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Os alívios e as incertezas do esquecimento de um trauma

Como pacientes se recuperam do esquecimento traumático e como a ciência trata essa condição

REPORTAGEM
Jorge González
jorge.carrasco.glez@gmail.com

Arte: Gabi Berwanger

Imagine que a sua vida mudando subitamente em poucos minutos. Imagine um momento terrivelmente singular e traumático que lhe atinge de uma forma fugaz e imprevisível, gerando um efeito pouco compreensível na sua mente e que apaga qualquer lembrança do ocorrido. Isso é o que acontece com as vítimas da amnésia traumática dissociativa, ou esquecimento pós-traumático.

Uma das questões mais controversas atualmente enfrentadas pela psicologia e pela psiquiatria é como as vítimas se relacionam com o esquecimento de traumas. Muitos teóricos de traumas clínicos acreditam que eventos violentos e experiências aterrorizantes podem ficar aparentemente gravados na mente para nunca serem esquecidos. Mas outros diferem e argumentam que a mente se protege expulsando memórias traumáticas da consciência, tornando mais difícil para as vítimas lembrarem-se de suas experiências mais terríveis até que, muitos anos depois, sentem-se seguras para fazê-lo.

Embora reconheçam que os traumas são às vezes bastante memoráveis por muitas pessoas, especialistas afirmam que o estado conhecido como amnésia traumática dissociativa torna uma minoria especial de vítimas incapazes de se lembrar de seus traumas precisamente por serem tão esmagadoramente aterrorizantes.

“Trata-se de uma condição clínica que gera uma incapacidade de lembrar um aspecto importante do trauma após um evento específico”, afirma Mariana Gonçalves, psicóloga e especialista em traumas, que trata atualmente pacientes que sofrem de patologias similares na plataforma coletiva de terapia Psicologia Viva. “Na maioria desses casos, as pessoas perdem parte das suas lembranças do acontecimento traumático, mas, em outros casos, a perda dessas memórias específicas é total. O paciente pode sentir uma sensação de vazio.”

De acordo com a psicóloga, isso acontece porque o cérebro sempre procura blindar as pessoas de acontecimentos demasiado difíceis para evitar maiores problemas que inconscientemente podem afetar os indivíduos para sempre. Isso não quer dizer, no entanto, que memórias “reprimidas” ou “dissociadas” de eventos difíceis sejam totalmente benignas. Pelo contrário, essas memórias enterradas silenciosamente podem dar origem a sintomas psiquiátricos posteriores, que ficam mais difíceis de serem compreendidos.


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“Este esquecimento não é causado por nenhuma patologia fisiológica identificável”, comenta o psiquiatra Márcio Benetti, que atua no Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos, em São Paulo. “Não há nenhum estudo que prove uma pré-disposição para esse tipo de doença. Quando os primeiros sintomas de amnésia dissociativa aparecem, a pessoa geralmente fica bastante confusa, ela pensa ‘por que acontece isso comigo?’, mas nem sempre há uma resposta clara para isso.”

Embora a prevalência não seja muito alta, existem situações específicas em que a amnésia dissociativa é comum, por exemplo, eventos altamente estressantes como guerras, acidentes violentos, desastres naturais e abusos de diversas formas. Contudo, isso pode variar de pessoa  para pessoa, e nem sempre acontece.

“Para alguns pode até ser um alívio o fato de esquecer o trauma, mas para outros pode ser muito difícil”

MARIANA GONÇALVES, psicóloga e especialista em traumas

De acordo com um artigo da revista Science Daily, escrito por Darlene McLaughlin , psiquiatra norte-americana e professora do Texas A&M College of Medicine, às vezes essa condição não apenas gera o esquecimento de um episódio específico da vida das pessoas, mas também pode criar casos de perda de identidade. 

Mariana afirma que a maior parte dos seus pacientes que possuem esse tipo de problemas tende a lidar de formas muito distintas com o fardo emocional que deixa o trauma. “Para alguns pode até ser um alívio o fato de esquecer o trauma, mas para outros pode ser muito difícil.” 

A psicóloga conta no artigo que já teve um paciente que, sendo muito novo, teve um acidente de moto e perdeu grande parte da sua memória de alguns poucos dias que antecederam o acidente, esquecendo dessa forma um momento muito singular na sua vida. “Naquela mesma semana ele havia acompanhado muito de perto o nascimento do seu irmão, mas ao não conseguir lembrar esse momento especial, ele acabou entrando em depressão”, afirma ela. “Foi muito difícil para ele aceitar o esquecimento”.

“As pessoas que passam por isso podem se sentir sozinhas, desnorteadas”, explica a psicóloga Mariana. “É muito necessário oferecer todo o apoio possível para as vítimas da amnésia traumática, só assim elas podem se recuperar melhor para voltar à normalidade e viver uma vida plena.”


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2 comentários em “Os alívios e as incertezas do esquecimento de um trauma”

  1. Ola. Sofri um acidente de moto recentemente em rodovia. O resgate usou a expressão MAU SUBITO. inicialmente diagnóstico de AVC. OS EXAMES não identificaram a causa. Eletro da cabeça não acusou nada. Pressão arterial no momento do acidente 12/8. Saturação sim estava apenas 40%
    A questão é:sai pra viagem totalmente bem.. animado.
    Porém, minha última lembrança foi olhar pelo retrovisor da moto. Simplesmente não lembro de mais nada. Nada. Nada
    8 hs inconsciente na emergência. E mesmo voltando a consciência, tive 48 hs de apagão total. Embora minha esposa me levou ao banho no hospital por dois dias. Sai do hospital andando até o carro. Cheguei em casa. Tive visitas de amigos e parentes. Só que não lembro de absolutamente nada
    O acidente foi numa sexta feira ás 13 hs. Sinto que comecei a ter consciência de alguma coisa só no domingo a noite. E mesmo assim, eventos ocorridos nos próximos 3 dias após estar em casa, não tenho lembranças plena. Simplesmente tudo apagado.
    Tem a ver com amnésia pós traumática?
    Meu nome é Samuel. Sou do interior de São Paulo

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