Sanitaristas em ação

Entrevista para o G1/RS sobre a Pandemia e o Fundo das Mulheres POA

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‘Não dá para colocar só na conta da pandemia’, diz sanitarista de Porto Alegre sobre desigualdade social.

Daiana Santos atua no Fundo das Mulheres POA, que atende chefes de família em situação de vulnerabilidade social. Projeto recebe doações em pontos de coleta e através de campanha virtual.

“Tem lugares que a gente chega tem aquele arroz com feijão, mas tem espaços muito mais precários, que a mãe não tem nem leite para dar para o filho. A gente está em 2020, estamos pautando tecnologia da informação nas escolas, estamos falando de ensino à distância, em quarentena, em responsabilidade com espaços e distanciamento social e tem gente que não tem comida na mesa. Esse é o abismo que a desigualdade vem deflagar nesse momento e não dá para colocar só na conta da pandemia”, ressalta Santos.

O Fundo surgiu projetando um atendimento de 30 a 60 dias, mas com a extensão do distanciamento social, as doações também seguem. De março a julho, já foram atendidas cerca de 30 comunidades da Capital e mais de 2,5 mil famílias. São entregues kits de alimentação e higiene, além de itens de vestuário.

“Avaliamos esse empobrecimento das mulheres, principalmente as que trabalham na reciclagem, as diaristas, o perfil que é bem específico, que o lance do dinheiro fica mais escasso. Nunca falta, mas também não sobra. E a partir do momento que tu não está trabalhando, não está gerando a renda, a primeira coisa coisa que falta é a comida na mesa”, destaca Santos.

O cadastro é sempre feito no nome da mulher. Conforme Santos, destas, quase 80% são negras, com baixa escolaridade, e que no período antes da pandemia tinham uma renda entre R$ 500 e R$ 600.

“Não podemos falar de desigualdade social se não falarmos também de desigualdade racial, porque em definitivo é isso que vemos. Uma grande maioria de mulheres negras. É o perfil que a gente observa nos indicadores do IBGE, só que está ali, na nossa frente. A gente está falando de pessoas”, ressalta a coordenadora.

Ação de Solidariedade

Entrevista para o Redação TVE/RS sobre a Pandemia e o trabalho social em Porto Alegre

Neste mês de junho, conversei com a TVE/RS para contar um pouco do meu trabalho como sanitarista nesta Pandemia, as perspectivas das mulheres em situação de vulnerabilidade na cidade de Porto Alegre, e também relatei como estão sendo desenvolvidas as ações do Fundo de Amparo ao Combate à Fome para mulheres, na qual estou coordenando.

Ação de Solidariedade

No dia 23/05/2020, o Fundo de Amparo ao Combate à Fome para Mulheres em situação de vulnerabilidade, em parceria com o Coletivo Cozinhar e Servir, realizou uma ação de solidariedade na ocupação BECO CHAPÉU DO SOL, localizada no bairro Lageado, extremo sul da cidade Porto Alegre.

Foram atendidas 150 mulheres, que receberam cestas básicas, compostas por alimentos, produtos de higiene e limpeza, além de máscaras de proteção facial. Para a seleção das beneficiadas, o Fundo realiza uma visita in loco alguns dias antes de realizar a ação, onde é efetuado um cadastro prévio, das mulheres que receberão as doações, com o auxílio da liderança local.

A urgência da hora é ter comida na mesa, mas não podemos deixar de citar que nestas comunidades e ocupações atendidas pelo Fundo, não há condições dignas de moradia, saneamento básico, boas perspectivas de emprego e renda, e o acesso à saúde e educação são precários. Nossa ação é limitada, no entanto, é nosso dever dar visibilidade a estas pessoas que estão esquecidas pelo Estado, e cobrarmos um conjunto de políticas públicas na área social e assistencial que cheguem até estas populações invisíveis e vulneráveis.

Fundo de combate à fome para mulheres em situação de vulnerabilidade em Porto Alegre

Olá, meu nome é Daiana Santos, sou Sanitarista, formada pela UFRGS e educadora social, ativista do movimento de mulheres, negras e negros, LGBTQI+ e população em situação de rua. 

Clique na foto para contribuir com a vakinha

Em abril deste ano comecei a campanha para o Fundo de amparo ao combate à fome para mulheres em situação de vulnerabilidade, afetadas pela Pandemia, na cidade de Porto Alegre, através da plataforma online www.vakinha.com.br. A iniciativa da criação deste Fundo foi de um coletivo de mulheres da sociedade civil engajadas na luta contra a desigualdade social, que se organizou para criar uma rede de apoio e solidariedade para atender mulheres em situação de vulnerabilidade, neste momento de pandemia do Coronavírus (COVID-19) e enquanto perdurar seus efeitos. Essa iniciativa não tem nenhuma vinculação com partido político, ou com a esfera pública governamental.

Até o momento conseguimos beneficiar mais de 500 famílias chefiadas por mulheres em comunidades e ocupações na Zona Leste, Norte, Sul e Extremo Sul da cidade de Porto Alegre. O principal perfil atendido pelo Fundo são de mulheres negras com crianças. Já recebemos mais de R$ 15.000 em doações, agora estamos iniciando a 4ª etapa de arrecadação para o Fundo, que conta com mais de 190 apoiadores.

A pandemia trouxe à tona a pobreza, evidenciando a face mais cruel da desigualdade. Tenho andado pelas comunidades e a realidade é muito dura, fica difícil até de mensurar o quão cruel e perverso é o impacto da lógica do capital acima de tudo nestes lugares.

Precisamos urgentemente tratar a pandemia do coronavírus como uma questão relacionada à opressão social. O vírus escolhe, sim, classe, raça e gênero”, como citou Rosana Pinheiro Machado no seu artigo para o THE INTERCEPT BRASIL. O grupo social mais afetado pela pandemia do novo coronavírus, quando o assunto é impacto econômico, são as mulheres, e ainda em maior risco de vulnerabilidade estão as indígenas, negras e imigrantes. Isso porque, esse é o grupo social que está em empregos mais precários e informais. 

Com um governo que pratica a necropolítica da epidemia, temos um cenário sombrio para os próximos meses, portanto contamos com a colaboração e solidariedade de todos que puderem contribuir com esse Fundo e ajudar as famílias chefiadas por mulheres, que nesse momento de grave crise, não possuem nenhuma assistência do Estado, somente a da sua comunidade. 

#FundoDasMulheresPOA


 

 

 

Sanitarista egressa da UFRGS coordena ação que beneficia comunidades no combate à fome. Saiba mais

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Publicado por Egressos Saúde Coletiva UFRGS em Domingo, 15 de março de 2020