Inventar novas relações entre arte, educação e docência

PERCURSO TEMÁTICO: ARTE PARA ADIAR O FIM DO MUNDO

Obra “Invasão Colonial: Meu Corpo Nosso Território”, de Xadalu. Fonte: bit.ly/4h704sO

Os percursos temáticos em torno das publicações do site são um convite voltado para a formação de professores e professoras que atuam no contexto da educação básica, ensino superior e em outros contextos educativos a partir de perspectivas distintas de práticas artísticas contemporâneas e da forma como elas podem reverberar nos cotidianos, nas relações com os outros e consigo mesmo. Para saber mais sobre essa proposta, acesse aqui.

ANCESTRALIDADE

Ancestral é o que foi. Categoria fundamental à espiritualidade africana, indígena, entre outras. A ancestralidade pode ser definida de duas formas: como a condição de antepassado familiar; ou como o legado ou herança espiritual e moral que o ancestral deixa em proveito de cada um de seus descendentes. De forma geral, reconhecer a ancestralidade nos permite saber de onde viemos e como chegamos até aqui. O reconhecimento da ancestralidade é considerado muito importante para compreender e pacificar algumas formas de sentir, ser e estar dos sujeitos.

Saiba mais em: ANCESTRALIDADES e Glossário do pensamento contracolonial brasileiro

ARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA

Antes de tudo, a arte indígena contemporânea emerge do protagonismo da produção artística e do modo de pensar dos artistas indígenas. Nesse sentido, Jaider Esbell afirma “Não há como falar em arte indígena contemporânea sem falar dos indígenas, sem falar de direito à terra e à vida (…) A arte indígena contemporânea nesse sentido está para muito além das molduras e estruturas. A arte indígena contemporânea purifica-se filtrando em si mesma com a força da espiritualidade, seu núcleo. A arte indígena encosta na arte geral enquanto sistemas próprios, mas elas não se fundem nem se confundem totalmente, a priori.” (Esbell, 2018).

Saiba mais em: ARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA, TERRITÓRIOS E PERTENCIMENTO eARTE INDÍGENA CONTEMPORÂNEA: olhares e busca de uma professora de artes visuais.

PARANGOLÉ

O conceito de Parangolé, criado pelo artista brasileiro Hélio Oiticica, é uma das manifestações da arte contemporânea desenvolvida na década de 1960. O Parangolé é uma obra de arte vestível, composta por capas, bandeiras, estandartes e objetos feitos de tecido, plástico, papel e outros materiais, às vezes com frases políticas ou poéticas, que só ganham sentido quando plenamente acionados pelo corpo do espectador-participante. Mobilizado na cultura popular brasileira, especialmente pelas vivências de Oiticica com a comunidade do Morro da Mangueira no Rio de Janeiro, o Parangolé reflete uma fusão entre arte, samba, corpo e cotidiano.

Saiba mais em: https://projetoho.com.br/pt/home/

CRISE CLIMÁTICA

A crise climática é um estado de emergência global resultante de mudanças rápidas e intensas no clima do planeta, amplificadas principalmente pelo aquecimento global. Essa questão é causada, em grande parte, pelas atividades humanas, como a emissão excessiva de gases de efeito estufa (provenientes da queima de combustíveis fósseis), o desmatamento, a manipulação de ecossistemas e os padrões de consumo insustentáveis. Mais do que uma questão ambiental, a crise climática representa um desafio ético, político e cultural, exigindo mudanças estruturais urgentes nas políticas globais, nos hábitos de consumo e nas práticas de produção para mitigar seus efeitos e garantir a sustentabilidade do planeta.

Saiba mais em: A água foi até aqui e Cenas e imagens da enchente: memória coletiva do Arteversa.

Os indígenas já têm vivido o fim do mundo há muito tempo. Suas terras, seus corpos e seus direitos são invadidos estruturalmente. Xadalu atenta para essas violências, denúncias e resistências do povo indígena que alerta, não só para as injustiças com o seu povo, mas para o fim do mundo.

MAS POR QUE ADIAR O FIM DO MUNDO?

Inspirado na  obra de Ailton Krenak “ IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO” te convidamos a emaranhar-se pela  arte contemporânea e pela ancestralidade sábia do chão e das águas sagradas que habitamos. Mas por que adiar o fim do mundo?

“Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe , a terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos” (Posfácio de Eduardo Viveiros, Ideias para adiar o fim do mundo) 

Caminha conosco nesse percurso atravessado por questões ambientais, ancestralidade e arte contemporânea

Para a cosmologia do povo Macuxi, a Cobra Grande é uma guardiã das águas subterrâneas. Ela ficaria embaixo da terra, sendo responsável pelas águas que jorram das nascentes. Nesse sentido, Jaider afirma que “ a transformação da vida vem por meio de um estado de encantamento” e a cobra representa a capacidade de transformação.

Instalação Entidades, 2021, Jaider Esbell

A arte contemporânea é um caminho, uma possibilidade, uma flecha que nos atravessa e pode nos mobilizar.  Em um trabalho docente, podemos trabalhar a dimensão ambiental não apenas através do filtro da tragédia, mas também pela sua dimensão ancestral e estética?  Ancestralidade esta que pode ser percebida e vivenciada através de uma consciência estética que se faz através da arte contemporânea, na criação de um novo olhar em relação a nós mesmos e com o meio onde vivemos. A arte contemporânea e suas multilinguagens nos convidam a diversas experiências que nos atravessam. 

PISAR O IMPROVÁVEL CHÃO E SUSTENTAR O CÉU ACIMA DE NOSSAS CABEÇAS

“Devo dizer que meu atuar ecoa para um sentido da arte que puxamos para nós indígenas em relação ao grande mundo. Fazemos política de resistência declarada com a arte em contexto contemporâneo aberto. Em contexto fechado, ressignificamos nossas estruturas culturais e sociais com arte e espiritualidade em um mútuo alimentar de energias para compor a grande urgência de sustentar o céu acima de nossas cabeças”. (ESBELL, 2018)

Vicuna_Cecilia 1

Registrar é uma forma de manter viva a memória. Os quipus, para os Incas,  eram ferramentas de registro escrito e numérico, feitos com cordões de algodão, lã de lhama ou de alpaca.  Reativando uma forma de registro ancestral, Cecília Vicuña nos convida a questionar de que modo registramos nossas memórias, escrevemos sobre nós mesmos e sobre aqueles que nos antecederam? Conseguimos palavrar mais, abrir as palavras em busca de novas relações e significados? O modo como lidamos com a precariedade, com os ritmos e movimentos da natureza também pode ser pedagógico?  

COMO NOS VESTIR DOS MANTOS DA ANCESTRALIDADE NA CONTEMPORANEIDADE? COMO DANÇAR AO SONS DA NATUREZA COMO UM PARANGOLÉ SAGRADO E BELO? COMO SER ATRAVESSADO PELA ARTE E PELA NATUREZA? O QUE É SER ANCESTRAL NA CONTEMPORANEIDADE?

FLECHAS QUE NOS ATRAVESSAM: AS EXPERIÊNCIAS

Viver a ancestralidade na época contemporânea ressoa em como lidamos com a nossa relação com os rios e as águas da nossa cidade, como nos relacionamos com a natureza, com o que consumimos, como atuamos no mundo.

“Sempre estivemos perto da água, mas parece que aprendemos muito pouco com a fala dos rios”.

Ailton Krenak

Carolina Caycedo propõe geocoreografias que chamam a atenção de que não estamos alheios ao lugar em que vivemos, ou pelo menos, não deveríamos estar. Ela nos faz pensar sobre os rios que nos cercam. Os rios da sua cidade estão vivos?

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Carolina Caycedo- Geochoreographies Series 2015
Performance “Simulação de um levante” com secura humana, 2024. Fonte: link na imagem.

REGISTRAR TRAGÉDIAS CLIMÁTICAS ATRAVÉS DA ARTE POSSIBILITA ADICIONAR UM OLHAR SENSÍVEL E POLÍTICO AO QUE VEM ACONTECENDO NAS NOSSAS TERRAS. O COLETIVO SECURA HUMANA, EM UM LEVANTE, FAZ UMA DENÚNCIA EM MEMÓRIA À TRAGÉDIA DO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DE BRUMADINHO E QUESTIONA: COMO AS MARCAS DEIXADAS PELA ÁGUA, SEJAM AS MARCAS DE UMA TRAGÉDIA OU DO FLORESCIMENTO DE UMA NOVA PLANTAÇÃO, PODEM DESPERTAR UM OLHAR PARA A VIDA EM COMUM?

Enquanto a ancestralidade nos convidava a mergulhar nos rios e fincar o pé na terra, na contemporaneidade, estamos sendo soterrados por tudo o que consumimos, como alerta o artista Daniel Canogar. Estamos perdendo a nossa ligação orgânica com a natureza, sendo engolidos pelo que descartamos e consumimos, nos afastando do cuidado com a terra. 

DANIEL CANOGAR. Vórtice 1. 2011. Fotografia. Fonte: link na imagem.

DO SONHO E DA TERRA (ATRAVESSAMENTOS E EXPERIÊNCIAS)

A partir da leitura dessa sugestão de percurso temático em torno das obras dos artistas Xadalu, Jaider Esbell, Cecília Vicuña, coletivo Secura Humana e Daniel Canogar, que estratégias metodológicas podem advir dessas reflexões e provocações estéticas? Como vislumbrar processos pedagógicos que aproximem professores e estudantes da temática desses artistas? Que ação/experiência estética inspirada pelas obras dos artistas pode-se experimentar com os estudantes?

Há demandas ambientais urgentes no seu entorno (colégio, bairro, cidade, estado…)? Como provocar os estudantes a mobilização através da arte (música, performance teatral, artes visuais, dança, audiovisual, entre outros)?

Quais materialidades, técnicas, linguagens, textos multimodais, você poderia utilizar para abordar as provocações dos artistas? Como ressignificar as obras a partir do contexto ambiental em que todos nós atuamos?

E POR FIM (ADIADO)

Texto e pesquisa: Alexandre Santiago, Lobna Essaba, Clarissa Nunes e Luciana Loponte.

Revisão e edição: Lobna Essaba, Clarissa Nunes e Luciana Loponte.

Ilustração: Clarissa Nunes.

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Referências

Elni Elisa Willms; Rafael Nogueira Costa; Rogério de Almeida; Michèle Sato (in memoriam) (organizadores). Sementes da arte-educação-ambiental. / São Paulo: FEUSP, 2024.

Krenak, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras,2020

Krenak, Ailton. Futuro ancestral.. São Paulo: Companhia das Letras,2022. 

Sites para pesquisa e ampliação

COLETIVO INDÍGENA MAHKU

Jaider Esbell

Artista indígena Denilson Baniwa

Saberes ancestrais e arte contemporânea

kaê Guajajara

Entrevista em áudio e texto com Jaider Esbell

LIXO EXTRAORDINÁRIO de Vik Muniz 

ILHA DAS FLORES de Jorge Furtado

 

 

 

 

Você pode fazer download deste percurso adaptado para PDF aqui. Na última página deste arquivo você encontrará uma zine para impressão e compartilhamento.   

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