Sextante

Distantes das chuteiras e dos holofotes

Ex-jogadores da dupla grenal falam sobre vida pós aposentadoria

REPORTAGEM
Filipe Pacheco
filipepacheco110@gmail.com

Ex-jogadores da dupla grenal
Arte: Vitor Segato

No considerado país do futebol, existem cerca de 360 mil atletas do esporte registrados. Entre eles, estão amadores e profissionais, sendo 24,4% os que levam o esporte como profissão, um total de 88 mil jogadores. É o que informa um estudo de 2018 realizado pela consultoria Ernst & Young sob encomenda da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 

Porém, dentre esses milhares de profissionais, quantos deles entram para a história? Quantos se tornam personagens na trajetória de clubes, recebem estátuas, marcas em calçadas da fama e se eternizam em bandeiras de torcidas? 

Poucos conseguem grandes feitos dentro do futebol – considerando o número de atletas no país – e permanecem na memória dos torcedores por muito tempo. Quanto àqueles que não se tornam craques inesquecíveis, mas têm papéis importantes na história de clubes, qual o seu reconhecimento quando encerram suas carreiras? 

O ex-zagueiro de 39 anos Wender Coelho, mais conhecido como Teco, que teve no Grêmio de Porto Alegre o auge da sua carreira, encontra na torcida do clube o antídoto contra o esquecimento da sua história como atleta.

Teco Ex-jogador do Grêmio
Teco em treino do Brasil de Pelotas durante sua passagem pelo clube (2015-2017) | Foto: Arquivo pessoal

Sorrindo e disposto a falar sobre o seu passado nos gramados, Teco demonstra satisfação com o reconhecimento que diz ainda receber dos torcedores do Grêmio, por meio de suas redes sociais e nos programas esportivos dos quais participa, mesmo depois de ter parado de jogar. Há quatro anos aposentado como jogador profissional, o zagueiro encerrou sua carreira no São José, clube também da capital gaúcha. 

Após passar por duas cirurgias no joelho enquanto estava atuando pelo Grêmio, Teco teve que pendurar as chuteiras mais cedo do que planejava por conta da lesão. Em 2018, o jogador sofreu com o mesmo problema que o afastou do time tricolor na final da Libertadores de 2007, ano em que o clube foi vice-campeão da competição. 

Necessitando passar por um terceiro procedimento cirúrgico para tentar continuar jogando, Teco decidiu que era o momento de parar, finalizando sua trajetória ali mesmo, no Zequinha. O atleta conta que já não vinha conseguindo mais manter o ritmo de treinamentos, seu joelho estava desgastado e ele não queria ter que passar por todo o processo novamente. 

“Só eu sei o que eu passei nas duas cirurgias anteriores. Então, reviver aquilo, eu sei que ia ser muito desgastante, ia ser muito sofrido, aí não iria valer a pena”, lamenta. 

No entanto, o atleta diz sentir falta do ambiente que envolvia a rotina esportiva. A resenha do vestiário e das concentrações é o que mais traz saudade ao ex-jogador. “A gente nunca tá preparado. Jogador fala que tá preparado, mas a gente nunca tá preparado”, afirma ele. 

O afastamento de Teco dos campos aos 36 anos parece ter seguido uma tendência entre os jogadores de futebol. Em um estudo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Esporte, que utilizou 57 futebolistas para análise, apontou-se uma média de idade para aposentadoria de 34,36 anos. 

Obsolescência imposta

Para o veterano da década de 1980 Luiz Carlos Winck, que atuou oito anos consecutivos pelo Sport Clube Internacional – chegando a ser medalha de prata com a Seleção Brasileira Olímpica – e também passou pelo Grêmio, a aceitação da aposentadoria foi acompanhada  pelo início de um novo empreendimento com uma transportadora de caminhões. 

Atualmente com 59 anos,  Winck atua como técnico do Anápolis, de Goiânia, que disputa a série D na temporada de 2022. O negócio empreendido pelo jogador o manteve dois anos longe do futebol após o encerramento da sua carreira. Passado esse período, começou a trabalhar do lado de fora das quatro linhas em 1998 no São José, clube em que, assim como Teco, também se aposentou. 

“Tem muitas pessoas que se aproximam demais no teu momento de glória e, quando você está um pouco longe do foco principal da mídia, aí se afastam um pouco”

LUIZ CARLOS WINCK, ex-jogador de Grêmio e Internacional

A média de idade apresentada no estudo trazido acima é vista por Winck como resultado de uma pressão empenhada pelo ambiente futebolístico sobre os jogadores nessa faixa etária. “Quando você passava a barreira dos 30 anos, já vinha uma certa perseguição, dizendo que os atletas acima de 30 anos já estavam encerrando carreira. Eu acabei aceitando isso de forma positiva e entrando em outro ramo”, conforma-se. 

Hoje longe dos holofotes, os dois ex-atletas vivem a transição da fama para uma vida tranquila. O ex-zagueiro gremista diz não se incomodar com o afastamento da mídia e dos assédios que jogadores costumam receber enquanto estão na ativa. 

Luiz Carlos Winck licenciado como técnico
Luiz Carlos Winck, ao lado de Rogério Dellamore (à esquerda) e Marcelo Massa (à direita), recebendo Licença da CBF para atuar como técnico | Foto: Arquivo pessoal

Morador da zona sul, o porto-alegrense natural do Espírito Santo ressalta que buscava essa tranquilidade ao lado da família quando decidiu se aposentar. Antes, precisando fugir de shopping centers – como quando aconteceu ao lado do seu companheiro de Grêmio Diego Souza – agora pode ir à praça com seus enteados, soltar pipa e jogar bola, sem que haja nenhuma interferência.

Atuando nos gramados antes da ascensão das redes sociais, Teco acredita que o carinho que recebe hoje é mais verdadeiro do que o proporcionado à geração atual . “Às vezes a pessoa te segue nas redes sociais mas nem gosta de você, é só pra lhe ofender, talvez por inveja”, critica o jogador. 

Compartilhando o sentimento do gremista, o ex-lateral colorado também não sente falta da fama, apesar de apreciar o fato de ter conquistado o respeito das pessoas por mérito. No entanto, reconhece que, após a diminuição da exposição que a carreira em curso proporciona, há um desdém por parte do ciclo social.

“Depois que você sai da mídia, não tem tanto aquele holofote diário. Tem muitas pessoas que se aproximam demais no teu momento de glória e, quando você está um pouco longe do foco principal da mídia, aí se afastam um pouco”, pondera. 

Da preparação física à psíquica

Ambos os atletas acreditam na importância da preparação psicológica para lidar com o período pós aposentadoria. Muito atrelada a resultados dentro do futebol, a psicologia esportiva por vezes negligencia a preparação emocional dos atletas. “Hoje eu entendo que é importante. É a cabeça que mantém o seu corpo”, Teco afirma.

A doutora em Psicologia do Esporte Fernanda Faggiani enxerga possíveis riscos de desenvolvimento de doenças psicossociais nesses atletas. Quando não estão bem preparados para o encerramento de suas carreiras, os jogadores podem vir a apresentar doenças como depressão, ansiedade e até fazer o uso de substâncias psicoativas.

“Eu vejo que os principais sentimentos são de ansiedade, de angústia, de muitas incertezas, de um sentimento de vazio por uma rotina intensa que tinham e que passam a não ter mais, e uma frustração muito grande por não conseguirem atingir as expectativas por eles esperadas e também muitas vezes pelos demais”, explica.

Teco afirma não ter recebido acompanhamento psicológico no período em que defendeu o Grêmio. Ele conta que foi ter contato com a área posteriormente, quando jogou no Botafogo e no Cruzeiro, antes de retornar ao sul. Luiz Winck pensa que deveria haver um trabalho específico dentro dos clubes para preparar os atletas para lidar com o esquecimento após a fama. Para ele, os atletas hoje em dia estão mais prevenidos financeiramente, mas não enxerga a mesma disposição para lidar com o ocasional anonimato. 

“É triste. Às vezes, para muitos que não estão preparados, acabam saindo da mídia, tendo problemas pessoais para administrar, tendo que ter um acompanhamento psicológico para isso, porque viveram muito tempo na mídia, viveram só coisas boas, e dali pra frente vão ter que se virar sozinhos”, lastima Winck.


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Responsabilidade sobre a lembrança

Pós-aposentadoria de jogadores
Arte: Joana Falleiro Custódio

O esquecimento de ex-jogadores  também vem das autoridades governamentais, como se pode ver quando se analisa a situação previdenciária dos jogadores. Atualmente, não há uma aposentadoria especial para atletas, apesar de terem um tempo de carreira reduzido por questões fisiológicas. 

De acordo com o último relatório da CBF, de 2015, mais de 80% dos futebolistas no Brasil ganham até R$ 1 mil por mês. Embora os atletas que recebem destaque midiático tenham salários altos, a maioria dos profissionais desse esporte é de classes mais baixas. 

Segundo a advogada especialista em previdência Marília Schmitz, os atletas, por terem que parar muito cedo, não conseguem uma aposentadoria por tempo de contribuição e não atingem idade mínima. Ela acredita que uma aposentadoria especial para atletas poderia causar um rombo previdenciário, visto o número de profissionais da categoria. Porém, propõe uma contabilidade diferenciada para os jogadores, como acontece para trabalhadores que atuam com periculosidade e insalubridade. 

“Se o atleta trabalhou 10 anos, poderia contabilizar 20% ou 30% a mais, como uma forma de valorizar esse profissional, levando em conta que seu tempo de carreira é relativamente pequeno”, sugere. 

Como consequência, o resultado do aparato previdenciário para jogadores pode gerar desigualdades, segundo Marília. No cenário de jogadores de grandes clubes da Série A, há um auxílio de gestores para investir os altos salários em empreendimentos e outros tipos de renda para o pós carreira. Porém, a maior parte dos atletas está fora desse círculo, enquadrando-se nas classes baixas, e acabam ficando desamparados. 

A alternativa é buscar uma nova carreira. A psicóloga Fernanda ressalta a importância da educação na formação dos atletas, para que se pense em alternativas profissionais, caso o futebol acabe não dando certo ou o salário recebido durante a vida profissional seja insuficiente para o período de aposentadoria. 

“Finalizar o ensino médio e talvez buscar um ensino superior. Acho que esse trabalho é fundamental na formação de atletas, e isso vai trazer consequências importantes pro manejo quando eles estiverem num patamar profissional”, alerta Fernanda. 

Apesar disso, Fernanda e Marília apontam para a responsabilidade individual dos atletas de se prepararem. Marília levanta uma hipótese cultural latina de não se pensar na aposentadoria desde cedo, vinculada com a baixa escolaridade de jogadores, que acabam não recebendo instrução sobre a necessidade de preparação antecipada. 

De acordo com um levantamento feito pela Revista Quero, em 2019, com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), apenas 1,4% dos jogadores contratados no período analisado haviam cursado o ensino superior. Isso aponta para uma falta de preparação para alternativas de carreira no pós aposentadoria. 

O papel dos clubes na preservação da memória dos jogadores que participaram da sua história é questionável, segundo Teco. Para o atleta, as ações das instituições se limitam a um grupo restrito de jogadores que se mantêm em evidência, seja atuando como treinadores, comentaristas ou que tenham sido ídolos. 

“Aquele jogador que conquistou alguma coisa, que não foi uma sumidade, os clubes não estão nem aí, não têm respeito, não têm carinho e não fazem nada”, aponta Teco. O mérito por manter a memória desses personagens acaba ficando por conta da torcida. “Ainda bem que tem o torcedor. O torcedor que move o clube”, diz. 

Mas essa responsabilidade se torna uma dualidade: o torcedor só pode prevenir o esquecimento e guardar a história dos atletas se suas trajetórias forem repassadas pelos clubes. Winck lembra que a torcida está sempre renovando e, por isso, é importante que o clube mantenha a memória viva. “O torcedor mais novo tem que conhecer a história, o passado, para que ele possa realmente ser um torcedor fiel ao clube, sabedor da história, sabedor daqueles que passaram, que ajudaram na trajetória daquele clube”, recomenda. 


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