Tag: Direitos das mulheres

Ahlam Mustaghanmi (1953)

Poetisa, romancista e editorialista, foi a primeira argelina a publicar um romance em árabe – como uma forma de resistência ao imperialismo cultural francês, que aboliu o seu uso formal, e à cultura popular produzida em massa. Sua família resistiu à colonização francesa; preso por ser ativista político, seu pai Muhammad al-Sharif insistiu que ela estudasse em uma das melhores escolas árabes do país, o que abriu caminho para o diploma em Literatura Árabe na Universidade de Argel em 1973, e para o doutorado pela Universidade Sorbonne (1982). A sua tese, Algérie, femmes et écritures (Argélia, mulheres e escritas) mapeia a história da Argélia através da participação política e literária de suas mulheres.

O árabe, a feminilidade e a Argélia estão em seu primeiro romance, Dhakirat al-Jasad (Memória na carne) (1993), dedicado ao escritor argelino Malik Haddad. Além de um elogio a seu pai e à Argélia pós-emancipação, ela é uma crítica de si e do outro através da voz masculina adotada para o narrador. Segundo ela, o vazio cultural existe porque o país não transcendeu sua história como sujeito colonizado. Filha de um mártir, ela desenvolve um perfil humanista para a figura deste; mulher, ela recorda as injustiças pelas quais essas passam no pós-independência. O romance, ganhador do prêmio de literatura Najib Mahfuz, foi traduzido para várias línguas e ganhou uma sequência com Fawda al-Hawas  (Caos dos sentidos) (1997), e ‘Abir Sarir (Uma cama transeunte) (2003).

Embora afirme que “escrever no mundo árabe é uma atividade perigosa”, sua poesia é uma alternativa à cultura pop, estando no repertório de Jahida Wahbi e na televisão, com a adaptação de Memória na Carne. Outras obras suas são ‘Ala Marfa’ al-‘Ayyam (No portal do tempo), Al-Kitaba fi Lahdhat ‘Uriyy (Escrevendo em um momento de nudez), além das contribuições semanais à coluna Zahrat al-Khalij.

Ahlam Mustaghanmi lançou a coleção de artigos Qulubuhum Ma’ana, Qanabiluhum ‘Alayna (Seus corações conosco, suas bombas sobre nós), escritos após o 11 de Setembro e críticos não só às posições de europeus e norte-americanos, mas também ao silêncio da comunidade internacional em relação à região árabe-islâmica.

BIBLIOGRAFIA

BAMIA, Aida A. Dhakirat al-Jasad (The Body’s Memory): A new outlook on old themes. Research in African Literatures, v. 28, n. 3, p. 85-93, 1997.

GHAZOUL, Ferial J. Memory and Desire. Al-Ahram Weekly , n. 409, 24-30/12/ 1998.

SHEBLE, Riham. “Aham Musaghanmi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 353-354.

SUYOUFIE, Fadia. The uncanny in Ahlam Mustaghanmi’s ‘Abir Sarir’. Journal of Arabic Literature, v. 36, n. 1,  p. 28-49, 2005.

Aïssata Kane (1938-2019)

Ativista feminista, política e primeira ministra mulher do governo Mauritano. Nasceu na cidade de Dar El Barka, no sul da Mauritânia. Seu pai, Mame N’diack, era o chefe dos fulas do distrito de Toro, governando-os de 1923 até sua morte (1976). Ela fez o ensino primário e secundário no período de 1946-1957 na cidade senegalesa de Saint-Louis, que dava mais oportunidades educacionais do que as de Mauritânia e frequentou aulas na Universidade Livre de Bruxelas com bolsas de estudo (1959-1960), mas teve que reduzir sua permanência e retornar à Mauritânia devido a problemas familiares.

No contexto das emancipações, foi para a capital do Mali, Bamako, para se juntar à organização pan-africanista Conference des Femmes Africaines (Conferência das Mulheres Africanas), e depois mudou-se para Argel quando o grupo se estabeleceu na Argélia. Sua carreira internacional continuou em meados dos anos 1960. Ela se juntou à Federação Democrática Internacional de Mulheres – IDFW em sua reunião anual realizada em Helsinque, na Finlândia.

Aïssata trabalhou como professora de francês (1963-1967), e foi admitida no conselho da ala jovem do Parti du Peuple Mauritanien – PPM (Partido do Povo Mauritano) (1966), continuando, todavia, a defender as pautas importantes para a promoção das mulheres, como: educação, melhoria das condições de vida; ampliação dos direitos legais e melhorias da situação econômica. A facilitação dos divórcios e a finalização do casamento infantil tornaram-se duas causas que chamaram especialmente a sua atenção. De sua atuação resultaram a criação de um novo código legal que defendia os direitos das mulheres no casamento e o crescente número de meninas que frequentavam a escola, além da ampliação da participação política das mulheres em órgãos de representação política em seu país.

Kane foi uma das primeiras mulheres africanas a denunciar publicamente a mutilação genital e a trabalhar pela sua eliminação. Ela se tornou secretária de informações do Mouvement National Féminin- MNF (Movimento Nacional Feminino), afiliado ao governo, e foi editora-chefe da revista Marienou. Em 1975, foi a primeira mulher na história da Mauritânia a receber uma posição ministerial, no Ministério para a Proteção da Família e dos Assuntos Sociais, nele permanecendo até 1978, quando um golpe militar derrubou o regime e ela perdeu o cargo.

Embora não tenha voltado a ocupar posição nos governos posteriores, continuou sendo uma ativista incansável, como presidenta da ’Association internationale des femmes francofones (Associação Internacional das Mulheres Francófonas)  (1987) e Observadora na Organização da Francofonia. Ela também foi presidente da Associação para a Proteção do Ambiente e da Infância, um dos primeiros grupos ambientalistas na Mauritânia, e prestou diversas assessorias na ONU. Ela foi nomeada em 2005, junto com outras 999 mulheres ativistas ao redor do mundo, para o Prêmio Nobel da Paz. Junto com a senegalesa Anette Mbaye D’Erneville, escreveu o livro Métiers de femmes (Ofícios de mulheres).

BIBLIOGRAFIA

DOBERT, M.. Women in French-Speaking West Africa: A Selected Guide to Civic and political participation in Guinea, Dahomey and Mauritania. A Current Bibliography on African Affairs, v. 3, n. 9, p. 5–21, 1970.

RICH, Jeremy. “Aissata Kane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 286-288.

SHELDON, Kathlenn. Historical dictionary of women in sub-Saharan Africa. Lanham: Scarecrow Press, 2005.

Aissatou Yaou (1951)

Nascida em Tcheboa, ao Norte da República dos Camarões, estudou na escola secundária em Garoua e em Douala. Estudou economia na Universidade de Rouen, na França, onde obteve o título de bacharelado em 1975, e nas universidades de Georgetown e Claremont Graduate School, nos Estados Unidos, onde obteve em 1979 o título de MBA (Master’s degree in Business Administration).

De retorno ao seu país, atuou com sucesso na Société Nationale des Investissements – SNI (Sociedade Nacional de Investimentos), organização paraestatal de promoção do desenvolvimento econômico. Em 1988 assumiu o Ministério dos Assuntos das Mulheres, durante o governo de Paul Biya, mantendo-se no cargo até o ano 2000. 

Neste tempo, adotou medidas de incentivo à educação das mulheres, aboliu o direito reservado aos maridos de autorizar suas esposas a procurar emprego e promoveu uma reforma do código de família camaronês que garantia maior emancipação feminina. Representou o país na Conferência Internacional das Mulheres em Beijing e, com o apoio financeiro e material da Fundação Chantal Biya, criou duas associações femininas para o desenvolvimento, a CFR e a Professional Women Association (Associação Profissional das Mulheres), tendo organizado seminários, conferências e cursos de formação para a promoção das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

KONDE, Emmanuel. African woman in politics: knowledge, gender, and power in male-dominated Cameronn. Lewiston: Edwin Mellen, 2005.

RICH, Jeremy. “Aissatou Yaou”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 198-199.

TCHOUAKEU, Mesmin Kanguelieu. Histoire des femmes célèbres du Cameroun. Yaoundé: Cognito, 2008.

Albertina Nontsikelelo Sisulu (1918- 2011)

Ativista antiapartheid, esposa do líder do African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano) Walter Sisulu, ganhou proeminência por conta própria e recebeu a denominação MaSisulu, “mãe da nação”.

Nasceu em Transkei, no Cabo Oriental, sendo a segunda de cinco crianças. Frequentou a escola primária no distrito de Tsomo, a escola secundária e depois a faculdade católica chamada Maria Zell, que lhe permitu ser professora. Ela mudou-se para Johanesburgo em 1941 e foi treinada no Hospital Geral de Não-Europeus, qualificando-se como enfermeira geral e parteira. Trabalhava no Hospital Geral de Johanesburgo quando conheceu Walter Sisulu, que era membro da ANC, e com quem se casou em 1944.

Em 1949 Albertina passou a fazer parte da Liga das Mulheres do ANC, já durante o regime do Apartheid. Ela foi uma das 20.000 mulheres que marcharam rumo a Pretória em protesto contra as leis do passe (1956). Sua maior preocupação era com o impacto da segregação racial sobre as crianças em decorrência da Bantu Education Act (Lei de Educação Bantu), criada em 1953, que restringia a formação das crianças nas línguas bantu ao Departamento de Assuntos dos Nativos, criando além disso escolas segregadas, o que motivou reações, protestos e boicotes.

Por sua liderança ela foi presa em 1958 e detida em vários outros momentos, enquanto Walter foi condenado à prisão perpétua em 1964. Seu ativismo teve continuidade, e em 1983 ela foi co-presidente da recém formada Frente Democrática Unida, que a colocou mais uma vez na mira das autoridades sul-africanas que detinham o poder. Após a libertação do marido, em 1989, Albertina voltou a participar da organização da Liga das Mulheres e em 1994 foi eleita para o parlamento, onde atuou até 1999, quando ela e o marido deixaram a vida pública.

Em 2011 ela morreu aos 92 anos de idade, e continua sendo uma fonte de inspiração. Como disse: “Embora a política tenha feito minha vida áspera, não há absolutamente nada de que me arrependa sobre o que fiz e o que aconteceu comigo e com a minha família ao longo de todos esses anos. Em vez disso, eu fui fortalecida e me sinto mais mulher do que eu teria sido se minha vida tivesse sido diferente”.

BIBLIOGRAFIA

CHETTY, Suryakanthie. “Albertina Nontsikelelo Sisulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 398-399.

SISULU, E..   Walter and Albertina Sisulu: in our lifetime. Cape Town: David Philip, 2002.

WORDEN, N. The making of modern South Africa: conquest, segregation and Apartheid. Oxford: Blackwell Publishers, 1994.

Alifa Rifaat (1930-1996)

Fátima ‘Abd Allah Rif’, feminista muçulmana, nasceu no Cairo. Frequentou a escola primária em Heliópolis, antes de se mudar para o vilarejo de Hilmiyat al-Zaytun, onde estudou em uma escola para moças. Aos nove anos escreveu sua primeira história chamada A miséria de nossa aldeia, que a levou a ser punida por seu pai.

Entre 1946 e 1949, frequentou o Instituto Britânico no Cairo, onde estudou inglês, desenho e música em uma escola convento. Foi proibida pelo pai de entrar no Colégio de Artes na Universidade do Cairo, que a obrigou a se casar com um engenheiro de minas. O casamento durou oito meses e não foi consumado. Em 1952, casou-se novamente, obrigada pelo pai, com Husayn Rifaat, seu primo, com quem teve três filhos.

Ele era policial e viajava pelo Egito para exercer suas funções, Rifaat o acompanhava nessas viagens, isso proporcionou novos cenários para sua escrita, que foi retomada em 1955, embora escrevesse escondida do marido. Ela passou a escrever sob o pseudônimo Alifa Rifaat, expressando a sua revolta com a desigualdade e hipocrisia dos homens em matéria de sexualidade. Seu marido descobriu e a fez jurar perante o Alcorão que desistiria de escrever, sob pena do divórcio e da perda de seus filhos. Ela aceitou e passou a ocupar seu tempo livre com estudos sobre literatura, sufismo (misticismo islâmico), história e ciências.

Em 1973, após problemas de saúde seu marido acabou permitindo que ela escrevesse. A partir daí Alifa publicou vários contos, entre eles Alami al-majhul (Meu Mundo Desconhecido) que ganhou elogios e condenações por seu tema: uma mulher casada refugiada em um mundo de fantasia, envolvida pelo sentimento amoroso a uma serpente. Em 1975, publicou o livro Hawwa ‘ta’ud bi-Adam (Eva Retorna com Adão).

Em 1979 seu marido faleceu, alguns anos mais tarde casou-se com Denys Johnson-Davies, um arabista canadense, que publicou algumas de suas obras em inglês, como Distant view of a Minaret (O olhar distante de um minarete) (1983). Pela influência de Denys, ela abandonou alguns dos elementos românticos na escrita e passou a usar o dialeto coloquial do Egito em suas obras.

Alifa ganhou diversos prêmios literários, algumas obras foram adaptadas para a televisão e foram traduzidas para outros idiomas. O tema principal de suas criações é a negação do direito das mulheres a uma vida sexual plena e efetiva no casamento.  Segundo ela homens e mulheres não devem fazer amor a menos que alcancem harmonia mental e emocional para que alcancem o clímax paradisíaco. Sua insistência em escrever sobre experiências sexuais provocou a fúria de líderes religiosos egípcios, mas eles foram incapazes de desconsiderar sua lealdade ao Islã bem como às leis e aos costumes da sociedade tradicional egípcia.

BIBLIOGRAFIA

CAMPBELL, Robert B. Crosshatching in global culture: a dictionary of modern arab writers. Trad. J. J. Donohue e L. Tramontini. Beirute: Orient-Institut der Deutschen Morgenländischen Gesellschaft, Würzburg: Ergon Verlag, 2004.

NKEALAH, Naomi Epongse. Islamic culture and the question of women’s human rights in North Africa: a study of short stories by Assia Djebar and Alifa Rifaat. Dissertação de Mestrado (Literatura Pan-Africana), Universidade de Pretória, Pretória, 2007: https://repository.up.ac.za/handle/2263/27852

ROPER, Geoffrey. “Alifa Rifat”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 202-203.

SALTI, R. M.. Feminism and religion in Alifa Rifaat’s the shorts stories. The international fiction review, v. 18, n. 2, p. 107-112, 1991: https://journals.lib.unb.ca/index.php/IFR/article/download/14098/15180

Aminata Diop (1968)

Pertencente ao grupo étnico bambara, de língua mandinga,  nasceu em uma família muçulmana na cidade de Sikasso, ao sul da República do Mali.

Aos oito anos foi prometida em casamento ao filho de um amigo do pai, e aos doze frequentou a escola primária em Bamako.  

Pouco antes da realização do ritual do casamento, em 1989, recusou-se a se submeter à excisão genital, e em face da repressão do pai fugiu para a capital.  Viajou para a Bélgica com a ajuda de um amigo que trabalhava em uma companhia aérea e a levou até Bruxelas.

Ela pediu asilo na França em 1990, e após um processo judicial com o apoio de instituições de defesa, teve o pedido aceito, o que lhe permitiu viver na Europa legalmente, na condição de refugiada. Seu caso foi o primeiro a estabelecer perante o direito internacional a excisão genital como uma violação aos direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

MADE, Patricia. Warrior marks: female genital mutilation and the sexual binding of women. Southern African Feminist Review, v. 1, n. 1, 1995.

Anne Mungai (1957)

Educadora e cineasta queniana, nasceu em Port Victoria, no distrito de Budalangi no Quênia ocidental, e seus pais são o professor Marius Namapsi Okubo e a mãe Ursula Nerima.

Anne iniciou a carreira na área de mídia e comunicações no Kenya School of Mass Communications (Escola Queniana de Comunicação de Massa) em Nairobi e produziu documentários de curta e média duração sobre temáticas relacionadas à saúde, mulheres, juventude, religião, agricultura e educação. Com a sensibilidade de alguém que compartilha as experiências de ser mulher, ela iniciou o discurso sobre as pluralidades e complexidades do Quênia pós-emancipação ao questionar os casamentos forçados, a prostituição e as contradições entre as vidas urbana e rural. Estudou ainda no American Cultural Centre (Centro Cultural Americano)  e nas universidades de Daystar, Cardiff e Kenyatta.

Sua carreira teve início em 1980, com o primeiro curta-metragem intitulado Nkomani Clinic, ao qual se seguiram outros curtas e médias-metragens, além de seu primeiro longa-metragem Saïkati, lançado em 1993. Este filme, o  primeiro longa dirigido por uma mulher queniana, como muitas das obras de Mungai, tem como protagonista uma jovem a viver em uma sociedade dividida entre  práticas culturais tradicionais africanas e aquelas introduzidas pelo Ocidente durante o período colonial. Na trama e enredo, a jovem  Saïkati vê-se dividida entre o desejo de frequentar a Universidade e estudar na cidade e a obediência aos pais, que desejavam entregá-la ao filho do chefe da comunidade em um casamento arranjado.

A jornada de Mungai, mulher empreendedora, para produzir seus filmes foi marcada por dificuldades com recursos técnicos e capitais: sua luta em conciliar obrigações familiares e profissionais resume a complexidade de viver na África pós-emancipação e em um mundo masculino. Muitos de seus filmes foram produzidos pelo Kenya Institute of Mass Communication (Instituto Queniano de Comunicação de Massa), instituto em que foi membra docente; Saikati fez parte de um projeto-treino e demonstra que africanos conseguem engajar a indústria através de inovação e criatividade.

Em 1994 foi premiada pelo governo queniano por seu filme Usilie Mtoto wa Afrika, cujo título, na língua kiswahili, quer dizer “Por favor não chore criança africana”, dedicado a crianças que vivem em situação de vulnerabilidade nas ruas. Junto com Ann Wanjugu, ela desenvolveu a fundação Shangilia Mtoto wa Afrika (Anime a criança africana), dedicada ao bem-estar daquelas crianças e com o objetivo de mudar as percepções negativas da comunidade em relação a elas.

Entre vários prêmios concedidos a ela pelo reconhecimento de sua obra estão: Prêmio de melhor direção por Saïkati (Plan International, 1999); Prêmio Especial do Juri (Zanzibar International Film Festival, 1999); Personalidade Feminina mais influente (Women in film awards, 2022).

BIBLIOGRAFIA

CHAM, M. African women and cinema: a conversation with Anne Mungai.” Research in African Literatures, v. 25, n. 3, p.  93-104.

CARACCIOLO, Diane; MUNGAI, Anne (Ed.).. In the spirit of Ubuntu: stories of teaching and research. Rotterdam: Sense Publishers, 2009.

KIRUTHU, Felix Macharia. “ Anne Mungai”. . In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 332-333.

Annie Ruth Jiagge (1918-1996)

Nascida com o nome de Annie Ruth Baeta em Lomé, no Togo, foi uma Juíza, advogada dos direitos das mulheres e líder civil. Pertencia ao grupo etno-linguistico Ewe. Bacharela em Direito pela London School of Economics and Political Science – LSE (Escola de Economia e Política de Londres), e posteriormente admitida na Lincoln’s Inn, sendo uma das únicas quatro mulheres, e a única africana, inscrita no programa. Como advogada, foi a primeira mulher magistrada a atuar na Suprema Corte num país africano de toda a comunidade africana anglófona.

Além do pioneirismo em diversas frentes, Jiagge realizou importantes serviços no meio político e social, presidindo comissões de investigação de ativos de líderes políticos e advogando pelos direitos das mulheres. Foi representante de Gana para a Comissão Sobre a Situação das Mulheres da ONU (1962), vindo a presidi-la em 1968. Participou na elaboração da Convenção para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra Mulheres, adotada pela mesma organização em 1979 e que continua a ser o instrumento mais completo para a defesa dos direitos das mulheres. Também foi moderadora do Conselho do Programa de Combate ao Racismo, com foco em particular no Apartheid da África do Sul.

Religiosa, Annie Jiagge contribuiu para o fortalecimento da Associação Cristã de Moças – ACM em Gana (1940), tendo participado do seu comitê executivo nacional (1949) e mundial (1951-1962), e foi presidenta-adjunta do Conselho Mundial de Igrejas (1975-1983).

Recebeu diversos prêmios ao longo da vida, como o Gimbles International Award for Humanitarian Work e a Grande Medalha, ambos em 1969.

BIBLIOGRAFIA

AMENUMEY, D. E. K. Outstanding ewes of the 20th century: profile of fifteen firsts. Accra: Woeli Publishing Services, 2002.

JAIN, Devaki. Women, development and the United Nations: a sixty-year quest for equality and justice. Bloomington: Indiana University Press, 2005.

DAWUNI, Josephine. “Annie Ruth Jiagge”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 207-208.

Aoua Kéita (1912-1980)

Ativista política maliana, líder de mulheres e autora, nasceu em Bamako, na então colônia do Sudão Ocidental Francês. Uma forma alternativa de seu nome é Awa Keita. Seu pai, Karamogo Kéita, um veterano mandinga que participou da I Guerra Mundial  Malinké, trabalhou para o serviço de higiene colonial. Sua mãe Mariam Coulibaly, uma Diúla da Costa do Marfim, deu-lhe uma forte educação tradicional.

Algo excepcional para uma garota de sua geração, Aoua foi matriculada na recém criada École de Filles de Bamako (Escola para Meninas de Bamako) (1923) por seu pai e contra os desejos de sua mãe. Em 1928, ela se formou no Foyer de Métisses de Bamako, um colégio interno para meninas “mestiças” destinado a um pequeno número de africanos. A seguir, foi admitida na Escola de Medicina de Dakar, na época a capital da federação da África Ocidental Francesa, onse se formou como parteira (1931), dando início a uma carreira nos serviços médicos do estado colonial. Seu primeiro posto de trabalho foi em Gao, no nordeste do Mali, onde ela serviu por doze anos, estabelecendo a primeira maternidade da cidade. Depois ela também trabalhou em Nara e em Casamance.

Paralelamente, casou-se com o médico Daouda Diawara, com quem viveu onze anos (1935-1946). Ao mesmo tempo, ambos ingressaram na luta anti-colonial, passando a atuar na Union Soudanaise – Rassemblement Democratique Africain – US-RDA (União Sudanesa – Ajuntamento Democrático Africano), no qual ela assumiria um cargo executivo em 1958, atuaria como comissária para as mulheres e teria participação na redação da Constituição do Mali e,  após a independência, teria assento na assembléia legislativa para a região de Sikasso tornando-se a primeira mulher parlamentar do país.

Keita publicou sua autobiografia, Femme D’Afrique: la vie d’Aoua Keïta racontée par elle-même (Mulher da África: a vida de Aoua Keita recontada por ela própria) (1975), em que retrata sua vida pública nos anos 1950-1960. O livro foi aclamado pela crítica especializada e recebeu o Grande Prêmio Literário da Africa Negra.

Com a ampliação efetiva da participação feminina na vida pública do Mali nos anos 1990, o nome de Aoua Keita é lembrado como uma referência fundamental, e ela tem sido homenageada em eventos,  cerimônias, tendo o nome atribuído a premiações e instituições. Seu maior legado foi ter ajudado a estabelecer a reforma sobre a lei do casamento e da tutela, que introduziu avanços significativos no direito civil maliano e representou uma ampliação dos direitos das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

KÉITA, Aoua. Femme d’Afrique: la vie d’Aoua Keïta racontée par elle-même. Paris: Présence Africaine, 1975.

KONARÉ, Adama Ba. Dictionnaire des femmes célèbres du Mali. Paris: L’Harmattan, 1994.

MANN, Gregory; SIDIBE, Oumou. “Aoua Keita”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 323-324.

TURRITTIN, Jane. Aoua Kéita and the nascent women’s movement in the French Soudan. African Studies Review, v. 36, n. 1, p. 59-89, 1993.

Ayesha Iman

Nascida na área cultural hauçá, Nigéria, formou-se em sociologia pela Escola Politécnica do Norte de Londres, concluiu o Mestrado na Ahmadu Bello University – ABU (Universidade Ahmadu Bello) (1983) e o Doutorado pela University of Sussex (Universidade de Sussex).

Ingressou na Universidade Ahmadu Bello Zaria em 1980 e em 1983 assumiu o cargo de secretária coordenadora da organização Women in Nigeria (Mulheres na Nigéria), uma organização feminista sediada em Zaria, e é participante do Fórum Feminista Africano.

Em 1996 Ayesha fundou o Baobab for Women’s Human Rights (Baobá para os Direitos Humanos das Mulheres),  que fornece proteção para  mulheres acusadas de acordo com os códigos penais da xaria, a  lei muçulmana. Esta organização teve papel determinante na anulação da sentença de morte por apedrejamento movida contra Amina Lawal em 2004.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as cause and cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf

Balaraba Ramat Yakubu (1958)

Nascida em Kano, ao Norte da Nigéria, recebeu formação escolar islâmica e ocidental até a adolescência, quando foi forçada pela família a se casar. Teve dois casamentos forçados, de um total de quatro, dos quais ela logo se divorciou. Por causa disso, ao longo de toda a sua carreira estimulou as mulheres hauçás a buscar sua independência e oportunidades de sobrevivência. No início do século XXI fundou a empresa de publicidade Ramata General Enterprises, onde publica suas obras e exerce o cargo de administradora.

Ao longo da vida, Yakubu se destacou como romancista, roteirista e figura icônica da literatura popular hauçá, muito conhecida em cidades como Kano, Katsina, Zariya, Kaduna e Sokoto. Suas obras enquadram-se no gênero da literatura popular identificado como littattafan soyayya (literatura amorosa), muito apreciado, mas criticado pelas autoridades religiosas tradicionais. Ela explora no enredo de suas obras dramas amorosos e familiares, e no subtexto reside uma crítica aos privilégios patriarcais e aos condicionantes da opressão sobre as mulheres pela poligamia, casamentos arranjados ou forçados, a mutilação genital (pardah), e a falta de oportunidade de ensino.

Entre os seus livros mais apreciados estão Budurwa Zuciya (Coração virgem), Alhaki Kuykuyo Ne (A inevitável retribuição) e Wane kare ne ba bare ba (uma vez um cão, sempre um cão), que trata da coabitação entre co-esposas reiteradamente violadas em seus direitos e conjuntamente oprimidas. Em Wa azai auri jahila (Quem quer casar com uma mulher ignorante?), o tema principal é a educação como meio de libertação feminina. O romance acompanha o processo de libertação de Zainabu, uma jovem adolescente que abandona a família do marido para viver em Kano, onde trabalha durante o dia e estuda no período noturno, obtendo com o tempo estabilidade emocional, psicológica e financeira.  Por suas ideias, a autora é reiteradamente condenada pelas autoridades muçulmanas nigerianas, embora ela não conteste a religião, e sim as tradições culturais quando servem de meio de opressão e de privação dos direitos femininos.

BIBLIOGRAFIA

LARKIN, Brian. Indian films and nigerian lovers: media and the creation of parallel modernities. Africa, n. 67, p. 406-439, 1997.

WHITSITT, Novian. “Balaraba Ramat Yakubu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 196-197.

WHITSITT, Novian. Islamic-hausa feminism in Kano Market litterature; Qu’ranic reinterpretation in the novels  of Balaraba Ramat Yakubu. Research in African Litterature, n. 33, p. 119-136, 2002.

Deolinda Rodrigues (1939-1967)

Nascida como Deolinda Rodrigues Francisco de Almeida, em Cateste, Angola, era prima de Agostinho Neto, o primeiro presidente do país após a independência de Portugal. Recebeu a educação primária em escola missionária, recebeu bolsa de estudos da Igreja Metodista (1959) para estudar sociologia em São Paulo, no Brasil, onde morou por 1 ano e meio.  

Neste período, Portugal e Brasil estabeleceram o tratado que permitia Portugal extraditar pessoas consideradas ameaça à estabilidade do estado de Portugal e suas colônias. Temendo ser presa por suas opiniões políticas anticoloniais ela buscou asilo nos Estados Unidos e estudou na Drew University, em Nova Jersey. Regressou a Angola em 1962 e integrou o Corpo de Voluntários de Assistência aos Refugiados de Angola, em Leopoldville, tornando-se secretária da organização e membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Mobilizou mulheres para se unirem à luta de libertação, sendo a única mulher membro do comitê central da organização a assumir sua presidência. Foi também fundadora e presidente da Organização das Mulheres Angolanas (OMA).

Suas obras foram publicados após sua morte e incluem Poesia Angolana de Revolta (2003), Cartas de Langidila e outros Documentos (2004) e o livro Diário de Um Exílio Sem Regresso. Em seus diários, destaca os papéis assumidos pelas mulheres no exílio, na libertação e lutas cotidianas. No poema Mamãe, reconhece o colonialismo e a libertação como problemas não exclusivo de Angola, mas de toda a África.

Ainda no Brasil, escreveu uma carta a Martin Luther King Jr em que lhe pede conselhos sobre como obter independência em Angola. Ele respondeu a ela dizendo que o movimento de libertação precisava de um líder que atuasse como símbolo unificador, que a administração portuguesa atacaria essa pessoa ou grupo e esse ataque fortaleceria o movimento pela independência.

Deolinda foi aprisionada em 1963 e torturada na prisão de Kinkuzu. Ela morreu em 1967 durante um ataque da Frente de Libertação Nacional de Angola – FNLA, junto com mais 20 pessoas de seu batalhão. Em sua homenagem, o governo angolano celebra o dia  02 de março, aniversário de sua morte, como Dia Nacional da Mulher, e deu o seu nome a uma avenida em Luanda.

BIBLIOGRAFIA

RODRIGUES, Isabel Feo; Sheldon, Kathleen.  “Outras Vozes”: women’s writings in lusophone Africa. African and Asian Studies, v.7, p. 423-445, 2008.

PAREDES, Margarida. Combater duas vezes: mulheres e luta armada em Angola. Porto: Verso da História, 2015.

THOMPSON, Drew. “Deolinda Rodrigues”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 212-213.

Dorra Bouzid (1933)

Nacionalista tunisiana, escritora, ativista dos direitos das mulheres e artista. Nasceu na cidade de Nabeul, na Província de Sfax, onde o pai tinha atividade no ramo editorial de livros árabes e era um ator amador.  Sua mãe, Cherifa, foi a responsável direta pelo ensino das primeiras letras, uma vez que não havia escola para meninas na cidade. Depois, estudou numa escola secular francesa com estudantes de diferentes religiões e origens. Após a morte do pai, a mãe se casou com Mahmoud Messaâdi (1911- 2004), uma importante figura na literatura contemporânea árabe bem como na história da educação na Tunísia pós-independência.

Dorra frequentou por um tempo a École des Beaux Arts (Escola de Belas Artes) em Túnis, porém sua mãe decidiu que ela deveria estudar Farmácia, uma vez que as artes não a tornariam financeiramente independente. Assim, em 1951 ela se matriculou na Escola de Farmácia em Paris, que na época contava com pouquíssimas estudantes muçulmanas. Foi durante o curso universitário que ela começou a se envolver em grupos de oposição ligados aos movimentos operários e ao anticolonialismo, vindo a participar de um jornal e da Associação de Estudantes Norte-Africanos.

Depois de formada, retornou à Tunísia, passando a trabalhar como farmacêutica. Paralelamente, foi convidada a ser colunista no jornal L’Action (A Ação), ficando responsável por dar continuidade ao trabalho dedicado à questões relativas às mulheres. Dorra deu início ao trabalho jornalístico numa coluna chamada “Leila vous parle” (Leila vos fala) – referência ao periódico feminino tunisiano chamado Leila, que circulara no período de 1936-1941. Com o pseudônimo de Leila, ela produziu os textos de uma coluna inteira que em 1955 passou a se chamar “L’action feminine” (A ação feminina). Em seu primeiro artigo, intitulado “Pedido por uma emancipação legal”, ela demandava direitos específicos para as mulheres.  

No ano seguinte, o então presidente da Tunísia, Habib Bourguiba, promulgou o Code du Statut Personnel (Código do Estatuto Pessoal), onde constavam alguns avanços na lei da família e na condição jurídica das mulheres, que passavam a ser consideradas juridicamente iguais aos homens. Além disso, o divórcio passava a ser previsto em lei, e o casamento passava a depender do consentimento do noivo e da noiva. Por esta ocasião, Dorra publicou outro artigo, com significativo título “As mulheres tunisianas são adultas”, no qual lembrava a(o)s leitoras(es) que dois clérigos muçulmanos é que tinham sido convidados a formular a nova legislação.

Em 1959, assumiu a chefia editorial da revista Faïza, que apesar de ter circulado apenas até 1967 continua a ser bem conhecida no Magrebe e em toda a África como a primeira revista feminista árabe-africana de língua francesa. Seu papel de liderança junto ao L’Action, que mais tarde passou a se chamar Jeune Afrique (Jovem África), levou a que fosse solicitada a servir de intermediária informal nas relações entre Tunísia e Marrocos.

Ao longo de sua carreira de sucesso, ela publicou inúmeros artigos sobre assuntos os mais variados, mas o foco nas questões específicas sobre as mulheres levou a que fundasse o periódico Femmes et Réalités (Mulheres e realidades). Valendo-se da influência do padrasto, teve acesso aos núcleos de decisão política e soube intervir na defesa dos direitos das mulheres e artistas.

No campo das artes, pesquisou e publicou um livro em que teoriza e sistematiza o modo de fazer arte de seu país:  École de Tunis: un âge d’or de la peinture tunisienne (A Escola de Túnis: uma idade de ouro da pintura tunisiana) (1995). Também foi publicamente reconhecida como pioneira da dança tunisiana, recebendo uma homenagem durante o festival internacional Le Printemps de la Danse (A primavera da dança) (2008).

BIBLIOGRAFIA

BOUJMIL, Hafedh (Ed.). Leila: revue illustrée de la femme, 1936-1941. Tunis: Editions Nirvana, 2007.

BOUZID, Dorra (Ed.). École de Tunis. Un age d’or de la peinture tunisienne. Tunis: Alif, 1995.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Dorra Bouzid”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1, p. 514-516.

Elinor Sisulu (1958)

Batizada como Elinor Batezat, é uma ativista política e escritora nascida em Salisbury, atualmente Harare, Zimbábue. Crescendo na antiga Rodésia sob o domínio da minoria branca, optou pela carreira de escritora após desenvolver interesse pela leitura, contradizendo o esperado como aspiração de carreira para uma criança negra na década de 1960, que se restringia a professor ou enfermeiro.

Em 1980, formou-se com Honra Especial pela Universidade do Zimbábue antes de prosseguir seus estudos no Instituto da ONU para o Planejamento e Desenvolvimento Econômico (IDEP, na sigla original) no Senegal. Em 1984, realizou seu mestrado em Estudos de Desenvolvimento em Amsterdam, concluído em 1985.

Na Holanda, Elinor conheceu Vuyisile Max Sisulu, filho dos proeminentes líderes do Congresso Nacional Africano: Walter e Albertina Sisulu, grandes inspirações suas para escrever a biografia Walter and Albertina Sisulu: in our lifetime (Walter e Albertina Sisulu: em nossa vida) (2002), livro que ganhou o prêmio Noma Award for Publishing In Africa em 2003. Em 1993, recebeu uma bolsa para estudar no Instituto Bunting da Radcliffe College, em Cambridge, Massachusetts.

Com impressionante carreira acadêmica e ativista, esteve envolvida no Ministério do Trabalho do Zimbábue. Em seu período no Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, interessou-se por questões de gênero e produziu várias publicações acadêmicas. Após sua mudança para a África do Sul em 1991, manteve seus interesses em feminismo negro, atuando como editora assistente na revista feminista So to Speak.

Nesse período, escreveu The day gogo went to vote (O dia em que Gogo votou), um livro infantil sobre a primeira eleição democrática realizada na África do Sul em 1994. Em 2004, iniciou a filial de Johanesburgo da Coalizão de Crise do Zimbábue, atuando como gerente de mídia e defesa da organização. Também ocupou um cargo no Heal Zimbabwe Trust, dedicado a fornecer ajuda aos refugiados do Zimbábue na África do Sul.

BIBLIOGRAFIA

CHETTY, Suryakanthie. “Elinor Sisulu”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 399-401.

LAWSON, C.R. Rooted in History: A Profile of Elinor Batezat Sisulu.  The World and I, 1º de fevereiro de 2002: https://www.worldandi.com/specialreport/2002/february/Sa21774.htm

SISULU, Elinor. Walter and Albertina Sisulu: in our Lifetime. Claremont: David Philip Publishers, 2002.

Elisabeth Adekogbe (1919-1968)

Nasceu no seio de uma família tradicional de Ijebu, na área cultural yoruba, durante o período colonial da Nigéria. Frequentou uma escola de formação católica e o Yaba Higher College, na cidade de Lagos.

Nas  décadas seguintes, atuou primeiro como Inspetora de Preços durante o período da II Guerra Mundial,  como professora, diretora de escola e jornalista, e se tornou uma das mais importantes ativistas dos direitos das mulheres, fundando em 1952 o movimento conhecido como Women Movement of Nigeria – WMO (Movimento das Mulheres da Nigéria) a partir de Ibadan. Os objetivos do grupo eram pelo reconhecimento dos direitos políticos às mulheres, sufrágio universal, a admissão em conselhos de representação das autoridades locais, a nomeação para as instâncias de representação coloniais. Também reivindicava ampliação de direitos civis, como a admissão de meninas em escolas secundárias; a redução no preço dos dotes de noivas e determinadas direitos nas atividades comerciais.

Dois anos mais tarde, em 1954, Elizabeth Adekogbe  participou da direção do Council of Women’s Societies of Nigerian and the Cameroons (Conselho das Sociedades de Mulheres da Nigéria e dos Camarões), que em 1959 foi  uma das importantes coalizações que atuou durante o período da independência do país. Neste contexto, sua liderança foi disputada por Funmilayo Ransome-Kuti, outra importante ativista e liderança feminina nigeriana da época.

BIBLIOGRAFIA

PANATA, Sara Panata, Revendiquer des droits politiques au Nigéria. Le Women Movement dans les années 1950. Clio. Femmes, Genre, Histoire , n. 43,  2016: https://doi.org/10.4000/clio.12988

PANATA, Sara. Les trajectoires des militantes d’Ibadan : le succès d’un apolitisme de façade et l’échec du militantisme politique (1947-1957). Recherches feministes, v. 29, n. 2, p. 105–130, 2016: https://id.erudit.org/iderudit/1038723ar

Everjoice Win (1965)

Nascida em Shurugwi na República do Zimbabwe, é uma destacada ativista em defesa dos direitos civis das mulheres de seu país. Concluiu o ensino superior na Universidade de Zimbabwe em 1988, com especialização em História Econômica. Quatro anos depois, em parceria com Terri Barnes, publicou o livro intitulado To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970 (Para viver uma vida melhor: uma história oral das mulheres na cidade de Harare, 1930-1970), que ofereceu substantiva contribuição para o reconhecimento do papel das mulheres para o desenvolvimento urbano do país.

Sua militância feminista foi intensa nos anos 1990, quando atuou como deputada e coordenadora de comissões vinculadas a ação de grupos de educação popular para mulheres. De 1993 a 1997 dirigiu em âmbito nacional o capítulo do programa pan-africano Woman in Law and Development in Africa – WILDAF (Mulheres no Direito e Desenvolvimento na África), e atuou em mais de vinte associações pela garantia dos direitos das mulheres e por reformas políticas e sociais, o que a levou, em 1997, a ser uma das(os) fundadoras(es) da Assembléia Nacional do Zimbabwe. Seu prestígio lhe permitiu desempenhar papel de destaque na crise da coalizão do Zimbabwe.

Nas últimas décadas, tem ocupado cargos em diversas comissões internacionais na África do Sul, Inglaterra e Canadá, e participado de Organizações Não-Governamentais, onde defende iniciativas direcionadas a igualdade de gênero, para as populações pobres do mundo, em especial as mulheres, bem como iniciativas para o combate ao HIV/AIDS.

BIBLIOGRAFIA

GRANT, Miriam. “Everjoice Win”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 6, p. 75-176.

WIN, Everjoice; BARNES, Terri. To live a better life: an oral history of women in the city of Harare, 1930-1970. Harare: Baobab Books, 1992.

WIN, Everjoice, Not very poor, powerless or pregnant: the african woman forgotten by development.  IDS Bulletin, v. 35, n. 4, p. 61-64, 2004.

Fatima Talib Isma’il (1928)

Educadora sudanesa e ativista dos direitos das mulheres. Nasceu em al-Rank City, no sul do Sudão, numa época em que a educação formal das meninas baseada no sistema educacional ocidental era considerada tabu. Contrariando o costume, sua família a matriculou em escolas primárias segundo o modelo ocidental, ela frequentou o secundário em escola para meninas de Cartum, formou-se na Faculdade de Artes do Memorial Gordon College,  realizou o curso superior em Educação e obteve Mestrado na Universidade de Londres (1953).

Já em 1947, durante o ensino secundário, Fatima Talib participou de diversos grupos de organização estudantil, e da primeira organização para a libertação das mulheres sudanesas, Rabitat al-Fitaiat al Muthagafat (Associação de Jovens Educadas), cujo objetivo era a promoção da educação, economia doméstica e atendimento infantil. Durante e após a formação acadêmica, atuou em diversas instituições voltadas para a educação de mulheres e meninas, sendo uma das fundadoras da União das Mulheres Sudanesas (1952) e as representou na Conferência das Mulheres de Moscou (1957), mas abandonou a entidade devido a conflitos ideológicos, ingressando no Partido Comunista do Sudão.

Ensinou na Escola Secundária Omdurman para Meninas (1958), ocupou cargos administrativos e de treinamento de Professoras em Omdurman e em Cartum (1962), e em 1971 foi destacada pela UNESCO para atuar como educadora no Iemen, e depois na Universidade de Riyadh, Arábia Saudita (1977), onde lecionou para estudantes de todo o mundo, incluindo Madagascar, Filipinas e Estados Unidos.

Paralelamente, participou de conferências e simpósios sobre educação, bem como sobre os direitos políticos e sociais das mulheres. Escreveu muitos artigos e participou de programas de rádio e televisão para discutir e defender os direitos das mulheres. Em 1978 assumiu cargos no Ministério da Educação e no conselho de administração da Universidade de Cartum e da Universidade Islâmica de Omdurman.

 Por sua atuação continuada em defesa da educação e das mulheres, recebeu diversas homenagens em instituições educacionais e sociais no Sudão.

BIBLIOGRAFIA

DUANY, Julia Aker. Sudanese women and education: the struggle for equal access Participation. Dissertation, University of Indiana, 1996: http://hdl.handle.net/10535/3579

HALE, Sondra. Gender Politics in Sudan: Islamism, Socialism and State. Boulder: Westview Press, 1996.

MUHAMMAD, Raqi’e Badawi. “Fatima Talib Ismail”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 169-170.

Fatou Sow (1950)

Feminista e professora de sociologia de grande renome, tanto em seu país natal, o Senegal, quanto ao redor do mundo. Ela frequentou a escola primária e secundária em Dakar, no Liceu Van Vollenhoven, e mais tarde estudou na Universidade de Dakar, onde se formou em filosofia e sociologia. Foi uma das primeiras mulheres a receber uma formação universitária na África, e a experiência de ser uma das poucas mulheres em uma sala de aula repleta de homens (duas mulheres entre 300 homens) foi fundamental na sua escolha por uma carreira na sociologia, em particular no estudo das relações de gênero.

Fatou Sow é especialista em relações de gênero, tendo abordado assuntos relativos à participação e representação política feminina, além de questões pertinentes à saúde, e o estabelecimento de uma rede de relações entre as mulheres senegalesas e as feministas em outros países fora da África. Crítica e ativa no que tange as atitudes e tradições senegalesas com respeito à mulher, em 2000, ela lançou o projeto chamado The teaching, reseaqrch and documentation of woman’s studies  and the analyses of gender relations in the social sciences in Africa (O Ensino, a Pesquisa e a Documentação dos Estudos sobre a Mulher e a Análise das Relações de Gênero nas Ciências Sociais na África), na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, onde ela é catedrática de sociologia. Este projeto causou controvérsia entre seus pares na UCAD, mas não restringiu a professora e pesquisadora, que expandiu ainda sua análise para o mundo feminino islâmico.

Ela advoga a causa de que uma releitura do Alcorão é necessária, o que é vital para uma apreciação correta da contribuição da mulher e do seu papel no Islã. Ela encoraja as mulheres muçulmanas a empregarem seus conhecimentos linguísticos e teológicos como uma forma de desafio à interpretação patriarcal dos ensinamentos corânicos, pois ela crê que essa interpretação misógina e errônea do texto sagrado se cristalizou ao longo dos séculos.

Estas idéias são desenvolvidas a fundo na obra Woman and islam in Africa in the XXI century: an african feminist perspective (As Mulheres e o islã na África do século XXI: uma perspectiva feminista africana) (2004). A professora é também autora de outras obras de grande importância para os estudos feministas, incluindo Notre corps, notre santé: la santé et la sexualite des femmes en Afrique Subsaharienne (Nosso Corpo, nossa Saúde: a saúde e a sexualidade das mulheres na África Subsaariana) (2004), e La recherche feministre francophone: langues, identités et enjeux (A pesquisa feminista francófona: línguas, identidades e desafios) (2009).

Acadêmica e pesquisadora de grande capacidade intelectual e enorme engajamento nas causas humanistas e dos direitos das mulheres africanas, Sow recebeu diversos prêmios e honrarias acadêmicas, tais como a bolsa Fulbright (Universidade de Maryland em 1980 e UCLA em 1984), além dos doutorados honoris causa nas Universidades de Toronto (1992) e Ottawa (2002). Sow também atua como consultora para inúmeras organizações humanitárias, tais como a UNESCO, UNDP e USAID.

BIBLIOGRAFIA

KONATE, Dior. “Fatou Sow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 447-448.

LACOH, Thérèse; PUEH, Isabelle. Fatou Sow, les défis d’une féministe en Afrique. 2008.

SOW, Fatou. Dépendence et développment: le statut de la femme en Afrique moderne. Notes Africaines, Dakar, 1973.

SOW, Fatou. As mutilações genitais femininas: estado atual na África. Revista Eletrônica Labrys: Estudos Feministas, 2004:   http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys5/textoscondensados/sowbr.htm

Fatoumata Diarra (1949)

Fatoumata Dembélé Diarra é juíza da Corte Penal Internacional nascida no Mali. Frequentou as escolas primária e secundária no Mali e recebeu seu diploma universitário em Direitos Humanos da Universidade de Dakar (1971). Além disso, cursou o programa de graduação em Direito na Escola Nacional de Administração em Bamako e recebeu o diploma de Direito da Escola Nacional de Magistratura em Paris.

Sob o regime de Moussa Traoré, trabalhou na defesa de vítimas da violência política. Foi uma das principais membros do movimento de base que desafiou a ditadura militar no Mali. Atuou como conselheira legal na Convenção de Soberania Nacional em 1991, quando ajudou a elaborar a nova constituição. Também foi vice-presidenta do Groupe Féminin Droit de Suffrage – GFDS (Grupo pelo Direito do Sufrágio Feminino), e líder do Observatório dos Direitos da Mulher e da Criança. Presidiu uma organização de combate à fraude eleitoral, a Rede de Trabalhos APEM, a Associação das Juristas Malinesas, foi vice-presidenta da Federação de Advogadas Africanas e da Federação Internacional de Mulheres em Carreiras Legais.

Fatoumata Dembelé lutou pelo estabelecimento de dispositivos legais de proteção para mulheres, como o fim dos casamentos forçados e o casamento de meninas pré-adolescentes. Foi a representante das mulheres malinesas na Conferência Internacional da Mulher  das Nações Unidas em Pequim ( 1995).

Em 2003, foi eleita para a Corte Penal Internacional, quando comandou tribunais de acusados de genocídio e crimes contra a humanidade, como as atrocidades nos conflitos entre Bósnia, Sérvia e Croácia nos anos 1990, além de presidir, em 2008, parte dos procedimentos legais contra Jean-Pierre Bemba, ex-líder rebelde e candidato presidencial congolês, e de ser juíza no tribunal de Germain Katanga e Mathieu Ngujolo, líderes de movimentos rebeldes no Congo, em 2009  e 2010.

BBLIOGRAFIA

CIAMPI, Annalisa. The International Criminal Court. Law and Practice of International Courts and Tribunals, v. 5, p. 325-353, 2006.

RICH, Jeremy. “Fatoumaa Dembélé Diarra”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 193-194.

WING, Susanna. Constructing Democracy in Transitioning Societies of Africa: constitutionalism and deliberation in Mali. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2008.

Fauziya Kassindja (1977)

Escritora togolesa, nasceu de uma família com sete filhos que falava Hausa. Como suas irmãs, Kassindja foi poupada da operação ritual genital por insistência do pai. Muhammad Kassindja (1935-1993) era um muçulmano devoto, mas de pensamento livre, da etnia Tchamba e Koussountou, que administrava uma empresa de transporte de sucesso em Kpalimé, na fronteira de Gana com o Togo. Ele mandou sua filha favorita para estudar na madraça (escola corânica) e, de 1991 em diante, ela estudou no Saint Prosper’s College, onde aprendeu falar fluentemente o inglês para que pudesse ajudar em seu trabalho.

Com a morte prematura do pai (1993), sua mãe, que era de etnia Fula, foi expulsa de casa pelos parentes do pai e não teve alternativa a não ser retornar ao Benin, sua terra natal. Praticamente órfã, Fauziya, e o irmão mais novo, foi levada por uma tia paterna conservadora e destratada, pois os parentes consideravam que ela tinha sido mimada pelas indulgências do seu falecido pai. Ela foi forçada a se casar com um homem trinta anos mais velho que já tinha três esposas. Mas o homem impôs a condição de consumar o casamento, no leito, assim que ela fosse extirpada genitalmente, de acordo com o costume local.

Com a ajuda de sua irmã mais velha, chamada Ayisha, ela fugiu de Accra, onde morava, para Düsseldorf, na Alemanha. Depois de dois meses, decidiu procurar asilo nos Estados Unidos, onde sabia que tinha parentes e podia falar a sua língua. Ao chegar ao aeroporto de Newark (1994), declarou que estava viajando com um passaporte falso e pediu asilo político, mas sua história não foi considerada credível.

Assistida por Layli Miller Bashir, uma estudante veterana de direito, ela deu entrada com um pedido de asilo, enquanto permanecia em uma área de reclusão de imigrantes indesejáveis. Com a ajuda de Miller, sua história foi contada no livro autobiográfico Do they hear you when you cry? (Eles te ouvem quando chora?) (1997), logo traduzido para muitas línguas, incluindo holandês, francês e alemão. Admtida no país, Fauzyia Kassidja passou a integrar o conselho consultivo do Centro para Estudos de Gênero e Refugiados, fundado em 1999. Seu caso tem sido amplamente citado como um precedente para pedidos de asilo político baseados em questões de gênero.

BIBLIOGRAFIA

BECKERS, Elisabeth. “Fauziya Kassindja”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 306-307.

KASSINDJA, Fauziya; MILLER, Layli. Do they hear you when you cry? Nova Iorque: Delacorte, 1998.

MATTER OF KASINGA. Center for Gender and Refugee Studies, 1996:  https://cgrs.uchastings.edu/our-work/matter-kasinga-1996

Gladys Adda (1921-1995)

Ativista dos direitos das mulheres tunisiana e jornalista. Nasceu na cidade de Gabes, de uma família de judeus norte-africanos originalmente da comunidade de Batna, na Argélia. Desde cedo a mãe a incentivou aos estudos, embora tenha enfrentado muitos problemas devido ao anti-semitismo e ao colonialismo que vigorava nas escolas de formação primária e secundária, o que despertou nela desde cedo o repúdio ao regime colonial.

Ela foi forçada pela sua família a desistir dos estudos quando tinha quinze anos (1936) e a casar com um homem da comunidade judaica que era doze anos mais velho do que ela. Dois anos mais tarde, muitos judeus foram vitimados por ataques fomentados por fascistas italianos residentes na Tunísia. No início da década de 1940, após o divórcio, estabeleceu-se em Túnis, passando a morar com Bice Slama, outra judia tunisiana, que era politicamente engajada. Ela passou a militar na luta anticolonial, antinazista e em 1944 ingressou no Partido Comunista tunisiano, ampliando a sua luta em prol dos direitos dos trabalhadores. Ambas panfletavam jornais comunistas em fábrica, procurando incentivar a conscientização dos operários sobre a exploração do trabalho.

Em 1944, Adda também participou da fundação da Union des Femmes Tunisiennes – UFT (União de Mulheres da Tunísia), liderada pela Nabiha Ben Miled, uma muçulmana tunisiana. No mesmo período, casou-se e teve dois filhos, em um período de dificuldade material, quando contou com a ajuda de companheiros de militância. A partir de uma dupla perspectiva de mãe e militante, ela logo percebeu a urgência de educar as mulheres, muitas das quais eram analfabetas. Outra área de seu ativismo era a saúde das mulheres, que tinham sido deliberadamente negligenciadas pelo regime colonial. Ela e outras militantes organizaram clínicas gratuitas para as mulheres bem como escolas de alfabetização para mulheres adultas.

Após a emancipação da Tunísia (1956), a UFT passou a apoiar a guerra e libertação da Argélia, que transcorreu até 1962 e teve terríveis consequências para as mulheres argelinas, crianças e civis.  Adda e as mulheres da UFT organizaram serviços de apoio médico e financeiro para os combatentes argelinos, muitos dos quais viajaram clandestinamente para Tunísia para receber assistência.

Com a independência tunisiana, a Adda rompeu com o partido completamente. Aceitou um posto no Banco Nacional Tunisiano, onde trabalhou até se aposentar em 1981. Em 1956, a Tunísia perdeu seus gerentes financeiros e bancários, assim Adda considerou como importante para justiça social e equidade que o país desfrutasse de um setor bancário sólido; ela continuou a trabalhar pelos direitos das mulheres tanto no Norte da África como globalmente.

Já aposentada, deu cursos em gestão de negócios na universidade e participou da Ligue des Droits de l’Homme (Liga dos Direitos dos Homens), uma organização internacional de direitos humanos.

BIBLIOGRAFIA

CLANCY-SSMITH, Julia A.. “Gladys Adda”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 88-90.

KAZDAGHLI, Habib. Mémoire de femmes: tunisiennes dans l avie publique, 1920-1960. Tunis: Éditions Média Com, 1993.

LARGUÈCHE, Dalenda (Ed.). Femmes en villes. Tunis: Centre de Publications Universitaires, 2006. 

Grace Kodindo (1960)

Ativista e médica, nasceu na cidade de Doba localizado no sul da Província de Logone Oriental, no Chade. Seu pai, Jean Kodindo Demba, era oficial do governo em diversas províncias sob autoridade do regime do partido progressista do Chade – PPT – cujo líder era François Tombalbaye (1960-1975). Kondino teve quatro irmãos e irmãs dos mesmos pais, assim como outros(as) quinze irmãos(ãs) nascidos de seu pai e as outras  esposas dele. 

Por conta da influência do pai e das viagens que ele fazia pela África Ocidental e França, ele insistiu que ela e seus irmãos estudassem. Ao final dos seus estudos secundários, em 1970, Grace recebeu uma bolsa de estudos do governo canadense que a permitiu ingressar na Faculdade de Medicina da Universidade de Montreal.  

Em 1977 Grace voltou ao Chade e começou a trabalhar como uma das poucas médicas no país e em 1979 se casou pela primeira vez com Amós Réoulengar, membro do alto escalão do governo ditatorial de Hissene Habré, com quem teve dois filhos. Na época, trabalhou na capital de N’Djamena (1977-1979). Durante a Guerra Civil ocorrida em 1979 ela então trabalhou com uma médica americana no sul do país, e começou a se preocupar em promover melhor acesso ao cuidado ginecológico para mulheres. Nos anos 1980 continuou seus estudos como ginecologista e trabalhou por quatro anos no Sudão Oriental  mesmo recebendo uma bolsa da União Europeia para aprofundar os estudos, ela escolheu ficar na África já que ela sabia que encontraria diferentes doenças que não veria na Europa. 

Em 1990, participou de um programa de apoio financiado pelo governo da França para fazer diminuir a altíssima taxa de mortalidade infantil no Chade. Por este e outros trabalhos em obstetrícia e Serviço social ela foi premiada pela Universidade de Columbia (2000) e passou a dar cursos na Escola de Saúde Pública Mailman, da mesma instituição.

O seu reconhecimento foi maior após o documentário da BBC Dead mums don’t cry (Mães mortas não choram) (2005), que divulgou a difícil situação das mulheres e mortalidade infantil. Muitas pessoas na Inglaterra arrecadaram dinheiro e uma organização sem fins lucrativos chamada Hope for Grace foi criada. O dinheiro era para programas de saúde das mulheres no Chade e outros países africanos. Essa e outras iniciativas foram muito importantes para os profissionais médicos africanos e um exemplo crucial do papel na mulher no mundo contemporâneo.

BIBLIOGRAFIA

NEILSON, Jim. Panorama; Dead mums don’t cry. BMJ Journals, n. 331, p. 355, 2005: https://doi.org/10.1136/bmj.331.7507.55-a

RICH, Jeremy. “Grace Kodindo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 406-407.

TUBIANA, Marie-José. Parcours de femmes: les nouvelles elites, entretiens, 1997-2003. Paris: Sépia, 2004.

Halima Godane (1935-1994)

Seu nome completo era Halima Mohamed Yusuf. Foi uma poetisa nacionalista e ativista em defesa das mulheres na Somália. Nascida em Kismayu, região de Juba, casou-se aos nove anos com Bulqaas de Ali Seleebaan.

No final da década de 1940, ela se mudou para Mogadíscio e ingressou na Somali Youth League – SYL (Liga da Juventude da Somália). No início dos anos 1950, foi eleita membro do Committato Femminile (Comitê de Mulheres) do partido. Recitava poesias patrióticas femininas do gênero buraambur em ocasiões nacionais e entretinha multidões na reunião semanal, que acontecia aos domingos.

Em 1958 ela apoiou a divisão do SYL de um grupo liderado por Haji Mohamed Hussein para formar a Grande Liga da Somália-GSL e foi eleita vereadora de Mogadíscio nas eleições municipais do mesmo ano.

Em 1967, Halima Godane ingressou em um novo partido, Hawl iyo Hantiwadaag (Partido Socialista dos Trabalhadores) e permaneceu leal às idéias do socialismo e da unidade nacional do país.

BIBLIOGRAFIA

AIDID, Safia. Haweenku Wa Garab (Women are a Force): Women and the Somali Nationalist Movement, 1943-1960. Bildhaan: an International Journal of Somali Studies, v. 10,  p. 103-124, 2010:  https://arcadia.sba.uniroma3.it/handle/2307/4669

Henriqueta Godinho Gomes (1942-2018)

Nasceu em Empada, região de Quinara, Guiné-Bissau, a mais velha de oito filhos. Seu pai, Eduardo António da Silva era empregado dos correios da Guiné “Portuguesa” e sua mãe, Maria Formosa Bastos Pinto, dona de casa. Ao completar o Liceu em Bissau, destacou-se como aluna de quadro de honra e foi galardoada com uma Bolsa de Mérito para completar os estudos universitários em Lisboa. Formou-se em Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa – ISCSP (1967). Ainda durante os estudos universitários, ambos integraram a célula do PAIGC de Lisboa por volta de 1965.

Casou-se em 1967, em Lisboa, com Pedro Augusto Godinho Gomes, colega universitário da Guiné-Bissau. Durante esse período, Henriqueta e Pedro Godinho Gomes foram membros do PAIGC na clandestinidade. Em 1967, após conclusão dos estudos universitários, o casal instalou-se em Luanda com os três filhos, cidade onde viveram e trabalharam até 1974 como quadros superiores no Instituto do Trabalho, Previdência e Acção Social de Angola. Durante esse período, ambos tiveram uma militância ativa no PAIGC em Angola, ao lado de outros destacados membros do partido na clandestinidade, como Corsino Fortes. Após o 25 de Abril de 1974, o casal Godinho Gomes regressou à terra natal, Guiné-Bissau.      

Henriqueta Godinho Gomes veio a tornar-se figura destacada da administração pública e uma líder política da Guiné-Bissau. Determinada e convicta dos seus ideais, tais como a igualdade de gênero e a valorização da Mulher guineense, destacou-se nas fileiras do PAIGC nas décadas de 1980-1990, mormente na Célula Feminina da UDEMU, que chegou a dirigir. Foi por diversas vezes Ministra, tendo assumido, entre outras, as pastas da Saúde e da Função Pública e Trabalho. De personalidade forte e determinada em momentos precisos, como da Conferência para a Reconciliação Nacional, admitiu ter feito parte de uma Geração que lutou pela Liberdade e Desenvolvimento da Guiné-Bissau, mas também de ter cometido erros. Para registo histórico fica a sua leadalde política e pessoal, notável na convicção, que demonstrou na defesa do Regime e do ex-presidente João Bernanrdo “Nino” Vieira.

BIBLIOGRAFIA

SHELDON, Kathleen. Historical Dictionary of Women in Sub-Saharan Africa.  Lanham: Scarecrow Press, 2005

ASSUNÇÃO, Márcia Gomes. Representação política das mulheres na Guiné-Bissau. Lisboa: ISCTE,  2018

Huda Sharawi (1879-1947)

 Nascida com o nome de Nur al-Huda Sultan,  em Minya, no Alto Egito, era filha de um alto dignitário, Sultan Pasha, um rico proprietário de terras e administrador provincial, e de  lqbal Hanim, uma jovem mulher de origem circassiana. Após a morte do pai, foi criada pela mãe aos cuidados de um tutor legal. Estudou em casa com uma professora de francês, a língua empregada plos membros da elite da época, e por um xeique que a ensinou a ler e memorizar o Alcorão.

Em 1892 ela foi forçada pela família a se casar quando tinha treze anos com Ali Sha’rawi, então com mais de quarenta anos, e viveu com ele durante sete anos, divorciando-se no momento em que uma cláusula estipulada por ocasião do casamento, que a união seria monogâmica, foi violada. Ela passou então, na virada para o século XX, a frequentar círculos intelectuais que começavam os elementos que viriam a definir o modernismo islâmico, e a colocar em discussão as profundas restrições impostas às mulheres por motivos religiosos no islã.

Em 1900 ela reatou relações com o marido, que se tornara proeminente no movimento nacionalista, com quem teve dois filhos. A partir daí Huda Sharawi combinou as responsabilidades familiares com a causa das mulheres e da nação. Ela fundou a primeira associação secular filantrópica de mulheres, isto é, uma associação desvinculada dos preceitos religiosos.

Criado em 1909, o Mabarrat Muhammad Ali abriu um dispensário médico para mulheres e crianças pobres. No mesmo ano, em cooperação com mulheres de classe média e escritores, Huda organizou as primeiras palestras “públicas” de e para as mulheres na recém-criada Universidade Egípcia e na sede do jornal nacionalista, Al-Jarida. Ela também ajudou a criar em 1914 duas sociedades intelectuais, a al-Ittihad al-Nisa’i al-Tadhibi (União Feminina de Refinamento) e a Jami’iyyat al-Raqi al-Adabiya lil-Sayydidat al-Misriyyat (Sociedade de Melhoramento das Senhoras), espaços de debate entre mulheres sobre questões de gênero e os problemas nacionais.

Na década de 1920, sua militância articulou as pautas e reivindicações anticoloniais e as pautas feministas. Ela esteve à frente da organização de manifestações de protesto contra a ocupação britânica do Egito e assumiu a presidência do Comitê Central de Mulheres, o Lajnat al-Wafd al-Markaziya lil-Sayyidat, que era afiliado ao Partido Wafd, controlado por lideranças masculinas. Em 1923, após a independência, ela fez parte da União Feminista Egípcia – EFU (al-Itihad al-Nisaial-Misri) e representou as mulheres egípcias na International Woman Suffrage Alliance – IWSA (Aliança Internacional das Mulheres pelo Sufrágio) realizada em Roma (1926), participando de sua comissão executiva até 1947.

Ao retornar ao Cairo da conferência de Roma ela levantou publicamente o véu que cobria o seu rosto, em protesto contra uma prática falsamente imposta às mulheres em nome do Islã. A EFU, sob sua liderança, criou a revista L’Egyptienne (A Egípcia) (1925), que serviu como porta-voz do movimento feminista laico e reivindicava educação igualitária para mulheres do campo, direitos políticos e a reforma dos códigos de comportamento e dos preceitos judiciais influenciados pelo islã. O passo seguinte foi publicar o periódico em língua árabe, al-Misriyya (A Mulher Egípcia) (1937), e fomentar a criação de escolas.

Aliando-se às mulheres palestinas, ela presidiu no Cairo uma Conferência da Mulher do Oriente pela Defesa da Palestina (1938), o que lançou as bases para um nascente feminismo pam-árabe que levou à organização da Conferência Feminista Árabe (1944). Neste último evento foi criada a al-Ittihad al-Nisa’i a Arabi (União Feminista Árabe), em vigor a partir de 1945 sob a presidência de Huda Sharawi, que, assim, participou em diversos âmbitos na gestação do feminismo internacional.

BIBLIOGRAFIA

BADRAN, Margot. Feminists, islam, and nation: gender and the making of modern Egypt. Princeton: Princeton University Press, 1995.

BADRAN, Margot. “Huda Sharawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 353-354.

BADRAN, Margot. Feminism in islam: secular and religious convergences. Oxford: Oneworld, 2009.

LANFRANCHI, Sania Sharawi. Casting off the veil: the life of Huda Shaarawi, egypt’s first feminist. Londres; Nova Iorque:  I. B. Tauris, 2011. 

SHARAWI, Huda. Harem years: the memoirs of an egyptian feminist. Trad. Margot Badran. New York: Feminist Press at the City University of New York, 1986.

Jeanne Gervais (1922-2012)

Educadora e ativista da Costa do Marfim e a Primeira Ministra de Assuntos das Mulheres. Nasceu como Jeanne Sieffer, em Grand Bassam, estudou na École Normale de Jeunes Filles (Escola Normal para Meninas) em Rufisque e depois recebeu formação para professora em Saint-Cloud, na França.

Ao retornar à Costa do Marfim trabalhou como inspetora das escolas primárias e diretora escolar.  Ao mesmo tempo, envolveu-se no nacionalismo radical do Partido Democrático da Costa do Marfim – Grupo Democrático Africano – PDCI-RDA e mobilizou mulheres na campanha em defesa da independência.

Em 1963 Jeanne uniu forças com a Primeira-Dama, Marie-Therese Houphounët-Boigny e outras mulheres, muitas delas também esposas de políticos,  para estabelecer e criar a Associação das Mulheres Costa-Marfinenses – AFI. Muitas delas eram da etnia akan e já participavam da ala feminina da Liga das mulheres para Defesa da Família Africana –  a nova organização que substituiu a ala feminina do PDCI-RDA, que ela presidiu por  muitos anos.

Em 1976, o governo da Costa do Marfim criou a Comissão Nacional da Promoção da Mulher e entregou a direção a ela. Este órgão foi a seguir transformado no Ministério das Mulheres, e Jeanne Gervais assumiu o cargo de Ministra (1977-1984).  Na pasta, ela enfatizou a expansão da educação e oportunidade de empregos para as mulheres, igualdade jurídica e reforma dos costumes arcaicos e leis que privavam as mulheres do controle de propriedades privadas e trabalho.

Apesar de seu empenho público, muito resta a ser feito para alterar as desigualdades de gênero na Costa do Marfim em matéria social e econômica, em matéria de acesso escolar para as meninas e ampliação da representação política: em 2005, apenas 8,5% dos cargos políticos eram ocupados por mulheres no país.

BIBLIOGRAFIA

D’EMMEVILLE, Annette Mbaye; BA, Mariama (Eds.). Femmes africaines: propos recuellis par Annette Mbaye d’Emeville sur les thèmes de femmes et société. Romorantin: Éditions Martinsart, 1982. 

DENZER, laray. “Jeanne Gervais”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 456-458.

TOUNGARA, Jeanne Maddox. Inventing the african Family: gender and family law reform in Côte-d’Ivoire, Journal of Social History, v. 28, n. 1, p. 37-61, 1994.

Léonie Abo (1945)

O seu nome completo é Wassis Hortense Léonis Abo. Ativista congolesa, liderança proeminente da rebelião Kwilu na República Democrática do Congo. Em 1963 ela se juntou à revolta armada liderada por Pierre Mulele, o líder da rebelião e ex-Ministro da Educação no Governo de Patrice Lumumba movimento que contou com a participação de cerca de 100 mil rebeldes, dos quais cerca de 25% a 30% eram mulheres.

Nasceu em Malungu, às margens do Rio Kwilu, no então Congo Belga. Com a morte da mãe durante o parto, Abo, nome que, na língua quimbundo significa “Luto”, foi criada por parentes que a adotaram. Contra a vontade, e mediante protestos de sua avó, frequentou a escola primária na aldeia de Lukamba (1952) e o secundário na escola missionária de Totshi, quando foi batizada e renomeada como Léonie Hortense.

Em 1957, completou sua formação como parteira assistente e enfermeira pediatra em Foreami – um estabelecimento de formação pela rainha belga Elisabeth.  Viveu um casamento arranjado com Gaspar Mumputu (1959) marcado pela violência doméstica, tendo durante este período aprendido sobre as atividades políticas do Parti Solidaire Africain (Partido Solidário Africano). Contra sua vontade, foi levada para um acampamento rebelde em 1963 devido aos seus conhecimentos médicos. Lá conheceu e estabeleceu um relacionamento conjugal com Pierre Mulele, ficando ao seu lado até ele ser assassinado em 1968 na cidade de Kinshasa, e ela foi mantida prisioneira pelas forças do governo de Mubuto Sese Seko até 1969. Ao sair da prisão refugiou-se no vizinho Congo Brazzaville,  permanecendo em exílio até um pouco antes de Mobutu ser deposto.

Léonie Abo trabalhou como enfermeira e deu à luz duas filhas, Eulalie (1971) e Ghislaine (1974). Retornou ao Congo em 1996, no contexto da derrubada de Mobuto. Ela ajudou a estabelecer organizações locais de mulheres para crianças desnutridas e gerenciou uma fazenda na área de Maluku, produzindo produtos destinados aos bairros populares da cidade. Ela co-fundou a Fraternité des Patriotes Congolais – FRAPAC (Fraternidade dos Patriotas Congoleses), uma organização que unia os remanescentes dos movimentos rebeldes de Kwilu e Kwango, e foi integrante ativa e presidenta honorária da Union des Femmes Congolaises pour le Développement – UFCD (União das Mulheres Congolesas para o Desenvolvimento). Também trabalhou na reconstrução rural no governo de Abdoulaye Yerodia (2003-2006).

Nas eleições de 2006, foi candidata pela Union des Patriotes et des Nationalistes Congolais – UPNAC (União dos Patriotas e dos Nacionalistas Congoleses) na região de Kikwit. Neste momento, Léonie Abo notou as discrepâncias entre as palavras e ações dos líderes no que diz respeito a igualdade de gênero. Em dois textos curtos, defendeu firmemente o legado contestado de Mulele, enfatizando o seu papel como companheira de luta. Desse modo, valorizou sua própria contribuição para descolonização, contestando a ideia de dependência associada ao papel da esposa. Para ela, a luta pelos direitos das mulheres não pode ser separada daquela travada contra o capitalismo e o imperialismo.

BIBLIOGRAFIA

BOUWER, Karen. Léonie Abo: the political lessons of the maquis. In: IDEM. Gender and decolonization in the Congo: the legacy of Patrice Lumumba. Nova Iorque: palrave MacMillan, 2010, p. 101-130.

BOUWER, Karen. “Wassis Hortense Léonie Abo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 45-47.

COQUERY-VIROVICH, Catherine. Abo: revolutionary woman or tool of revolution? In: African woman: a modern history. Boulder: Westview Press, 1997, p. 186-188.

MARTENS, Ludo. Abo: une femme du Congo. Bruxelas; Paris: L’Harmattan, 1994.

Louise Antoinette Njie (1922-2014)

Primeira Ministra da Gâmbia e protagonista da educação feminina em seu país, também lembrada como “Tia Lou”. Nasceu em Banjul, de uma família cujos antepassados pertenciam ao grupo étnico krio, e tanto o seu pai quanto sua mãe tiveram destacada participação na vida pública durante o período colonial.

Louise freqüentou a Escola Infantil St. Joseph’s, a Escola Metodista para Meninas de Banjul e obteve certificado da Escola Cambridge (1942). Frequentou a prestigiada Achimota Teachers College (Faculdade para professores de Achimota) em Accra, Gana, de 1942 a 1945. Em 1950, casou-se com Denis (Ebrima) N’jie, dentista, com quem teve um filho, Koblah, que morreu em 1997.

Ao retornar a Gâmbia, lecionou e foi diretora de escolas em Bakau (1957-1963) e estudou Administração Educacional na Universidade de Oxford.  Foi nomeada Oficial de Educação da Mulher responsável pela promoção da educação das meninas (1964),inclusive na Faculdade de Gâmbia, e atuou como Diretora de Educação responsável pelas escolas de Banjul e Kombo até sua aposentadoria em 1977. Ela também teve destacado trabalho em igrejas e instituições de caridade, atuando como presidente da Sociedade da Cruz Vermelha da Gâmbia por dois mandatos desde 1970 e como membro do Standing Comitê e Sínodo Distrital da Igreja Metodista, e foi uma das fundadoras da agora extinta Federação das Mulheres da Gâmbia.

A carreira política de Louise Antoinette Njie começou em 1977, quando foi nomeada para o Parlamento, onde levantou questões relativas às mulheres e crianças, como o estabelecimento de creches para filhos de mães que trabalham e o ensino de ciências domésticas como disciplina obrigatória para meninas. Em 1985 ela foi designada como ministra para assuntos femininos, quando cuidou para a ampliação de matrículas para meninas. Sucessivamente, foi Ministra da Saúde (1987-1990), altura em que defendeu o planejamento familiar, nutrição em saúde e educação para ajudar a reduzir a taxa de mortalidade materna, além de estabelecer o Programa Nacional de Controle da Aids (1987).

BIBLIOGRAFIA

CEESAY, Hassoum. Gambian women: profiles and historical notes. Kanifing: Fulladu Publishers, 2011.

CEESAY, Hassoum. “Louise Antoinette N’jie”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 475-476.

CEESAY, Hassoum. Tribute: Louise Antoinette Njie. The point: for freedom and democracy, 07/05/2014: http://thepoint.gm/africa/gambia/article/tribute-louise-antoinette-njie-1922-2014

Lucy Lameck (1934-1992)

Nacionalista tanzaniana e uma das primeiras mulheres a servir no governo do país.  Nasceu próximo ao Monte Kilimanjaro, em uma família de camponeses. Seu nome completo era Lucy Selina Lameck Somi. A família era politicamente ativa na luta anticolonial, tanto que hospedou Julius Nyerere, mais tarde primeiro presidente da Tanzânia, nos primeiros anos do seu ativismo político.

Lameck frequentou a Escola Missionária Católica Kilema e depois teve treinamento de enfermagem, recebendo o diploma em 1950. Ela não trabalhou no sistema médico discriminatório do sistema colonial britânico, e limitou-se a trabalhar como secretária.

No contexto da independência, trabalhou na Kilimanjaro Native Cooperative (Cooperativa Nativa de Kilimanjaro) (1955-1957) e se envolveu com a Tanganyika African National Union -TANU  (União Nacional Africana de Tanganyika). Em 1957, suas atividades políticas fizeram com que ela ganhasse uma bolsa da British Trade Union Congress (Congresso Sindical Britânico) para estudar Economia e Política no Ruskin College, em Oxford. Enquanto isto, continuava com as atividades anti-coloniais, participando regularmente de reuniões na Casa da África Ocidental, em Londres. Ela também passou um semestre na Western Michigan University, nos Estados Unidos.

Lameck voltou à Tanzânia em 1960, assumindo funções em diversos setores do governo de Julius Nyerere, criando o secretariado das mulheres da Tanzânia, e ocupando posição no Parlamento. Em 1965, em um discurso, Lameck argumentou que a África tinha riqueza suficiente para se desenvolver e ela apresentou algumas das primeiras formulações sobre independência – um conceito que era central para a ideia de ujamaa – a proposta tanzaniana do socialismo africano. Ela também orientou sua ação contra determinadas práticas tradicionais que considerava opressora para as mulheres, como o casamento arranjado.

Nos vinte anos seguintes, Lucy continuou a ser representante no Parlamento e ocupou pastas como a do Ministério da Saúde (1966-1972), e  propôs medidas legislativas para melhorar a condição das mulheres na sociedade tanzaniana. Ainda hoje é mencionada como modelo para jovens políticas que dão continuidade ao seu trabalho em nome das mulheres e das comunidades rurais do país.

BIBLIOGRAFIA

GEIGER, Susan. TANU Women: gender and culture in the making of Tanganikan nationalism, 1955-1965. Portsmouth:  Heinemann, 1997.

SHELDON, Katleen. “Lucy Lameck”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 464.

Malika al-Fassi (1919-2007)

Primeira jornalista marroquina e pioneira do feminismo em seu país. Nasceu  no seio de uma família da elite da cidade de  Fez durante o período colonial francês.  Devido a sua condição privilegiada teve acesso aos melhores professores locais, tornando-se um brilhante estudante, e já questionava o motivo de seus irmãos poderem ir à escola enquanto as mulheres recebiam educação dentro de casa, sobre assuntos da vida doméstica.

Aos quinze anos escreveu o primeiro artigo em que defendia o direito das mulheres marroquinas a ter boa educação, sendo o texto publicado na revista al-Maghrib (1935). Ao fazê-lo, tornou-se não só a primeira mulher jornalisa, mas também a pioneira no movimento feminista moderno de seu país. 

No período de 1935-1943 Malika produziu diversos artigos acerca do acesso das mulheres ao ensino formal, e um deles, O renascimento da mulher marroquina, tratava da educação da princesa Lalla Aicha. Em 1947 ela criou o movimento de mulheres dentro do Istiqlal, o partido que advogava a independência do Marrocos, dando continuidade à bandeira da educação feminina. Também lutou pelo direito das mulheres ao voto. Embora muito ativa em todo o período da emancipação, nunca recebeu nenhuma proposta de participação em órgãos governamentais.

Nas décadas seguinte deu continuidade ao seu ativismo social e feminista, e além disso criou e lecionou em centros de alfabetização em várias cidades, sendo co-fundadora da Liga Marroquina de Educação Básica. Atuou até o fim da vida em uma associação de meninas órfãs.

BIBLIOGRAFIA

AKHARBACH, Latifa; Rerhaye, Narjis. Femmes et Politique. Casablanca: Editions le Fennec, 1992.

BAKER, Alison. Voices of Resistance: oral histories of moroccan women. Albany: State University of New York Press, 1998.

CASIELLES, Laura. Malika el Fassi, uma pioneira de la intersección entre la lucha anticolonial y el feminismo. Abaco: Revista de Cultura y Ciencias Sociales, n. 100, p. 70-75, 2019: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7219293  

GLACIER, Osire. “Malika al-Fassi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 354-356.

Malika Assimi (1946)

Nascida em Marrakech, seu pai, Abdelkader Hassan, teve participação destacada na independência do Marrocos. Como ele, Malika Assimi desde cedo demonstrou interesse pela poesia, o que viria a se afirmar em sua juventude.

Proeminente intelectual e acadêmica, criou na década de 1970 a revista Al-Ikhtiar (A Opção), lecionou na Universidade de Marrakech e no Instituto Universitário de Investigação Cientifica de Rabat. Explorando sua inspiração como poetisa, escreveu Écritures hors des murailles du monde (Escritos fora das muralhas do mundo) e Le sang du soleil (O sangue do sol), e formulou uma crítica social ao conservadorismo vigente no ensaio La femme et la problematique de la démocratie (A mulher e o problema da democracia).

Engajada nas questões de seu tempo, Malika se envolveu nas questões políticas do país. Ingressou no partido L’Istiqlal, do qual veio a fazer parte do comitê executivo, e pelo qual foi eleita como deputada, uma das únicas do Marrocos.

BIBLIOGRAFIA

 JAY, Salim. Dictionnaire des écrivains marocains. Casablanca; Paris: A. Retnani; Éd. Paris-Mediterranée, 2005.

Mamphela Ramphele (1947)

Nasceu no Distrito de Bochum, Província de Transvaal, atual Limpopo, na África do Sul.  Pertence a uma família de formação cristã protestante, sendo neta de pastor e filha de pai e mãe educadores(as).   Com excelente formação primária e secundária deu início em 1967 ao curso de medicina, algo incomum para mulheres negras na época, formando-se na Universidade de Natal.

Pela mesma época teve contato com Steve Biko e Barney Pityana, fundadoresda African Student’s Organization – SASO (Organização Estudantil Africa) (1969), que viriam a liderar  o Movimento da Consciência Negra durante a década de 1970. Ramphele tornou-se oradora da SASO e fazia trabalho comunitário e voluntário em clínicas locais. Durante esse tempo, manteve um relacionamento amoroso com Biko, com quem teve um filho.  

Na década de 1980 ela passou por um segundo casamento, mudou-se para a Cidade do Cabo e passou a estudar os fundamentos sociais e econômicos da pobreza e da desigualdade, o que a tornou academicamente reconhecida. Realizou o curso de mestrado em Boston, Estados Unidos (1988) e completou o doutorado na Universidade do Cabo (1991), com pesquisas sobre relações sociais e relações de gênero junto ao African Gender Institute (Instituto Africano de Estudos de Gênero) que ela própria criara.

Ela viria a ocupar o cargo de vice-reitora da Universidade do Cabo, e continuou o ativismo no período de transição pós apartheid. Suas pesquisas renderam publicações de diversos livros, como Across boundaries: the journey of a south african woman Leader (Além das fronteiras: a jornada de uma mulher da África do Sul) (1996). Também estendeu sua influência ao mundo empresarial e às organizações sociais, prestando assessoria a corporações, ao Banco Mundial e a Organizações Não Governamentais, com projetos voltados para a promoção da educação, igualdade social e afirmação dos direitos das mulheres.  Ela fundou o Circle Capital Ventures, uma corporação de investimento para impulsionar o empreendedorismo negro.

BIBLIOGRAFIA

HADFIELD, Leslie. “Mamphela Ramphele”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 171-172.  

MAMPHELA, Ramphele . Political widowhood in South Africa: the embodiment of Ambiguity. Daedelus, v. 125, n. 1, p. 99–117, 1996.

PITYANA, N. Barney et alii. Bounds of possibility: Steve Biko and the legacy of Black Consciousness. Cape Town: David Philip, 1991.

Marie Elise Gbedo (1954)

Feminista e politica  beninense, nasceu na cidade de Mankono, na Costa do Marfim. Freqüentou a escola primária e secundária no Benin e obteve sua formação universitária na França, onde se formou em Direito e se especializou em Direito Empresarial pela Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne (1985).

Em sua autobiografia, afirmou que escolheu manter sua independência, preferindo não se casar. Marie Elise começou a atuar na vida pública durante a ditadura de Mathieu Kérékou, no final dos anos 1980. Seu primeiro objetivo foi incorporar mais proteções aos direitos individuais das mulheres no código legal beninense. Ela entrou formalmente na arena política apenas em maio de 1998, quando foi nomeada Ministra do Comércio. Foi demitida em junho de 1999, quando o governo lançou uma grande investigação sobre a corrupção na empresa estatal petroleira beninense.

Em 2001 Marie Elise Gbedo fez história no Benin ao se tornar a primeira mulher a concorrer à presidência. Optou por participar como candidata independente em vez de formar um partido político. Seu slogan, “Hwénsu”, significava “É hora”, em fon, a língua nacional do país. A campanha não recebeu a devida atenção da imprensa e de apoiadores, e ela obteve apenas 3% dos votos do eleitorado. Voltou a concorrer nas eleições de 2006, no qual Bonii Yayi saiu vencedor, e teve sua campanha retratada em um documentário do cineasta Sanvi Panou, L’Amazone candidate (A candidata amazona) (2007).

Em continuidade ao trabalho legislativo, lutou  pela criação de normas jurídicas contra a poligamia, o que gerou crítica de muitos parlamentares homens.  Em uma conferência de 2005 sobre mulheres e política, proferida em Niamey, capital da República do Níger, Gbedo encorajou as mulheres a entrar no processo político. Outra importante frente de reivindicações diz respeito às melhorias da condição de acesso das meninas à educação, o que tem sido incentivado pela Organização Hwénsu, que ela fundou. Tal ativismo ocasionalmente tem consequências para sua segurança, e em 2009 ela sofreu ameças e ataques perpetrados por indivíduos desconhecidos, alguns deles mascarados.

Gbedo recebeu a medalha da Ordem Nacional do Benin e foi admitida pelo presidente francês Nicolas Sarkozy na Legião de Honra por seu ativismo em defesa dos direitos humanos. Sua trajetória aparece retratada em suas memórias, intituladas Le destin du roseau (O Destino do junco) (2009).

Ela voltou a concorrer sem sucesso à presidência em março de 2011, e apoiou Boni Yayi após ele ter obtido a vitória. Esta independência e tenacidade revelam ao mesmo tempo a fragilidade da democracia em seu país e a insistência das mulheres em aproveitar todas as oportunidades na contracorrente das realidades beninenses. 

 BIBLIOGRAFIA

AHISSOU, Virgile. “Marie-Elise Gbedo: the woman who dared”. Courier ACP-UE, p.  73-74, maio-junho 2001.

GBÉDO, Marie-Elise. Le destin du roseau. Cotonou: Ruisseaux d’Afrique, 2009.

RICH, Jeremy. “Marie Elise Gbedo”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 437-438.

Mosadi Seboko (1950)

Primeira mulher a se tornar chefe suprema em Botswana, é a filha mais velha do kgosi (chefe supremo; rei) Mokgosi III.  Mosadi, que se traduz como “mulher” na língua setswana, nasceu em Ramotswa, uma aldeia a cerca de 32 km ao sul da capital, Gaborone, que é também a capital do grupo étnico Balete ou Bamalete.

Ela realizou os estudos no Colégio de Moedin, na aldeia de Otse e na Escola de Ultramar de Cambridge, onde se formou em 1969. Na juventude, começou a trabalhar para ajudar a mãe e os(as) sete irmã(o)s, uma vez que, depois que o pai morreu (1966) a regência passou ao irmão dele. Entrou no Barclays Bank (1971-1995) onde se tornou gerente e administradora de departamento, e depois foi gerente em um escritório em Broadhurst (2001).

 Quando o tio dela morreu (1996), a função real passou ao seu irmão, que foi nomeado como chefe supremo como kgosi (rei) Seboko II, e após a morte deste em 2001 sem deixar herdeiros os tios paternos indicaram um primo dela alegando que as mulheres não serviam para serem chefes supremos.

Tradicionalmente as mulheres eram autorizadas a participar nas assembleias de aldeia (kgotlas) apenas se fossem convidadas a fornecer informações ou evidências em processos judiciais, como testemunhas, mas poderiam, no entanto, servir como regentes. Seboko desafiou o costume e, com o apoio da mãe e das irmãs, assumiu a regência. Estando na função, desafiou uma vez mais as tradições e exigiu que fosse nomeada como chefe supremo, uma posição que ela argumentava ser legitimamente sua, e tomou como base a Constituição do Botswana, que proíbe qualquer forma de discriminação, inclusive de gênero.

Mosadi foi apoiada em suas demandas pelo movimento de mulheres representado por Emang Basadi, um grupo de ativistas e políticos de alto escalão, incluindo mulheres ministras de gabinete. Em dezembro de 2001, em uma reunião em Ramotswa com centenas de representantes da etnia Balete, a corte real a elegeu como a primeira chefe suprema feminina, e o ministro do governo local de Botswana, Dr. Margaret Nasha, aprovou sua nomeação. Em 7 de janeiro de 2002 Seboko assumiu oficialmente a posição de chefe supremo dos Balete e prestou juramento na Ntlo-ya-Dikgosi (Casa dos Chefes), uma assembleia consultiva de grande influência e dotada de poder de decisão em certas matérias.

No dia 03 de agosto de 2003 ela foi instalada como Kgosigadi (chefe) Mosadi Seboko em uma cerimônia em que compareceram mais de trinta mil pessoas. Devido à grande repercussão assumida pela controvérsia o próprio presidente e o alto escalão do governo compareceram. Ela foi envolta em uma pele de leopardo e recebeu uma lança e um escudo, símbolos de poder da monarquia tradicional.

Seboko preside a corte tradicional dos Balete, resolvendo determinados processos judiciais, e representa os interesses de seu povo junto ao governo federal. Em 2010 ela esteve à frente de um grupo no Supremo Tribunal de Lobatse para defender os seus direitos contra as violações promovidas por uma grande empresa de extração de pedras. Ela defendeu o empoderamento das mulheres e é reconhecida como um símbolo delas, e sua instalação no poder foi vista como um grande passo em frente para as mulheres no Botswana.

BIBLIOGRAFIA

LESLIE, Agnes. “Mosadi Seboko”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 316-317.

MATEMBA, Yonah Hisbon. A chief called “Woman”: historical perspectives on the changing face of Bogosi (chieftainship) in Botswana, 1834-2004. JENDA: a Journal of Culture and African Women Studies, v.7, 2005.

Nabawiyya Musa (1886-1951)

Educadora, nacionalista e feminista egípcia, nasceu em al-Zaqaziq, no Delta do Nilo. Ela não conheceu seu pai, soldado do exército; sua mãe, cujo nome e origens são desconhecidos, cuidou dela e de seu irmão no Cairo, onde ela estudou para ser professora.

Nabawiyya fundou o jornal Majallat al-Fatat (A Revista da Mulher Jovem) que circulou entre 1937 e 1942 e contava com a seção Dhikrayati (Minhas memórias), onde publicou memórias da infância e da luta pelo acesso à educação. Ela descreveu sua vida como uma constelação de lutas para conquistar igualdade e reconhecimento em meio à masculinidade hegemônica; ela narra situações de ridicularização por conta de sua dedicação aos estudos, e um momento em que se sentiu “mais anormal que os outros”; e também fala de outras escolhas não-convencionais, como a de optar por não casar e não ter filhos. Para Margot Badran, Nabawiyya representou um modelo para as mulheres da nova classe média determinadas a encontrar espaços fora da esfera doméstica.

            Nabawiyya foi a primeira mulher egípcia a obter o bacharelado (1907) e a ser diretora de uma escola; também fundou as escolas para meninas Tarqiyat al-Fatah Primary School e Banat al-Ashraf Secondary School. Impedida de estudar na Universidade do Cairo quando jovem, lecionou lá entre 1909 e 1912, e, crítica do governo britânico, Nabawiyya chegou a ser presa.

Ela favoreceu o avanço do feminismo no país como integrante da al-Ittihad al-nisa’i al-misri (União Feminista Egípcia), fundada por Huda Sha’rawi, e esteve na conferência da Aliança Internacional das Mulheres pelo Sufrágio Feminino – IWSA. Suas obras reúnem poemas, coletados em Diwan al-Fatat (Poesia de uma jovem mulher) (1937), o romance Riwayat al-Nabhutub, um livro didático e outros, como al-Mar’a wal-l’amal (A mulher e o trabalho) – marco para o feminismo nacional, por sugerir o trabalho e o patriotismo às mulheres,  e o livro al-Ayat al-bayyinat fi tarbyat al-Banat (Um modelo claro de educação para as meninas).

BIBLIOGRAFIA

BADRAN, Margot. Expressing feminism and nationalism in autobiography: the Memoirs of an egyptian educator.” In: Wmith, Sidonie; WATSON, Julia  (Eds.). De/colonizing the subject: the politics of gender in women’s autobigrapnhy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1992, p. 270-293.  

BADRAN, Margot. Feminists, islam, and nation: gender and the making of modern Egypt. Princeton: Princeton University Press, 1995.

CIVANTOS, Christina. Reading and writing the turn-of-the-century egyptian woman intellectual: Nabawiyya Musa’s Ta’rikhi Bi-Qalami. Journal of Middle East Women’s Studies , v. 9, n. 2, p. 4–31, 2013: https://doi.org/10.2979/jmiddeastwomstud.9.2.4  

VEZZADINI, Elena. “Nabawiyya Musa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 343-344.

Navanethem Pillay (1941)

Juíza e advogada especializada em Direitos Humanos, nasceu em Clairwood, Durban, na África do Sul, de uma família tâmil, isto é, de origem indiana. Seu pai era motorista de ônibus e sua mãe nunca frequentou escola. Com a ajuda da família e amigos estudou na Universidade de Natal, onde se formou em artes (1963) e em direito (1965).  Em 1982 obteve o título de Mestra em Direito e em 1988 obteve o Doutorado em Direitos Humanos e Direito Internacional, ambos pela Universidade de Harvard.

Começou a carreira trabalhando como advogada no escritório do conhecido ativista N. T. Naicker e em 1967 fundou o seu próprio escritório junto com o marido. Atendeu diversos casos de violação dos direitos humanos, sobretudo os abusos cometidos em prisões e pela polícia, o que a colocou na mira das autoridades do regime do Apartheid. Ao longo dos anos 1970 representou ativistas do African National Congress (Congresso Nacional Africano) e em 1973 sua atuação possibilitou que os prisioneiros de Robben Island recebessem apoio jurídico de advogado.

Idealizadora e organizadora de grupos de apoio e acompanhamento pela garantia de direito das mulheres, fundou o grupo internacional de advocacia Equality Now (Igualdade Já). Em 1995, um ano após o início do processo de democratização da África do Sul, Pillay foi indicada para ser Juíza da Suprema Corte do seu país. Também foi indicada para o tribunal penal internacional da ONU após o genocídio de Ruanda, localizado em Arusha, na Tanzânia, do qual ela participou por oito anos e presidiu por quatro (1999-2003).  Ela inseriu a violência sexual como crime contra a humanidade e ato de genocídio, em sentença proferida no julgamento do líder político ruandês Jean-Paul Akayesu, primeira pessoa a ser condenada à prisão perpétua por genocídio em 1995.

Em 2003 Pillay esteve entre os dezoito nomes de juízes(as) escolhidos(as) para compor a Corte Internacional Criminal – ICC e em 2008 iniciou seu mandato de quatro anos como Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

BIBLIOGRAFIA

BOUVARD, Marguerite Guzman. Women reshaping human rights: how extraordinary activists are changing the world. Wilmington: Scholarly Resources, 1996.

HEALY, megan “Navanethem Pillay”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 106-108.

TERRIS, Daniel; Romano, Cesare P. R.; Swigart, Leigh. The international judge: an introduction to the men and women who decide the world’s cases. Waltham: Brandeis, 2007.

Nawal el Saadawi (1931)

Feminista egípcia, escritora,  médica e ativista política.  Nasceu na aldeia de Kafr Tahla, perto do Cairo, de uma família de altos servidores do Estado. Estudou em escola para meninas de Alexandria e depois no distrito de Menouf, no Delta do Nilo, onde frequentou uma escola inglesa, embora a família demonstrasse sua posição anti-colonial. Completou os estudos na escola secundária para meninas Nabeweya Moussa e tornou-se pensionista na Escola Secundária Helwan para Meninas, onde se especializou em Ciências (1945).

Mudando-se com a família para Gizé, Nawal estudou como bolsista na renomada Escola de Medicina Kasr Alainy da Universidade do Cairo (1949-1954) período em que começou a redigir os seus primeiros escritos para o teatro, para revistas estudantis  e também ingressou na luta anti-colonial, envolvendo-se com o líder estudantil revolucionário Ahmed Helmy (1951), com quem teve uma filha, Mona.  

Após a formatura, trabalhou como médica residente no Hospital Universitário de Kasr Alainy, em centros de saúde e em 1958 passou a integrar o Departamento de Doenças Torácicas no Ministério da Saúde do Cairo e Gizé. Depois montou uma clínica e envolveu-se em duas relações conjugais, até o terceiro casamento, com Sherif Hetata (1964). Enquanto isso, realizou Mestrado em saúde pública na Universidade de Columbia, serviu como secretária-geral adjunto da Associação Médica do Egito e foi editora de sua revista (1968-1974).

Em 1972, os comentários de Nawal sobre as dimensões políticas e econômicas da situação das mulheres em seu primeiro trabalho de não-ficção, Woman and sex (A mulher e o sexo) (1969), levaram a sua demissão dos cargos públicos que ocupava. Ela deu continuidade às pesquisas sobre mulheres e neurose na Universidade Aim Shams, no Cairo, que inspirou seu romance mais conhecido, Woman at point zero (Mulher ao ponto zero) (1973)  sobre uma prostituta condenada por assassinato. Deste envolvimento com a literatura veio o seu vínculo com a Egyptian Women Writers Association (Associação de Mulheres Escritoras Egípcias) (1971), que ajudou a fundar.  

No final de 1970 ela se tornou chefe do Programa das Mulheres das Nações Unidas na África e ganhou renome internacional como feminista com a publicação de The hidden face of Eve (A face oculta de Eva) (1977), em que denuncia a situação das mulheres mundo árabe com um contundente relato sobre a prática da mutilação genital da qual ela própria foi vítima aos seis anos. Em 1981, foi presa por criticar abertamente o regime do presidente Anuar Sadat, sendo libertada após o assassinato dele em 1981. No ano seguinte, fundou a Associação de Mulheres Solidárias Árabes, destinada a promover a participação ativa das mulheres árabes em todas as áreas da vida social. Em 1992, foi colocada sob  “proteção” do governo contra sua vontade, e saiu do país.  

Quando voltou ao Cairo, deu continuidade à luta contra o conservadorismo egípcio, sendo acusada de insultar o islã e ameaçada de prisão em 2001, 2007 e 2008. Uma de suas peças teatrais, God resigns at the summit meetings (Deus renuncia nas reuniões de cúpula) (2006) levou a que ela fosse julgada por apostasia e heresia pelas altas autoridades religiosas da Universidade de Al Azhar (2008), e a obra  continua proibida no país. 

El Saadawi sempre retorna ao Egito e não se furta a debater os assuntos mais delicados. Seus muitos romances, memórias e ensaios lidam com a repressão política e econômica, o fanatismo religioso e a opressão das mulheres e práticas misóginas, como a excisão genital feminina. Hoje, ela se vê principalmente como romancista, mas permanece politicamente ativa, como quando usou sua candidatura nas eleições presidenciais de 2005 para expor a superficialidade da democracia do Egito.  Em 2011, se juntou às manifestações contra o governo do presidente Hosni Mubarak na Praça Tahrir, no Cairo.

Ao longo dos anos, seus livros se tornaram disponíveis em vários idiomas, e ela recebeu vários prêmios e doutorados honorários em reconhecimento ao seu ativismo e sua obra. Tem sido convidada como professora visitante em várias instituições acadêmicas nos Estados Unidos e na Europa e é uma conferencista regular e apaixonada em eventos públicos e conferências acadêmicas em todo o mundo.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. Nawal El Saadawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 293-295.

EMMENYONU, Ernest N.; MAUREEN, N.. Emerging critical  perspectives on Nawal el Sadawi. Trenton; Asmara: Africa World Press, 2010.

LUZ, Flávia Abud. Entre memória e ativismo político: contribuições de Nawal el Saadawi para o feminismo egípcio e transnacional. Malala (USP), v. 8, n. 20, 2020: https://www.revistas.usp.br/malala/article/view/161802

SAADAWI, Nawal. A daughter of Isis: the autobiography of Nawal el Saadawi. Londres:  Zed Books, 2009.

Oyinka Morenike Abayomi (1897-1990)

Destacada nacionalista e feminista nigeriana, nasceu com o nome de Oyinkansola Ajasa, em uma família da alta sociedade nigeriana. Seu pai, Sir Kitoye Ajasa, foi o primeiro nigeriano a receber o título de “cavaleiro” dos britânicos, e a mãe, Lucretia Olayinka Moore, pertencia à família real Egba . Ela estudou no Seminário para Meninas da Sociedade Missionária da Igreja Anglicana, em Lagos, e também do Ryeford Hall College, na Inglaterra, tendo frequentado em 1917  a  Royal Academy of Music (Real Academia de Música) de  Londres . 

Em 1927 criou o Queen’s College, único instituto secundário de toda a Nigéria até o início dos anos 1950, onde realizou importantes ações em termos de formação de jovens meninas. Todavia, a escola não escapou a uma visão colonial da divisão sexual de tarefas em que as alunas eram fundamentalmente treinadas para se tornarem perfeitas donas de casa.

Integrante da elite econômica e política do país, nos anos 1930-1950 Abayomi assumiu a liderança espiritual, social e política de mulheres abastadas, tornando-se chefe e orientadora de clubes para garotas ricas da Nigéria no Nigerian Girl Guides Association (Associação Nigeriana de Guias de Garotas),  e  líder da Associação Cristã de Moças. Seguindo os passos pioneiros de algumas mulheres da África ocidental, sensibilizou várias jovens nigerianas a lutarem pelo poder político.

Em 1944, Oyinka Abayomi  fundou e depois presidiu o Nigerian Women’s Party – NWP (Partido Nigeriano das Mulheres), que reivindicava para as mulheres direitos iguais aos homens. O partido porém teve vida curta devido às divergências com mulheres provenientes de outras tendências mais radicais.

Seu nome permaneceu como uma referência entre os integrantes das elites locais no período colonial, e quando Kofo Abayomi, seu segundo marido, foi agraciado com o título de “cavaleiro” pela rainha da Inglaterra em 1954, ela passou a ser chamada de “Lady Abayomi”.

BIBLIOGRAFIA

COKER, Folarin. A lady: a  biography of Lady Oyinkan Abayomi. Ibadan: Evans Brothers, 1987.

JOHNSON-ODIM, Cheryl. Lady Oyinkan Abayomi: a profile. In: IDEM. Nigerian Women in Historical Perspective. Lagos: Sankore Press, 1993, p. 149-163.

FALOLA, Toyin; AMPONSAH, Nana Akua. Women’s role in Sub-Saharan Africa. Santa Barbara (California), Denver (Colorado), Oxford (England), 2012, p.190.

Paula Fortes (1945–2011)

Nascida em Mindelo, na Ilha de São Vicente, Arquipélago de Cabo-Verde, destacou-se na luta armada contra o colonialismo português.

            No início da década de 1970 era aluna no Liceu Gil Eanes, e dos debates políticos sobre abusos coloniais decidiu entrar para a clandestinidade e assumir a luta armada. Estudou enfermagem no Hospital Santa Maria, em Lisboa, quando entrou formalmente no campo da saúde, e redirecionou os seus conhecimentos para a Escola Piloto de Conakry, onde também atuou nos cuidados com crianças. Serviu no hospital militar e civil de Boké (Guiné-Conacri) e trabalhou como formadora de enfermeiras militares. Nesta época, foi representante do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC,  na 10ª Juventude de Berlim (Leste), Festival focado na Paz Mundial e Libertação Nacional.

Após a independência, em 1975, ela e outras “mulheres armadas” criaram a Organização de Mulheres de Cabo Verde – OMCV para continuar a luta pelos direitos das mulheres e melhorar sua condição social, política e econômica em Cabo Verde. Foi eleita delegada na Assembléia Nacional Popular – ANP da Ilha do Sal. Ficou conhecida por seu trabalho que vincula questões de juventude, sociais e de saúde, como planejamento familiar e divórcio relacionados ao desenvolvimento e reconstrução nacional. Em 2013, dois anos após sua morte, ocorrida em Portugal, foram publicadas suas memórias pessoais em volume autobiográfico, com o título Minha Passagem (2013). 

  
BIBLIOGRAFIA

FORTES, Paula. Minha passagem. Praia: Fundação Amílcar Cabral, 2013.

Paulina Chiziane (1955)

Nascida na cidade de Manjacaze, na Província de Gaza, cresceu nos subúrbios de Maputo, em Moçambique. Fez parte de uma família protestante, mas nunca foi batizada. Seu pai, um alfaiate e anticolonialista, exigia que, em casa, se falasse apenas chope, seu idioma de origem. Sua mãe foi uma camponesa. Estudou numa escola primária católica e, depois, em escolas secundárias, onde teve mais contato com valores ocidentais e desenvolveu seu conhecimento da língua portuguesa. Obteve um diploma da Escola Comercial em Maputo. Casou-se aos 19 anos, separando-se poucos anos depois, e teve dois filhos.

Realizou estudos de linguística na Universidade Eduardo Mondlane. Na juventude, participou ativamente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Trabalhou com a Cruz Vermelha Internacional durante a guerra civil. Após o fim do conflito, trabalhou no Núcleo das Associações Femininas da Zambézia (NAFEZA). Atualmente presta consultoria ao desenvolvimento de projetos de ajuda internacional com foco em conflitos e defesa dos direitos das mulheres.  

Afastou-se da política para se dedicar a vida literária, o que fez, segundo ela, devido a desilusão com os rumos assumidos pelo partido que ascendeu ao poder após a independência do país, em virtude das contradições sociais e  da profunda opressão imposta às mulheres, que leva ao bloqueio de suas possibilidades de independência pessoal, coletiva e econômica. 

Chiziane define-se “contadora de histórias”, e não romancista ou escritora. Ela estreou na literatura em 1984, quando publicou crônicas nas revistas Domingo e Tempo. Escreveu a seguir diversos romances consagrados, como Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), O sétimo juramento (2000) e O alegre canto do perdiz (2008).

Niketeche: uma história de poligamia (2002) garantiu-lhe o Prêmio José Craveirinha, entregue pela Associação Moçambicana de Escritores ao melhor romance do ano. Neste romance, abordou a questão da “poligamia oculta”, presente numa sociedade na qual as mulheres são dependentes dos homens.  A trilogia de contos As andorinhas (2008) centra-se no imperador Ngungunhane, no líder da independência Eduardo Mondlane e na atleta olímpica Lurdes Matola.

Sua literatura denuncia a marginalização das mulheres moçambicanas e contempla dignamente as diferentes esferas culturais moçambicanas, sendo um instrumento de (re)conciliação entre elas.

BIBLIOGRAFIA

APA, Livia. “Paulina Chiziane”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2,  p. 88-89.

CHABAL, Patrick. Paulina Chiziane. In: IDEM. Vozes Moçambicanas – Literatura e Nacionalidade. Lisboa, Portugal: Vega, 1994, , p. 292-301.

DIAS MARTINS, Ana Margarida. Niketeche, a Story of Sucess. Ellipsis, v. 7, p. 109-137, 2009.

DIOGO, Rosália Estelita Gregório. Paulina Chiziane: as diversas possibilidades de falar sobre o feminino. Scripta, v. 14, n. 27, p. 173-182, 2010.

TEDESCO, Maria do Carmo Ferraz.  Narrativas da moçambicanidade: os romances de Paulina Chiziane e Mia Couto e a reconfiguração da identidade nacional. Tese de doutorado (História),  Universidade de Brasília, 2008.

Pendukeni Maria Livula-Ithana (1952)

Política e ministra de gabinete. Nasceu na Namíbia, na aldeia de Uukwandongo e cresceu em uma área devastada pela guerra, ocupada até a independência do país (1990) pelo exército sul-africano. Foi casada com Joseph Ithana (+2008), um ex-funcionário do alto escalão, com quem teve vários filhos.

Assim como muitos estudantes da época, ela entrou cedo para o movimento de libertação, na seção juvenil do South West Africa People’s Organisation – SWAPO (Organização dos Povos do Sudoeste Africano). Em 1974 foi exilada por ter sido umas das primeiras mulheres-soldados do exército de libertação que desde 1966 travava uma guerra pela independência contra as forças de ocupação sul-africanas das bases de Zâmbia e Angola.  Mais tarde veio a ser Secretária Geral do Conselho das Mulheres da SWAPO,  e também  passou a fazer parte do comitê central até 1991. Durante este período, Iivula-Ithana convenceu mais mulheres a se juntarem ao partido, fazendo com que fossem aceitas em nome da igualdade de gênero. 

Durante as eleições pela independência da Namíbia (1989) ela participou na capital Windhoek como representante da SWAPO na Assembléia Constituinte, e ao ser proclamada a independência (1990) ela se tornou membro do gabinete do governo como Ministra da Vida Selvagem, Preservação e Turismo, ocupando a pasta até 1991. Depois ocupou pastas em outros ministérios,  como os do Esporte e Juventude (até 1996); Ilhas, Reassentamento e Reabilitação (até 2001) e, a partir de 2005, o Ministério da Justiça, após obter seu bacharelado em Direito pela Universidade da Namíbia (1999).

Em 2001, foi a primeira mulher a alcançar o cargo de Procuradora Geral da Namíbia, ficando no cargo até 2008, tudo isso sem abandonar os outros cargos que já possuía no governo. 

Iivula-Ithana foi uma das mais bem sucedidas mulheres da Namíbia, com grande poder e influência política. Durante sua carreira pública, lutou pela representação equitativa de gênero em espaços públicos, de modo a garantir paridade entre homens e mulheres nos cargos públicos.

BIBLIOGRAFIA

BECKER, Heike. Namibian women’s movement, 1980-1992: from anti-cokonial resistance to reconstruction. Rankfurt:  IKO- Verlag fur Interkulturelle Kommunikation, 1995.

DUBELL, Lauren.  Swapo’s  struggle for Namibia, 1960-1991: war by other means. Basel:  P. Schlettwein Publishing, 1998.

Pregs Govender (1960)

Feminista da África do Sul de origem indiana, ativista, educadora e política. Nasceu em Durban, filha de mãe professora e pai dramaturgo. Quando, em 1974, frequentou uma escola em Durban  para meninas indianas, começou a se envolver em atividades subversivas. Foi quando conheceu Jayendra Naidoo, seu primeiro marido e pai dos seus dois filhos mais velhos, Parusha e Yashodan.

Nos anos 1980, Govender lecionou durante algum tempo na Universidade de Durban-Westville, enquanto atuava numa base voluntária de organizações, como a Organização da Mulher de Natal, a qual ela se tornou membro junto com o movimento antiapartheid; e da Frente Democrática Unida.

Em 1990, mudou-se de Durban para Cidade do Cabo e em 1992 se estabeleceu em Johanesburgo com os filhos para dirigir a Coligação Nacional da Mulher – WNC, constituída por mulheres vinculadas ao African National Congress – ANC (Congresso Nacional Africano).  Foi indicada por esta coligação ao parlamento em  1994 e participou de uma ampla mobilização de associações e movimentos de mulheres que teve papel decisivo na elaboração da Carta de Mulher Sul-africana – documento que permitiu inserir as questões e interesses femininos na Constituição da África do Sul de 1996. Neste mesmo período conheceu Paul Benjamin, seu companheiro de vida e pai do seu terceiro filho, Saien.

Pregs Govender participou da elaboração do relatório do país que foi encaminhado para a Conferência Internacional das Mulheres em Pequim (1995), estabeleceu medidas contra a violência doméstica, os casamentos forçados ou arranjados e reivindicou melhorias concernentes à maternidade. Em 1996 se posicionou criticamente em relação à política neoliberal em curso na África do Sul,  defendeu o aborto e  forçou o governo de Thabo Mbecki a quebrar o silêncio oficial sobre os efeitos sociais do HIV-AIDS.

Por seu ativismo e seu espírito insubmisso, foi honrada  em 1999 com o prêmio de Associação Internacional dos Direitos das Mulheres em Inspiração do Desenvolvimento, que distinguia aquelas que contribuíram para a luta de igualdade de gênero. Em 2003 recebeu um doutorado honorário da Universidade de Durban-Westville. Crítica da marginalização das mulheres, Govender foi nomeada vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da África do Sul em 2009.

BIBLIOGRAFIA

GOVENDER, Pregs. Love and courage: a story of insubordination. Auckland Park: Jacana, 2007.

STRAUSS, Helene. “Pregs Govender”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 497-498.

Pumla Kisosonkole (1911–1997)

Mulher pública e ativista de organizações de mulheres na Uganda durante o período colonial.  Nasceu na África do Sul, onde começou sua formação em escolas missionárias. Depois continuou sua formação em Londres, onde estudou Pedagogia e publicou um panfleto intitulado Education as i saw it in England (A educação como eu a vejo na Inglaterra).

Em 1939 Pumla conheceu e casou com Christopher Kisosonkole, que era de Uganda, país em que ela passou a morar, e onde deu início à vida política. Em 1956 ela foi a primeira mulher africana nomeada para ser representante do Conselho legislativo de Uganda junto ao governo britânico (1956-1958), e teve participação legislativa durante o processo de independência.

Ela se tornou a primeira africana a ser presidenta do conselho de mulheres da Uganda (UCW) (1957), cargo que deteve durante quatro anos. Kisosonkole também foi eleita presidenta do Conselho Internacional de Mulheres (1959-1962). Foi incansável defensora das mulheres, promovendo a liderança e aumentando sua visibilidade e legitimidade na cena nacional.

Em 1963, Milton Obote, o Primeiro-Ministro de Uganda, a indicou como representante na delegação das Nações Unidas de Uganda.  Kisosonkole também trabalhou como especialista em alfabetização na UNESCO nos anos 1960.

Ela foi uma das poucas mulheres de Uganda colonial que se envolveu em política e que teve poder para tomar decisões em âmbito nacional. Kisosonkole é conhecida por quebrar barreiras de gênero como parlamentar e por defender a liderança das mulheres e o avanço das questões de gênero, tanto em organizações governamentais quanto em Organizações Não Governamentais.

BIBLIOGRAFIA

MILLER, Kim. “Pumla kisosonkole”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 393.

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Abington: Routledge, 2018 (or. 1999).

TRIPP, Aili Mari. Women’s mobilization in Uganda: nonracial ideologies in European-African-Asian encounters, 1945-1962. The International Journal of African Historical Studies, v. 34, n. 3, 2001.

TRIPP, Aili. Women and politics in Uganda. Madison: University of Wisconsin Press, 2000.

Radha Poonoosamy (1924–2008)

Ativista política e feminista nascida em Durban, na África do Sul, com nome Radha Padayachee. Cresceu em uma família católica de origem indiana. Completou os estudos primários e secundários em Durban e ingressou na Universidade de Natal, onde tornou-se uma ferrenha oponente do regime do Apartheid.

Assumiu a liderança feminina do Student Council of the Indian National Congress (Conselho Estudantil do Congresso Nacional da Índia), organização estudantil que combatia a discriminação contra a comunidade indiana da África do Sul, assim como fez parte do comitê executivo do African National Congress (Congresso Nacional Africano).

Casou-se com Valaydon Poonoosamy e juntos foram morar nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico. A barreira linguística, já que as línguas oficiais são francês e criolo e Radha falava inglês, e o fato de ela não ser do país não a impediram de ser uma ativista. Fundou com John Thivy a Indo Mauritian Catholic Association (Associação Católica dos Indo-Maurícios) no início dos anos 1960 e foi secretária da instituição. Ela também passou a integrar os quadros do Labor Party (Partido Trabalhista) e em 1975 era a responsável pela seção feminina.

Nos anos 1970 intensificou sua atuação em várias frentes políticas, assumindo inclusive o cargo de Ministra dos interesses femininos, do Controle de Preços e Proteção do consumidor. Mesmo com a diferença de idioma, o que dificultou a interação dela com a maior parte da população, Radha sempre lutou pelos mais pobres do seu país adotivo.

BIBLIOGRAFIA

DEDANS, Jean-Claude. Militante féministe avant d’etre travailliste. 5-Plus Dimanche, 2002: Disponível em: http://www.splusltd.com/archive/2002/juillet/07_07_2002/annees.htm

RICH, Jeremy. “Radha Poonoosamy”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 118-119.

Ray Alexander Simons (1913–2004)

Líder sindical e ativista pelos direitos das mulheres da África do Sul. Nasceu na Letônia com o nome de Rachel Esther Alexandrowitch, aos quinze anos foi estudar em Riga e ingressou no movimento comunista clandestino. Perseguida pela polícia, foi enviada pela mãe aos dezesseis anos para a África do Sul, onde ela fez parte de uma comunidade de ativistas judeus que trouxeram da Europa um forte compromisso com o socialismo e o comunismo.

Militante desde muito jovem no movimento sindical, na década de 1940 ela participou de organizações operárias no Cabo Ocidental e na região da Namaqualândia, na atual Namíbia. Articulou uma série de ações para unificar os trabalhadores sazonais, e na época da instauração do regime do Apartheid conseguiu formar um sindicato não-racial e ativo, a Food and Canning Workers Union – FCWU (União dos Trabalhadores em Alimentos e Conservas), que promoveu mulheres e homens a cargos de liderança. Além disso, ela desempenhou papel importante na organização do Conselho dos Sindicatos Não Europeus (CNETU).

Na década de 1950, lutou contra a organização sindical oficialmente sancionada (TUCSA) pois seus sindicatos eram racialmente segregados e negava a adesão de trabalhadores negro-africanos. Por tudo isso ela se tornou um alvo da repressão governamental. Em 1954, foi banida pela Lei de Supressão do Comunismo (1950). Milhares de trabalhadores entraram em greve em resposta ao ataque de sua líder, chamada de “mãe” por alguns.

Em sua campanha por um assento no parlamento, em 1954, sua plataforma eleitoral previa direitos de voto aos negros, porém, embora eleita por uma maioria esmagadora de votos ela não teve permissão tomar posse. Como uma das iniciadoras da Federação de Mulheres Sul-Africanas – FSAW (agora conhecida como Fedsaw), ajudou a organizar uma das mais importantes lutas da década, onde milhares de mulheres protestaram contra a as leis de passe, e ajudou a redigir a “Carta das Mulheres”, que culminou na marcha de 20.000 mulheres para Pretória  (1956) para apresentar ao Primeiro-Ministro, Johannes Strijdom, milhares de petições contra o uso do passe para a circulação de mulheres – acontecimento que deu origem ao Dia da Mulher Sul-Africana e ao famoso slogan político: “Atingiu uma mulher, atingiu uma rocha”.

Seu marido, Harold Jack Simons, professor de Estudos Africanos na Universidade da Cidade do Cabo, também comunista, foi proibido de ensinar, e ambos deixaram a África do Sul para viver em exílio na cidade de Lusaka, na Zâmbia, onde permaneceram até 1990. Ela continuou a ser membro influente da seção feminina do African National Congress (Congresso Nacional Africano) e ambos escreveram em co-autoria o livro Class and colour in the South Africa, 1850-1950 (Classe e Cor na África do Sul, 1850-1950) (1969), além de diversos artigos e relatórios em jornais do sindicato e periódicos.

No mês de janeiro de 2004, oito meses antes da sua morte, o ANC concedeu a Ray Simons sua maior honra, o Isithwalandwe, uma distinção tradicionalmente conferida aos guerreiros – cujo nome faz referência às penas da cauda do pássaro que é o símbolo nacional da África do Sul.  Na ocasião o presidente Thabo Mbeki qualificou-a como uma “excelente líder de nossos trabalhadores, que passou toda a sua vida adulta lutando pela liberdade de nosso povo”.

BIBLIOGRAFIA  

BERGER, Iris. Threads of solidarity: women in South African industry, 1900-1980. Bloomington: Indiana University Press, 1992.

BERGER, Iris. “Ray Simons”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 390-391.

SIMONS, Ray Alexander. All my life and all my strength. Johanesburgo: STE Publishers, 2004.

WALKER, Cherryl. Women and resistance in South Africa. Nova Iorque: Monthly Review Press, 1991.

Rebecca Mulira (1920–2002)

Defensora dos direitos das mulheres, nasceu Rebecca Allen Namugenze Mukasa em um hospital em Mengo, Kampala, na atual República de Uganda. Seu pai, Hamu Mukasa foi um chefe importante e líder político em Ganda, como líder da igreja e escritor importante da história de Buganda. Sua mãe, Sarah Nabikolo Mukasa, foi uma figura de liderança na Igreja de Uganda e pioneira por direito das mulheres.

Sua mãe começou uma escola de enfermagem na sua casa, onde Rebecca e as crianças da comunidade foram instruídos. Em 1939, com 18 anos, ela se casou com Eridadi M. K. Mulira, que se tornaria mais tarde um dos líderes políticos e intelectuais durante a descolonização. Entre 1949 e 1950, Rebecca recebeu formação especializada em ciência doméstica e comunicação. Dirigiu a seção feminina do Progressive Party (Partido Progressista) de 1955 a 1958. Em 1957 foi eleita presidente do grupo das “Jovens Esposas”, um ramo menor da Mother’s Union (União das Mães), criada para influenciar e mobilizar mulheres dos círculos eleitorais mais jovens.

Rebecca Mulira se tornou uma defensora dos direitos das mulheres. Tanto na Igreja de Uganda quanto na arena política mais ampla. Foi uma das duas mulheres enviadas pelo Conselho de Mulheres de Uganda para os Estados Unidos para dar início à Associação de Jovens Mulheres Cristãs de Uganda (1952), tendo encorajado igualmente a participação das mulheres muçulmanas na associação. Dentro dos seus inúmeros postos, fez parte do Conselho da Cidade de Kampala (1962-71), foi presidente do Conselho Feminino de Uganda (1962-64, 1967-69), e membro do Conselho Administrativo do Hospital de Mengo (1997-2001).

Da década de 1950 até a década de 1990, frequentemente proferiu conferências internacionais sobre temas relacionados à condição das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BROWN, Winifred. Marriage, divorce, and inheritance: the Uganda Council of Women’s Movement for Legislative Reform. Cambridge: Centre for African Studies, 1988.

EARLE, Jonathan. “Rebecca Mulira”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 4, p. 327-328.

MULIRA, Rebecca. “Rebecca Mulira.”. In: Byanyima, Winnie; Mugisha, Richard (Ed.)..  A rising tide: ugandan women’s struggle for a public voice, 1940-2004. Uganda: Forum for Women in Democracy, 2005.

TAMALE, Sylvia. When hens begins to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.

Rokhaya Aminata Maïga Ka (1940–2005)

Figura pública senegalesa, educadora, escritora de ficção e ativista pelos direitos das mulheres.  Nasceu na cidade de Saint-Louis durante o período colonial francês, de uma família muçulmana cujo pai era do grupo étnico Songai e a mãe, do grupo étnico Fula.

Obteve o Mestrado em Língua Inglesa e Especialização em Literatura e Civilização Inglesa e Americana, ambos pela Universidade Cheikh Anta Diop. Foi professora de inglês no Lycée Malick Sy de Thiès e no Lycée Van Vollenhoven de Dakar, atual Lycée Lamine Gueye.

Em sua atuação pública, trabalhou no Escritório Regional da UNESCO, em comissão para a Alimentação e Agricultura do Programa Alimentar Mundial (1978). Militante do Partido Socialista Senegalês e engajada em causas feministas, integrou a Secretaria de Estado da Condição Feminina, a Federação das Associações Femininas do Senegal e a Associação Senegalesa das Mulheres Graduadas, comprometendo-se com organizações como o Clube Internacional Soroptmista de Thiès e o Conselho Senegalês das Mulheres. Ela também foi membro de comitês científicos do Museu das Mulheres “Henriette Bathily”.

Como autora, suas principais obras são La voie du salut suivi de le miroir de la vie (O Caminho para a salvação seguido do espelho da vida) (1985), En votre nom et au mien (Em seu nome e no meu) (1989), Brisures de vies (Fragmentos de Vidas) (1998).

Casou-se duas vezes e teve três filhos. Recebeu títulos e homenagens, como o de Cavaleira da Ordem Nacional do Leão da República do Senegal e Cavaleira da Ordem das Palmas Acadêmicas pelo Ministério da Educação do Senegal.

BIBLIOGRAFIA

BEKERS, Elisabeth. “Rokhaya Aminata Maiga Ka”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 239-240.

HERZBERGER-FOFANA, Pierrette. Littérature féminine francophone d’Afrique Noire: suivi d’un dictionnaire des romancières. Paris: L’Harmattan, 2000.

KIBA, Simon. Femme de grande culture, Aminata Maïga Ka dénonce l’excision et le pouvoir de l’argent”. Amina, n. 327, p. 22-23, 1997.

Safiya Husseini (1971)

Nascida no estado de Sokoto, norte da Nigéria, região fortemente influenciada pelo islã, seu nome completo é Safiya Hussaini Tungar-Tudu. Em 2001, logo após a adoção pelas autoridades religiosa locais da xaria, a lei muçulmana, ela foi condenada à morte por apedrejamento sob a acusação de adultério, quando tinha trinta anos.

Depois de se divorciar, Safiya se envolveu com Yahaya Abubakar e não se casou formalmente. Quando engravidou, foi acusada de adultério. Diante das autoridades, durante a fase de provas, Abubakar admitiu ter tido relações sexuais com ela em três ocasiões diferentes, mas foi libertado pelo tribunal por não haver quatro testemunhas masculinas que comprovassem o seu crime.

O caso teve repercussão internacional, e o presidente do país, general Olusegun Obasanjo, pediu publicamente sua absolvição, o que ocorreu em 2002 sob o argumento de que ela tinha engravidado pouco antes da implementação da xaria. No mesmo ano em que Husseini foi absolvida, outra mulher, Amina Lawal, também foi acusada de adultério e depois absolvida.

BIBLIOGRAFIA

BUNTING, Annie. “Authentic Sharia” as cause and cure for women’s human rights violations in northern Nigeria.  Hawwa, v. 9, n. 1-2,  p. 152-170, 2011.

MIKEL, Gwendolyn. Working from within: nigerian women and conflict resolution. Georgetown Journal of International Affairs, v. 6, n. 2, p.87-94, 2005

Women’s access to justice and personal security in Nigeria: a  syntesis report. Lagos: Baobab for Women’s  Human Rights, s.d.: http://www.gsdrc.org/docs/open/ssaj33.pdf

Souad Triki (1948)

Nascida em Túnis, capital da Tunísia. O pai era enfermeiro e chefe de serviço no Hospital Ernest Couteil e a mãe permaneceu até o fim da vida no serviço doméstico do lar. Estudou o primário e o secundário em escolas na capital, e desde aquele momento recusou-se a usar o véu. No início dos anos 1970 cursou Economia na Universidade de Paris, onde também completou o mestrado (1975) e desenvolveu estudos de doutorado.

Nos anos 1980 Souad Triki ingressou na vida universitária tunisiana, vindo a atuar como pesquisadora no Centre National d’Études Industrielles (Centro Nacional de Estudos Industriais) e foi professora assistente na Universidade de Túnis, antes de prestar concurso no Departamento de Economia do Institut National Agronomique de Tunisie – INAT (Instituto Nacional Agronômico da Tunísia).

Paralelamente, ingressou na vida política, com militância no Partido Comunista e na União Geral dos Trabalhadores, mas aos poucos se alinhou aos movimentos feministas, primeiro no Club Tarar Haddad (1979-1980), depois na criação da Revista “Nissa” (Mulher) (1983-1986) e na fundação da Association Tunisienne des Femmes Démocratiques –ATFD (Associação Tunisiana das Mulheres Democratas) (1989) e a Association des Femmes Tunisiennes Pour la Recherche sur le Développement – AFTURD (Associação das Mulheres Tunisianas para a Pesquisa e o Desenvolvimento) (1989), que ela presidiu de 1999 a 2006.

Em sua trajetória como militante e como pesquisadora, destaca-se pelas pesquisas em economia e estatística que permitiram um mapeamento das condições de trabalho e salário das mulheres na Tunísia, em particular o trabalho doméstico e o trabalho não assalariado. Também participou dos debates sobre as reformas do código de família e sobre a aquisição de direitos civis no âmbito de uma sociedade como a tunisiana, marcada pelos preceitos corânicos.

Participou ativamente da Revolução de Jasmin, o conjunto de manifestações ocorridas entre 2010-2011 que levaram à queda do regime de Zine el-Abidine Ben Ali, que governava o país desde 1987. Na ocasião ela foi eleita vice-presidente da comissão que preparou as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte.

BIBLIOGRAFIA

LOCH, Thérèse; MERON, Monique. Souad Triki, une feministe pour la démocratie en Tunisie. Travail, Genre et Sociétés, n. 38, p. 5-25, 2015.

Specioza Wandira Kazibwa (1955)

Vice-presidenta de Uganda. Estudou no colégio católico Mount Sinai Saint Mary’s Namagunga, um internato feminino na cidade de Lugazi, formou-se com destaque nos exames do ensino médio e em 1974 ganhou um lugar na Universidade Makerere, a principal instituição de ensino na África Oriental, onde obteve o grau de bacharela em Medicina Humana e Cirurgia. Também fez Mestrado em Medicina na mesma instituição, especializando-se em Cirurgia Geral e qualificando-se como Médica Consultora, e obteve o Doutorado pela Universidade de Harvard.

Kazibwa começou sua carreira política como membro da ala jovem e juvenil do Partido Democrático de Uganda. Nos anos 1980, tornou-se membro do Movimento Nacional pela Resistência, liderado por Youweri Museveni, que mais tarde se tornou presidente de Uganda.

Specioza Kazibwa foi uma das mulheres nomeadas para servir no gabinete em 1989, quando se tornou Vice-Primeira-Ministra e Ministra da Indústria, cargo que ocupou até 1991. Ela foi promovida a Ministra do Gênero e Desenvolvimento Comunitário (1991-1994) e passou a ocupar assento no Parlamento como representante de Kigulu, no sul do distrito de Iganga.  Desempenhou papel fundamental na introdução de cláusulas com direitos das mulheres na redação da nova constituição de Uganda (1994-1995), e na ampliação de sua representatividade nas instâncias legislativas.

O ponto alto de sua carreira pública ocorreu entre 1996 e 2000, quando ela assumiu o cargo de Vice-Presidenta do país e Ministra da Agricultura, Industria Animal e Pesqueira. Tratava-se de um setor importante, considerando que Uganda tem estrutura basicamente agrária, e que as mulheres são responsáveis por 80% da produção rural.

A principal contribuição de Kazibwa para o povo de Uganda e o continente foi defender a causa das mulheres africanas. Em 1998, ela trabalhou em estreita colaboração com a extinta Organização da União Africana para estabelecer o Comitê das Mulheres Africanas para a Paz (AWCPD), do qual ela se tornou presidenta.

BIBLIOGRAFIA

ASEKA, E. M. Transformational leadership in East Africa: politics, ideology and community. Kampala: Fountain Publishers, 2005.

KANYORO, Musimbi R. A.; ROBINS, Wendy S. R. (Eds.). The power we celebrate: women’s stories of faith and power. Genebra: WCC Publications, 1992.

KIRUTHU, Felix Macharia. “Specioza Wandira Kazibwa”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 3, p. 319-320.

TRIPP, Aili M. The politics of autonomy and cooptation in Africa: the case of the Uganda Women’s Movement. Journal of Modern African Studies, v. 39, n. 1 p.  101-128, 2001.

TRIPP, Aili M.. Women and politics in Uganda. Kampala: Fountain Publishers, 2000.

Suad al-Badawi (1932)

Suad al-Fatih Mohammed al-Badawi é uma intelectual sudanesa, educadora, líder política, defensora das mulheres.  Nasceu na cidade de El Obeid, Província de Kordofan, e foi criada por uma família islâmica. Seu avô, al- Shaykh Mohammed al-Badawi, foi proeminente acadêmico islâmico. O pai era um chefe local que assumiu o governo após a independência do Sudão.

Educada formalmente em escolas ocidentais em diferentes cidades do país, obteve seu diploma de bacharelado pelo Gordon Memorial College, em Cartum, com graduação na Faculdade de Artes (1956). Obteve o Bacharelado em Árabe (1958), Mestrado em Árabe pela School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres (1961), e Doutorado em árabe na Universidade de Cartum (1981). Algum tempo depois, realizou estágio pós-doutoral na Universidade de Edimburgo (1991-1992).

De retorno ao Sudão, Suad al-Fatih foi nomeada chefe do Departamento de História no Instituto de Treinamento de Professores para a Escola Intermediária, e mais tarde ela se tornou inspetora de educação no Ministério da Educação. Atuou como consultora para a UNESCO na Arábia Saudita (1969), trabalhou como especialista na educação de meninas na Arábia Saudita, e dirigiu diversas instituições de ensino. Em 1980, passou a lecionar como professora associada de Árabe na Universidade Islâmica de Omdurman, no Sudão, e trabalhou como vice-chanceler adjunta da Universidade dos Emirados Árabes. Em 1983, assumiu a Reitoria da Faculdade para Meninas da Universidade Islâmica de Omdurman, sendo a primeira mulher sudanesa a manter essa posição.

Paralelamente, participou de diversas entidades e instituições, sendo uma das fundadoras da União das Mulheres Sudanesas e membro de seu comitê executivo, onde ela servia como tesoureira (1951). Devido a divergências de linha de atuação, Suad e outras abandonaram a União das Mulheres Sudanesas, e fundaram a Frente Nacional de Mulheres, que enfatizava valores islâmicos (1964), entidade que ela presidiu durante muito tempo. Também foi fundadora da revista al-Manar, onde trabalhou como editora-chefe, e depois foi colunista em numerosos jornais diários sudaneses, incluindo al-Ayam, al-Rai al-Am, e al-Sudan al-Jadeed.  Em sua trajetória e ativismo, procurou conciliar reivindicações progressistas dos direitos das mulheres nos limites do que prescreve o islã.

Na década de 1990, manteve o vínculo com diversas entidades representativas de mulheres muçulmanas, e desempenhou a função de secretária geral da União Internacional das Mulheres Muçulmanas, sediada no Paquistão (1995-2000). Dentro do próprio país, desempenhou vários postos junto ao governo, nas áreas de educação, pesquisa e assuntos relacionados com mulheres e crianças. Passou a representar o Sudão no Parlamento Pan-Africano na África do Sul (2004).

Por sua trajetória acadêmica e sua vida pública, recebeu mais de vinte prêmios e honrarias oferecidas pelo governo ou por Organizações Não Governamentais, como o Prêmio Dois Nilos e a Estrela Dourada para Ciências e Artes, e o Escudo de Excelência do governo da Arábia Saudita, a Medalha Pioneira de Excelência dos Emirados Árabes Unidos, a Medalha Dourada para Mulheres Árabes Pioneiras do rei do Bahrein, e uma filiação honorária do Clube de Jornalistas Britânicos.

BIBLIOGRAFIA

HALE, Sondra. Gender politics in Sudan: islamism, socialism and state. Boulder: Westwiew Press, 1996.

HALL, Marjorie; ISMAIL, Bakhita Amin. Sisters under the sun: the story of sudanese women. London; Nova Iorque: Longman, 1981.

MUHAMMAD, Baqi’e Badawi. “Su’ad al-Fatih Mohammed al-Badawi”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 339-340.

Suad Ibrahim Ahmed (1935–2013)

Educadora sudanesa e advogada, ativista dos direitos das mulheres, direitos humanos e democracia. Nasceu em Omdurman, uma das três cidades que, junto com Cartum e Cartum do Norte, constituem as capitais do atual Sudão. Seu pai, Ibrahim Ahmed, era engenheiro, professor universitário e destacada liderança na luta pela independência do país frente aos britânicos. Ela frequentou a escola de freiras católicas de Cartum, a Escola Secundária para meninas de Omdurman (1949), e em 1955 foi aceita na Universidade de Cartum. Durante o curso universitário, começou a participar ativamente da vida literária e artística (1956-1957), e ingressou no movimento estudantil e no debate político

Logo após a conclusão do curso, em 1960, Suad foi destacada para integrar uma equipe de pesquisa sobre a região em que viria a ser construída a Barragem de Assuã, no Egito, mas ao se juntar à população local que protestava contra esta construção, foi presa, demitida do emprego e deportada para o seu país.

Quando retornou a Cartum, ingressou no jornal Women’s Voice (Voz das Mulheres), vinculado à União de Mulheres Sudanesas, e passou a lecionar na escola de ensino médio Al-Ahfad. Com uma bolsa de estudos, realizou estudos de Mestrado em Estatística e Cálculo e em Psicologia Educacional na Universidade de Wisconsin em Madison (1963). A seguir, de volta ao Sudão, começou a lecionar na Escola de Estudos de Extensão na Universidade de Cartum, onde organizou um grupo de acadêmicos vinculados ao socialismo, e onde se envolveu intensamente a partir de 1964 nas reivindicações pela ampliação da representatividade feminina no mundo acadêmico.

Da segunda metade da década de 1960 em diante ela foi designada representante da Universidade de Cartum em um evento em Nairobi que deu origem à Associação de Educação para Adultos da África, e passou a atuar como consultora da UNESCO em projetos e programas sobre a Educação de Adultos, Tecnologia da Educação e Educação Superior. Também coordenou trabalhos e cursos especiais de educação de mulheres, e produção de material pedagógico áudio-visual destinado à educação de mulheres e crianças.

Devido à sua posição de liderança no comitê central do Partido Comunista Sudanês, rompeu com a União de Mulheres Sudanesas, por entender que a postura liberal das demais integrantes não era suficiente para trazer a emancipação das mulheres sob o regime islâmico, entrando em conflito com a posição tendencialmente mais conciliadora e conservadora de Fatima Ahmed Ibrahim. A partir de 1969, quando um regime militar foi instaurado no Sudão, ela criticou abertamente as determinações do governo, sendo por isso presa várias vezes durante o governo do ditador Ja’far al-Nimeiry (1971-1985).

BIBLIOGRAFIA

HALE, Sondra. Gender politics in Sudan: Islamism, Socialism, and the state. Nova Iorque; Londres: Routledge, 1997.

HALE, Sondra. Notes on sudanese women’s activism, movements and leadership”. In. Sadiqi, Fatima (Ed.). Women’s movements in post-“Arab Spring” North Africa. Londres: Palgrave Macmillan, 2016.

MUHAMMAD, Baqi’e Badawi. “Su’ad Ibrahim Ahmed”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 131-134.

Sylvia Tamale (1962)

Sylvia Rosila Tamale é destacada intelectual, acadêmica, feminista, e ativista dos direitos humanos ugandense, em particular dos direitos das mulheres e das minorias sexuais. Formada em direito pela Universidade de Makerere, obteve mestrado na Harvard Law School e doutorado em Sociologia e Estudos Feministas pela Universidade de Minnesota em 1997. Atuou como professora visitante na Universidade do Cabo, África do Sul, e na Universidade de Wisconsin. Foi a primeira reitora da Faculdade de Direito e Jurisprudência da Universidade de Makerere, de 2004 a 2008.

Em 2003 ela tomou parte de uma Comissão pela Igualdade de Oportunidades, e propôs que gays e lésbicas fossem incluídos(as) na definição de minorias. Por causa disso, foi objeto de uma campanha de difamação durante semanas pelos conservadores, que a elegeram a “Pior mulher do ano”. Em um dos jornais diários de Kampala, a New Vision, ela foi responsabilizada pela “degeneração moral da nação” e até pelo risco de os(as) adolescentes ugandenses irem para o inferno. 

Como membro do grupo de trabalho no Fórum Feminista Africano – AFF, participa da discussão de estratégias, abordagens e desenvolvimento de redes mais fortes para promover os direitos das mulheres na África. Ela é membro do Conselho Consultivo da Open Society Fondations, uma organização ativa em mais de 120 países que fornece subsídios a indivíduos e grupos para a construção de democracias inclusivas e dinâmicas.

Pioneira nos estudos de gênero e sexualidade em seu país, é autora, entre outras, das obras When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda (Quando as galinhas começam a cantar: gênero e política parlamentar em Uganda) (1999) e Homossexuality: perspectives from Uganda (Homossexualidade: perspectivas para Uganda) (2007).

BIBLIOGRAFIA

TAMALE, Sylvia. When hens begin to crow: gender and parliamentary politics in Uganda. Boulder: Westview Press, 1999.

TAMALE, Sylvia. Homossexuality: perspectives from Uganda. Kampala: Sexual Minorities Uganda, 2007.

TAMALE, Sylvia. Gender trauma in Africa: nehancing women’s links to resources. Journal of African Law, v. 48, n. 1, p. 50-61, 2004.

TRIPP, Aili. “Sylvia Tamale”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 5, p. 499-501.

Tawhida Bin Shaykh (1909–2010)

Também referenciada como Tewhida Bem Sheikh. Foi uma médica tunisiana, pioneira no trabalho com saúde reprodutiva feminina.

Com a orientação da mãe, Haluma, ela frequentou o ensino fundamental e em 1920 teve a chance de conhecer um respeitado médico francês, Etienne Burnet, e sua esposa russa, Lydia. O casal viu nela uma promessa no campo médico. Após uma grande resistência da família, ela obteve autorização para realizar estudos em Paris, onde poderia receber formação adequada. A pressão persistiu até o dia do embarque, quando um grupo de seus parentes homens tentaram, com a presença de um xeique da mesquita de Zaytuna dissuadi-la a partir em viagem.

Após completar os estudos na Faculdade de Medicina de Paris (1936), foi a primeira mulher muçulmana norte-africana a receber um diploma de Medicina na França. De retorno ao país, trabalhou em um consultório particular em Túnis especializado em saúde reprodutiva das mulheres, oferecendo tratamento gratuito (1937). No entanto, o colonialismo freou sua carreira médica, pois os cargos e funções em hospitais eram entregues aos franceses.

Tawhida trabalhou como editora da revista feminina Leila, periódico que circulou no período de 1936-1941, assinando diversos artigos dedicados à emancipação de mulheres muçulmanas do norte da África.

Durante as lutas nacionalistas do início da década de 1950, atuou como vice-presidenta da filial tunisiana da Cruz Vermelha. Após a independência da França (1956), criou a primeira clínica de planejamento familiar em 1963 e teve um papel de liderança na Associação Tunisiana de Planejamento Familiar. Em 1970, abriu em Túnis a primeira clínica exclusivamente dedicada à medicina reprodutiva das mulheres.

BIBLIOGRAFIA

BOUJMIL, Hafedh (Ed.). Leila: revue illustrée de la femme, 1936-1941. Tunis: Editions Nirvana, 2007.

CLANCY-SMITH, Julia. Envisioning knowledge: educating the Muslim woman in colonial North Africa, c. 1950-1918. In: BARON, Beth; MATTHEE, Rudi (Eds.).  Iran and beyond: essays in Middle Eastern history in honor of Nikki R. Keddie, Los Angeles: Mazda Press, 2000, p. 99-118.

CLANCY-SMITH, Julia A.. “Tawhida Bin Shaykh”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 1,  p. 452-453.

HUSTON, Perdita. Motherhood by choice: pioneers in women’s health and family planning. Nova Iorque: The Feminist Press, 1992.

Teodora Inácia Gomes (1944)

Também conhecida como Obono, nasceu em Empada, na região de Quínara, sul da Guiné-Bissau, de pai bijagó e mãe de origem manjaca. Era de família católica, e o pai Inácio Pedro Gomes, exerceu cargos de prestígio em Bolama, na Guiné colonial, tendo participado dos primeiros movimentos de resistência anti-colonial e do Partido Comunista Português.   Ele e a esposa, Nhanha da Silva, foram militantes na origem do PAIGC, e juntos participaram da luta armada, militância também assumida por Teodora.

Em 1964, já nas fileiras do Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC, Teodora recebeu uma bolsa de estudo para Kiev, Ucrânia, na então União Soviética, onde participou de cursos de formação e de organizações juvenis no movimento revolucionário.  Formou-se em pedagogia infantil pelo Instituto Gorca de Kiev. Foi professora nas escolas do mato durante os anos da guerrilha e diretora do jardim escola de Ratoma entre 1969 e 1971, na República da Guiné Conacri, onde o PAGC tinha instalado o secretariado.

No período posterior à independência, ela participou da União Democrática das Mulheres da Guiné e Cabo Verde – UDEMU, organização criada em Conacri que existiu no período de 1961-1966. Como deputada da nação, Teodora participou na preparação de diversos projetos de lei sobre mulheres, hoje aprovadas como leis (a lei da saúde reprodutiva, a lei do planejamento familiar e a lei contra a mutilação genital feminina).

BIBLIOGRAFIA

GOMES, Patricia Godinho. A Mulher guineense como sujeito e objecto do debate histórico contemporâneo: excertos da história de vida de Teodora Inácia Gomes. Africa Development, v. XLI, n. 3, p. 71-95, 2016.

Unity Dow (1959)

Jurista, ativista dos direitos das mulheres e dos direitos humanos e escritora. Nasceu em Mochudi, no distrito de Kgatleng, em Botsuana. Recebeu educação fundamental e secundário em Mochudi e cursou Direito na Universidade de Botsuana e depois na Universidade de Edimburgo (1983). Casou-se  em 1984 com Peter Nathan Dow, um cidadão americano, com quem criou três filhos(as).

Começou a atuar como advogada e logo depois assumiu o cargo de Promotora Criminal nas Câmaras Gerais de Attoney, em Gaborone. Depois voltou a advogar em prática privada, com foco nos direitos humanos e direitos das mulheres, fundando o programa Mulheres e Direito na África Austral  – WLSA, um grupo de pesquisa que se concentrou nos direitos das mulheres, além de participar de outras associações voltadas para os direitos de mulheres e crianças, como o Metlhaetsile Women’s Information Centre.

Unity Down ganhou renome nacional ao mover um processo contra o Estado de Botsuana que ficou conhecido como “Caso da Cidadania”, em que contestou com sucesso a constitucionalidade de certos dispositivos do Ato de Cidadania (1982) que a impedia, por ser mulher, de transferir sua cidadania para seus filhos. A lei botsuana até então estipulava que os filhos herdavam a cidadania apenas pelo lado paterno, em evidente discriminação contra as mulheres e fortalecimento de uma visão patriarcal da sociedade.

Durante o processo, ela contou com o apoio do grupo  Emang Basadi (Levantem-se Mulheres), organização fundada para pressionar pela reforma de leis discriminatórias como essa. O caso foi parar na Corte Suprema. Em duas decisões marcantes, a Suprema Corte e, posteriormente, a Corte de Apelação declararam as disposições da “Lei da Cidadania” inconstitucionais, e o direito das mulheres foi constitucionalmente reconhecido.

Em 1998, Dow quebrou outra barreira de gênero ao se tornar a primeira juíza do Supremo Tribunal de Botswana, e mais tarde foi nomeada para o Tribunal de Recurso como juíza interina. Por tudo isso, ela é vista na África e no mundo como uma personalidade marcante e influente em defesa da afirmação dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.

No século XXI Unity Down deu início a uma carreira paralela como autora de diversos romances, entre os quais Far and beyon (2000), The screaming  of the innocent (o grito do inocente) (2001), Jugling truths (2003) e The heavens may fall (O céu pode cair) (2006), cujas protagonistas em geral são mulheres em busca de afirmação e reconhecimento.

BIBLIOGRAFIA

DOW, Unity (Ed).  The Citizenship Case: the Attorney General of the Republico f Botswana v. Unity Down. Gaborone: Lentswe la Lesedi, 1995.

GAGIANO, Annie. Entering the oppressor’s mind: a strategy of writing in Bessie Head’s A question of poweer, Yvonne Vera’s The stone virgins  nd Unity Down’s  The screaming  of the innocent. Journal of Commonwealth Literature, v. 41 n. 2, p. 43-60, 2006.

LEDERER, Mary; MACHARIA-MOKOBI, Elizabeth. “Unity Dow”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 248-249.

Zaynab Fawwaz (c. 1850–1914)

Romancista libanesa-egípcia, biógrafa e primeira escritora sobre política de gênero e reforma no Egito.  Nasceu na cidade de Tibnin, no sul do Líbano, em uma família simples sobre o qual sabe-se pouco.  Ao que parece, fez parte da casa  de Ali Bek al-As’ad, um poderoso governante local. Foi a esposa deste, chamada Fatimah bint As ‘ad al-Khalil, que escrevia poesia e tinha considerável educação religiosa, que parece ter ensinado Zaynab a ler e a escrever.

As fontes discordam sobre a trajetória precisa da juventude de Zaynab Fawwaz. Não há certeza sobre seu casamento, nem sobre quando e porque ela se mudou para o Cairo, talvez através de Beirute ou de Alexandria.  O certo é que, no Egito, ela começou a trabalhar com o editor literário de polímeros e jornais, Hasan Husni Pasha al-Tuwayrani (c1849- c.1896). Seu jornal, al-Nil (O Nilo), publicou muitos dos mais conhecidos e polêmicos ensaios de Fawwaz nos anos de 1890.

Esta foi a década em que as reivindicações pela educação das meninas e pelos direitos das mulheres se confundiu  com o pensamento e ativismo nacionalista após a ocupação britânica do Egito (1882). O nome mais associado a esse debate é o do advogado Qasim Amin, cujo tratado de 1899 Tahrir al-mar’ah (A Libertação da Mulher) criou um furor, especialmente em virtude de questões com a segregação de gênero e a cobertura corporal, gerando muitas críticas em livros e ensaios escritos por homens inconformados. No entanto,  naquela década uma pequena elite de mulheres emergiu e manifestou por escrito suas reivindicações, algumas delas a partir de uma perspectiva ocidental e cristã, e outras, como Fawwaz, a partir de uma perspectiva islâmica – e ainda mais, calcada na tradição do xiismo, o que era bastante incomum no Egito.

Ela foi provavelmente a mais prolífica dessa geração de mulheres escritoras. Escreveu o romance Husn al- ‘awaqib aw Ghadat al-Zahirah (Boas consequências, ou a Donzela de al-Zahirah),  uma peça de teatro al-Hawa wa’l-wafa’ (Amor e Fidelidade) – que provavelmente nunca foi encenada. Sua grande obra foi o dicionário biográfico de mulheres do mundo, al-Durr al-manthur fi tabaqat rabbat al-khudur (Pérolas espalhadas entre as classes de senhoras enclausuradas) (1894), em que apresenta vidas de mais de quinhentas mulheres, de poetisas da Arábia pré-islâmica a renomadas mulheres da Grécia e Pérsia Clássica, da realeza na Europa Medieval, escritoras, cientistas, artistas, governantes e educadoras de seu próprio tempo.

Por volta de 1905, quando a sua coleção de ensaios jornalísticos e alguns poemas foram publicados no al-Rasa’il al-Zaynabiyyah (As epístolas de Zaynab), parece que ela já não estava mais publicando imprensa periódica, embora seu segundo romance tenha saído no mesmo ano, e é dito que ela escreveu pelo menos mais dois trabalhos que nunca foram publicados.

Em sua própria vida, Fawwaz traçou um caminho notavelmente independente: o seu casamento com o escritor sírio e funcionário público otomano Adib Nazmi al-Dimashqi (c.1840- c.1915) não durou muito devido ao fato dele ser polígamo e de tê-la  mantido em isolamento em uma propriedade rural síria sem os jornais egípcios.  Manteve correspondência com Berthe Honoré Palmer, em Chicago, e pretendeu que o seu dicionário de mulheres viesse a integrar a  Biblioteca de Mulheres na Exposição Universal de Chicago de 1893.

BIBLIOGRAFIA

BOOTH, Marilyn. Exemplary lives, feminist aspirations: Zaynab Fawwaz and arabic biographical tradition. Journal of Arabic Literature, v. 26, n. 1-2,  p. 120-146, 1995.

BOOTH, Marilyn. “Zaynab Fawwaz”. In: AKYEAMPONG, Emmanuel K.; GATES JR., Henry Louis (dir). Dictionary of African Biography. Oxford University Press, 2012, v. 2, p. 365-366.

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