Breve histórico da atividade
A subida ao Morro Santana iniciou em 2004, a partir da iniciativa de alguns estudantes que perceberam a desconexão da Biologia – UFRGS com o Morro. Estes estudantes, entre eles o botânico Martin Grings, após subidas propostas pelo Prof. Dr. Valdely F. Kinupp, deram início à tradicional atividade.
Contrapondo-se aos trotes depreciativos e opressores, a subida ao Morro Santana tem como objetivo proporcionar uma primeira aproximação dos novos estudantes com a beleza e o potencial de estudo do Santana.
O Morro Santana no contexto dos morros de Porto Alegre
Os morros ocupam 12.307 ha (23% da área do município) e podem ser isolados, como os distribuídos na zona sul, ou agrupados em cristas. O onjunto de morros de Porto Alegre, de modo geral, apresenta orientação nordeste/sudoeste, com altitudes predominantes entre 210 a 240 m, sendo que o ponto mais elevado localiza-se no Morro Santana, o maior dos 44 morros do município, com 311 m acima do nível do mar. Além da importância biológica, o morro tem grande relevância histórica por ter abrigado, em meados de 1740, a propriedade de Jerônimo de Ornelas, considerado o fundador da cidade de Porto Alegre. Ainda serve como fonte de recursos para a manutenção da cultura de comunidades indígenas do entorno, historicamente conectadas ao local antes mesmo da chegada de Jerônimo.
A preservação deste morro também é de alta relevância para a manutenção da qualidade da águas de três bacias hidrográficas – do Arroio Dilúvio, do Arroio Passo das Pedras e do Arroio Feijó – pois o Morro Santana abriga suas nascentes. Atualmente, rodeado por grandes avenidas, como a Av. Antônio de Carvalho (leste), Av. Bento Gonçalves (sul) e a Av. Protásio Alves (norte), o Morro Santana sofre uma série de ameaças: mineradoras, saibreiras (ocasionando crateras na face noroeste), supressão indevida de vegetação, incêndios ocasionais e induzidos, ocupação irregular, especulação imobiliária, espécies exóticas invasoras, prática de motocross (ocasionado a formação de voçorocas), além da falta de segurança para pesquisadores.
Vegetação
Porto alegre consiste em um ecótono, ou seja, uma área de transição, no encontro e interpenetração de diversas formações vegetacionais, sendo possível encontrar espécies botânicas das mais diversas regiões do estado. Espécies exclusivas do bioma Mata Atlântica podem ser encontradas em “ilhas” ou distribuídas no município, muitas tendo seu limite sul de distribuição justamente no paralelo 30, em Porto Alegre. Chama atenção o fato de que entre as espécies mais frequentes da arborização urbana da capital, nenhuma seja nativa da região metropolitana, apesar das potencialidades das árvores nativas.
Os morros de Porto Alegre apresentam vegetação natural distribuída em mosaicos, resultantes da associação de dois tipos de vegetação: campos e florestas, facilmente diferenciados pelos tons de verde mais claro (até amarelado) e verde mais escuro, respectivamente. De modo geral, o perfil típico do Morro Santana, assim como dos demais morros do município, é o seguinte: face norte constituída por campos, com espécies herbáceas e arbustivas, e face sul constituída por florestas, dominada pelas formas arbóreas. Isto ocorre porque há alta incidência solar ao norte, sendo a parte sul menos iluminada e mais úmida.
À medida que subimos em direção ao topo do Morro, a vegetação espontânea pode ser dividida, grosso modo, em três grupos: mata, vassoural (ou capoeira) e campo. A rocha formadora do Morro é o granito, e a vegetação corresponde às características do solo e varia conforme as condições ambientais: no topo, o solo é mais seco, raso e pobre em nutrientes, tornando-se mais úmido, profundo e fértil com o declínio da altitude. Isto ocorre porque, com o tempo, os componentes do solo vão escorrendo das partes mais altas para as mais baixas do morro por ação da chuva.
No pé do morro, as condições ambientais permitem a existência de uma mata de maior porte – higrófila ou alta – com presença de muitas plantas epífitas. Subindo, ocorre a transição para mata mesófila ou baixa, caracterizada pela ocorrência de espécies da família Myrtaceae, grupo a que pertence a pitangueira (Eugenia uniflora) e várias outras frutíferas do Rio Grande do Sul. A transição da mata para o campo pode ser abrupta ou não, sendo majoritariamente marcada pela presença da vegetação conhecida como vassoural, importante componente da dinâmica sucessional no processo de expansão das florestas sobre o campo. As plantas conhecidas como vassouras sombreiam o solo e promovem o
acúmulo de biomassa, provendo o solo dos nutrientes e das condições necessárias para o estabelecimento de espécies florestais mais exigentes. A partir daí, iniciam-se as formações tipicamente campestres, geralmente encontrados no topo e na encosta norte.
A flora campestre é ainda mais rica se comparada à florestal, abrigando muitas espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção no Rio Grande do Sul. Nos morros de Porto Alegre, o número de espécies campestres é duas vezes maior se comparado ao de florestais!
Duas espécies que habitam o morro e são de fácil reconhecimento são o butiazeiro, Butia odorata, e a tuna, Cereus hildmannianus.
Fauna
Andando pelo Campus do Vale, percebemos que não estamos sozinhos, pois outros seres habitam o Morro Santana e seus arredores e podem ser observados se prestarmos atenção e fizermos silêncio: o gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), o macaco- prego (Sapajus nigritus), o lagarto-teiú (Salvator merianae), o aracuã (Ortalis guttata), espécies de serpentes e de pequenos roedores, além de animais domésticos que surgem juntamente com a ocupação urbana. Há relatos recentes de observação de bugio-ruivo (Alouatta guariba) por moradores das redondezas, mas sem confirmação.
Em um inventário rápido realizado em 2007, a ocorrência de 15 espécies de mamíferos foi registrada para o Morro Santana, sendo a maioria de roedores, e contando com espécies generalistas. A face sul teve um maior número de espécies possivelmente devido à fisionomia vegetacional, com predomínio de cobertura vegetal arbórea, conferindo mais abrigo aos animais silvestres.
As interações ecológicas entre as espécies de mamíferos são importantíssimas para a conservação de outras espécies, não apenas animais, principalmente em ambientes fragmentados. Gambás, morcegos, primatas, roedores e canídeos, como o graxaim, desempenham um papel na manutenção da diversidade de plantas, através da dispersão e predação de sementes. Além dos mamíferos, aves, répteis, anfíbios e invertebrados também desempenham papéis essenciais para a manutenção da biodiversidade.
Um exemplo de impacto ocasionado pela ação antrópica no entorno do Morro Santana é o anel viário do Campus do Vale da UFRGS, onde há numerosos registros de atropelamentos de animais.
Conservação
Dos 1.000 ha do Morro Santana, 600 são pertencentes a UFRGS, o que reforça a responsabilidade da Universidade com a sua conservação ambiental e com as comunidades vizinhas. Tendo em vista a alta riqueza biológica do Santana, desde 1980 existe o interesse no estabelecimento de uma Unidade de Conservação (UC) nas terras da universidade, o que garantiria maior proteção a sua área. Em 2006, foram estabelecidos em lei o limite de 321,12 ha e a categoria de Refúgio da Vida Silvestre (REVIS). Diversos esforços foram feitos visando à efetiva implantação da unidade, contudo, ela nunca saiu do papel. Em agosto de 2015, em Assembléia Extraordinária, o Grupo de Trabalho pelo Morro Santana foi criado
pelos estudantes, com o objetivo de estudar e propor alternativas para a implementação de uma UC do Morro Santana.
Autoria: DAIB
Quer saber mais?
HERPETOLOGIA UFRGS. 2010. Laboratório de Herpetologia da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul. On line. Versão 1.0, Novembro 2010.
Pillar, Valério De Pitta; Lange, Omara (eds.). 2015. Os Campos do Sul. Porto Alegre: Rede Campos Sulinos – UFRGS.
Rambo, Balduíno. 1956. Flora analítica de Porto Alegre. Revista Sellowia.








