resposta impõe um novo ritmo à caminhada: é como se o virtual fosse a todo instante sendo atualizado por ele. Exposto ao mundo, ele lida com as forças que o próprio caminhar impõe, sem antecipá-las ou prevê-las.

Uma educação do caminhar nada tem a ver com a chegada, mas com o trajeto e a experiência.Ela só pode ser possível dentro de uma ideia de escola que seja skholè:  afastada dos modos de produção fabril, seria uma escola do tempo livre, do ócio, de processos como os artísticos nos quais nem sempre é possível prever os resultados, mas que se abrem para as forças do fazer.Uma experiência muito diferente daquela que muitas vezes se dá em sala de aula, posto que atravessa o corpo todo e não somente olhos e ouvidos. Andando com o corpo todo, vagarosamente e com atenção, como fazia diariamente Nietzsche que chegou a escrever: “Não escrevo somente com a mão: o pé também dá sua contribuição. Firme, livre e valente ele vai, pelos campos e pela página”[iii].

Por fim, quando saímos da sala, quando caminhamos com atenção, estamos produzindo uma aula de arte que não se volta para a formação futura de um sujeito, mas que permite uma experiência com o agora, uma experiência de atenção, de expor-se àquilo que nos aparece. Nos faz atravessar sem saber de antemão que tipo de paisagem encontraremos. Nos faz sair dos lugares cômodos e confortáveis, produzindo em nós uma experiência que – não sendo possível classificar, também não me impede de dizer – é educativa e artística porque é a vida.

Por Christiane Tragante

(chrisarte@gmail.com)

Doutoranda em Educação na Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar e graduada em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas também pela UNESP. É professora de Arte no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IFSP em Matão.

Referências

[i] CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como pratica estética. 1ª ed. São Paulo: Editora Gustavo Gili, 2013.

[ii]MASSCHELEIN, Jean. E-ducando o olhar: a necessidade de uma pedagogia pobre. In: Revista Educação & Realidade, v. 33, no. 1, 2008.

[iii]NIETZSCHE, F. W.A Gaia ciência. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2001.

Nota: Agradecemos o artista Paulo Nazareth que cedeu os direitos de uso da imagem utilizada nessa publicação. Mais informações no site: http://latinamericanotice.blogspot.com/

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