Resultado já se transformou em política pública que deve melhorar a garantia da água para pessoas e ecossistemas
21 de outubro de 2026 às 15:46
Berço dos principais rios estratégicos brasileiros – do São Francisco ao Paraná e o Tocantins, até o Xingu, que escoa para a Bacia Amazônica –, o Cerrado abriga bacias hidrográficas com significativa relevância para a produção da água que flui por esses rios, dos quais depende grande parte da geração de energia, navegação, agricultura irrigada e abastecimento brasileiros, além de ecossistemas aquáticos que suportam comunidades ribeirinhas de pescadores e indígenas.
Apesar disso, o Cerrado é um bioma que enfrenta um processo histórico de impactos devido às mudanças nos usos do solo, que reduzem a capacidade de regular as vazões dos rios. Diversas políticas públicas no Brasil, a exemplo do Programa Nacional de Revitalização de Bacias Hidrográficas, buscam alinhar estratégias para reverter esse cenário de impactos, porém ainda sem uma abordagem capaz de integrar múltiplas escalas e variáveis relevantes para orientar as ações. Os problemas são muitos: Onde é mais urgente conservar? Onde é necessário recuperar a vegetação original? Onde devem ser priorizadas técnicas de manejo do solo?
A fim de enfrentar essas questões, uma equipe do Núcleo de Pesquisa em Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos (Gespla), do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade, foi contatada entre 2025 e 2026, pelo Instituto Cerrados (ONG), por indicação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), para elaborar uma metodologia capaz de identificar áreas prioritárias para ações de conservação de água no bioma Cerrado, sob múltiplas escalas. Trabalharam no desenvolvimento da metodologia “Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado” (APRHIC): Guilherme Marques, Iporã Possantti e Rafael Barbedo, pesquisadores e colaboradores do Gespla; e Yuri Salmona, diretor executivo do Instituto Cerrados.
A oficialização da metodologia criada na UFRGS, bem como os resultados do trabalho, foram reconhecidos pela portaria do Ministério do Meio Ambiente (GM/MMA n. 1779/2026), de 11 de setembro de 2026, que instituiu as Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado.
Impacto em políticas públicas
De acordo com o coordenador-técnico do projeto Guilherme Marques, “a iniciativa é um exemplo de impacto direto da contribuição do ensino e pesquisa da UFRGS para políticas públicas de alcance nacional, que irão melhorar não apenas a garantia da água para pessoas e ecossistemas, mas também para orientar a produção sustentável, reduzir a pobreza, fome e desigualdades”, explica, acrescentando que será mantida a capacidade de suporte de ecossistemas locais a pequenas comunidades, que por sua vez resultam em paz, justiça e instituições eficazes. “Esses impactos estão alinhados a pelo menos 13 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – os chamados ODS, um conjunto de 17 metas globais instituído pela ONU que faz parte da Agenda 2030″, comemora.
Em entrevista ao site da UFRGS, o professor Guilherme detalhou o processo de desenvolvimento da APRHIC, cuja elaboração consumiu cerca de 11 meses de trabalho: “A abordagem metodológica combinou fundamentação científica, análise hidrológica empírica e modelagem espacial multiescalar. Em uma primeira etapa, o trabalho sistematizou o conhecimento sobre os processos que controlam a infiltração, o armazenamento subterrâneo e a regulação das vazões no Cerrado”. Na sequência, o pesquisador contou que foram examinados dados de diferentes bacias hidrográficas do Distrito Federal, comparando bacias com características físicas semelhantes, mas diferentes condições de cobertura vegetal. Essa análise também identificou um limiar topográfico – em torno de 11,5 metros –, que auxilia na diferenciação entre áreas mais sujeitas à saturação e áreas de encostas e platôs com maior potencial de infiltração.
Segundo ele, essas evidências foram incorporadas à metodologia de forma estruturada em três dimensões complementares: importância hidrológica natural, estado de conservação e risco de perda dos serviços ecossistêmicos. “O índice de importância hidrológica natural integra, mediante lógica fuzzy*, indicadores de topografia, solos, geologia e clima, permitindo representar desde processos locais de infiltração até condicionantes regionais, como a presença dos aquíferos Urucuia e Parecis. O índice de conservação considera a proporção de vegetação nativa, enquanto a dimensão de risco diferencia tanto a possibilidade de conversão de áreas naturais quanto a degradação de áreas já antropizadas, isto é, que sofreram modificações na cobertura vegetal ou no uso do solo devido à intervenção humana”, pontuou. O docente frisa que os cálculos foram espacializados na Base Hidrográfica Ottocodificada BHO 5K, composta por unidades de bacia suficientemente detalhadas para identificar áreas críticas que tenderiam a desaparecer em análises mais agregadas. “A combinação dessas dimensões resultou em classes territoriais associadas a diferentes necessidades de proteção, restauração, manejo conservacionista e controle de pressões ambientais, em um mapeamento que cobriu toda a extensão do bioma Cerrado, se estendendo ainda para outros biomas que recebem contribuição hidrológica deste.”

O método já foi aplicado e testado para todo o bioma Cerrado, que compreende áreas nos estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Bahia, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins e Rondônia (veja mapa ao lado).
Resultados
Em linhas gerais, os resultados mostram que uma parte substancial das áreas de alta e extrema importância hidrológica já se encontra em estado de antropização, conforme destaca Guilherme Marques: “Algumas regiões associadas aos aquíferos Urucuia e Parecis, apesar da pressão antrópica, ainda mantêm grandes extensões conservadas de importância extrema. Nessas áreas, a relevância para a conservação é evidente, seja para sustar a mudança de uso do solo, seja para assegurar atributos que favoreçam a infiltração e a recarga subterrânea. Mesmo em trechos já alterados pela ação humana, essas áreas permanecem estratégicas, devendo ser alvo de diretrizes mais rigorosas para evitar processos de compactação do solo e garantir a manutenção da recarga hídrica”.
O docente pondera que, além dos aquíferos citados, destacam-se áreas de extrema importância nas proximidades do Pantanal, especialmente em Mato Grosso do Sul, bem como outros focos em regiões de risco onde a prioridade e a vulnerabilidade se sobrepõem. “Nesses casos, o planejamento deve ser ainda mais cauteloso, contemplando programas específicos (seja de recuperação de vegetação nativa em áreas já degradadas, disseminação de práticas de conservação de solo, critérios diferenciados para licenciamento ambiental e até programas de pagamento por serviços ambientais) para mitigar o risco e assegurar a integridade dos processos hidrológicos. Essa situação reforça a necessidade de políticas diferenciadas para áreas simultaneamente prioritárias e sob risco elevado”, sinaliza.
Entre as áreas destacadas de elevada conservação estão reservas indígenas como o Alto Xingu e a Ilha do Bananal, além de chapadas na região de Palmas e extensões conservadas no Vale do Parnaíba, nas proximidades da transição com a Caatinga. O Pantanal também se apresenta como área substancialmente conservada.
Por fim, no que se refere ao risco de perda de vegetação nativa em áreas de predominância natural, a aplicação da metodologia revelou uma distribuição esparsa em várias bacias, com maior concentração no chamado Matopiba – região de fronteira agrícola que abrange porções do Tocantins, Maranhão, Piauí e da Bahia. Essa área concentra frentes recentes de desmatamento, que resultaram na classificação de diversas bacias na categoria de risco elevado de antropização. Destaca-se também o Vale do Parnaíba como área de vulnerabilidade relevante nesse contexto.



Inovação
Na avaliação do professor Guilherme, a inovação central do projeto está na conversão de processos hidrológicos complexos em um instrumento espacialmente explícito e diretamente utilizável pelo poder público. “Em lugar de priorizar áreas somente pela presença de rios, nascentes ou vegetação remanescente, a metodologia identifica os espaços da paisagem responsáveis pela entrada, infiltração, armazenamento e liberação gradual da água. Isso permite proteger não apenas a ‘torneira’ do sistema hídrico – representada por nascentes, veredas e matas ciliares –, mas também sua ‘caixa-d’água’, formada por solos profundos, encostas, chapadas e áreas de recarga.” Outra contribuição inovadora é a diferenciação das estratégias segundo a situação territorial: áreas naturais hidrologicamente relevantes demandam proteção preventiva; áreas conservadas sob pressão de conversão, especialmente no Matopiba, requerem medidas de contenção; e áreas antropizadas de elevada importância hídrica necessitam de restauração, manejo de solos e redução da erosão e do escoamento superficial.
A criação da metodologia no âmbito do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS se insere diretamente no contexto do Plano Nacional de Revitalização de Bacias Hidrográficas (PNRBH), que define a revitalização como um processo integrado e permanente de preservação, conservação e recuperação ambiental destinado a melhorar as condições socioambientais e ampliar a disponibilidade de água, em quantidade e qualidade. O PNRBH contempla as 12 regiões hidrográficas brasileiras e propõe que os investimentos sejam orientados por diagnósticos, áreas prioritárias, ações elegíveis, metas e mecanismos de monitoramento. “Nesse contexto, a APRHIC oferece um detalhamento técnico especialmente relevante para o Cerrado: enquanto o plano estabelece as diretrizes nacionais e hierarquiza grandes sub-regiões hidrográficas, o projeto permite localizar, em escala mais fina, onde as intervenções podem produzir maior benefício para a regulação hídrica. Dessa forma, contribui para transformar as diretrizes gerais do PNRBH em decisões territoriais mais objetivas, transparentes e tecnicamente justificadas”, conclui Guilherme Marques.
*Lógica difusa ou lógica fuzzy – Proposta na década de 1960 pelo matemático Lotfi Zadeh, é um tipo de lógica multivalorada em que os valores de verdade das variáveis podem ser qualquer número real no intervalo entre 0 (falso) e 1 (verdadeiro).