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Anne Laure Folly (1954)

Cineasta togolesa e consultora jurídica internacional da UNESCO. Nasceu com o nome de Ayele Folly-Reimann em Lomé, filha de Amah Folly, que era produtor na gravadora francesa OCORA e depois na Rádio France International, e Juliette Reimann. Estudou Direito na Universidade de Paris II.

Começou a carreira pública como consultora jurídica internacional para a UNESCO (1981). No início dos anos 1990 deu início ao trabalho como cineasta inspirada por Sarah Maldoror e Safi Faye, cujas obras enfocam os problemas enfrentados pelas mulheres  do continente. Entre 1992-2000 Anne realizou onze filmes, muitos dos quais aclamados pela crítica especializada. São documentários sobre as condições materiais e questões relativas ao universo espiritual  da vida das mulheres africanas, e tratam de temas como feitiçaria, políticas familiares, saúde reprodutiva, mutilação genital, ativismo político, oportunidades econômicas, e os efeitos da guerra para as mulheres e suas famílias.

Entre os seus primeiros filmes estão Le gardien des forces (O guardião das forças) (1992), L’or du Liptako (O ouro de Liptako) (1993) e Femmes du Niger entre l’intégrisme et démocratie (Mulheres do Níger entre integrismo e democracia), Femmes aux yeux ouverts (Mulheres com os olhos abertos) (1994), Femmes d’Angola: Rêver la paix (Mulheres de Angola: sonhar a paz) (1996) e Les oubliées (As esquecidas) (1996).  

Os filmes de Anne Folly  receberam prêmios em festivais em todo o mundo, incluindo o mais importante festival de filmes africanos, FESPACO; o Festival Internacional Vues d’Afrique Pan Africa em Montreal; o Festival Internacional Cinema Della Donne em Turim, Itália; o Festival North-South Medias de Genebra, Suíça; e vários outros festivais menores na Europa, Estados Unidos e Canadá. Embora sejam mal distribuídos e pouco conhecidos no continente, são reconhecidos internacionalmente e  ela é considerada uma das principais cineastas mulheres da África.

BIBLIOGRAFIA

BUCHANAN, Sarah. “Anne Laure Folly”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 378-379.

ELLERSON, Beti. Sisters of the screen: women of Africa on film, video, and television. Trenton: Africa World Press, 2000.

PALLISTER, Janis; HOTTELL, Ruth. Francophone women film directors: a guide. Madison: Fairleigh Dickinson University Press, 2005.

THACKWAY, Melissa. Africa shoots back: alternative perspectives in sub-saharan francophone african film. Bloomington: Indiana University Press,  2003.

Anne Mungai (1957)

Educadora e cineasta queniana, nasceu em Port Victoria, no distrito de Budalangi no Quênia ocidental, e seus pais são o professor Marius Namapsi Okubo e a mãe Ursula Nerima.

Anne iniciou a carreira na área de mídia e comunicações no Kenya School of Mass Communications (Escola Queniana de Comunicação de Massa) em Nairobi e produziu documentários de curta e média duração sobre temáticas relacionadas à saúde, mulheres, juventude, religião, agricultura e educação. Com a sensibilidade de alguém que compartilha as experiências de ser mulher, ela iniciou o discurso sobre as pluralidades e complexidades do Quênia pós-emancipação ao questionar os casamentos forçados, a prostituição e as contradições entre as vidas urbana e rural. Estudou ainda no American Cultural Centre (Centro Cultural Americano)  e nas universidades de Daystar, Cardiff e Kenyatta.

Sua carreira teve início em 1980, com o primeiro curta-metragem intitulado Nkomani Clinic, ao qual se seguiram outros curtas e médias-metragens, além de seu primeiro longa-metragem Saïkati, lançado em 1993. Este filme, o  primeiro longa dirigido por uma mulher queniana, como muitas das obras de Mungai, tem como protagonista uma jovem a viver em uma sociedade dividida entre  práticas culturais tradicionais africanas e aquelas introduzidas pelo Ocidente durante o período colonial. Na trama e enredo, a jovem  Saïkati vê-se dividida entre o desejo de frequentar a Universidade e estudar na cidade e a obediência aos pais, que desejavam entregá-la ao filho do chefe da comunidade em um casamento arranjado.

A jornada de Mungai, mulher empreendedora, para produzir seus filmes foi marcada por dificuldades com recursos técnicos e capitais: sua luta em conciliar obrigações familiares e profissionais resume a complexidade de viver na África pós-emancipação e em um mundo masculino. Muitos de seus filmes foram produzidos pelo Kenya Institute of Mass Communication (Instituto Queniano de Comunicação de Massa), instituto em que foi membra docente; Saikati fez parte de um projeto-treino e demonstra que africanos conseguem engajar a indústria através de inovação e criatividade.

Em 1994 foi premiada pelo governo queniano por seu filme Usilie Mtoto wa Afrika, cujo título, na língua kiswahili, quer dizer “Por favor não chore criança africana”, dedicado a crianças que vivem em situação de vulnerabilidade nas ruas. Junto com Ann Wanjugu, ela desenvolveu a fundação Shangilia Mtoto wa Afrika (Anime a criança africana), dedicada ao bem-estar daquelas crianças e com o objetivo de mudar as percepções negativas da comunidade em relação a elas.

Entre vários prêmios concedidos a ela pelo reconhecimento de sua obra estão: Prêmio de melhor direção por Saïkati (Plan International, 1999); Prêmio Especial do Juri (Zanzibar International Film Festival, 1999); Personalidade Feminina mais influente (Women in film awards, 2022).

BIBLIOGRAFIA

CHAM, M. African women and cinema: a conversation with Anne Mungai.” Research in African Literatures, v. 25, n. 3, p.  93-104.

CARACCIOLO, Diane; MUNGAI, Anne (Ed.).. In the spirit of Ubuntu: stories of teaching and research. Rotterdam: Sense Publishers, 2009.

KIRUTHU, Felix Macharia. “ Anne Mungai”. . In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 332-333.

Dolly Rathebe (1928-2004)

Cantora sul-africana de jazz, atriz e modelo, nasceu em Radfontein, a Oeste de Johannesburg, era filha de uma empregada doméstica e foi criada pelos avós. Depois, foi com a mãe para Sophiatown, na periferia de Johannesburg, onde estudou e cresceu. Seu nome próprio era Josephine Malatsi, enquanto Dolly Rathebe é o nome artístico.

Começou a carreira interpretando canções de jazz em bares e clubes, mas logo alcançou o sucesso, em 1949, devido ao seu talento e qualidades performáticas. Neste ano ela foi convidada a participar, como atriz, do filme Jim comes to Jo’burg (Jim chega em Jo’Burg), o que também impulsionou sua carreira artística como modelo. Em 1952 participaria do segundo filme, The magic Garden (O jardim mágico), quando passou a aparecer com frequência em capas e matérias de revistas e jornais, com a Drum Magazine, Golden City Post e Zonk!, e se tornando um símbolo de beleza negra, de mulher negra urbana e sofisticada.

Dolly permaneceu no show de variedades e no mundo da música como atração durante os anos 1950-1960, apresentando-se com diversas bandas, como Manhattan Stars, The African Inkspots e principalmente The Elite Swingsters, na África do Sul, Zimbabwe (na época colonial, Rodésia do Sul) e Moçambique. Entre seus discos e compilações, estão Township Swing Jazz Volume 1 (1953) e From Marabi to Disco (1961).

Todavia, em virtude da queda de popularidade do gênero jazz band e principalmente devido às restrições impostas pela legislação do Apartheid, tornou-se cada vez mais difícil a apresentação de bandas negras para o público branco, sobretudo após a imposição de um toque de recolher para os(as) negros(as) às 20h. Ela então se mudou para a Cidade do Cabo e, para sobreviver, abriu um shebeen (um bar não licenciado). Em 1989, com a crise do Apartheid, ela voltou à cena artística e musical, juntando-se a The Elite Swingsters para atuar em um filme ambientado na década de 1950, e lançando os álbuns Woza (1991), A call for Peace (1995) e Siya Gida / We Dance (1997).

 No início do século XXI, recebeu diversos prêmios por sua carreira e atuação pública, como o Lifetime Achievement Award, e em 2004, pouco antes de morrer, foi agraciada com a Ordem Sul-Africana de Ikhamanga em Prata, dada pelo governo em reconhecimento pela “excelente contribuição à música e às artes cênicas e ao compromisso com os ideais de justiça, liberdade e democracia”.

BIBLIOGRAFIA

ALLEN, Lara. Music, film and gangsters in Sophiatown imaginary : featuring Dolly Rathebe. Scrutinya: issues in English Studies in Southern Africa, v. 9, p. 19-38, 2004.

ALLEN, Lara. “Dolly Rathebe”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 185-186.

RATHEBE, Dolly; PILISO, Ntemi. Lakutshon Lllanga : https://www.youtube.com/watch?v=WjvRCr1mtV0   

RATHEBE, Dolly; The African Ink Spots. Unomeva (Welkome Duru) : https://www.youtube.com/watch?v=Ro5QkFLMZ7Y  

Elizabeth Nyabongo (1936)

Também conhecida como Princesa Elisabeth de Toro, seu nome completo é  Elizabeth Bagaaya. É a Batebe, título de princesa real, por ser filha de David Mathew kamurasi Rukidii III, o décimo primeiro omukama (rei) do reino de Toro, em Uganda, e tia paterna do rei de Toro, Rudiki IV.Recebeu esmerada formação em seu país e na Inglaterra, onde obteve a graduação na Cambridge University em 1962.  Ela é advogada, modelo, diplomata e política. Foi a primeira mulher do leste africano a ser admitida na ordem dos advogados em 1965.

Quando o presidente Milton Obote aboliu a autoridade dos reinos tradicionais de Uganda, em 1967, ela deixou o país e, a convite da princesa inglesa Margaret, participou de um desfile de moda beneficiente. Devido a sua beleza e elegância, passou a atuar profissionalmente como modelo, representqando diversas agências de moda e recebendo destaque em revistas especializadas, como a Queen Magazine. Em 1968 foi para Nova Iorque, onde foi fotografada pela Vogue, Look, Life e Ebony, sendo a primeira modelo negra a aparecer na capa da revista Harper’s Bazaar. Também teve pequenas participações em filmes, como Bulfrog in the Sun (1972), obra baseada no livro “O mundo se despedaça”, de Chinua Achebe; e no filme Sheena: Queen of the jungle (1984).

Após  a derrubada de Milton Obote pelo general Idi Amin Dada, ela retornou ao seu país, e foi nomeada como embaixatriz (1971) e como Ministra das Relações Exteriores (1974), o que teve grande repercussão na mídia internacional. Em meio  a uma série de atos repressivos, execuções e aprisionamento de opositores, conforme ela conta em sua autobiografia, sua situação se tornou insustentável quando ela negou casar-se com Idi Amin, que passou a atacá-la com falsas acusações, a destituiu do cargo e a manteve em prisão domiciliar, o que a levou mais uma vez ao exílio.

Ela retornou ao país em 1980, após a deposição de Idi Amin, casou-se com o engenheiro Wilbur Nyabongo, com quem viveu durante seis anos. Em 1986, participou do National Resistance Movement (NRM) e atuou temporariamente como embaixatriz de Uganda nos Estados Unidos, e m mais recentemente na Alemanha e na Itália,  além de participar de organizações pela promoção das causas africanas.

BIBLIOGRAFIA

MUSOKE-NTEYAFASusoke, JANE. Elizabeth of Toro: chronicles of African Princess. North-Star E-Journal, p. 2-4, 2006.

HASSEN, Joyce. African Princess. New York: Hyperion, 2004

Elizabeth of Toro. Elizabeth of Toro: The Odyssey of an African Princess. New York: Simon and Schuster, 1989.

OCHWADA, Hannigton. “Elizabeth Nyabongo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 512-513.

Joyce Nomafa Sikakane (1943)

Jornalista, ativista anti-apartheid, escritora e produtora de filmes, nasceu no distrito de Soweto. Filha do acadêmico Jonathan Mandlenkosi Sikakane, co-autor do primeiro dicionário inglês-zulu (1972), filho do proeminente membro fundador do Congresso Nacional Africano (ANC) e ex-ministro negro da Igreja Luterana da África do Sul, o reverendo Absolum Mbulawa. Sua mãe, Amelia Nxumalo, professora e costureira, era descendente da realeza Suazi pelo seu lado materno.

Na tentativa de protegê-la do currículo degradante e racista imposto pelo Estado, institucionalizado pela Lei de Educação Bantu, Joyce foi enviada para escolas particulares e católicas. Após sua graduação da escola secundária em 1963, ela recusou-se a participar de um dos tribunais tribais segregados e, com o incentivo de seu professor, decidiu seguir carreira no jornalismo.

Seu primeiro cargo foi como repórter do jornal The World, de Johanesburgo, que era dirigido ao público urbano. Ela foi encorajada a escrever histórias que relatassem os crimes e o caos de Soweto, sem discutir questões políticas, raciais e econômicas. Após dois anos, frustrada com as limitações do jornal, ela se aproximou do editor de um jornal mais liberal e político, o Rand Daily Mail.

Tendo iniciado a carreira como repórter eventual (freelance), ela foi a primeira mulher africana a trabalhar no South African Associated Newspaper Group. Construiu sólida reputação profissional ao escrever histórias sobre a realocação forçada de comunidades negras e de pessoas de cor sob as leis de “reassentamento” do governo do Apartheid. Seu envolvimento direto no partido African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano), com divulgação de material de divulgação em nome das famílias de presos políticos levou a que ela própria fosse presa em 1969 junto com Winnie Mandela e outros ativistas, e enviada para a Prisão Central de Pretória, onde permaneceu durante nove meses, e mantida sob vigilância do regime a partir de 1970. Advertida de que ela e outros ativistas corriam perigo ela deixou a África do Sul em 1973 e se casou com o escocês Kenneth Rankin, de quem tinha um filho nascido em 1966, e com quem teve mais quatro.

Em 1977 ela publicou o livro Window on Soweto (Janela em Soweto), que combina memórias, historiografia urbana e análise sociológica. A obra foi proibida na África do Sul, e o dinheiro arrecadado pela sua venda foi empregado na ajuda aos presos políticos sul-africanos. Nela Joyce Sikakane apresenta um dos mais importantes registros do levante estudantil e do subsequente massacre de Soweto em 1976.

No exílio, passou pela Zâmbia, Botswana, Suazilândia, Moçambique, Zimbábue, Alemanha, Inglaterra e Escócia, em seu ativismo junto ao ANC. Ela trabalhou como jornalista, pesquisadora, escritora, e se envolveu em radiodifusão e cinema. Foi produtora assistente em Samora Machel: Son of Africa (Samora Machel: o filho da África) (1987), assessora técnica do filme World Apart (Mundo distante) (1988), produtora de Zimbahwe: the new struggle (Zimbabwe: a nova luta) (1990).

Com o fim do Apartheid, Joyce e sua família retornaram à África do Sul (1995) e algum tempo depois ela testemunhou perante a Comissão da Verdade e Reconciliação (1997), como parte de uma audiência especial sobre mulheres. Ela voltou a trabalhar no campo das comunicações como editora de notícias de rádio e televisão para a South Africa Broadcasting Company, e como produtora de cinema, tendo a sua trajetória reconhecida e homenageada com prêmios como Lifetime Achievement Award da Vodacom (2007).

BIBLIOGRAFIA

DRIVER, Dorothy. Joyce Sikakane, working on the mail.  In:  Daymond, M. J. (Ed.).  Women writing Africa: the Southern Region. Nova Iorque: The Feminist Press at City University of New York, 2003, p. 348-353.

HOUSTON, Gregory; Magubane, Bernard. The ANC political underground in the 1970s. In: Magubane, Bernard (Ed.). The road to democracy in South Africa, v. 2, 1970-1980. Cape Town: Zebra Press, 2004, p. 371-451.

IMMA, Z’Etoile. “Joyce Nomafa Sikakane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 379-380.

Layla Murad (1918-1995)

Cantora egípcia conhecida por seus papéis musicais em filmes.  Nasceu no distrito de al-Daher, no Cairo, e seus pais eram Zaki Murad, músico de família comerciante, e Gamila, polonesa de origem judaica.

Após sua estreia na rádio quando criança, Layla começou a se apresentar em festas privadas da elite. O colega de seu pai, Daoud Husni, compôs suas primeiras músicas originais; ela cantou uma no filme The Victims (1932, e impressionou tanto o cantor Muhammad Abd al-Wahhab que foi chamada para o elenco de Long Live Love – o primeiro dos vinte e sete filmes que ela estrelou entre 1938 e 1955. Ser cantora em seu tempo significava estar nas sombras de cantores homens, apesar de ter sido uma das mais bem-pagas estrelas do Egito e de ter gravado cerca de 1.200 músicas.

Sua parceria com Togo Mizrahi levou ao desenvolvimento de um estilo conhecido como “layla”, que estabeleceu um padrão para musicais românticos e comédias em que a mulher adorável e ingênua vive um romance que desafia as fronteiras de classe. Os filmes em que contracena com Anwar Wagdi são clássicas comédias dramáticas; no pós-Segunda Guerra Mundial, sua atuação em The Flirtation of Girls  fez dele um filme icônico.

Laila Murad casou-se com Wagdi, com quem teve seu filho Ashraf. Porém o relacionamento chegou ao fim em 1950 porque Wagdi tentava dominar sua carreira e a família. O filho de seu terceiro casamento, Zaki Fatin Abd al-Wahhab, é um reconhecido diretor de cinema e televisão e uma de suas obras foi um drama televisivo biográfico baseado na vida de sua mãe.

Já na década de 1950 Laila perdeu o interesse em atuar pois as rotinas de filmagens nem sempre eram agradáveis e porque gostaria de ser lembrada em sua juventude. Ela foi perseguida pela imprensa, que em 1952 afirmou que ela estava abrigando simpatizantes do Sionismo e doando dinheiro para o Estado de Israel. Convertida ao islamismo, Murad refutou as acusações e sua popularidade continuou em alta. Cantou hinos populares que louvavam o Movimento dos Oficiais Livres e se juntou às estrelas para apoiar a Revolução Egípcia, encabeçada por Gamal Abd al-Nasser, em meados da década de 1950, quando decidiu se aposentar e se retirar definitivamente da esfera pública.

BIBLIOGRAFIA

CASTELO-BRANCO, Salwa El-Shawan. Radio and musical life in Egypt, Revista de Musicología, v. 16, n. 3, p. 1229-1239, 1993.

GORDON, Joel. “Layla Murad”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 337-338.

HASANAYN, Adil. Layla Murad. Cairo: Amadu, 1993.

Noni Jabavu (1919-2008)

Seu nome completo era Helen Nontando Jabavu, nasceu em Middledrift, na Província do  Cabo, África do Sul, de uma família originária do grupo étnico Xhosa com proeminentes intelectuais e ativistas dos séculos XIX-XX. Seu avô, John Tengo Jabavu, foi editor do primeiro jornal da África do Sul a ser escrito em Xhosa , o Imvo Zabantsundu (Opinião Negra), e sua tia materna,  Cecilia Makiwane , foi a primeira enfermeira profissional africana registrada na África do Sul e uma das primeiras ativistas na luta pelos direitos das mulheres. Sua mãe, Thandiswa Florence Makiwane, fundou a Associação de Melhoria da Mulher de Zenzele.

Após completar os seus estudos na Inglaterra, tornou-se escritora de longas-metragens e trabalhou para a BBC, em Londres, como apresentadora e produtora. Quando se casou com o diretor de cinema inglês Michael Cadbury Crosfield, como o marido era branco e isto violava as leis de segregação racial vigentes na África do Sul ele não pôde acompanhá-la no país.  O casal morou em Moçambique, Zimbábue e Uganda.

Noni Jabavu começou a escrever durante os anos em que esteve em Uganda.  Em 1955, ela retornou à África do Sul para uma estadia de três meses que inspirou a redação de seu livro Drawn in color: african contrasts (1960), em que relata as experiências e impressões de uma africana sobre o impacto da segregação racial vigente no país.

Em 1961, Jabavu assumiu o cargo de redatora da revista The New Strand, dando início a uma longa carreira como jornalista que incluiu passagens pelas revistas e periódicos John O’London’s Weekly, o The New Strand e o Daily Dispatch.  Seu segundo livro, The ochre people: scenes from a South African life (O povo ocre: cenas da vida sul-africana) (1963), também foi uma narrativa de memórias que teve grande repercussão internacional.

BIBLIOGRAFIA

DECK, Alice A. Autoethnography: Zora Neale Hurston, Noni Jabavu, and cross-disciplinary discourse. Black American Literature Forum, v. 24, n. 2, p. 237–256, 1990.

HEALY, Meghan. “Noni Jabavu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 182-183.

XABA, Makhosazana. Noni Jabavu: a peripatetic writer ahead of her times. Tydskr Letterkd., Pretoria, v. 46, n. 1, p. 217-219, 2009.

Safi Faye (1943)

Cineasta e etnóloga, nascida em Fad’jal, uma pequena aldeia do grupo étnico  Serere, na região de Sine-Salum, Senegal.  Seu pai era um negociante polígamo e chefe da aldeia e ela tinha treze meios-irmãos e treze meias-irmãs. Fez o ensino primário em uma escola em Dakar e obteve o certificado de professora na Escola Normal de Rufisque (1962).

 Trabalhou como professora em Dakar (1963-1969). Conheceu o cineasta e etnólogo francês Jean Rouch durante o I Festival de Artes e Culturas Negras (1966) e participou em um filme dele: Petit à petit: lettres persanes (Pouco a Pouco: cartas persas) (1968). Embora não tenha gostado do filme, muitos críticos mencionam o estilo de Rouch como uma influência em sua carreira como cineasta. 

Safi  Faye estudou etnologia na École Pratique des Hautes Études em Paris (1972-1977), período em que teve sua  única filha, Zaiba (1976), e  no mesmo período estudou cinema na École Nationale Supérieure Louis Lumière (1972-1974).  A seguir, defendeu tese de doutorado sobre religião e cultura Serere na Universidade de Paris VII (1979).

Ela produziu seu primeiro filme, La passante (A passante) em 1972, e daí até 1996 realizou um total de 12 filmes e documentários (1972-1996). É uma pioneira, sendo bem conhecida como cineasta negra africana independente. Ela é muito elogiada pelos seus afetuosos porém precisos registros da vida nas aldeias do Senegal, pela sua sensibilidade e lucidez, bem como pela sua abordagem original da etnografia.

Entre as obras cinematográficas de Safi Faye estão Kaddu Beykat (1975), que foi exibido em diversos festivais de cinema e amplamente premiado. Seu outro longa metragem, Fad’jal foi exibido no Festival de Cannes de 1979 e recebeu um prêmio no Festival de Filme de Carthage em 1980. Ambos são documentários que retratam a vida nas aldeias. Sua abordagem socioantropológica nos filmes é uma característica proeminente de todos os seus trabalhos seguintes. Goob Na Nu (1979) trata de questões rurais, e Man Sa Yay (1980) baseia-se em uma troca de cartas entre um estudante senegalês em Berlim e sua mãe no Senegal.  Seu filme 3 ans 5 mois (Três anos e cinco meses) (1983), mostra como crianças se adaptam a culturas estrangeiras.

Muitos de seus documentários contaram com o apoio ou o financiamento da ONU e da UNICEF, por desenvolverem temas sensíveis como a situação de mulheres e crianças pobres de áreas rurais ou litorâneas, como camponesas ou secadoras de peixe. O seu primeiro  filme de ficção, Mossane (1996), palavra que significa “beleza”, “pureza” e “virtude” na língua Sererer, foi selecionado para o Festival de Cannes, co-produzido pelas redes de televisão na França, Alemanha, Grã-Bretanha e Senegal, celebra de forma poética e sensual a beleza efêmera da adolescência.

Safi Faye foi honrada em um tributo especial no Festival International de Films de Femmes de Créteil nos anos de 1998 e 2010.

BIBLIOGRAFIA

ELLERSON, Beti. Africa through a woman’s  eyes: Safi Fayes’s  cinema. In: PFAFF, Françoise (Ed.).  Focus on african films. Bloomington: Indiana University Press, 2004, p. 185-202.

GEMMEKE, Amber. “Safi Faye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 367-369.

PFAFF, Françoise. Twenty-five  black african filmmakers: a critical study, with filmography and bio-bibliography. Nova Iorque: Greenwood Press, 1988.

THACKWAY, Melissa. Africa shoots back: alternative perspectives in sub-saharan francophone african film. Bloomington: Indiana University Press, 2003.

Tsitsi Dangarembga (1959)

Romancista, roteirista, dramaturga, consultora e diretora de cinema do Zimbábue. Nasceu em Mutoko, na então Rodésia do Sul  colonial, atual Zimbábue. Aos dois anos de idade mudou-se com os pais para a Inglaterra, onde frequentou a escola primária. Realizou o secundário em escola missionária localizada em Mutare. Na juventude, começou a frequentar o curso de Medicina na Inglaterra (1977) e o curso de Psicologia  na Universidade do Zimbábue, período em que teve início o seu envolvimento com teatro, escrevendo e encenando. 

Foi a primeira mulher negra do Zimbábue a  publicar um romance escrito em inglês, Nervous Conditions (Condições nervosas) (1988), que lhe rendeu reconhecimento internacional. A obra foi escrita em 1985 e não recebeu atenção de uma editora do seu país por ser considerada excessivamente crítica aos padrões patriarcais do mundo cultural xona, em que a estória transcorre. Foi publicada pela  editora The Women Press, de Londres, e logo teve outras edições nos Estados Unidos e na Dinamarca. O núcleo narrativo é a trajetória de auto-conhecimento e emancipação de Tambu das dimensões cruzadas da opressão colonial, racial e patriarcal  que envolvem a mulher negra.

Dangarembga escreveu muitas peças e contribuiu significativamente para a indústria cinematográfica do Zimbábue. Seu trabalho com o grupo de teatro Zambuko, liderado por Robert McLaren, aproximou-a do teatro comunitário, e nesta linha ela escreveu as peças Katshaa e Mavambo.

Em 1983, escreveu e dirigiu The lost of the soil (Os perdidos da terra), seguida por She no longer weeps (Ela não chorará mais) – que foi apresentada pela primeira vez na Universidade do Zimbábue em 1984. A peça conta a história de Marta, que é confrontada pelas normas familiares patriarcais e opressivas e resiste por todos os meios, lutando por sua independência pessoal. Ela também escreveu o roteiro do filme Neria (1993), que dramatiza as experiências das viúvas no Zimbábue e sua disputa pelo direito à herança familiar.  Já em Everyone’s child (Fihos de todo mundo) (1996)o o enredo gira em torno da tragédia que se abate na vida de quatro crianças órfãs  em meio aos efeitos devastadores da AIDS.

Quanto ao seu filme, Kare Kare Zvako: Mother’s day (Kare Kare Svako: o dia das mães) (2004), baseia-se em um conto popular do seu país, e tem sido exibido em mostras internacionais de cinema.

O livro The book of note: a sequel to Nervous Conditions (Livro de notas: uma sequência de Condições Nervosas) (2006), dá continuidade à busca de Tambu durante a década de 1970,  após  a independência do país, quando persistem restrições de diversa natureza em relação às mulheres, e principalmente as de natureza racial em relação às mulheres negras, a quem é constantemente negada igualdade de oportunidade sobretudo de formação educacional.

BIBLIOGRAFIA

BERNDT, Katrin.  Female identity in contemporary zimbabwean fiction. Bayreuth: Bayreuth University Press, 2005.

MKWESHA-MANYONGA, Faith. “Tsitsi Dangaremba”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 161-162.

SUGNER, Charles. Nervous conditions: Dangarembga’s  feminist reinvention of Fanon. In: OBIAMA,  Nnaemeka (Ed.). The politics of mothering: womanhood, identity and resistence of african literature. Nova Iorque: Routledge, 1997, p.  32-49.

WILEY, Ann Elizabeth.  Negotiating the postcolonial: emerging perspectives on Tsitsi Dangaremba. Trenton: African World Press, 2002.

Younouss Seye (1940)

Artista plástica e atriz de formação autodidata, nasceu em Saint-Louis, no Senegal.  Participou do Primeiro Festival Mundial de Artes e Culturas Negras de Dakar (1966) e do Primeiro Festival Cultural Pan-Africano de Argel (1969). Nesta ocasião, ganhou apoio financeiro da UNESCO para realizar uma residência de treinamento na Costa do Marfim – que deu origem a uma exposição individual no Hotel Ivoire (1972), e uma exposição no Grand Palais, em Paris (1974). Ela também participou do II Festival de Artes e Culturas Negras de Lagos – FESTAC (1977).

Sua arte visual é conhecida pelo uso de conchas de búzios denominadas cauris, e escultura em mármore. Seu interesse e investigação sobre as propriedades e o peso simbólico dos cauris colocaram-na em linha com os círculos de patrocínio na África pós-independência, em que estados, organizações internacionais e intelectuais pós-coloniais valorizavam os vocabulários visuais pan-africanos.  Mas o seu interesse por estes pequenos artefatos vai além dos padrões estéticos valorizados pela chamada “Escola de Dakar” e pela Negritude. Seu trabalho preocupa-se em valorizar o que os búzios representam dos elementos sagrados e seculares da vida cotidiana – como representação monetária, como instrumentos empregados na geomancia (previsão), como marcadores de status e identidade, como portadores da história e como indicadores do trabalho feminino.

O sucesso de Younouss abriu caminho para outras mulheres em uma profissão dominada por homens, como Madeleine Senghor e Germaine Anta Gaye. Esse interesse pelas implicações sociais mais amplas do trabalho artístico e o papel das mulheres nas sociedades contemporâneas africanas também informariam sua escolha de projetos cinematográficos e seu ativismo, levando-a a ser co-fundadora de um coletivo de artistas, Le Collectif Artistes Plasticiens (Coletivo de Artistas Plásticos), que patrocina o intercâmbio artístico entre a Europa, Dakar e a cidade senegalesa oriental de Tambacounda.

Ela também teve grande sucesso como atriz, e atuou em papéis importantes nos filmes do cineasta Ousmane Sembene, primeiro em Xala (1974) e trinta anos depois, em Faat Kiné (2000),  onde representa Venus Seye, uma mulher injustiçada e abusada por homens ao longo da vida.

BIBLIOGRAFIA

FALL, Youma. Of some women in the history of art in Senegal. In: KONATÉ, Yacouba (Éd). DAKART 2006 – 7ème Biennale de l’Aart Africain Contemporain. Grenoble: Imprimerie Les Deux-Ponts, 2006.

HARNEY, Elisabeth. “Younouss Seye”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 340.

SYLLA, Abdou. Les arts plastiques senegalais contemporains: evolution et tendances. Ethiopiques: revue negro-africaine de litterature et de philosophie, n. 81, 2008: http://ethiopiques.refer.sn/spip.php?article1618

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