O Bioma Mata Atlântica não é apenas composto de florestas, e sobre isso nos fala o professor Paulo Brack sobre as vegetações de Restinga da planície costeira do Rio Grande do Sul.
Trechos de uma aula da disciplina Trabalho de Campo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ministrada por Paulo Brack e João André Jarenkow, nos dias 1 e 2 de julho de 2023, na Planície Costeira do Litoral Norte do Rio Grande do Sul, município de Arroio do Sal.
Grupo Viveiros Comunitários – Projeto de Extensão “AGROBIODIVERSIDADE NATIVA E VIVEIRISMO”
Dep. Botânica – Instituto de Biociências, DAIB, UFRGS
(Julho de 2022)
INTRODUÇÃO
Comer é um ato político. Plantar e conservar a natureza também. A idéia da BIODIVERSIDADE PELA BOCA busca refletir e descolonizar o imaginário de que a produção de alimentos só pode ser feita por monoculturas, em grande escala de produção, na chamada agricultura convencional ou industrial.
No âmbito da alimentação convencional, somente 20 espécies vegetais fornecem 90% do alimento humano do planeta, e apenas três delas — trigo, milho e arroz — fornecem mais da metade (WILSON, 2012)[1]. Neste processo, as variedades regionais tradicionais, indígenas ou crioulas vão se perdendo e a nossa alimentação acaba restrita aos poucos grãos oferecidos pelas empresas que promovem monoculturas agroquímico-dependentes. O discurso dos defensores da “Revolução Verde” como solução para a fome mundial deve ser questionado, uma vez que a maior área de produção, representada pela soja, é uma commodity e não alimenta, prioritariamente, seres humanos e sim animais confinados para produção de carne. Outra causa da fome é a falta de estoques de alimentos e a má distribuição de renda. A falta de comida é consequência disso. O atual modelo agrícola dominante esgota o solo e a biodiversidade, exclui pessoas, diminui oferta de alimentos e não nos alimenta com qualidade.
Cabe destacar que no que se refer a grãos, segundo os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), desde 1976/77 até 2020/21, praticamente nos últimos 45 anos, tivemos a diminuição da área de produção de alimentos comoarroz (-72%), feijão (-35%), trigo (-14,7%) (Figura 1),sendo que a mandioca (planta nativa do Brasil e que não leva tantos insumos), em relação a produção total no Brasil, reduzou de 23 milhões de toneladas, em 2000, para 14,5 milhões de ton. em 2020, ou seja, -37% em 20 anos. Por outro lado, no período de 45 anos a área de produção desoja (Figura 2) cresceu exponencialmente (+454%), desde 1975/76, que era de menos de 6,95 milhões de hectares para quase 39 milhões de hectares em 2021, em grande parte para a exportação, enquanto a população do Brasil aumentou de 112 milhões para 215 milhões de pessoas (+92%).
Figura 1 . Produção de alguns principais grãos no Brasil.
Figura 2. Monoculturas de soja alcançam no Rio Grande do Sul 6,3 milhões de hectares e no Brasil cerca de 40 milhões de hectares
Neste contexto, surge a emergência das plantas alimentícias não convencionais (PANC), termo criado pelo botânico Valdely Kinupp (Figura 3) . O conceito de PANC tem diferentes interpretações e, de forma mais ampla, congrega hortaliças, frutíferas e outros tipos de plantas, incorporando também cereais em produção tradicional (sementes crioulas), não de forma industrial ou convencional.
Figura 3. Valdely Kinupp, Ex-professor do Departamento de Botânica da UFRGS, atualmente professor do IFAM (Manaus, AM) é hoje o maior conhecedor e entusiasta do tema PANC, por ele criado, há cerca de 15 anos
.
Figura 4. Area do Campus do Vale da Agronomia da UFRGS
Entretanto, perante às pessoas interessadas em seu consumo, as PANC trazem seu uso mais comum as hortaliças e as frutíferas nativase espontâneas ou plantas alimentícias pouco conhecidas ou partes delas pouco utilizadas. Na Campus do Vale da Agronomia da UFRGS, em Porto Alegre (Figura 4), muitas plantas alimentícias ocorrem como nativas e espontâneas, como veremos a seguir.
Muitas das PANC, nativas ou exóticas espontâneas, além consideradas alimentos funcionais, poderiam ser incorporadas na alimentação, mantendo a diversidade dos ecossistemas. Há 15 anos, Kinupp encontrou na Região Metropolitana de Porto Alegre 311 espécies de PANC, apenas nativas da região, ou seja 20% das espécies da RMPA. No RS, estimamos mais de 400 espéciesnativas ou espontâneas com potencial alimentício, o que corresponderia a quase 10% da flora do Estado. Infelizmente, parte importante destas plantas é chamada pelo agronegócio convencional, ou mesmo em laboratórios de produção agrícola, como “plantas daninhas”. Esta denominação favorece o seu combate, e não o convívio com a diversidade das mesmas, o que implica no uso de herbicidas, contaminando ambiente, o(a) agricultor(a) e o próprio alimento. Segundo o saudoso botânico Eduardo Rapoport (Figura 5) , da Universidade de Bariloche, pelo menos 1/3 do que éconsiderado “inço”, “daninhas” ou“invasoras tem uso atual ou potencial como alimento. Além disso, perdem-se toneladas dessas plantas alimentícias/hectare das lavouras convencionais, mortas por estes venenos agrícolas, não só alimento potencial para seres humanos como criação de animais, como galinhas e porcos, destacando-se aqui o caso de beldroega, caruru, erva-gorda, dente-de-leão, alface-silvestre, mastruço, serralha, picão-branco, picão-preto, trevo-azedo, e outras dezenas de plantas.
Figura 5. O Dr Eduardo Rapoport, biólogo argentino, professor emérito da Universidade de Comahue, Bariloche, um dos pioneiros e entusiastas das plantas nativas e espontâneas alimentícias
No Campus do Vale da Agronomia da UFRGS, podemos citar, pelo menos, três dezenas destes vegetais que nascem nos canteiros e jardins, entre prédios, caminhos, e as pessoas não percebem (Figura 6). Pior do que isso, muitos estão acostumados a ver a grama cortada rente ao solo, como paradigma de jardim esteticamente “bonito” … Estaremos diante das “monoculturas da mente”, segundo a ecofeminista e Prêmio Nobel Alternativo, Vandana Shiva (Figura 7)?
Muitas das espécies de PANC eram tradicionalmente parte da alimentação indígena e tradicional. Infelizmente, ao longo dos anos, foram sendo deixadas de lado, seja pelo modo de vida de consumo-dependência de grandes mercados ou mesmo desinformação das sociedades urbanas e apartadas na natureza. Por isso, atualmente, são tratadas como “não convencionais”.
Figura 6. Gramado com Hypochaeris chillensis (almeirão-do-campo, ou radiche-do-mato), na estética usual, considerado gramado com inço ou mato “feio”.
Figura 7. Vandana Shiva, ativista ambiental, ecofeminista e Prêmio Nobel Alternativo. No caso das hortaliças, utilizamos folhas, caules e ramos, tubérculos, bulbos, palmitos, flores e, em alguns casos, frutos em saladas. Como hortaliças não convencionais mais comuns, inclusive surgindo nas feiras agroecológicas, são: dente-de-leão, ora-pró-nobis, taioba, beldroega, serralha, picão-branco, caruru, entre outras.
Temperos e condimentos também estão contemplados, por exemplo, nas folhas de buva (Conyza bonariensis) e erva-baleeira (Varronia curassavica).
Plantas como a beldroega e o dente-de-leão apresentam conteúdos nutricionais expressivos, como Omega 3, no primeiro caso, e Vitaminas A, B, C, Ferro, Potássio, no segundo, superando elementos nutracêutico do que muitas hortaliças convencionais.
Além dos benefícios para a saúde, a natureza também se beneficia já que, por seu caráter rústico, bem adaptado, requerem pouco trato e dispensam o uso de insumos químicos, o que poupa o solo da enorme carga de veneno associada às monoculturas de espécies ditas melhoradas.
O cultivo das PANCs se encaixa, ainda, numa tendência recente de agricultura urbana, cultivadas ou mantidas em pequenos espaços. Estas plantas não precisam de muita terra para serem cultivadas, bastam muros e cercas–vivas, pequenos quintais e mesmo áreas e sacadas de apartamentos. Jardins urbanos que resgatam a ligação das pessoas com a natureza.
O resgate da manutenção, manejo e cultivo das plantas alimentícias não convencionais significa, além do incremento nutricional, um resgate cultural através da promoção do saber tradicional. Por isso, a importância da divulgação do tema junto à sociedade, para que mais consumidores busquem este tipo de alimentação, fortalecendo a agricultura agroecológica (Figura 8).
Figura 8. Mostra de PANCs realizada pelo GVC na Feira Agroecológica da rua José Bonifácio, bairro Bom Fim, Porto Alegre, RS, Brasil.
[1]https://obha.fiocruz.br/?p=12 Lista de Hortaliças Não Convencionais nos gramados e áreas verdes do Bloco IV do Campus do Vale *
Refere-se ao cultivo de mudas de frutíferas nativas de Porto Alegre, em atividade de extensão, incluindo conservação e divulgação de plantas com frutos alimentícios, incluídas no conceito de PANC (plantas alimentícias não convencionais)
Está disponível no canal do youtube do GVC a gravação do encontro online realizado no dia 10/06/2021 com participação de Guilherme Rosa da Silva, Marcus Vinicius Mouzer, Alana Casagrande e Lucas Nascimento.
Também estamos disponibilizando na Biblioteca virtual do GVC alguns materiais bibliográficos, links e vídeos sugeridos sobre comunidades quilombolas no RS.
Agradecemos muito a presença de todes, e em especial o Guilherme, Vini, Alana e Nascimento pela troca!!
Para acompanhar as atividades do GVC e participar dos próximos encontros ConversAção estamos no Instagram e Facebook e tu também pode assinar o blog por email.
Memórias de tempos de celebrar e compartir a biodiversidade!
Está disponível no youtube do Coletivo Catarse o registro da Mostra Biodiversidade pela Boca, evento promovido pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (InGá) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente em 2014, com participação do GVC.
Mesmo em tempos difíceis, as sementes sempre germinaram e germinarão!
Encontro online com Joana Bassi, analista ambiental da Sema e criadora da InebriArte, e Alvir Longui, coordenação da Cadeia Solidária das frutas nativas e técnico do Centro de Tecnologias Alternativas e Populares, sobre “Agroflorestas & sociobiodiversidade no RS: experiências em políticas públicas e no fortalecimento de arranjos produtivos de base ecológica”
Participe do encontro online “O CARIJO E O PAPEL ESTRATÉGICO DA ERVA-MATE NAS AGROFLORESTAS” com Moisés da Luz , agrofloresteiro e cultivador de erva-mate, mestre em desenvolvimento rural pela UFRGS. Mediação de Paulo Brack
“No dia 22 de maio de 2017, o documento “Dia 22 de Maio: alerta sobre ameaças à Biodiversidade no RS” foi entregue para entidades estaduais e federais, na qual problematiza e reivindica sobre várias questões socioambientais atuais no estado do Rio Grande do Sul.
A autorização para a extinção da Fundação Zoobotânica é contestada com o argumento da inconstitucionalidade e também com as informações dos possíveis danos irreparáveis à biodiversidade do Estado. Além desse e outros temas, o documento traz o estado crítico em que se encontra o bioma Pampa, cuja cobertura original é de apenas 36,03%. Alerta que o “grande motor da conversão e degradação” é o modelo econômico baseado na concentração de terras para produção das monoculturas de soja, milho, arroz e silvicultura, todos para a exportação. Como resultado desta política o Brasil conquistou o título de maior consumidor mundial de agrotóxicos, com o uso anual superior a 1 bilhão de litros desde 2009.
Esta agenda foi promovida por integrantes do Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Fundações Estaduais (Semapi), da Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema), da Agapan, do Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema), da Associação de Funcionários da Fundação Zoobotânica, do Fórum Justiça, do Coletivo Cidade Que Queremos, dentre outros. Após a participação no seminário “A Proteção da Biodiversidade no Brasil”, organizado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS), o documento foi entregue aoPresidente do Ministério Público de Contas, procurador Geraldo Da Camino; para o Presidente da Assembleia Legislativa, deputado Edegar Pretto e para a Presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (RS), desembargadora Beatriz Renck.
“No Brasil, onde foi incorporado um modelo econômico e ecológico disfuncional, promove-se uma verdadeira guerra contra a biodiversidade,” afirma o documento. Como exemplo, cita o Projeto de Mineração Caçapava do Sul da empresa Votorantim, que está em processo de licenciamento junto à FEPAM, e que atinge áreas prioritárias para a Biodiversidade de acordo com a Portaria 9/2007 do Ministério de Meio Ambiente. Sem esquecer dos riscos que os metais pesados representam para a saúde humana e animal, nem a degradação sobre a paisagem e a biodiversidade como um todo na bacia do rio Camaquã. Dentre as reivindicações para enfrentar a situação no bioma Pampa, o documento cita a manutenção e a criação de áreas protegidas pelo poder público, assim como outras práticas sustentáveis, dentre elas, a pecuária familiar sustentável e o turismo rural e e ecológico, que eram conduzidas principalmente pelo projeto RS Biodiversidade.
22 de maio é celebrado o Dia Internacional da Biodiversidade, a data conta com o reconhecimento da assembleia das Nações Unidas, a partir de encontro e convenções sobre a importância da diversidade biológica e o consequente cuidado com o meio ambiente.”
Fonte: Via Biodiversa e Núclo de Ecojornalistas do RS