O Projeto ALMA segue o modelo teórico da dialetologia pluridimensional e contatual. O princípio básico que norteia esse modelo é o princípio da pluridimensionalidade da análise da variação linguística, pelo qual se busca combinar a dimensão diatópica (horizontal), interesse primordial da dialetologia tradicional, com dimensões sociais (verticais), tradicionalmente enfocadas pela sociolinguística. O seguinte esquema de Thun (1998, p. 705) ilustra o propósito implícito nessa proposta:

dimensoes

As dimensões de análise da variação do Hunsrückisch, no Projeto ALMA, são elencadas no quadro abaixo. Na terminologia de H. Thun (2005) uma dimensão envolve mais de um parâmetro, p.ex. a dimensão diassexual (ou diagenérica) engloba, no ALMA, os parâmetros <homem> e <mulher>. Elas equivalem às mesmas dimensões de outros atlas da trilogia de H. Thun (ADDU, ALGR e, agora, ALMA), acrescidas porém da dimensão diarreligiosa. Esta dimensão é enfocada na comparação diatópica entre pontos católicos, evangélico-luteranos e mistos (católicos e evangélico-luteranos). Sobre este assunto ver estudos prévios na bibliografia.

Mantém-se, portanto, para o levantamento sistemático dos dados, o mesmo paradigma das quatro entrevistas com as mesmas dimensões (diastrática e diageracional) e sua representação em cruz no mapa. Aliás, o número de quatro entrevistas parece ter-se consolidado, no modelo pluridimensional, como o mais praticável, apesar de o MRhSA (Atlas da Renânia Central) , de G. Bellmann; Jürgen E. Schmidt & J. Herrgen, até onde se tem conhecimento o primeiro atlas pluridimensional, com cinco volumes publicados (1994-2002), limitar-se à análise de dois grupos (velhos e jovens – dimensão diageracional) e, por isso, denominar-se “bidimensional”.

Em comparação, o ALiB (Atlas Linguístico do Brasil, em andamento) estende às capitais o número de oito entrevistas, acrescentando às quatro entrevistas feitas nos demais pontos, do “interior” (dimensão diageracional e diagenérica), a variação diastrática.

O ALiB realiza, contudo, entrevistas com um único inforrmante para cada célula. No caso do ALMA, a pluralidade de informantes assume papel fundamental, visto que no nosso entender propicia, por meio da técnica de entrevista em três tempos(perguntar-insistir-sugerir) uma clareza maior sobre o conjunto de relações linguísticas e sociais em jogo para determinada variável, permitindo um aprofundamento maior das demais dimensões, como a dimensão diarreferencial. O objetivo é aumentar o poder de explanação dos dados e o controle sobre o significado social e linguístico do espectro de variantes.

A obtenção de dados para cada uma das dimensões do Projeto orienta-se, como podemos ver, por critérios distintos: Além 1) da entrevista sistemática para posterior comparação (dimensões diastrática, diageracional e diatópica) e 2) da vinculação a parâmetros de outra dimensão por afinidade de traços (como no caso da dimensão diarreligiosa, atrelada à comparação entre pontos com parâmetros distintos, e da dimensão diatópico-cinética, que contrasta a topodinâmica do comportamento linguístico nas migrações e distintas áreas de ocupação), têm-se pelo menos mais dois caminhos a considerar: 3) análise de dados não-sistematicamente levantados (para o caso p.ex. da dimensão diassexual, em que define a posteriori, a partir das entrevistas realizadas,os dados de ambos os parâmetros) e 4) o contraste por meio de instrumentos de coleta de dados distintos. Para a dimensão diafásica, consideram-se p.ex. entrevistas de conversa livre (etnotextos), resposta a questionário e leituras em português e alemão; do mesmo modo, há perguntas específicas para a dimensão diarreferencial.

Por fim, cabe mencionar a dificuldade, nos levantamenttos de dados do contexto em estudo, em encontrar informantes CbGI com escolaridade inferior a 2º Grau incompleto, quanto menos de informantes jovens com escolaridade até 8ª série. Isso obrigou à redefinição deste parâmetro, aceitando de um lado a condição de 2º Grau completo, porém com a condição adicional de que o informante tenha ocupação profissional agricultor ou empregado que não exija o uso da escrita.

Dimensão Parâmetro Critério
Diatópica Topostático (informantes com domicílio fixo) 38 pontos de inquérito
Diatópico-cinética Topodinâmico (domicílio fixo e mudança de domicílio – mobilidade espacial) Em grande parte, também relação entre colônias velhas e novas (colônia-mãe e colônia-filha)
Diastrática Ca = ,,classe (socioculturalmente) alta”Cb = ,,classe (socioculturalmente) baixa” Ca (com formação universitária parcial ou completa)Cb (até ensino médio + profissão que não exija o uso da escrita)
Diageracional GII (geração mais velha)
GI (geração mais jovem)
= acima de 55 anos
= 18 a 36 anos
Diassexual Homens vs. Mulheres
Dialingual Hunsrückisch vs. Português vs. Alemão-Padrão Esta dimensão é complementada com dados dos atlas lingüísticos do Português (ALERS e ALiB)
Diafásica Respostas ao questionário vs. leitura vs. conversa livre Três estilos de uso da língua
Diarreferencial Língua-objeto vs. metalíngua incluindo língua apresentada “técnica de entrevista em três tempos” (Thun, ADDU): perguntar (resposta espontânea) – insistir – sugerir
Diarreligioso Católico vs. Evangélico-Luterano