Este é um texto da série “Que deslocamentos entre arte e educação podemos produzir?”. No total são 11 escritos, resultantes da produção final de estudantes, professoras/es e pesquisadoras/es, para a disciplina “Deslocamentos entre arte e educação: temas contemporâneos”, ministrada no PPGEdu/UFRGS, em 2023/02, pela professora Luciana Gruppelli Loponte. Para saber mais sobre a série, acesse aqui o texto de abertura.
Esse texto-manifesto ensaia um compromisso para a arte e educação através do esboço de uma proposta inspirada no projeto Nosotras proponemos (1), um Compromisso de Práticas Artísticas Feministas, o qual propõe a visibilização de práticas que se quer transformar no mundo da arte e traz propostas práticas para como fazer isso. Ao mesmo tempo, são ensaiadas algumas instruções a partir do campo agroecológico, buscando compor ideias por meio do encontro entre as práticas comunitárias realizadas nas fronteiras entre interior e o centro na direção de fazer germinar possíveis agroecologias artísticas para a docência (2).
NÓS PROPOMOS:
compromisso com a arte e a educação
1. Por uma formação docente em arte não fraudulenta
(A partir de Luis Camnitzer)
Atentemos para as definições disciplinares de arte lembrando que arte não é uma técnica de produção de objetos, mas um modo de expandir o conhecimento e que para isso é necessário certo nível de subversão.
Defendamos que a formação artística não seja um momento de classificação e seleção entre os geniais e os não geniais, mas sim, o exercício de aprender a ter ideias. Ensinar a ter ideias é diferente de transmitir informações.
A arte é política quando questiona as relações de poder, inclusive aquelas relações dentro das quais foi criada. Ensinemos às pessoas a se politizarem, não a fazerem arte política.
Lembremos três importantes operações das artes com relação ao conhecimento:
- Propor e formular problematizações através de perguntas que incitem ações.
- Explorar possibilidades de resolução de problemas elegendo a melhor forma possível e gerando outros exercícios para outros problemas.
- Tornar cada resolução criada algo possível de expressar e comunicar.
2. Por um ensino de arte situado no contemporâneo
(a partir de Arthur Efland)
Que possamos nos desvincular de concepções modernistas que classificam como arte formas restritas e exclusivas, de graus de excelência definidos, de acordo com um status privilegiado e narrativas do progresso promovidas pelas elites.
Enfatizemos a habilidade de interpretar de modo plural as obras de arte, sob aspectos do contexto social e cultural em que são produzidas, remetendo-se à continuidade dos estilos tradicionais artísticos sem reverenciá-los e sem deixar de fora as imagens e objetos da tradição popular e do cotidiano presente.
3. Por uma desnaturalização de verdades em arte e educação
(A partir de Cat Martins)
Questionemos as noções naturalizadas na arte e educação e como elas se tornam verdades arbitrárias: a pressuposta ligação entre auto-expressão e originalidade, a expressão tida sempre como liberdade, a criatividade e a espontaneidade para a arte como algo intrínseco às crianças, a arte como revelação de uma interioridade que traz a verdade do sujeito, a relação direta entre a obra e o autor, a educação sempre emancipatória. Nada disso é natural e inquestionável.
Busquemos, através da história do presente, reconhecer aspectos da arte e educação que continuam vinculados às racionalidades estabelecidas e naturalizadas em outros tempos e contextos, interrogando, assim, as respostas mais confortáveis que damos para justificar a importância do ensino de arte.
4. Por uma revisão feminista e antirracista da história da arte
(A partir de Renata Felinto, Andrea Giunta, Taís Ritter Dias e Luciana Gruppelli Loponte)
Contextualizemos, de uma perspectiva antirracista, as disputas eurocêntricas e as supressões de narrativas sobre as produções de artistas negras e negros nos sistemas artísticos e educativos, as quais empalidecem a história das artes, seja pela falta de acesso a essas produções, seja nas formas de exibição, na escassez de registros e no tipo de análises e abordagens utilizadas.
Combatamos a exclusão e desvalorização histórica das mulheres artistas, refutando comportamentos patriarcais e sexistas que dominam o mundo da arte e tentam regular nossos modos de posicionamento.
Denunciemos as tentativas de afastamento das questões de gênero do campo da arte e educação travando batalhas políticas, teóricas e epistemológicas contra as armadilhas do sistema, como a mera inclusão de nomes de mulheres nos espaços artísticos e educativos, com leituras estereotipadas do feminino.
5. Por uma arte e educação decolonial
(A partir de Françoise Vergès e Rosana Paulino)
Perturbemos a ordem existente e a função simbólica de dominação colonialista do “museu universal” que também impregna a arte e a educação, nas ações de colecionar, reter, expropriar, apropriar objetos e de reproduzir a visão de mundo dos dominantes sobre os dominados.
Defendamos, como nosso patrimônio, o esquecimento, a negação, as políticas do silenciamento e amnésias definidas pelas estruturas da colonialidade, buscando, desde uma visão crítica, o fim da qualificação de objetos roubados como arte.
Escutemos os povos de matriz africana, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, em suas múltiplas formas de saberes ancestrais, na diversidade de suas concepções e modos de fazer arte, reparando o quanto possível os epistemicídios históricos.
6. Por viradas educativas e reviravoltas na arte a partir da educação
(A partir de Irit Rogoff)
Lutemos contra políticas de reformas que só visam resultados previsíveis, quantificáveis e comparáveis, tornando o processo educativo burocrático e homogeneizante. Não permitamos que o mercado entre no mundo da arte transformando seus processos em produtos comercializáveis. Ao invés da economia de mercado entrar na educação, queremos uma política onde os princípios da arte educação entrem no setor cultural.
Defendamos que o museu, a universidade e a escola potencialmente podem muito mais do que aquilo que são. Eles podem ser espaços geradores de exploração e experimentação de atividades vitais e inesperadas.
As possibilidades da arte não se limitam às capacidades permitidas por um conjunto de habilidades. Aprendamos que elas precisam conter o fracasso como um elemento de produção de conhecimento e não de decepção.
Não restrinjamos a arte a apenas reagir à realidade, mas criemos realidades por meio dela. Ao invés de trabalharmos reativos às emergências, trabalhemos com as questões cruciais da urgência. As energias da docência em arte não devem se exaurir nas oposições e combates, já que precisamos de fôlego para imaginar outras formas de fazer.
Lembremos sempre que arte é compartilhamento, que educação forma coletividades e que aprender é viver constantes reviravoltas.
7. Por agroecologias artísticas na docência
(A partir da pesquisa de doutorado de Diane Sbardelotto)
Aproximemos ciência e luta política, saberes locais e conhecimentos acadêmicos, produções interioranas e centrais, rurais e urbanas, aproximando agroecologia e arte. Isso tudo não deveria ter sido e não está separado.
Lembremos que os estudantes são o oposto das monoculturas. Podemos chamar todos de soja, ou de alunos, mas, se não aprendermos o nome, um pouco da cultura, modo de crescer, florescer e frutificar de cada um, valorizando-os na sua diversidade, eles vão murchar.
Valorizemos na docência em arte o ensinamento do respeito às culturas dos territórios, as relações comunitárias não antropocêntricas entre o humano e as muitas espécies de vidas e fenômenos da natureza. Noções sistêmicas são condições de sobrevivência da nossa atividade educativa.
Façamos refeições coletivas na escola conversando sobre o artístico que pode ser uma semente que germina, que depois que passa por diversos processos vitais interligados a inúmeros aspectos sócio-culturais, e se torna algo que nos alimenta.
Reclamemos que a escola quase nunca tem material para arte, sem esquecer que quando o mundo é pensado como material artístico, os limites da escola não são as paredes que quase nunca se pode riscar. Desenhemos, então na terra com um galho, sentados à sombra, evitando que essa árvore tenha que virar mais uma cartolina.
8. Por uma arte proposta e praticada coletivamente
(A partir de você e seu grupo)
Criemos momentos para nos sentirmos juntos e estudemos coletivamente para elaborar propostas práticas e manifestações públicas daquilo que entendemos e queremos propor para o campo da arte e educação.
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Por Diane Sbardelotto
Professora de Artes Visuais da Rede Municipal de Educação de Porto Alegre (RS). Doutoranda em Educação no Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do ArteVersa – Grupo de estudo e pesquisa em arte e docência (UFRGS/CNPq). Contato: dianesbardelotto@gmail.com
Texto da Série “Que deslocamentos entre arte e educação podemos produzir?”, decorrente da disciplina “Deslocamentos entre arte e educação: temas contemporâneos”, ministrada no PPGEdu/UFRGS, em 2023/02, pela professora Luciana Gruppelli Loponte.
Notas de Referência:
(1) https://nosotrasproponemos.org/nosotras/ . Acesso em 10 jan. 2025.
(2) As referências completas estão disponíveis no texto de abertura da série (disponível aqui)