Semana da África na UFRGS completa uma década

Cultura | No ano em que o tradicional evento voltado para celebrar a diversidade e pluralidade do continente africano chega à décima edição, organizadores fazem um balanço de sua importância, recuperam sua memória e apontam o seu futuro

*Foto: Vic Macedo

Em 2022, a Semana da África na UFRGS completa 10 anos desde sua primeira edição, em maio de 2013. Organizado e promovido pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (Deds) da Pró-reitoria de Extensão da UFRGS, o projeto coloca em destaque diversas perspectivas e saberes oriundos dos povos do continente africano e reforça o compromisso que setores da Universidade mantêm com a comunidade africana e com os estudantes africanos na instituição.

Como um espaço para o diálogo acadêmico, a Semana reúne pesquisadores, estudantes, professores e artistas africanos e brasileiros que trabalham com diferentes questões que envolvem o continente. Atividades culturais também compõem a programação do evento, com apresentações relativas às variadas matrizes africanas. A cada ano é eleito um tema, a partir do qual uma série de atividades acadêmicas, artístico-culturais e educativas são orientadas para colocar a África em evidência, entre palestras, mesas, apresentação de trabalhos, oficinas, exposições, rodas culturais e ciclos de cinema, por exemplo. O evento promove uma articulação entre academia, educação e cultura e aborda a africanidade em diferentes dimensões étnicas, culturais, políticas e sociais.

Como uma ação de extensão da UFRGS, as inscrições em toda a programação da Semana da África são gratuitas e abertas à comunidade como um todo, com entrada livre para todos os públicos. Desde 2013, as atividades do tradicional evento são iniciadas no Dia Internacional da África, 25 de maio, data que celebra anualmente a criação da Organização da Unidade Africana (OUA), a descolonização do continente e a valorização dos povos africanos. A OUA, fundada em Addis Abeba, Etiópia, foi posteriormente substituída pela atual União Africana (UA), estabelecida em 2002.

Para o professor titular do Departamento de História da UFRGS e um dos organizadores da Semana, José Rivair Macedo, chegar à décima edição é uma conquista significativa para todos os envolvidos na preparação do evento durante esses dez anos. “Ele representa, em uma década, um avanço muito significativo da Universidade para a comunidade africana de Porto Alegre e para a comunidade de estudantes africanos de graduação e pós-graduação da UFRGS”, destaca.

A representatividade que alcançou e o público que cativou em uma década tornaram a Semana da África na UFRGS um dos mais importantes e esperados eventos intelectuais e culturais do calendário acadêmico da Universidade. Em oito edições, 4.593 pessoas participaram das atividades do evento, segundo dados consolidados do Deds. “Quando fizemos a primeira, não imaginávamos que agora estaríamos chegando à décima Semana da África. E isso é muito gratificante. Ela vem se consolidando dentro e fora da nossa Universidade”, comemora o professor da Faculdade de Educação e diretor do Deds, José Antônio dos Santos.

Demanda dos estudantes africanos na UFRGS

A Semana da África na UFRGS foi criada para responder a uma demanda dos estudantes africanos que queriam se ver representados na instituição, relembra José Antônio dos Santos e José Rivair Macedo, ambos também organizadores do evento. Na época, os alunos reivindicavam um espaço que permitisse a troca, o debate e a interlocução das suas culturas, histórias e questões com a Universidade. A comunidade de estudantes africanos chegava à UFRGS a partir do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G) e o Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG), ambos administrados pelo Ministério das Relações Exteriores, por meio da Divisão de Temas Educacionais, pelo Ministério da Educação, em parceria com Instituições de Ensino Superior em todo o Brasil, e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

Naquele momento, o setor que acolheu a solicitação dos estudantes foi o Deds, “departamento histórico da UFRGS criado em 1992 a partir da demanda dos movimentos sociais”, informa José Antônio dos Santos. Em 2013, eram celebrados os 50 anos do Dia Internacional da África. Na oportunidade, o Deds realizou a primeira Semana da África na UFRGS e marcou essa data simbólica como o início das atividades anuais do evento. A iniciativa, portanto, foi o meio usado para atender ao pedido dos estudantes, cuja “celebração não significa, necessariamente, comemoração, mas um momento de reflexão, de debate, de visibilidade para a África, para a diáspora”, explica José Rivair Macedo.

José Antônio destaca que os temas de cada edição procuram enfatizar o protagonismo para o que é produzido por africanos e africanas no continente, numa interlocução com pesquisadores do Brasil e do mundo. “São, porém, pesquisadores que tratam desses conhecimentos endógenos também, não pensando a produção daqui para lá, mas de lá para cá”, pondera. Para ele, esse é um erro comum cometido por pessoas que pretendem participar do evento: “Querem apresentar um trabalho e discutir afrobrasilidades, a cultura africana no Brasil, mas não é esse o mote do evento. A Semana é a partir dos conhecimentos e da cultura dos próprios africanos e africanas”.

Colaboração e construção coletiva

Ao longo de dez anos, o Deds tem se mobilizado para oferecer um retorno aos estudantes, mas também incentivar o próprio protagonismo da comunidade africana na organização do evento. “Tanto estudantes que estão atualmente na Universidade quanto os que já passaram por ela e regressaram aos seus países de origem são sempre convidados a participar das reuniões de organização”, destaca José Antônio, que reforça o amplo engajamento da comunidade de imigrantes africanos do Rio Grande do Sul na organização e participação da Semana.

“Tem muitos que são de fora da Universidade, mas que são africanos de origem, são empreendedores, são lideranças que fazem as mais diversas atividades e participam também da Semana, tanto da organização, pensando participantes, a temática, que sempre vai mudando ao longo dos anos, como também da forma de organização”

José Antônio dos Santos

Em março de 2022, o Deds realizou uma chamada em seu site como parte de seu compromisso de incentivar a organização aberta e convidar estudantes e imigrantes africanos interessados em colaborar com o planejamento da décima edição.

“Assim como nas nove edições anteriores, a participação de africanos e africanas na organização do evento é essencial para que seja uma atividade representativa, autêntica e com riqueza educacional e cultural. Assim, se você é africano ou africana, residente ou não no Brasil, estudante ou não da UFRGS, e gostaria de se aproximar mais deste projeto, entre em contato conosco!”

Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da UFRGS

Além do apoio da comunidade interna e externa, a colaboração de outras instâncias tem sido crescente ao longo dos anos, apontam os organizadores. Neste ano, por exemplo, a Semana da África na UFRGS conta com o apoio da Pró-reitoria de Graduação (Prograd), da Secretaria de Relações Internacionais (Relinter) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos (NEABI). Esse espraiamento do evento dentro da Universidade reforça o reconhecimento de uma trajetória não apenas na instituição, mas em todo o Brasil, como um espaço representativo, principalmente pela sua continuidade.

José Rivair relembra a fala do professor Rui Oppermann, reitor da UFRGS na ocasião da abertura da terceira edição da Semana da África. “Ele disse que o difícil não era fazer a primeira Semana da África, mas a segunda. E o mais difícil ainda não era fazer a segunda, mas a terceira. Nós estamos na décima, então esse grau de dificuldade, na verdade, tem muito a ver com a coerência e a continuidade do evento”, enfatiza.

“Eu vejo a Semana da África como uma construção coletiva e eu acredito que é essa construção coletiva que dá representatividade a ela. Todos os temas discutidos nesses dez anos foram decididos conjuntamente, a cada ano o tema principal foi decidido coletivamente. Os convidados e convidadas da Semana também. Essa construção coletiva, não é que ela seja uma garantia, mas é um incentivo para que as pessoas se vejam representadas no evento. E essa é a grande importância que eu identifico na Semana da África”

José Rivair Macedo
Muito além dos limites do continente

A primeira edição da Semana da África teve como tema principal de discussão os 50 anos de independência do continente, a partir do tema “25 de maio de 2013 – 50 anos do Dia Internacional da África”. De lá para cá muitos temas foram tratados, na sua maior parte ligados à cultura e às questões sociais. Em sua avaliação do percurso do evento nesses anos, José Rivair argumenta que o evento evoluiu.

“A Semana da África na UFRGS começou com um formato muito acadêmico com convidados vindo falar sobre África, sobre temas africanos, mesmo que estes convidados fossem de origem africana ou fossem originárias ou originários do continente africano. Com o tempo, e justamente por ouvir a comunidade de africanos e estudantes africanos, fomos nos dando conta que para falar de África talvez fosse melhor não falar, mas mostrar. E mostrar o continente por outros meios também”

José Rivair Macedo

Para José Antônio, por se tratar da Semana da África na Universidade, esse caráter acadêmico sempre esteve muito presente, com espaços para apresentação de trabalhos de todo Brasil e de outros países. A ideia de contemplar os mais diversos aspectos das histórias e das culturas africanas, porém, levou a uma construção mais dialógica do evento para além dos muros da Universidade, embora ainda mantenha esse aspecto acadêmico em sua essência, comenta o diretor do Deds.

Esse momento de virada, na opinião de José Rivair, fez com que o evento perdesse a natureza exclusivamente acadêmica e ganhasse um caráter mais amplo. Desde a terceira edição as mesas de discussões dividem espaço com as rodas de conversa, mostras, ciclos de cinema, oficinas destinadas ao público estudantil e atividades e exposições artístico-culturais variadas. “Como é uma Semana da África na UFRGS, tem um espaço que é da academia, da UFRGS enquanto instituição acadêmica, mas tem um espaço da comunidade UFRGS e da comunidade africana. Conseguimos fazer esse trânsito”, destaca o professor do departamento de História.

Na avaliação de José Antônio, o evento vem se ampliando como um espaço de renovação, de ressignificação e de diálogo. “Nesse sentido, a Semana está sempre aberta à inovação, à criatividade, a novas propostas. Não é um ambiente fechado, e a cada ano vamos dando um novo passo”, comenta.

Durante cinco edições, o Deds lançou a Revista da Semana da África na UFRGS, uma publicação resultante do evento com trabalhos relacionados a cada edição. A revista foi descontinuada pela falta de recursos, de acordo com José Antônio. Os números editados, porém, podem ser consultados gratuitamente online. Além da revista, o evento mantém uma página oficial, que funciona como um acervo da memória do projeto e documenta mensagens, vídeos, fotografias, reflexões e manifestações culturais de membros da comunidade africana e de demais pessoas que participaram da Semana ao longo de sua história.

Apesar de a pandemia do novo coronavírus ter afetado as atividades nas últimas duas edições, a programação seguiu de maneira online. As edições virtuais de 2020 e 2021 obtiveram aproximadamente 9 mil visualizações. Na última edição, o número de inscritos chegou a 481. “A grandiosidade da Semana é resultado não só de um trabalho interno, mas principalmente dessa participação da sociedade, de pessoas de fora da Universidade que, de alguma forma, têm algo a ver, entender ou conhecer com a história do continente africano”, destaca o diretor do Deds.

Com o tema “Africamundo”, a décima edição do evento celebra a contribuição dos povos e das culturas africanas ao mundo contemporâneo, desde as ideias em torno do que se entende hoje como um afrofuturismo ou cosmopolitismo cultural africano, passando pela culinária e pela dança até a produção de conhecimentos acadêmicos, a partir das tradições e dos saberes que se espalharam pelo mundo na diáspora.

Pela primeira vez, o evento acontecerá no formato híbrido (presencial e online) entre os dias 25 e 31 de maio de 2022, com as atividades presenciais concentradas na tarde do dia 27, na Sala II do Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. A programação completa está disponível no site do evento, onde também é possível se inscrever nas atividades gratuitamente.


Especial África

As imagens desta edição foram feitas por Vic Macedo. A partir de um capítulo trágico da história do continente africano, Vic aborda os atos de suicídios dos cativos durante o período do tráfico negreiro— não como sinal de fraqueza, mas como ato de insubmissão e resistência ao trabalho escravo.

Vitória Macedo (Porto Alegre, 1994) é artista visual e graduada em Fotografia pela Unisinos. Clique aqui e confira o ensaio completo que ilustra o Especial África do JU.